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A. Présentation de l’épreuve de dénomination sur définition (E.D.D.) :

1. Création de l’E.D.D :

Foi possível observar uma estrutura hierárquica no recinto B3-12, onde os animais estavam submetidos a uma dieta com menor teor protéico, mas não no B2- 16, onde a dieta era mais rica. Esse resultado está de acordo com o que era esperado, segundo os dados da literatura. Quando os recursos alimentares são escassos e concentrados, ocorre um aumento do comportamento agonístico decorrente da competição entre os indivíduos por tais recursos (Cotê, 2000). Mas, como interações desse tipo são custosas, em termos energéticos e de risco de injúrias, os animais tendem a desenvolver uma hierarquia para minimizar o custo dessas interações e possibilitar maior eficiência na utilização desses recursos (Clutton-Brock et al., 1982

apud Veiberg et al., 2004; Gautheraux, 1981).

Os animais do B2-16 interagiram agonisticamente com maior freqüência do que os animais do B3-12. Isso pode ter ocorrido porque, a partir do momento em que a hierarquia é estabelecida, as interações agonísticas diminuem, já que os animais têm seus postos estabelecidos e respeitados. No B2-16, como os indivíduos estavam melhor nutridos, as interações agonísticas não eram tão custosas e por isso, não foi necessário para esses animais desenvolver uma estrutura mais organizada. Assim, a freqüência das interações agressivas continuou alta nesse grupo.

Porém, pode-se questionar o fato de que, mesmo na primeira fase, quando os indivíduos dos dois grupos começaram a ser submetidos à nova dieta, a freqüência de interações agonísticas já era menor no B3-12 do que no B2-16. Isso faz pensar em que momento essa organização mais hierárquica do B3-12 foi estabelecida. No geral, a maior taxa de interações agonísticas é observada nos contextos de alimentação. Michi (1999) refere-se aos momentos de alimentação no cocho, do grupo das capivaras que ela observou, como sendo os mais tensos. Nogueira-Filho (1997) fornecia alimentação para o grupo de catetos de seu estudo em um único cocho, a fim de aumentar as interações agonísticas. No presente trabalho, como o cocho dos animais ficava dentro de um abrigo fechado, não foi possível registrar as interações agonísticas dos animais nos momentos de alimentação no cocho, para verificar se houve um aumento inicial da freqüência das disputas entre os indivíduos do B3-12 e, depois do estabelecimento da estrutura, uma diminuição. Poder-se-ia pensar que o

estabelecimento da hierarquia teria sido feito com as interações no cocho e que, fora desses momentos, os animais se comportaram dentro dessa organização visando minimizar os custos das interações agonísticas em contextos em que os estímulos relacionados à competição não seriam tão importantes quanto o alimento.

Gallagher et al. (1984) analisando a dieta de catetos quanto aos nutrientes que eles encontrariam na alimentação geralmente consumida na natureza, nas diversas estações do ano, no sul do Texas, e comparando com a ração comercial recomendada para suínos, concluíram que os animais são seriamente afetados por diferenças sazonais na qualidade da dieta. A ração comercial era constituída de 16% de proteína bruta, enquanto que as dietas naturais eram constituídas de 3,2%, 4,5%, 10,6% e 8,8% no inverno, primavera, verão e outono respectivamente. Segundo os autores, as exigências nutricionais dos animais provavelmente não são encontradas na maioria das épocas do ano, o que comumente resulta em crescimento e performance reprodutiva reduzidos, com risco de mortalidade, principalmente de juvenis e fêmeas lactantes. Esses dados demonstram a importância da qualidade da dieta para os catetos e podem reforçar a idéia dos animais do B3-12 estabelecerem uma organização mais hierárquica, visando a diminuir os custos das interações numa situação mais adversa de qualidade nutricional.

Nogueira-Filho (1997) não encontrou uma organização hierárquica no grupo de catetos estudados por ele, embora tenha concentrado o fornecimento da ração uma única vez no dia em um único cocho visando aumentar a competição e, assim, as interações agonísticas entre os indivíduos. Usando a mesma metodologia de análise empregada no presente trabalho para os comportamentos agonísticos, ele observou um padrão parecido com o que foi encontrado para o B2-16, com cada indivíduo atingindo praticamente todos os indivíduos do grupo e com muitas relações circulares. A dieta fornecida por esse autor aos animais foi balanceada de maneira a atender às exigências nutricionais propostas por Gallagher et al. (1984), com 14% de proteína bruta (Nogueira-Filho & Lavorenti, 1995). No presente trabalho, a alimentação também foi fornecida uma vez ao dia e num único cocho nos dois grupos e nem por isso houve organização hierárquica no B2-16. Poder-se-ia pensar que a qualidade da dieta influencia mais a organização dos animais do que a concentração do alimento no tempo e espaço.

Bissonette (1976 apud Sowls, 1984) observou um grupo de animais selvagens numa área de deserto do Parque Nacional do Big Bend no Texas e encontrou uma hierarquia de dominância linear incluindo ambos os sexos e com machos em postos mais altos do que as fêmeas. O ambiente do deserto é bastante adverso, e como destacado por Gallagher et al (1984), nesses locais os animais encontram uma dieta com qualidade abaixo de sua exigência nutricional. Como o que foi observado no presente trabalho com relação a uma possível associação da restrição de proteína à organização hierárquica, pode ser que num ambiente bastante adverso como o deserto os animais se organizem ainda mais numa hierarquia linear, conforme relatado por Bissonette (1976 apud Sowls, 1984).

Os catetos ocupam uma ampla distribuição geográfica, sendo a maior das espécies de tayassuídeos, o que implica em uma grande variedade de habitas ocupados, com diferentes vegetações e variações climáticas. Para Sowls (1984), devido a esse fato, dever-se-ia esperar que a espécie tivesse uma extraordinária adaptação fisiológica para lidar com essas variações. Sowls observa que foram relatadas algumas adaptações desse tipo ao frio e calor extremos, mas nada que permita aos animais ocupar essa gama de habitats, por isso esse autor sugere adaptações comportamentais para isso. O autor descreve os estudos de períodos de atividade, que verificaram uma maior atividade diurna dos animais durante o inverno e noturna durante o verão. Além dos períodos de atividade, poder-se-ia pensar que a organização social também seria uma adaptação comportamental aos diferentes habitats ocupados. Izar (1994) sugere, por exemplo, que a variabilidade de tipos de hierarquias descritas para macacos-prego (Cebus apella) pode ser indício de que a estrutura social da espécie varia em função das condições ambientais a que os indivíduos estão submetidos e/ou composição do grupo. Para que essas idéias sejam confirmadas, novos estudos devem ser feitos, sejam experimentais ou de observação na natureza, em diferentes condições ambientais. Em termos experimentais, visando diminuir variáveis que podem acrescentar desvios, poder-se-ia manipular a dieta de um mesmo grupo em períodos diferentes e observar o modo como os animais se organizam. Na natureza, poder-se-ia observar um mesmo grupo em diferentes estações do ano e comparar a organização dos indivíduos entre elas.

Poder-se-ia esperar, também, que a maior organização do B3-12 fosse resultado da influência da composição do grupo em termos de parentesco dos

indivíduos. Pelo fato de termos, num mesmo grupo, indivíduos muito aparentados e outros com nenhuma relação de parentesco, poderia haver uma situação tensa, que forçasse os indivíduos a se organizarem-se. Porém, não se observou correlação das interações agonísticas com o parentesco, nem ficou evidenciado um padrão relacionado ao parentesco dos indivíduos na AOD, o que enfraquece um pouco essa idéia. O fato de não ter havido correlação entre as interações agonísticas e o parentesco nem no B2-16, nem no B3-12, pode dar indício de que as motivações para brigar são outras, que não as relações familiares. Além disso, Nogueira-Filho (1997) tinha em seu grupo animais de três procedências distintas e, de certo modo, com graus de parentesco diferenciados e não observou evidência de hierarquia.

Poder-se-ia esperar, também, um papel do maior número de filhotes no B2-16 na maior freqüência da taxa de interações agonísticas, porém essa taxa foi maior mesmo quando foram analisados apenas os adultos. Além disso, na análise da AOD, percebeu-se que os filhotes foram mais subordinados ou neutros, ou seja, houve pouca participação direta dos filhotes no comportamento, mesmo na segunda fase, quando já estavam mais crescidos. Mas talvez eles tenham representado uma influência indireta, ou seja, sua presença pode ter sido promotora de interações agonísticas entre os adultos. Isso teria que ser melhor investigado, analisando-se, por exemplo, os motivos das interações, se por causa do filhote ou não. Pode ser que a mãe do infante o defenda dos indivíduos que se aproximem dele.