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Dans le document Richard Wagner (Page 67-73)

Os meios de comunicação social anunciam, regularmente, novas descobertas arqueológicas relacionadas com o antigo Egipto, algumas delas, por vezes, exage- rada e até deficientemente empoladas. A espectacularidade mediática nem sem- pre corresponde, porém, ao rigor científico necessário à condução dos trabalhos e das descobertas (recorde-se o caso paradigmático do «Farol de Alexandria»).

O sucesso das grandes exposições museológicas um pouco por todo o mun- do e o enorme poder de atracção exercido pelos romances históricos inspirados nos ambientes do Egipto dos faraós sobre um público cada vez mais vasto em numerosos países (alguns são best-sellers em vários países, nalguns casos ao mesmo tempo) são testemunhos indesmentíveis do interesse que o Egipto e a sua cultura multimilenar, desaparecidos há mais de dois mil anos, continuam a exercer. Neste sentido, o Egipto é moda há quase 200 anos, pelo menos na Euro- pa. No entanto, o sucesso editorial-comercial, que se tornou um critério de va- lor, esconde, por vezes, fragilidades estruturantes e, mais grave, promove o «mistério», o «enigmático» e o «fabuloso» a primeiras figuras em detrimento da investigação e do trabalho meticuloso e cientificamente conduzido.

Tomando, como é habitual, que os estudos científicos se iniciam com a deci- fração da escrita hieroglífica por Jean-François Champollion, em 1822, como explanámos nos capítulos anteriores – embora o termo «Egiptologia» só apareça pela primeira vez em 1827 –, a Egiptologia é uma ciência ainda relativamente jovem, embora o seu objecto primordial de estudo, a antiga civilização dos ho- mens que viveram junto do Nilo, se estenda por mais de 3500 anos de história. Geograficamente abarca todo o território que ainda hoje constitui o moderno Egipto, mas inclui também o norte da actual República do Sudão (antigas me- trópoles de Napata e Meroé, da civilização meroítica). Devido às influências e

* Este artigo, sem os pequenos ajustes de forma e conteúdo agora introduzidos, foi publicado em O Estudo

da História, n.º 4. Investigação Histórica e Educacional. Tendências, perspectivas e panorâmicas, Lisboa, Asso-

trocas recíprocas entre as culturas egípcia, africana e asiática, os trabalhos de Egiptologia recorreram tanto ao africanismo e à etnologia africana como à ar- queologia e semitística do Próximo Oriente.

A história egípcia constitui, de facto, um gigantesco assunto de investiga- ção, que se torna cada vez mais complicado de apreender à medida que se entra nos detalhes, nas subtilezas, nas nuances. Desde praticamente os seus primór- dios, a Filologia, a Arqueologia, a Etnologia, a Arte, a História e a Religião instituíram-se em áreas obrigatórias de reflexão e tratamento conduzidas de acordo com as técnicas e as tecnologias que progressivamente se foram desco- brindo, testando e aprimorando. Da colaboração com disciplinas afins como a Papirologia, os Estudos Coptas, a Hebraística, a História da Arte, etc., nasceram áreas e campos de trabalho que, com o passar dos anos, se foram, naturalmente, cada vez mais diversificando, alargando e especializando.

Uma das áreas que, desde logo, ainda em pleno século XIX, conheceu maior

desenvolvimento e investigação foi o estudo da escrita e da língua dos antigos Egípcios ou não nos tivessem eles deixado uma vastíssima quantidade de tex- tos históricos dos mais variados tipos (sacralizados-ideológicos/apologéticos, inscrições particulares, textos profanos e textos literários, no verdadeiro senti- do de «literatura», como actividade intelectual criadora).

Actualmente, as investigações filológicas evoluiram: já não se centram na prioridade da descoberta da escrita (Egipto ou Sumer), nas formas da escrita egípcia (hieroglífica, demótica, hierática, silábica, criptográfica) ou nas ori- gens da língua egípcia (camito-semítica ou afro-asiática). São agora «áreas de ponta»: a estrutura e particularidades da língua, o seu vocabulário, as vocaliza- ções e a métrica. Não há ainda ideias universais nestes domínios. A lexico- grafia, a gramática e o vocabulário estão a ser passados em revisão e novas questões ocupam os investigadores.

Não obstante a sua evolução sob a forma escrita durante mais de 4000 anos (egípcio antigo, egípcio do Império Médio, neo-egípcio, demótico e copta), a língua egípcia denota uma relativa fixação de caracteres, ortografia e regras. Daí os projectos que apontam para a criação de dicionários especializados, a exemplo do que aconteceu para os textos médicos. O afluxo constante de novos materiais e o progresso contínuo dos métodos de investigação na definição dos termos e das suas famílias fazem destes instrumentos de trabalho uma necessi- dade essencial para a prossecução do trabalho cada vez mais especializado dos estudiosos.

Sendo o egípcio antigo, como os idiomas europeus, uma língua que se con- juga (sem declinação de casos), mas que difere quanto ao verbo (emprega frases sem verbo: nominais e adverbiais), há ainda muita flutuação entre as cha- madas «frases verbais» e as «não-verbais». Quanto ao estudo da vocalização dos nomes e dos títulos egípcios há que referir que a nossa pronúncia é mera- mente convencional, operatória, e, por isso, artificial. É, aliás, legítimo, como fazem muitos filólogos, questionar se é sensato misturar a pronúncia correcta e a convencional, face ao número reduzido de vocalizações seguras.

O estudo da acentuação das palavras e das frases permitiram estabelecer as principais regras de métrica que se constatam um pouco por todo o lado nos textos egípcios. Mas a análise profunda da construção métrica é uma vertente do trabalho filológico ainda em decurso. Da mesma forma, a comparação dos modos de expressão grego e egípcio, conforme patentes nos decretos multilin- gues (por exemplo, da Época Greco-romana) são modernos territórios de inves- tigação. Sendo historicamente uma das primeiras áreas de estudo da Egiptologia, os estudos filológicos continuarão indiscutivelmente como uma das principais actividades nas primeiras décadas do século XXI.

Ademais, é preciso relembrar que em relação às fontes escritas, não obstante a sua quantidade e diversidade, estamos perante um paradoxo histórico incon- tornável: os textos mais numerosos que chegaram até aos nossos dias (gravados sobre suportes duráveis: pedra, madeira, metal) não eram os mais numerosos no momento da sua elaboração. Desses, feitos sobre materiais mais perecíveis (papiro, óstracas, pergaminho), chegaram-nos muito menos. O critério da quan- tidade deve ser sempre, por isso, cruzado com os da diversidade e da qualidade. Os «estudos literários» propriamente ditos limitaram-se a reunir as obras produzidas pela civilização egípcia em antologias (e algumas delas fazem parte do ranking das obras-primas da literatura de todos os tempos, como é, por exem- plo, o caso de O Romance de Sinuhé, ele próprio já um autêntico clássico nas escolas do Império Novo). Os caminhos relativos à definição, à análise e à his- tória dessa literatura estão ainda por percorrer ou neles estão a ser dados os primeiros passos consistentes.

Há inclusive novos aspectos relativos ao cultivo do estilo literário. As obras elaboradas pelos antigos Egípcios raramente usam a rima, preferindo claramen- te as aliterações. Há todo um jogo de ligação entre a ressonância externa e a significação interna das palavras que formam um aspecto particular do estilo, um componente extremamente interessante da relação entre a coisa e o pensa- mento. Em consequência destas pesquisas deverão surgir modernas traduções e antologias dando conta do mais recente trabalho heurístico e exegético.

Os textos funerários, os chamados «guias do Além», são também alvo de uma redobrada consideração. Embora se trate de um género limitado ao Impé- rio Novo, ligados, é certo, aos Textos dos Sarcófagos do Império Médio, foram transmitidos até ao início do período ptolomaico. Projectos em curso tentam determinar a sua influência sobre a literatura cristã apocalíptica.

Seja qual for o domínio da Egiptologia – economia, direito, ciência, arte, relações de poder, arqueologia, etc. –, nenhum deles pode prescindir da com- preensão da religião egípcia, no fundo tão essencial como o conhecimento da língua. A apreensão dos fenómenos em estudo nesses campos necessita sempre de um entendimento do real cuja interpenetração com o mundo do pensamento religioso é muito profunda e, por vezes, bem distinta daquela que os nossos quadros mentais e interpretativos tendem a transportar.

Há evidentemente uma representação global da religião egípcia que está feita, com o apreço desta ou daquela particularidade do pensamento e dos fenómenos

religiosos. Mas está-se ainda longe daquilo que se poderá chamar uma «teoria sólida», face ao reconhecido carácter complexo da religião egípcia. Há autores que não hesitam em apontar como uma das lacunas mais importantes da Egipto- logia a inexistência de uma história fiável da religião egípcia.

Subsistem aspectos da religiosidade e da mitologia dos antigos Egípcios cuja cabal compreensão acabará por afectar o próprio quadro geral em que a Egipto- logia se tem movimentado, designadamente depois da II Guerra Mundial. A exploração exaustiva de domínios como o da magia e das crenças populares, da concepção de «ser humano», da clarificação definitiva dos elementos me- tafísicos da personalidade humana e da sua inter-relação na vida terrestre e na vida do Além (ka, ba, akh, chut, ren), da existência do Ser no Além são verten- tes de trabalho de e para o futuro. Além da antropologia religiosa, a própria investigação sobre a iconografia religiosa egípcia e a sua transmissão a ideários de outras épocas e de outras regiões podem fornecer preciosas indicações, com- plementares dos textos escritos, para o actualizar das concepções sobre a reli- gião egípcia.

O estudo das manifestações espontâneas da piedade pessoal e popular, so- bretudo na segunda metade da XVIII dinastia, Império Novo, que ultrapassam em muito o encontro rígido e oficial dos Egípcios com o mundo dos deuses que se efectuava durante os cultos oficiais ou nas grandes festividades, começa a mostrar e a demonstrar como «seres intermédios» (animais sagrados ou sacrali- zados, defuntos e antepassados divinizados) rivalizavam com as grandes divin- dades nas decisões e nas graças aos crentes. Todo este trabalho sobre a devoção pessoal, com as suas preces como elemento integrante do culto, pode resultar em obras de síntese que esclareçam ainda mais este fascinante território da religiosidade dos antigos Egípcios e que permitam esboçar os esquemas ontoló- gicos, lógicos, causais e éticos adjacentes ao pensamento egípcio.

Como dimensões fundamentais da integração e vivência dos homens, de hoje como de ontem, os conceitos de espaço e de tempo e a sua apreensão são vectores determinantes para uma correcta compreensão dos seus quadros men- tais e organizacionais. No caso do cosmos egípcio, claramente dividido em três níveis, o céu, a terra e o Além, a determinação da influência destas noções no comportamento quotidiano dos indivíduos, no plano concreto das suas activi- dades e no das suas crenças (representações escatológicas, por exemplo), é de- cisivo para se compreender o «homem egípcio» no seu agir e no seu ser.

Tais démarches permitiram já perceber a concepção particular de História que os antigos Egípcios tinham. Para eles, tratava-se da renovação solene, não obrigatoriamente periódica, de um acontecimento primitivo que se celebrava, como qualquer acto cultual, através de um ritual. A consciência histórica dos antigos Egípcios considerava os acontecimentos e os factos fundamentais da história como uma «renovação» permanente da «Primeira Vez», supostamente, em muitos casos, ocorrida no início dos tempos, e só excepcionalmente (Impé- rio Novo: época de abertura do Egipto ao mundo exterior e sobretudo às cultu- ras asiáticas, com as correspondentes alterações na tecnologia, nas instituições

e nas representações colectivas), rompendo o esquema habitual, conferiu aten- ção a acontecimentos únicos.

A representação do passado que os Egípcios tinham e a noção da singulari- dade do acontecimento histórico com que lidavam significam um novo olhar sobre a pertinência dos modelos arquetípicos transmitidos pela tradição e pela ideologia oficial e sobre o imperativo da intuição e a ruptura com essas crenças tradicionais. Por arrastamento, estão em causa as noções de homogeneidade temporal, de causalidade divina, de cooperação entre o divino (divindades) e o terrestre (homens) e de consciência histórica.

O desenvolvimento tecnológico e científico que marca os nossos dias não deixará também de se fazer sentir na Egiptologia do século XXI: o estudo das

múmias sofre uma alteração de sentido e as tentativas para a identificação da estrutura do ADN de determinados indivíduos poder-se-ão revelar determinan- tes para solucionar «enigmas» que, até ao momento, não se conseguiram de todo apurar. Será, eventualmente, possível identificar, por exemplo, os possí- veis elos familiares entre Tuya, a mãe de Akhenaton, e Tutankhamon, suposta- mente descendente (filho) do «faraó herético».

Mas, mesmo aqui, há ainda muito que desbravar e muito por resolver. O facto de muitas das «múmias famosas» terem sido anteriormente expostas a raios X alterou a estrutura do seu ADN, pelo que será preciso avançar com cautela e não esperar demasiado em pouco tempo. Será, no entanto, de esperar mais do estudo das necrópoles de «gente vulgar» do que do dos famosos.

A gestão da informação e a introdução dos computadores são duas vertentes dos nossos dias que também já chegaram à Egiptologia. De facto, cada ano, centenas de missões arqueológicas descobrem, estudam e preservam lugares, monumentos e documentos e produzem um afluxo contínuo e denso de infor- mação que alimenta a maior parte das publicações que, no global, oscila entre 1000 e 2000 títulos por ano. A informática tomou, assim, um lugar de relevo na investigação egiptológica. O ano de 2000 ficou marcado pela informatização das dezenas de milhar de referências da biblioteca do Instituto Francês de Ar- queologia Oriental (IFAO), o que possibilita agora a sua consulta a distância, via Internet.

Mas há ainda muito a fazer para que exista um conhecimento partilhado entre a comunidade de Egiptólogos que se espalha por todos os continentes e hemisférios. A criação de bases de dados documentais é uma solução para o problema da quantidade e da conservação da riqueza das fontes primárias. É de esperar que os próximos anos sejam marcados por um profundo impulso destas iniciativas, de forma mais ou menos coordenada, para que os fundos bibliográ- ficos e a massa textual se tornem mais «leves» e a investigação mais «barata». Museus, bibliotecas, institutos e academias têm aqui uma importante palavra a dizer.

O restauro e a conservação dos locais arqueológicos estará inevitavelmente na ordem do dia durante as próximas décadas, por vários motivos: pela efectiva degradação de pinturas, relevos e monumentos (excessivo número de visitan-

tes, degradação «natural» dos locais, efeitos da poluição) e porque da sua actu- ação dependerá a sobrevivência desses mesmos locais, sendo sabido que a ma- nutenção do triângulo conservação-turismo-investigação passa, em grande parte, por esta área.

Todas as novas técnicas de intervenção, com a natural evolução dos seus métodos e instrumentos de análise (luz rasante, infra-vermelhos, ultravioletas, radiografia, etc.) ao nível do conhecimento dos suportes e das intervenções pas- sadas nos objectos artísticos musealizados ou não, parecem pautar-se por uma máxima, visando evitar os terríveis erros do passado, por vezes bem recente: «o máximo de preservação com o mínimo de intervenção», ou seja, que aquilo que hoje se faz, com as técnicas e tecnologias disponíveis, possa no futuro, se neces- sário, ser removido, alterado ou corrigido. Ao mesmo tempo que se intervém nos locais ameaçados, a grande aposta será na «conservação preventiva»: agir noutros sítios para evitar que os erros se voltem a repetir. Trata-se, portanto, de uma área de trabalho que convocará a participação especializada de técnicos (não forçosamente especialistas em Egiptologia) e a colaboração abalizada dos egiptólogos mais voltados para as questões artísticas.

Não há dúvida que, arqueologicamente, o solo egípcio é o mais fértil de todo o mundo e sabe-se lá exactamente que surpresas mais ainda encerrará e des- vendará. A Arqueologia deverá continuar a ser a «rainha» das actividades de exploração e investigação, não só a chamada «Arqueologia Clássica», com os novos métodos e metodologias ao seu dispor (longe vão os tempos das técnicas de escavação de F. Petrie), mas também áreas «novas» como a Arqueologia Sub- marina. No caso desta última, não está tanto em causa encontrar «cidades per- didas» e tesouros maravilhosos (embora isso tenha já, de facto, ocorrido), mas mais verificar e estudar pelos artefactos, despojos e restos, os produtos e os objectos trocados, as rotas, as vias e os meios de comunicação usados, o tipo de comércio praticado.

Cada escavação requer os seus próprios métodos específicos e já não se con- forma, por exemplo, aos tradicionais métodos «normais» estratigráficos. Os pro- blemas em muitas regiões (por exemplo, no Delta) são também outros: a subida dos lençóis freáticos obriga a processos diferentes de trabalho, muitas vezes verdadeiras tarefas de salvaguarda, realizadas em curtos períodos de tempo, mais do que um trabalho sistemático e contínuo de exploração arqueológica.

Será de esperar que nos meios académicos se sucedam os trabalhos e se assista à continuação de uma renovação-evolução das perspectivas de estudo, em variadíssimos campos. O desenvolvimento do estudo dos objectos artísticos ou de papiros isolados têm alargado as fronteiras geográficas, cronológicas e temáticas da Egiptologia nos últimos anos e é credível que assim será pelo me- nos nas primeiras décadas do século XXI. As origens do estado faraónico na proto-história, a vida nos desertos e oásis limítrofes do Nilo, o urbanismo, os contactos com as regiões do Próximo Oriente (Mesopotâmia, Síria, Palestina) ou das regiões próximas da África (Líbia, Núbia) na Antiguidade estão nesse leque.

Igualmente de considerar são os trabalhos sobre os fundamentos económi- cos e sociais da organização de vida dos antigos Egípcios. A grande tecnologia do Egipto não foi a pedra, o cobre, nem o bronze, muito menos o ferro: foi o controlo das massas populacionais. Já não serão as construções, como as pirâ- mides, os templos ou os túmulos decorados, que reterão a atenção dos investi- gadores, mas os processos de gestão, organização e manutenção dos contingentes humanos. O que interessa é averiguar a estrutura e a capacidade de organização do estado faraónico, praticamente desde a entrada no período histórico, e per- ceber como problemas, transformações e opções da Administração e da orgâni- ca palacial interferiram no modus vivendi das populações.

Concomitantemente com os estudos sobre a estrutura política, continua a existir uma margem de manobra muito significativa para as investigações sobre o papel da «família real» (rainha, esposas divinas, príncipes e princesas, irmãos e irmãs do faraó, etc.) na administração e no culto, sobre a estrutura dos laços de paren- tesco dos membros da administração central e local, sobre a realização prática da ideologia real na história e nas instituições egípcias. Continuam a faltar mono- grafias sobre importantes funcionários egípcios em determinados períodos e isto num país que é, por excelência, «o país dos funcionários». A elite e a sub-elite devem constituir importantes temas de estudo e reflexão.

Embora exista uma Prosopographia Ptolemaica (W. Peremans e E. Van’t Dack, 1950 e ss.), reunindo todas as pessoas conhecidas do período ptolomaico no Egipto e classificando-as por profissões e sectores administrativos, ainda não há o seu equivalente para o Egipto faraónico, não obstante as várias compila- ções e corpus de nomes, cargos e lugares geográficos existentes. Se a isto acres- centarmos o facto de ainda hoje não dispormos de dados muito precisos sobre a população do Egipto faraónico (só a partir da Época Greco-romana há algumas certezas que apontam para um total de 7 a 7,5 milhões de habitantes, excluindo a cosmopolita Alexandria), damo-nos conta do relativo atraso dos trabalhos de antropologia física (estatística, longevidade, esperança média de vida, etc.), embora a ausência de séries de dados seja um sério entrave ao seu avanço.

Partindo das chamadas «cartas de Amarna» é possível reflectir sobre a admi- nistração egípcia fora do Egipto, isto é, em áreas como as cidades da Siria e da Palestina, ou como a Núbia. Do confronto com os dados resultantes das escava- ções arqueológicas em muitas dessas zonas poderão surgir quadros mais com- pletos e seguros sobre os modos de dominação egípcia nessas paragens ao longo dos tempos.

Suplementarmente, poder-se-ão obter elementos concretos e precisos que faci- litem o trabalho de identificacão geográfica de muitos topónimos egípcios (por exem- plo no corredor siro-palestinense) e de grandes conceitos geográficos (como Keftiu ou Haunebut, por exemplo) que ainda não foi possível determinar após anos de

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