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Quando Adnani antecipou que Estado Islâmico voltaria, e quando Baghdadi, no seu primeiro discurso público, subiu ao púlpito da Grande Mesquita de Mossul e proclamou que traria de volta o Califado, nenhum dos dois fez apenas uma apresentação de factos. A narrativa, ideologicamente inspirada pelo Salafismo-Jihadismo, gerou um mundo próprio304, um lugar utópico onde tudo era perfeito e ao qual milhares de pessoas acabaram por jurar lealdade. Esta é uma narrativa que se distingue de outras por ser fundacional e se dedicar a explicar a origem, o sentido e a natureza de uma determinada ordem que não deixa, até certo ponto, de ser imaginada. Receberá, por isso, o nome de mito.

O mito sempre teve, mesmo quando ainda separado da política, um encanto extremo. Quando os poetas e filósofos do Romantismo o descobriram no século XIX, disse Ernst Cassirer, passaram a ver o mundo de uma forma completamente distinta, por eles fabricada, e por isso debatiam-se com a dificuldade, ou quase impossibilidade, de

301 Idem: 26 302 Apud. Idem: 29 303 Idem: 31

304 DITRYCH, Ondrej – Tracing the Discourses of Terrorism: Identity, Genealogy and State. Basingstoke:

voltar ao mundo dito real, um mundo vulgar e profano. Na verdade, acrescentou, tal devia-se à complexidade de diferir mito de realidade; para aquele que romanceava o que via e criava uma nova versão, ambos os mundos acabavam por convergir num só.305 Ainda que as gerações seguintes tenham olhado para o mito com desconfiança, encarando-o como irracional e absurdo, o seu poder não desapareceu. O mito é frequentemente descartado por emergir, não de processos completamente intelectuais, mas sim de emoções profundas; no entanto, é preciso salientar, o mito não é simplesmente uma emoção, mas a expressão desta; nas palavras de Cassirer, “it is emotion turned into an image.”306 Esta emoção pode ser o medo, a apatia ou a alienação; o mito é precisamente

o culminar do processo de metamorfose dessa mesma emoção. E é por isso que surge, não apenas como sendo distante da realidade factual, como uma contradição direta dessa, ao construir uma imagem alternativa do mundo.307 Considerando que a principal emoção

a instigar o mito é o medo, Cassirer afirma que os mitos modernos surgem como respostas desesperadas a tempos de crise, quando a razão se mostra insuficiente – “in these moments, the time for myth has come again.”308 Os mitos podem, no entanto, ser

perigosos: aqueles que lhe dão voz conhecem os “truques de magia” necessários para dirigir a sociedade no caminho que pretendem e por isso podem facilmente tornar-se “the masters of everything.”309 Nesta situação, os líderes assumem a posição de salvadores e, mais do que isso, de videntes, pois sabem que a profecia ocupa um lugar central na sustentação do mito. Assim, “the most improbable or even impossible promises are made; the millennium is predicted over and over again.”310

Como outros autores viriam a defender ao longo das décadas seguintes, Cassirer apontou que o verdadeiro terror não residia unicamente na capacidade destrutiva das armas, mas sim na das ideias. Quando a Europa se preocupava, em 1933, que a Alemanha se estivesse a rearmar, o verdadeiro rearmamento e, assim, a génese da catástrofe, acontecera há anos, com o nascimento de um mito – o mito de uma raça superior. O armamento militar foi, para Cassirer, apenas um acessório, necessário à concretização das crenças levantadas pelo mito político.311 Tal como Sorel antes dele, e Svilic e Maldini depois, advogaram, o ser humano é muito mais facilmente movido a cometer uma ação –

305 CASSIRER, Ernst - The Myth of The State. New Haven: Yale University Press, 1946. p.5. 306 Idem: 43 307 Idem: 45 308 Idem: 280 309 Idem: 281 310 Idem: 289 311 Idem: 282

incluindo uma violenta – quando motivado pela aura de imaginação e transcendência dos mitos do que por argumentos racionais ou força física. E é por isso que o poder do mito não deve ser desprezado – se antes o considerámos absurdo e não sério, agora sabemos do que é capaz de inspirar. Cassirer advertiu: “We should not commit the same error a second time. We should carefully study the origin, the structure, the methods, and the technique of the political myths. We should see the adversary face to face in order to know how to combat him.”312 Estas palavras foram escritas em 1946, no rescaldo da II Guerra Mundial, alimentadas pela reflexão sobre um mito que havia favorecido atrocidades inimagináveis. Mas, na verdade, poderia muito bem ter sido escrito nos dias de hoje, em forma de alerta sobre um mito no nome do qual se têm cometido atos de terrorismo cada vez mais brutais.

O mito é, como já mencionado, parte de uma ideologia e constituinte de uma narrativa do passado, presente e futuro. Charteris-Black considera que, mais do que um constituinte da ideologia, o mito é uma forma de a comunicar, providenciando uma narrativa explicativa de tudo aquilo que é inatingível e que desperta duas das emoções mais fortes do ser humano: o amor pela vida e o medo da morte.313 Decorrente, em última análise, do descontentamento com o mundo, também ele propõe uma nova realidade. Tem, por isso, e tal como refere Goetze, um caráter fundacional, ao desafiar os valores e normas da sociedade atual e propor uma nova, delineando o que é certo e bom para este mundo e, consequentemente, apontando sanções para a transgressão.314

Para Lévi-Strauss, o mito e a história não podem ser considerados como formas completamente independentes, uma vez que muitas narrativas são escritas na linha que separa um do outro, recolhendo elementos de ambos: não são totalmente históricas, no sentido em que não são completamente verídicas, e, no entanto, não são inteiramente míticas. A história é uma narrativa fechada, que não se altera, independentemente dos mitos que se formam sobre ela. Todavia, pode ser recontada de muitas formas distintas, sendo por isso incontável o número de mitos que se podem gerar a partir dela. O mito é fundador, também para Lévi-Strauss, porque oferece um entendimento total do mundo315, dos indivíduos que nele habitam e das suas relações, não deixando espaço para

312 Idem: 296

313 CHARTERIS-BLACK, Jonathan – Politicians and Rhetoric: The Persuasive Power of Metaphor.

Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011. p.23.

314 GOETZE, Catherine - Bringing Claude Lévi-Strauss and Pierre Bourdieu Together for a Post-

structuralist Methodology to Analyse Myths. Em GUEVARA, Berit Blisemann (Ed.) - Myth and Narrative

in International Politics: Interpretative Approaches to the Study of IR, 2016. p. 89.

explicações paralelas. O mito não é um relato factual da realidade; é sim uma reconstrução desta. A sua mensagem é uma história sobre a forma como o seu narrador vê o mundo, e por isso é também um conto moral, contendo indicações para uma vida pautada pela retidão. Estas indicações podem, ou não, ter origem religiosa, sendo que, quando a têm, ganham um caráter ainda mais compulsório.316 Ainda que possam parecer absurdos para o mundo exterior, os mitos não podem simplesmente ser “desmascarados”, porque são vistos pelos seus seguidores como incontestáveis, ao estarem ligados à visão geral de mundo que têm – ou seja, à sua ideologia.317 O conhecimento da ideologia e do contexto em que surge ajuda, por sua vez, a perceber a forma que um determinado mito adquire: quem são os seus heróis, os seus vilões, o que é o bem e o que é o mal.318

Como se tem vindo a demonstrar, os mitos são extremamente poderosos; para melhor perceber a sua função e importância pode recorrer-se a Bourdieu e ao seu conceito de capital, ou poder, simbólico.319 O poder simbólico não é um tipo distinto de capital,

mas sim o efeito que decorre da exposição deste – o reconhecimento ou legitimação de uma posição ou exercício de poder.320 Os mitos são, a par da religião e da arte, universos

simbólicos, que funcionam como “instrumentos de conhecimento e de construção do mundo.”321 Tendem, para Bourdieu, a estabelecer uma ordem gnosiológica322,

desmascarando o sentido do mundo e elaborando uma “conceção homogénea do tempo, do espaço, do número e da causa (…).”323

316 GOETZE, 2016: 92 317 Idem: 93

318 Idem: 102

319 Para Bourdieu, “capital” refere-se ao espólio de caraterísticas e “bens”, não necessariamente materiais,

que conferem estatuto social e poder, definindo a posição de um indivíduo ou entidade na sociedade. Considera existirem três tipos de capital: económico (posse de dinheiro, bens e propriedades), social (posse de uma rede mais ou menos institucionalizada de relações que envolvem mútuo reconhecimento, traduzível, por exemplo, na participação em grupos) e cultural (posse de competências culturais e intelectuais, que vai desde os conhecimentos adquiridos através da socialização até às qualificações profissionais e académicas). BOURDIEU, Pierre – The Forms of Capital. Em RICHARDSON, John (Ed.) - Handbook of Theory of

Research for the Sociology of Education. Westport: Greenwood, 1986.

320 NOYA, Javier – The Symbolic Power of Nations. Working Paper. Real Instituto Elcano: Estudios

Internacionales y Estratégicos, 2005. p.6. Disponível em:

http://www.realinstitutoelcano.org/wps/wcm/connect/589286804f018367b397f73170baead1/035-2005- WP.pdf?MOD=AJPERES&CACHEID=589286804f018367b397f73170baead1. Consultado a 4 de agosto de 2018.

321 BOURDIEU, Pierre – O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989. p.8.

322 Teoria ou doutrina do conhecimento, das suas condições e do seu valor. Dicionário da Língua Portuguesa

– Gnosiologia. Porto: Porto Editora, 2017.

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