O Primeiro Dia
Amanheceu!
Com o corpo todo doído, acordei. Dores lombares, dor na cabeça e nos ombros. Há tempos amargo um prolongado torcicolo no pescoço do lado direito. Tenho sempre muito sono, sobretudo de manhã. Durmo pouco. Corpo pesado. Cansado. Desânimo...
Além do mal-estar matutino despertei com uma sensação ruim de mal- pressentimento, sei lá! Uma sensação ruim. Uma tristeza que ia além de minha dor física. Alguma coisa que pairou sobre mim até que eu li o jornal da manhã. Na Copa das Confederações, da qual o Brasil já havia sido eliminado, num jogo decisivo entre Camarões e França, um jogador da equipe africana, chamado Fei, veterano da seleção, experiente, jogador no futebol europeu, dono de excelente condição física, sem ter contato com nenhum outro jogador adversário, desaba próximo ao círculo central do campo. De barriga pra cima, olhos esbugalhados – totalmente brancos – aquele corpanzil imóvel no chão. Quarenta minutos depois a notícia: estava morto! Mais tarde, na televisão, pude ver as cenas e fiquei (continuei) aterrorizado. Era mesmo uma sensação de terror evasivo. Vi o desespero dos jogadores chamando o atendimento médico. A família do jogador estava no campo. Seu corpo negro, inerte, sendo retirado numa maca encheu-me de melancolia. Não sei bem dizer qual o sentimento. Sei que a sensação pré-sentida de manhã, que me antecipou a melancolia, realizou-se à tarde na hora do jornal. Dias depois o laudo: parada cardíaca. Como pode? Um atleta como o Fei!? Morreu! Era dia de festa em Camarões. Fei morreu. A França ganhou o campeonato...
Todas as vezes que me sinto assim, tão fora do tempo por estar tão imerso nele, sinto tristeza misturada com melancolia, sinto uma ausência de futuro e o império do não- sentido, então, recorro (parcas vezes) a Oxalá através do banho de alecrim. Foi a primeira vez que me banhei com ervas no Ceará. Água fervente, erva derramada, vênias ao Babá,
bacia, banheiro: o banho. A sensação é que algo se levanta de mim. Fico, sei lá, suspenso. É uma leveza quase que “transcendental”. Leveza nas sensações. Leveza no olhar. Leveza na cabeça. É leveza, simplesmente!
No final da tarde fui pela primeira vez à Tempo Livre: espaço de consciência corporal, me encontrar com Norval53. O lugar é simplesmente maravilhoso. Margeia a lateral do Parque do Cocó – maior parque urbano da América Latina -, estabelecida defronte à sua robusta vegetação.
Erguem-se duas copas da “cabana” africana que ele levantou. São duas torres abauladas, totalmente arredondadas e cobertas de palmas. Tudo é pau, palha e barro. Tijolo de barro. Já à entrada a marca da casa. Criatividade! Ergue-se um portão de madeira do rés-do-chão até as palhas. Grandioso. Maciço! Na sua fachada um entalhe com a figura de Xangô. Um Xangô dançante, vigoroso, forte, mas... delicado. Um Xangô suave e viril! É o entalhe na madeira do portão de um Xangô de Caribé. Acompanhando o gigantesco portão, há paliçadas que estão dispostas horizontalmente servindo de proteção para o interior do recinto. À esquerda do portão só paliçadas. À direita, paliçadas com tocos de árvores à frente e um grande pedaço de tronco no chão, completando a paisagem da calçada. À frente do portão, formando com ele um elo indisfarçável, um pedaço de corda amarrada de uma extremidade a outra do portão. Quando abre-se o portão fica a corda. Ela faz uma curva, pois não é uma corda completamente estirada. Ela está em repouso, mais ou menos à altura da cintura dos visitantes. Para passar por ela não há que suspendê-la. Tão pouco pulá-la. Muito menos arrastar-se pelo chão. Para ultrapassá- la basta quebrar a postura vertical que nos acostumamos a estar (talvez pela nossa qualidade de homo herectus), “dobrar” a espinha, curvar-se e, num golpe de flexibilidade, quebrar ao mesmo tempo o limite de nossa rigidez corporal e adentrar para o interior da Tempo Livre. A casa tem um nome: “TEMPO LIVRE”. Há sempre atividades na “Casa”. Atendimentos individuais de massagem, avaliação física, atividades coletivas de dança afro, culinária, aulas de percussão, encontros de estudo, vivências e uma infinidade de pequenos eventos. Talvez seja o tempo livre dos clientes que o utiliza para bem aproveitá- lo na Tempo Livre. Ou, quem sabe, chama-se TEMPO LIVRE não por se tratar de uma quantificação do tempo (livre), mas de uma qualidade do espaço (lá é tempo de um tempo livre, liberto). Talvez a “casa”, como é chamada pelos clientes mais próximos e até mesmo pelo Norval, seja exatamente isto: um lugar onde o tempo não é predefinido pelo
53 Vide as fotos 1, 2, 3, 4, 5, 6,7,8,9,10 e 11. As fotografias estão dispostas de acordo com a descrição do espaço.
relógio capitalista da produção mas pela liberdade e pelo prazer de se experimentar o corpo.
Ultrapassando a corda está-se com o corpo todo no recinto. Para entrar foi necessário quebrar o movimento que trazemos da rua. À esquerda tem uma fonte, frequentemente seca, com uma enorme pedra inteiriça no canto esquerdo, rodeada de grama e, no outro extremo, pequenas árvores e plantas. É uma pequena fonte, acimentada, acinzentada, onde vejo descansarem os gatos. Eles preferem o cimo da pedra e ali, espreguiçados, parecem querer nos ensinar a técnica do relaxamento. Ao lado da pedra há um caminho de pedras que estão cravadas num tapete verde de grama. Logo à direita, uma “ante-sala” onde repousa uma mesa de vidro, triangular, cujo acabamento parece ser de palhas e três cadeiras estreitas e agudas, terminando também em triângulo, lembrando muito as torres reais africanas. Se não me engano há cabaças de barro ao redor, um ou outro objeto de ferro, objetos de madeira. É aberto, dando para as pequenas árvores da fonte.
Ainda à direita, após a “ante-sala” uma porta. Frequentemente fechada. Adivinha-se ser um lugar importante. Ao erguer os olhos descobre-se imediatamente uma grande copa arredondada. Ali é uma das salas onde se ergue as maravilhosas copas de palha que se vê ao longe. Ao abrir-se a porta a visão é magnífica, ainda que simples. No chão de cimento bruto, cinza, pontilham e desenham-se figuras geométricas e caminhos (enigmáticos) com pedras vulcânicas trazidas da África (São Tomé e Príncipe) e de Fernando de Noronha. Ao lado de cada pedra há uma concha. As pedras são pretas. As conchas, brancas. São pedras de Xangô. Várias delas. Há um círculo de conchas e pedras no centro da sala. Ao lado da porta, à esquerda, uma estante de parede a parede com troféus, a maioria resultando das competições de atletismo. É uma epifania de troféus e medalhas. À frente da estante, na outra parede, existe outra estante. Ali tem instrumentos para mensuração da força e da flexibilidade dos clientes. Há uma prancheta onde Norval repousa as fichas de seus clientes e onde inicia o trabalho de avaliação física. Este espaço é circular e termina numa estreita escada que sobe, anunciando misteriosamente, uma outra sala redonda. A escada é um espiral e alcança outra porta de madeira, desta feita aberta, mas que se encontra fechada no mais das vezes. No chão de madeira há simplesmente uma esteira. Acima da esteira esculturas de Xangô com seu machado de dupla face (ochê). Às vezes é só o machado a escultura. Ao lado uma espécie de caldeirinha que é como um fogão de boca única, de ferro pesado e rugoso. Ao lado da porta, logo na entrada, um biombo de madeira. Ali, vejo panos. Creio ter visto também
um quadro e com certeza há vários instrumentos de percussão pelo chão, no canto à esquerda da esteira. Depois pude saber qual a finalidade e a função daquela sala.
Ao me receber com sorriso largo e abraço fraterno, Norval mostrou-me o espaço da “casa”. Fui até lá por ter ganho um presente de suas mãos. Uma massagem. Na verdade cheguei lá cheio de dores. Além da sensação eterna de gripe, há também as dores do meu lado esquerdo, sobretudo nos testículos e rins. Havia também as dores nos ombros e costas. A sala de massagens é exatamente na sala de cima da sala do chão de pedras vulcânicas ponteadas de conchas.
Tira-se a roupa, permanecendo apenas a roupa íntima do corpo. O biombo acomoda a vestimenta. De bruço, deita-me na esteira. Norval fala baixo, um tom misto entre o cavernoso e o tenro toma conta de sua voz. Fecho os olhos. Não vejo mais nada. Cerrado os olhos, os ouvidos e o olfato despertam-se simultaneamente; depois vem a consciência do tato. Um ruído de chamas é perceptível. Com pouco tempo exala-se uma fragrância de ervas no ar. Não sei dizê-las. Sei que tinha erva-doce. Aquela vasilha de ferro pesado e rugoso abriga a leveza das ervas que exalam esta fragrância. O ruído me chega como um chio de fogo que aquece a água da vasilha. Ele mergulha uma toalha de rosto na água quente e deposita-a nas minhas costas. A sensação é aconchegante. Dou- me muito bem com o calor. Então ele me cobre com o lençol. A toalha vai e volta várias vezes à água aromatizada e percorre todo o corpo. Os odores são vários. Vária também é a emoção que se tem. Multiplicam-se as sensações. Olhos cerrados, mas a pele percebe as mãos do agora massoterapeuta Norval. Faz massagens através de movimentos coordenados, muito embora não polarizados, afetando toda a estrutura corpórea: cabeça, pescoço, tronco, braços, pernas, pés. Algumas posições são doloridas. Ele vai ao limite. Apesar do relaxamento, existe também a dor. Ele fala também. Não me recordo de tudo. Na verdade, lembro-me apenas de uma frase: “Guerreiro é aquele que busca”.
Ele toca tambores. Suave e timidamente. É apenas uma marcação. Transcendo. Cabe em mim todas as sensações. Sinto que meu corpo é espírito. A sensação é de integração. É também de experimentar a diversidade: sons, sensações, odores, emoções. Há alguma tensão nessa novidade. Norval parece adivinhar. Retira o lençol depois de massagear meu corpo com as mãos e com os pés, deixando-me estanque no chão. Um friozinho me percorre. Depois, imediatamente depois, algo leve, muito leve, acarinha meu corpo. É um tecido que depois soube ser seda que é deslizado da cabeça aos pés, tão suavemente como um sonho infantil, tão esplêndido como um poema parnasiano. Foi a melhor sensação que experimentei nos últimos tempos. Foi a mais leve e agradável. Uma
espécie de gozo tântrico. Um gozo sem ejaculação. Só a sensação. É a beleza da beleza. O gosto do amor depois do amor. “A festa vir depois da festa” como canta Osvaldo Montenegro54. É também o prenúncio do fim. O fim da massagem.
Saio agradecido. Abraço Norval mui ternamente. Lá fora, pensando na tal filosofia, concluo: assim se faz filosofia nos trópicos. Filosofia com sabores, odores, tato, percepção, emoção, afetividade, carne, sabor. Não é uma forma da filosofia. São conteúdos da filosofia.
A sensação é de leveza e purificação. Meu corpo exala o perfume das ervas. Sinto- me afável. Relaxado. Ainda tenho dores, mas já não me lembro delas.
Começam a chegar as pessoas que fazem dança-afro nas sextas-feiras. Na última sexta-feira de cada mês o grupo de dança-afro recebe a visita do grupo de percussão. Então a aula acontece com o som dos atabaques.
Norval Cruz é o professor. Sua habilidade na dança é peculiar. Sabe falar com o corpo de modo fluente e agradável. Nos ensina. Deixa-nos livres para realizar movimentos soltos. Oferece-nos coreografias. Elas – na sua totalidade – nos apresentam movimentos do corpo ancestral. Seja mexendo o tacho, seja lavando a roupa, amassando o pão, pilando, pegando água na fonte, cortando cana, reverenciando aos deuses. Há dinâmicas a dois, em grupos maiores, individuais. A riqueza se dá, também, nos ritmos tocados. Há blues, samba, afoxé, reggae, toques tradicionais da música africana, rumba, salsa, merengue, côco, tambor de crioula...
Ao final de toda vivência o grupo, relaxado, normalmente sentado no chão, fala sobre suas sensações, sentimentos, reflexões, observações múltiplas. É sempre muito rico esses momentos. Não me lembro completamente da fala dos participantes. Em geral falam do prazer de dançarem, que sentem-se relaxados, que transcendem o momento. Certa feita, uma senhora, ao dançar sob um ritmo bem marcado por tambores, disse que se sentiu outra. Viu-se vestida em trajes de africanos, dançando entre eles, como um deles. Dizia estar leve e fulgurante. Seu rosto brilhava à hora da dança e ao reviver a emoção no momento da partilha, brilharam de novo. Há quem fale “tecnicamente” da dança: tal movimento é exigente, outro é de fácil execução, um outro desafia, outro ainda enternece. Há quem rememore rapidamente seu dia, sua semana. Em todos os casos falam do prazer de estarem na TEMPO LIVRE às sextas-feiras. Os testemunhos da importância desses momentos são constantes. A admiração pelo trabalho do Norval é uma unanimidade.
Ainda me lembro, neste primeiro dia (27.06.03) que um senhor, branco, divertidíssimo, que era jocosamente chamado por “Lacraia” pelo grupo, que pelo jeito faz parte das aulas de percussão, falou uma frase lapidar: “Depois que toca o atabaque acaba a história. É só a unidade; é o vazio”. Soube, através dele mesmo, de seu interesse pelo hinduísmo. Ele usava um vocabulário indiano como o vazio e o absoluto. Gravou-se na minha alma a sua frase.
Neste primeiro dia de pesquisa pude ver ou saber das atividades praticadas na “casa”. Seguirei na descrição física do lugar e pontuarei as atividades nela impetradas.
Como dizia, assim que se ultrapassa a fronteira do portão de entrada há uma “ante- sala” com uma mesa triangular de vidro ladeada por três cadeiras de cipó de cajueiro entrelaçado, estreitas, e que terminam com o formato de triângulos em suas extremidades. Ali ainda tem um banquinho de madeira e cipó trançado e um grande banco feito de cipó trançado, que em suas extremidades também terminam pontiagudando em triângulo. Esse banco lembra uma canoa indígena e/ou africana. O espaço da “ante-sala” é semi-circular. Há um pequeno murinho de 5 tijolos definindo suas fronteiras. Embaixo da mesa que se posiciona ao fundo da sala há uma panela de barro cozido, um vasilhame do mesmo barro cheio de carcaças de côco. Eles ficam dentro e fora do vasilhame. São vários. Há um cesto de palha com sementes de uma árvore (que eu não conheço). Há ainda um suporte para revistas que abriga, no entanto, os galhos secos de uma pequena árvore frutífera com o coquinho. O teto deste espaço – como dos outros – é de folhas secas de palmeira e os suportes que estruturam o espaço é de troncos da mesma palmeira de carnaúba. Há uma luminária confeccionada de varetas de bambu e dois artefatos nas paredes. O primeiro é uma mandala de palha, que tem escrito com artefatos rosa e azul em forma de corações, o nome “NOR”, seguido de um sol alaranjado e de uma lua crescente. Fica assim: “NORsol” e “NORlua”. O outro artefato que decora a parede, desta vez dos fundos, é um quadro com moldura de vidro, mais ou menos 2x1mt. com a assinatura de João Teixeira de fevereiro de 1993. Trata-se da representação de uma mulher africana de brinco, colar, pulseiras e tornozeleiras, completamente nua, seios fartos, barriga redonda, grávida, apoiada nos joelhos e sentada sobre os calcanhares. Tudo nela indica movimento. Os movimentos do de dentro da gente. É um quadro belo e assustador. Não defino nele onde acaba a dor para começar o prazer. É de uma força e de uma sensibilidade discrepantes, mas harmônicas. Seu fundo é preto e a moldura de madeira é verde-preto. Nesta sala não vi nenhuma atividade específica. Ela parece ser mesmo uma ante-sala onde se recebe as visitas, clientes e amigos. Lugar arejado, de fronte pra fonte torna-se o espaço ideal pra
esperar o atendimento, pra conversar informalmente sobre qualquer assunto, ou mesmo para conversas de consulta dos clientes. Ele serve até mesmo para que eu possa, neste momento, registrar essas memórias.
Logo na sequência está a sala de massagem. Ela serve para a avaliação física e para as massagens. É circular. A porta é de madeira, possui dois flancos e uma abertura encima. Ela é construída com tijolinhos-à-vista brancos. Possui duas janelas de madeira e duas estantes. Numa os troféus, já referidos, na outra estatuetas de nativos africanos. Retratos do Norval nas paredes. Um deles comendo fruta, no outro correndo nas dunas. Ao lado dos aparelhos de medição de força, flexibilidade, peso e tamanho um grande quadro do corpo humano destacando os músculos e os tecidos. A escadinha que leva à sala de massagem é verde e sobe em espiral.
Grudada à parede externa desta sala há um tronco de árvore deixada ali propositalmente. É uma mímese de um corpo de mulher deitada de bruços – e nua – como se estivesse pegando sol na praia. Destaque para o que seriam as nádegas e a cintura. Na outra extremidade, à esquerda, uma pequena varanda sem cor onde está posta uns cactos num grande vaso, um vaso de barro com galhos secos por dentro, uma graciosa peça de cipó no desenho de uma bicicleta triciclo, uma mesinha de ferro com dois vasinhos de palha com sementes encima, um lindo tronco talhado em forma de vaso com uma raiz de árvore depositada sobre ele, como se fossem flores num jarro. O tronco com a raiz forma como que uma escultura. A inversão das posições entre tronco e raiz, já que a primeira está embaixo – na posição de quem sustenta, e a raiz encima – na posição de quem decora, é um ritual de inversão da própria casa, pois o corpo, aqui, não é um mero instrumento, mas um sujeito; onde a cabeça não é privilegiada, mas o todo, o conjunto orgânico. Há ainda um quadro com o mapa de Fernando de Noronha e duas chapas de compensado encostadas na parede do fundo. Até aqui vemos que na Tempo Livre integram-se aspectos étnicos, lúdicos, artísticos, naturais, técnicos, artificiais, dentre outros. Sentado aqui nesta varanda observo também, ao lado do portão de entrada, na face de dentro do muro, uma plaqueta que diz: “Banco do Nordeste apoia este empreendimento”. Do portão até a sala de massagens, até a varandinha em que estou, há um caminho feito de blocos de pedra. Esse caminho acaba na grande oca que ocupa a parte central da Tempo Livre. Do lado direito, externa à oca, está o banheiro. Não há latrina no banheiro. Você tem que ficar de cócoras, queira ou não queira, como naqueles modelos de mictórios de antigas rodoviárias. Finalmente chegamos à grande oca, mas antes de descrevê-la, olhando daqui (varandinha) o espaço da Tempo Livre me dou conta de que é um micro-cosmos este
lugar. Estou bem em frente ao espaço verde da casa, onde fica a fonte. Percebo que isto aqui é o mundo. Posso comer, brincar, correr, rezar, estudar, conversar, ler, interagir, jogar, rir, chorar, silenciar. Há um mundo artificialmente construído com artefatos naturais simbolizando e proporcionando o contato e a experiência com a natureza. A Tempo Livre tem também um espaço-força, fora do microcosmos há existência. Tem as árvores e as trilhas do Parque do Cocó, e dois paramentos de ferro (uma gaiola de pega- pega e uma armação pra balanço). Um, daqueles de parques infantis, o outro daqueles de exercícios lúdicos. Voltemos à Tempo Livre e sua oca central.
De tijolinho-à-vista e coberta com as folhas da Palmeira, tem três ambientes. O grande salão circular, a cozinha e um “palco”. Assim que se atravessa a entrada principal, à esquerda, temos três arupembas enfeitadas com fotos registrando atividades da casa. Uma janela sem ventanas. Nova parede e três arupembas. Na sequência um varal com uma grande colcha branca. Um cavalete de madeira (papermate), uma saída que dá para a secretaria, nova janela sem ventana, e aí os atabaques. Três atabaques: o rum, o rumpi e o lê. Há ainda uma tumbadora e uma máscara africana fixada na parede encima dos atabaques. Aí chegamos ao palco, que é uma elevação de madeira que se ergue no fundo da oca, que longe de quebrar o círculo, apenas o completa. Ali se encontra toda sorte de instrumentos de percussão. Tem pandeiros, udus - que é o meu preferido, bongô, caixa, tumbadora, djambê, maraca, chocalho, cabaça e um prato de bateria. Há também bolas de