homem, como construção e obra. Essa perspectiva torna imperativa a análise do processo de reprodução, cuja noção envolve a produção e suas relações mais amplas, ligando-se ás relações que ocorrem no lugar do morar, nas horas de lazer na vida privada, guardando o sentido do dinamismo das relações entre necessidades e desejos, englobando também as ações que fogem ou se rebelam ao “poder estabelecido”.
1.5 O Fenômeno das Representações Sociais
A tentativa de responder às interrogações que a sociedade se coloca ou equaciona frente aos problemas que surgem, o que se pode dizer da verdadeira explosão de estudos de representações? Tanto no campo das ciências como em outras dimensões da vida, como a arte, a religião, a política e até mesmo as tecnologias, como por exemplo a mídia e as inovações no campo das tecnologias dirigidas a mitigar os problemas causados pela humanidade, a questão de como o ser humano representa o mundo vem fazendo parte das grandes discussões nas últimas décadas.
Os estudos de JOVCHELOVITCH (2000) apontam que no campo das ciências humanas, o fenômeno das representações talvez seja na atualidade um dos temas que mais tem aproximado perspectivas teóricas. Diversas correntes têm buscado compreender como se elabora ou se engendra esta característica humana. Segundo a autora na maioria dessas correntes a noção de construção do real, ou seja, o caráter generativo do conhecimento cotidiano, exige uma análise dos atos de comunicação e da interação entre indivíduos ou mesmos grupos e instituições. A esta comunicação é creditado o papel de mecanismo através do qual se transmite, cria e materializa a realidade. Entra em jogo aí um processo psicológico que mediatiza a relação indivíduo/meio, processo entendido como essencialmente representativo.
A autora acrescenta ainda que o conceito de representação não é simples e nem consensual. Talvez a questão mais aglutinadora seja que o acesso à
representação vincula-se ao conhecimento que transcende a aparência das coisas. Ao entendê-la assim, quase todos os aportes teóricos voltam-se para o cotidiano ou vivido, centrando aí sua fonte de conhecimento.
É sabido que o conhecimento das representações humanas oferece a maneira como os sujeitos sociais apreendem os acontecimentos da vida diária, as características do meio, as informações que circulam, as relações sociais. Tais estudos vêm se concretizando nas ciências humanas porém a conceituação de representação é motivo de grandes controvérsias. LEFEBVRE (apud Penin, 1995), em sua obra – La Présence et l’absence. Pour une theórie de la représentation, recupera a situação epistemológica da representação na história da filosofia. Demonstra que a noção existe desde os pré-socráticos, passando por Kant e Descartes na idade moderna. Por certo não há como falar em representações sem reconstituir as influências que fizeram a história desse conceito. DURKHEIM apud JOVCHELOVITCH (2000:39) apresenta uma linha de pensamento que consistiu em entender que as representações, ou a partir delas poder-se-ia justificar a especificidade e a autonomia dos fenômenos sociológicos. O conceito de representações coletivas, entendendo serem distintas das individuais, pois aquelas seriam produções sociais que se impõem aos indivíduos como forças exteriores e que teriam o papel de imprimir coesão social. Intervém aí desde a ciência até mitos e religiões. As produções sociais são imposições transmitidas através de gerações. Para ele, a teoria da realidade psicossocial coletiva é um processo segundo o qual a humanidade produziria e comunicar-se-ia simbolicamente através dos objetos, dentro de uma dinâmica de relações sociais reais ou imaginárias.
Ao longo dos tempos a compreensão do fenômeno em Durkheim vem recebendo algumas críticas. SAWAIA (1993) adverte que, se sua sociologia revelou o lado social da consciência, por sua vez não explicou sua especificidade, diluindo-a em fenômeno unicamente social. O que faz emergir implicitamente ao conceito a oposição entre indivíduo coletivo e a visão homogeneizante e generalizante do contexto histórico-social. Apesar da crítica de Sawaia ser pertinente há que se levar em conta a importância que teve Durkheim para a
aproximação da sociologia às outras disciplinas das ciências humanas. Isto se deve primordialmente pela referência a categorias simbólicas na regulação social. É presente em seu conceito a articulação entre crenças e conhecimentos.
MOSCOVICI (1981), psicólogo social, foi um dos grandes teóricos impulsionados por estas idéias da sociologia de Durkheim. Entretanto, ele o critica em função da existência de elementos de concentração e estabilização, o que repercutiria em falta de mobilidade na influência induzida pela realidade. Em vários momentos, Moscovici alega que ao formular o conceito de representações, afasta- se do conceito durkeheimiano de representações coletivas, principalmente por averiguar que nos tempos atuais há que se captar justamente a mobilidade e a plasticidade típicas da sociedade presente. Para Moscovici (p.185), a concepção de Durkheim não é completamente enganadora, mas não condiz com a atualidade de um tempo muito curto, onde há pouco espaço para tradições estáveis, principalmente devido às influências das comunicações de massa que vêm acelerando a proximidade entre a ciência e o senso comum, reconstituindo-os aceleradamente. Para ele, o fenômeno das representações tem:
...um caráter moderno, na medida em que na nossa sociedade, ele ocupa o lugar dos mitos, das lendas e das formas mentais correntes das sociedades tradicionais. Sendo seu substituto e seu equivalente, ele herda de uma só vez traços e certos poderes (MOSCOVICI, 1989, p. 83)
Sob a denominação de representações sociais, Moscovici apresenta a idéia de que estas criam realidades e senso comum e não apenas designam uma classe geral de conhecimentos e crenças como indicava Durkheim para as representações coletivas. E ainda mais, o psicólogo viu como essencial que se retirasse delas o caráter de categoria geral, onde seriam encontradas tanto produções intelectuais quanto sociais. Portanto, se Durkeim elevou seu conceito a uma categoria que engloba todas as formas de pensamento, Moscovici a tornou específica e equivalente a outras noções psicossociológicas como, por exemplo, a opinião ou a imaginação, guardando, entretanto, as devidas características que as diferenciam. O social seria incorporado como parte da formulação das
representações dos sujeitos, através do contexto concreto em que se encontra. Indivíduos ou grupos situam-se através da comunicação que estabelecem entre si, da escolaridade ou da bagagem cultural, através de códigos, valores e ideologias, relacionados com a situação social em que vivem.
A representação social da psicanálise de MOSCOVICI (1978) distingue as representações sociais de outros fenômenos psicossociais. Enquanto imagens, opiniões e atitudes somente traduzem a posição e a escala de valores de uma informação circulante na sociedade, representações ainda produzem comportamentos e se relacionam com o meio. As representações sociais por sua vez incorporam os demais fenômenos. Dominante na psicologia social, o conceito de atitude, por exemplo, supunha em sua origem a interveniência da dimensão social em sua produção, o que se perdeu com o tempo. O que é dominante atualmente em psicologia social é a versão de que atitudes são respostas a partir de construtos internos de estímulos vindos do exterior do indivíduo. Já o conceito de representação social pressupõe que o próprio processo de representação, ou seja, é produto e processo. Ao invés de se configurarem como reações a um estímulo exterior elas são nas palavras de Moscovici (p.50) “... ‘teorias’, ‘ciências coletivas’ sui generis, destinadas à interpretação e elaborações do real”. Empregam-se representações para retomar o equilíbrio perdido quando uma nova informação surge na comunicação cotidiana. Tem-se um movimento onde: “... o estranho penetra na brecha do familiar e este abre fissuras no estranho” (p.51).