Essa Memória Histórica estudou nos dois primeiros volumes os acontecimentos que estavam relacionados a esta escola primaz da medicina brasileira, no período de agosto de 2007 a dezembro de 2008 (JACOBINA, 2012), conforme designação da Congregação da Fameb, tomando como referência uma tese de Walter Benjamin: “escrever história signi- fica dar às datas sua fisionomia” (apud BENJAMIN & OSBORNE, 1997, p. 275)
A conjuntura desta Memória abrangeu, portanto, desde o segundo semestre de 2007, de intensificação dos preparativos e início das comemorações do Bicentenário da Faculdade de Medicina da Bahia e todo o ano de 2008.
O início desse grande evento comemorativo se deu com a solenidade de formatura dos estudantes de Medicina, que escolheram como local o Anfiteatro Alfredo Brito, na sede histórica da Faculdade no Terreiro de Jesus, em 15 de dezembro de 2007. O ápice das comemorações foi no dia 18 de fevereiro de 2008, data do bicentenário da primeira escola médica brasileira, criada em 18 de fevereiro de 1808. Na solenidade, entre outras presen- ças ilustres, estavam o Prof. Fernando Jorge Rama Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, e Francisco Castro e Souza, diretor da Faculdade de Medicina da mesma universidade. Entre os professores que receberam o título de professor honorário estava o dr. Antonio Carlos Nogueira Britto, memorialista de 2009. O encerramento das come- morações do Bicentenário também foi feito com solenidade de formatura, que ocorreu no Salão Nobre da Fameb, em 15 de dezembro de 2008.
Ante a crítica pertinente do memorialista Nina Rodrigues, buscamos não só tes- temunhos voluntários, mas também involuntários. Para citar um exemplo, computamos em tabelas a presença dos membros da congregação e dos colegiados (graduação e pós- -graduação) e nas reuniões do Departamento. Com esse dado pode-se estabelecer ocom- promisso universitário dos seus membros, destacando aqueles que garantiam o quórum para o funcionamento com decisões coletivas dos órgãos universitários e aqueles que não frequentavam sem motivo de impedimento justo ou que só frequentavam as reuniões que se referiam a temas de seu próprio e específico interesse.
Outro exemplo de análise foi o boicote dos alunos de medicina ao Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2007, que resultou num desempenho negati- vo da Fameb. Com dados demonstra-se que efetivamente foi um boicote com um de 22 concluintes, mas 16 dentre os 64 iniciantes assinaram e entregaram a prova em branco, resultando numa média final dois numa escala de 0 a 5. Descreve-se a repercussão desse boicote, em especial as declarações inadequadas do coordenador do colegiado, que não reconheceu o boicote e criticou a competência dos estudantes, estendendo aos baianos em geral. É descrita a resposta da instituição a toda esta crise.
No terceiro volume desta Memória Histórica , foi apresentada “a crônica historio- gráfica dos três sujeitos que formam a comunidade da Faculdade de Medicina da Bahia” (JACOBINA, 2013), em três capítulos:
O primeiro capítulo apresenta uma galeria dos professores “encantados” de 1946 a 2011, dando continuidade ao levantamento bibliográfico feito pelo memorialista de 1942, prof. Eduardo de Sá Oliveira (Memória histórica da Fameb , concernente ao ano de 1942), que foi publicado em 1992 pelo, então, Centro Editorial e Didático da Universidade
Federal da Bahia (UFBA). Em alguns casos chegamos a retroceder no tempo já aborda- do por Oliveira (1992) para preencher lacunas, ao utilizar um critério de inclusão mais abrangente que o exclusivo dele de contemplar apenas os lentes catedráticos e os profes- sores titulares.
Esta abrangência possibilitou o registro de cinco das seis mulheres professoras de destacada atuação acadêmica presentes nesta Memória. São elas: Francisca Praguer Fróes, a primeira professora da Fameb; Maria Odília Teixeira, primeira professora afrodescen- dente da FMB; Carmen Mesquita Torres, que tinha sido a primeira aluna laureada, tendo seu retrato colocado no Pantheon da Faculdade; Ophélia dos Santos Britto; Maria José Salgado Lages; e, enfim primeira professora titular da escola, Maria Thereza de Medeiros Pacheco. Incluímos também alguns não catedráticos/titulares, como o professor substitu- to Juliano Moreira, e os professores adjuntos mais recentes, como os professores Gilberto Rebouças e Jessé Accioly, entre outros.
No segundo capítulo, destacou-se o desempenho dos servidores técnico-adminis- trativos na história da FMB/UFBA, dando visibilidade a sujeitos tão relevantes na histó- ria da instituição. Nessa história estão presentes os Secretários da Faculdade, médicos e alguns também professores; os tesoureiros, com destaque para dr. Francisco Sabino Vieira (1797-1846), que, depois de afastado da Faculdade, liderou um movimento, bati- zado com seu nome, a Sabinada, ocorrido em Salvador, em 1837, com ideário federalista e, para alguns historiadores, republicano, além de exigir a convocação da Assembleia Constituinte para rever a Constituição de 1824 e dar maior autonomia às províncias. O arquivista e amanuense Anselmo Pires de Albuquerque que escreveu, a partir de 1896, cinco volumes com os arquivos da Fameb, quatro datados de 1916 a 1919, e um sem espe- cificação, mas referente ao ano de 1920. Ele também deixou registrados dados biográficos de 32 antigos professores da Fameb. Há também o registro dos servidores de ontem e de hoje da Bibliotheca Gonçalo Moniz. Uma grande surpresa foi a descoberta de Afrânio Coutinho, renomado crítico literário e médico, egresso da Fameb e, nos anos 30 do sécu- lo XX, bibliotecário da “Gonçalo Moniz”. Nos anos 80, escreveu um artigo pedindo que “salvassem” a biblioteca Gonçalo Moniz. Outros registros são os das primeiras mulheres como funcionárias, com uma presença cada vez maior e mais destacada, como acontece atualmente. É descrito brevemente o Projeto denominado Núcleo Avançado de Ensino (NAVE) – que tinha como objetivo principal a modernização do ensino médico, por meio da utilização de recursos de informática e com o uso de tecnologia avançada. Nem os ter- ceirizados da portaria, da limpeza e da segurança foram esquecidos.
Há duas curiosas inclusões: a primeira, o servidor mais famoso da FMB, é o bedel Pedro Archanjo, personagem do romance Tenda dos Milagres de Jorge Amado. Ele serviu de pretexto para o memorialista apresentar servidores do passado e do presente com as qua- lidades do herói ressaltadas no romance, como os bedéis Evaristo Leão Veloso, reconhe- cida fonte de inspiração para Jorge Amado, e João Francisco do Sacramento, o Half-Back. A outra inclusão curiosa é o barbeiro da Fameb, Seo Bina, que, colocando sua saúde e a própria vida em risco, ajudou dirigentes estudantis a se esconder e se refugiar no velho prédio da Faculdade da força policial da Ditadura Militar (1964-1985).
O terceiro capítulo buscou recuperar a história das atividades, organizações e pre- miações dos estudantes de Medicina, ressaltando o seu protagonismo na trajetória da es- cola mater da medicina brasileira: desde a independência do Brasil e na Bahia, no combate
às epidemias do século XIX, com destaque para a de cólera morbo; o cuidado aos feridos e doentes na guerra do Paraguai; a luta dos acadêmicos pela abolição da escravatura; a par- ticipação na luta republicana; na greve de 1901 e na memorável manifestação de solidarie- dade no famoso 22 de agosto de 1932, quando os acadêmicos derrotaram o interventor e a Ditadura. Há registros de outros acontecimentos, como a pressão dos estudantes junto com outros movimentos sociais pela participação do Brasil entre as forças aliadas contra o nazismo e o fascismo na Segunda Guerra Mundial, a luta contra a Ditadura Militar (1964-1985).
A participação dos estudantes da Fameb no movimento constitucionalista da Bahia de 1932 e na luta contra a Ditadura mereceram destaque e serão apresentados neste Mendifor III. O primeiro pela importância dos registros das atas da congregação da facul- dade no Arquivo e o segundo pela importância dos testemunhos, como fonte preciosa da memória e da história.
Este capítulo, mais que os outros dois, é obra aberta, pois, com levantamentos de documentos da memória e da história, pode-se construir um estudo mais sistemático do protagonismo estudantil, em especial a partir da segunda metade do século XX até o mo- mento atual, que foi apenas esboçado.