CHAPITRE 8 Les matériaux pour les composants proches
1.1. Les couvertures tritigènes
A biopolítica designa as condições de possibilidade de uma prática de liberdade ancorada na potência da vida.
(Foucault)
Seffner e Parker (2016) afirmam que o momento atual da resposta a aids se caracteriza pela dupla tensão entre o fazer viver (representado pela ampliação da oferta de exames para conhecimento da situação sorológica e oferta universal da medicação antirretroviral) e o deixar morrer (marcado pelo reforço das situações de estigma e discriminação as populações vulneráveis).
É a partir dessa reflexão que entendemos que no enfrentamento do HIV/Aids é indispensável criar estratégias que possibilitem e fortaleçam a dimensão do fazer viver na experiência de pessoas soropositivas. Como já visto anteriormente, para enfrentarmos a epidemia em que vivemos não basta disponibilizarmos a biotecnologia mais avançada em termos de antirretrovirais, testagem ou modalidades de prevenção. É fundamental que possamos contar com respostas sociais positivas e solidárias, que acolham PVHAs e as tratem com dignidade.
Nessa direção, a psicologia emerge como um espaço potente que necessita contribuir com a promoção do cuidado, destinando-o a fazer viver essas pessoas e não permitindo que as deixemos morrer por invisibilidade ou preconceito. Não podemos
enxergá-las como vidas precárias, não viáveis e que precisam do isolamento social para se proteger.
A concepção de vidas precárias, problematizada por Judith Butler, retrata bem essa questão na medida em que percebemos que a vida dessas pessoas, muitas vezes, é tida socialmente como precária e sem valor. São vidas atravessadas por corpos adoecidos, marcados por uma doença crônica com profunda e negativa representação histórico cultural. São vidas não viáveis, para as quais não existe luto político – uma espécie de luto que nos possibilita compreender a qualidade do laço que mantemos com os demais (Butler, 2006; Seffner & Parker, 2016).
É imprescindível que tenhamos uma política de saúde mental que priorize e proporcione cuidado ao sofrimento emocional desses sujeitos. Política essa que deve estar comprometida com a luta coletiva empreendida contra o preconceito e a discriminação.
A psicologia, por ser uma ciência que trabalha com a subjetividade dos sujeitos, torna-se uma grande aliada na participação e formulação de políticas públicas favoráveis a disseminação de informações sobre as questões que circundam a problemática do HIV/Aids. As ações do psicólogo podem ser ampliadas através de intervenções que trabalhem com a promoção dos direitos humanos, a partir de princípios éticos de respeito e cidadania (Perucchi et. al., 2011).
Para que possamos proporcionar tais serviços de maneira assertiva e efetiva é essencial que estejamos pautados numa psicologia comprometida com o desenvolvimento das pessoas e da sociedade, uma psicologia engajada na luta contra o avanço da epidemia. Na busca pela compreensão dessa psicologia, trazemos um pouco da inspiração da perspectiva sartriana para pensarmos o trabalho dessa ciência e profissão no cenário do HIV/Aids, em especial, em sua chamada para o engajamento. Sabemos que também são
inúmeras as contribuições da clínica sartriana, mas no âmbito desse estudo traremos a reflexão sobre o caráter político.
Jean-Paul Sartre, filósofo francês, participou ativamente do contexto da evolução do pensamento de seu tempo, tendo sérias preocupações com o papel da filosofia e das ciências na organização da sociedade em que estava inserido. Ele acreditava que tal papel deveria ser transformador e, para isto, propusera que a filosofia, a antropologia e a psicologia fossem questionadas em seus fundamentos, uma vez que forneciam o horizonte de inteligibilidade humana do sistema social vigente naquela época. Seu maior projeto técnico consistiu em elaborar uma nova psicologia. Para isso, foi necessário revisar os fundamentos ontológicos e antropológicos dessa ciência antes de iniciar o processo de elaboração (Schneider, 2011).
A psicologia consolidada por Sartre se constrói em um horizonte epistemológico, teórico e ideológico diferente das psicologias de seu tempo, uma vez que assume uma perspectiva histórica e dialética frente aos fenômenos analisados. A psicologia sartriana carrega em si um imenso potencial transformador, podendo tornar-se um instrumento necessário para a investigação e intervenção na problemática do ser do homem na contemporaneidade (Schneider, 2011).
O sujeito que vive com HIV e/ou aids é histórico e dialético, e deve ser considerado a partir dessas perspectivas. Ele é construído a partir de diversas teias de relações que vão se desenvolvendo ao longo de sua existência, e vai se apropriando da realidade que o cerca ao mesmo tempo em que (por meio de sua práxis) coopera para a construção dessa realidade.
Vieira Júnior, Ardans-Bonifacino e Roso (2016) afirmam que a psicologia concebida por Sartre nos devolve as rédeas de nossas vidas, pois extrai qualquer determinismo que aprisione nosso ser a uma estrutura dada previamente. Nessa
perspectiva, o ser humano é um ser social e, portanto, nossas escolhas não ocorrem isoladamente. É por meio da ação coletiva que construímos a história, então, se aspiramos que a sociedade se apresente de determinada maneira, cabe a nós assumirmos a responsabilidade de agirmos no sentido de concretizá-la.
Mas também é essencial que ele se reencontre com suas possibilidades de escolhas, mesmo nos limites impostos pelo contexto, e no caso pela doença, para que possa emancipar-se e lidar com o inferno que por vezes o outro pode se tornar com a imposição de preconceitos, sem sucumbir. Portanto, é no cuidado das dores singulares e subjetivas e na compreensão e engajamento com as questões sociais e culturais que a clínica sartriana (ou mesmo em outra abordagem, desde que orientada para o exercício da assunção do sujeito, de suas escolhas e reinvenção de possibilidades) vai atuar enquanto um saber/fazer em psicologia orientado para as mudanças concretas (Nogueira da Silva, 2019).
Sendo assim, é essencial que a psicologia se alie aos movimentos sociais, as ONG’s que lutam em prol da causa e a sociedade civil para que possam transformar, em
parceria, a dura realidade das pessoas que vivem com HIV/Aids, buscando minimizar o sofrimento delas por meio de ações comprometidas ética e politicamente com essa população, proporcionando uma vida sem preconceitos e com maior qualidade de vida.
Como nos disse Sartre (2013, p. 41): “As coisas serão exatamente como o homem decidir que elas sejam. Agora, isso significa que devo abandonar-me ao quietismo? Não! Antes de tudo, devo engajar-me, e depois agir de acordo com a antiga fórmula ‘Não é preciso esperar para começar’”.
Essa é uma valiosa lição. Podemos concluir através dela que, enquanto categoria profissional, a psicologia precisa atuar sob a perspectiva do engajamento coletivo na luta política contra o HIV/Aids, maximizando, dessa forma, os ganhos para a construção de
um projeto de sociedade menos desigual e livre de preconceitos, que faça viver as pessoas soropositivas!