raticava. Reforçando a afirmação feita no inicio desta descrição - de que a produção em questão se marca pelo caráter lúdico e criativo - faço uso das palavras do cronista.
"E um gênero menor e engraçado, que se enqua dra exclusivamente no segundo caderno dos jornais. Esse tem, a meu ver, a função de corrigir o primeiro, que è um estoque fabulo so de terremotos, crimes e misérias. Depois de tomar contato com tudo isso, durante o ca fé da manhã, o leitor precisa de distração. Como cronista, eu m e sinto um palhaço, um
"jongleur", dando saltos e cabriolas, fazendo molecagens <9 4 > (grifos meus).
Há, ainda, metacrônicas, das quais cito mais dois exem plos: "Hoje não escrevo" e "Ano novo: minhocas" <9 5 >. Na primei ra, discorrendo em terceira pessoa, Drummond parte da "falta de assunto", para, depois de se referir às tarefas do cronista e, assim, elaborar o texto, concluir que "Então, hoje não tem crô nica". Na segunda, delineando uma analogia entre a minhoca e a matéria-prima da crônica - ambas despretenciosas, infiltradas na raiz das coisas, pequenas e vibrantes - arremata
"Cronista sou, e vivo de minhocas (...) Me atrai o caso quase imperceptível, para o qual é feita sob medida a crônica, parenta insig nificante da história" (9 6 >.
Aliás, dentre as crônicas-carta, a que se vinha aludin do, testemunho da preocupação do cronista frente à obrigação de
os textos que se dirigem a um suposto compadre <9 7 >. Recorrentes no JB, eles trazem mais uma das soluções encontradas pelo cro nista para registrar e retratar o presente. Compostos sob a for ma epistolar, mas concebidos segundo a perspectiva do interiora- no que vive na metrópole, seu tema diz respeito ao cotidiano ca rioca. Em "Depois da eleição", um dos primeiros, o enfoque se volta para o dia do pleito em questão (é o ano de 1974), com uma ironia audaciosa em relação ao momento politico do pais - então, em plena ditadura militar - quando, segundo o missivista,
"Foi tudo tão sereno, tão burocrático, tão bitolado que a gente se pergunta: Mas houve mesmo eleição?" (9 8 >.
"Ao compadre, em sua fazenda" e "Noticias para o compa dre", textos publicados 10 anos depois, só diferem daquele por revelarem a identidade do remetente: Antonio Crispim, sobre quem jà me detive, ao elencar os pseudo-nomes de Carlos Drummond de Andrade no JB ( " > . A parte a relação desses textos com o con
texto nacional, eles fornecem farto material para elocubrações a respeito da tensão entre interior-metrópole/tradição-modernidade presente na obra drummondiana - como jà apontaram alguns críti cos ( 1 0 o ) .
Esse tipo de registro que assinala a passagem dos dias e dos fatos mais efêmeros, não se limita, no entanto, apenas à modalidade epistolar, onde o cronista fala através de terceiros. Aspectos da vida cotidiana do Rio de Janeiro, do Brasil e, menos frequêntemente, do mundo, também são objeto de atenção em textos como "Noticia vária" e "Cardápio variado", entre outros O que os distingue, prenunciando o esfacelamento da coluna, são grandes subdivisões, marcadas por subtítulos ou espaços em bran co. Formam-se blocos. Em cada um, Drummond se volta para deter-
minado assunto do momento. Nos exemplos em questão, os comentá rios vão do censo à moda, dos calendários aos filmes do momento. 0 aspecto plural desses textos faz pensar no velho folhetim, es tampado no pé das primeiras páginas, tentando abarcar tudo o que ia pela sociedade <102).
Sem separar os diferentes assuntos por subtítulos ou espaços em branco, como nos casos acima, embora com o mesmo ob jetivo de reportar para a coluna o que acontece ao seu redor, Drummond pratica também o conhecido puxa-puxa" (associação se mântica) - para usar definição de Manuel Bandeira, citada por David Arrigucci Jr. (103). Trata-se da prática de discorrer so bre vários assuntos, sem que eles tenham ligação entre si. Apon to, como exemplo, "0 bode, a arte, a vida", em que, a partir do sacrificio de um bode, numa encenação de Shakespeare, passa-se a falar de tobogãs para se chegar ao restaurador Edson Mota, do SPHAN (io4).
Na mesma trilha do puxa-puxa merecem destaque, ainda, "Desfile (I) ", Desfile (II) e "Solilóquio de gripe" d ° 5 ) . A pertinência da citação se justifica pelo fato desses textos aco modarem sua forma ao conteúdo. Os dois primeiros, quando discor rem sobre os desfiles de Carnaval, por exemplo, através do rápi do encadeamento das descrições, alcançam simular a imagem e as sensações de se estar assistindo à passagem dos carros alegóri cos das escolas de samba. 0 último, por sua vez, ao extrapolar as próprias dimensões do puxa-puxa, acaba se tornando monólogo interior. Escrito em primeira pessoa, num único parágrafo, pre cedido de travessão, o texto constitui-se pela enumeração de as suntos, em ritmo crescente, procurando mimetizar os "delírios febris" que ai subjazem como eixo central.
Ao longo de 1979, por 12 vezes, o cronista recorre, em bora sem a radicalização do monólogo interior, a essa mesma mo dalidade de texto que se desenrola e se desdobra em vários as suntos. A particularidade, agora, reside no fato de que quase todos levam no titulo a palavra semana. Rememoro, entre outros, "Foi assim a semana" e "Nos gabinetes e nas ruas: a semana" (i°6 ). Dada a contaminação que Carlos Drummond de Andrade as sume ter sofrido do cronista Machado de Assis, è dificil, aqui, não pensar na coluna machadiana "A Semana" (107). Mais uma vez, para fundamentar minha afirmação sobre a contaminação Macha- do/Drummond, reporto-me às próprias declarações do cronista mi neiro. Perguntado se seus textos tinham algo das crônicas macha- dianas, Drummond reconhece que
"... Tinham e acho que ainda têm muito, por mais que eu tente despistar. Fui marcado pelo bruxo, indelevelmente. Quando dou conta, p r o curo disfarçar, mas às vezes até gosto de confessar a filiação. Que hei de fazer ? E o escritor brasileiro que eu mais respeito, amo e admiro. De outros cronistas não me lembro de ter sofrido influência, salvo de Alvaro Moreyra, mas este foi mais uma questão de es
tilo, em época de formação intelectual, e não de fundo. Em, Machado, a influência é de for ma e fundo, "hélas" !" <108>.
Lançar mão dos recursos peculiares às narrativas fic cionais, para estruturar crônicas, já não constitui novidade nas décadas de 70 e 80. 0 próprio Carlos Drummond de Andrade envere dou pelo mesmo caminho nas páginas do Correio da Manhã, Mundo Ilustrado e Pulso (109). Não è de se estranhar, portanto, a quantidade e a variedade de textos do JB que apresentam, por exemplo, narrador, enredo e personagens - quase nos limiares do conto.
"Mulheres montanhistas", "Pé na estrada" e "Helicópte ro" fazem parte dessa modalidade de texto que, por conta de um enredo mais longo, acabam publicadas em sequência nas páginas do JB (110 >. 0 suspense, advindo do intervalo entre uma e outra pu blicação, também remete às técnicas folhetinescas, em seu segun do momento, quando, contribuindo para acelerar as vendas dos pe riódicos, antecipavam o sucesso comercial do romance ( u i ) . Caso semelhante è o da série "A visita inesperada", entre outros exemplos ( H 2 ). & proximidade entre esses textos e o conto não é
mera coincidência. Basta considerar, para tanto, o fato de ambas as séries, depois de incluídas, respectivamente, nos livros De noticias & não-noticias faz-se a crônica e Os dias lindos (1977), terem sido republicadas em 70 historinhas (1978), obra de contos, segundo classificação do próprio Drummond, adotada na 4 a edição de Poesia completa e prosa (H3 ) .
A mesma oscilação quanto ao gênero se repete em outra série, veiculada no JB, desta vez de 1978 a 1980. Apresentada geralmente em blocos de quatro textos, todos com subtítulos, ela também traz narradores, personagens e enredos - embora, na maio ria das vezes, inusitados. Sirvam de exemplo "Contos silencio sos" e "Contos de João Brandão" ( n * ) . a partir de seus títulos, onde a palavra "conto" vem sempre seguida de complementos como "relativos", "indecisos" ou "de faz-de-conta", dentre outros, palpa-se a fusão de fronteiras crônica-conto (115>. Reforça a afirmação - a exemplo de 70 historinhas - a reunião desses tex tos no livro Contos plausíveis ...(1981). (grifo meu)
Cabe lembrar, aliás, que a preocupação de Drummond quanto à parte de sua produção jornalística, oscilante en tre a crônica e o conto, remonta à década de 50, quando vem à
luz Contos de aprendiz (1951), senão antes <116).
A crônica já consagrada por Carlos Drummond de Andrade nos anos que antecedem à produção do JB - reunida em Fala, amen doeira (1957), A bolsa & a vida (1962), Cadeira de balanço
(1966) e em Caminhos de João Brandão (1970) - prolonga-se, ela também, no "Caderno B " . Ai existem os textos que primam pelo hu mor e pela ironia, traçando o cotidiano, com recurso aos discur sos direto, indireto e/ou indireto livre. "Novo cruzeiro velho", por exemplo, constròi-se calcado sobre o diálogo ficticio entre o narrador e sua empregada, a partir da qual se reproduz o su posto telefonema do, então, presidente do Banco Central, Ernani Galvêas, e a troca do nome da moeda nacional (ii?). já "Nome de boutique" traz um narrador que, através do discurso indireto li vre, se contamina pelas expressões e visão-de-mundo próprias dos
jovens personagens de quem fala e que discutem, em discurso di reto, o nome da loja que pretendem abrir no Leblon (118>.
A estrutura do texto teatral também comparece na coluna drummondiana, ainda que mais raramente. Ilustram mais essa face ta "Auto brasileiro de Natal", "A música popular entra no paraí so" e "Teatro de brinquedo" (119> . Respectivamente, vêm à cena o ensaio sui-generis de um auto natalino; a conversa entre Deus e São Pedro, quando da chegada de Vinicius de Morais ao céu; e a sucessão presidencial protagonizada por João Batista Figueiredo, Mário Andreazza, José Sarney, Ernesto Geisel e Paulo Maluf, en
tre outros. Em geral, nesses textos, as falas são precedidas da identificação dos personagens e, entre parênteses, regis tram-se as marcas de entonação de voz/expressOes faciais e/ou da movimentação em cena - exatamente como numa peça de teatro.
Cumpre mencionar, ainda, entre os exemplos que incre mentam o aspecto plural da coluna drummondiana a série "Hoje tem espetáculo" (1 2 0 ). Mais uma vez, registra-se, aqui, a contamina
ção da forma pelo conteúdo dos textos. Para falar do circo, o cronista recorre à linguagem e sequência tipicas dos espetáculos circenses. Já na apresentação, para se ter uma idéia, o texto tem inicio com o tradicional "Respeitaaaàvel público". A cada um dos 14 subtítulos, como se fossem diferentes números do entrete nimento, o cronista-apresentador enfoca trapezistas, palhaços, leões, amazonas etc. Os textos oscilam entre a prosa poética e o poema e, como outros tantos, também "saltam do baú" para o JB
(1 2 1),
Paródias de discursos institucionalizados garantem boa dose de humor ao espaço drummondiano no "Caderno B " . "Elefantex S.A. (Relatório da diretoria) ", texto dirigido "Aos senhores acionistas", por exemplo, estrutura-se a partir da linguagem própria das comunicações empresariais, embora o seu conteúdo ca minhe pelo non-sense >122). Já "A lei do verão, que vem ai" e "Esta lei é forte e pode pegar" se constróem à semelhança de ar tigos, reproduzindo as leis administrativas na forma e no espi rito (123).
"Sermão da planicie - (Para não ser escutado) ", por sua vez, remetendo ao biblico Sermão da Montanha, repete, exaus tivamente, a expressão "Bem-aventurados" no inicio de cada um de seus 17 parágrafos, todos dedicados ao futebol (1 2 4 ). Em "Dias
de festa em Brasilia" e em "Bela noitada", a atenção do cronista volta-se para os discursos jornalísticos: o primeiro imita, logo na abertura, a exemplo das reportagens, a expressão "(Do corres pondente secreto deste cronista)", e o último envereda pelos as-
suntos tipicos das colunas sociais, assumindo-lhes a estrutura ( 1 2 5
).
Quanto às entrevistas, estão sempre à mão, quando o ob jetivo do cronista è exercitar, mesmo que pelo viés da ficção, seu estilo todo próprio de jornalismo. Destaco, nesses casos, "Fala peixe-boi", "A coisa, como è a coisa" e "0 poeta Quintana agora é dos nossos" (1 2 6 ). no primeiro texto, o
peixe-boi, então exposto na Feira da Providência, no Rio, ao responder às questões do seu entrevistador - que também è o nar rador - levanta a insensibilidade dos homens em relação à natu reza. A noticia de uma senhora mineira que completa 135 anos, por sua vez, leva o cronista a fazer, no segundo, uma "entre
vista imaginária" com a conterrânea. As opiniões do poeta Mário Quintana, extraidas do "Caderno H " , de acordo com o próprio Drummond, complementam as perguntas da entrevista que estrutura o último exemplo.
Fonte constante de inspiração para a produção drum- mondiana são também as páginas classificadas dos periódicos. Em
"Classificados" è o próprio cronista quem afirma
"Confesso meu interesse antigo pelos classi ficados. Al estão as noticias mais puras, em estado virginal e em dimensão de indivíduo
(12 7).
Apesar de recorrentes, no entanto, ao usá-los em seus próprios textos, também aqui a verve de Carlos Drummond de A n drade não permite que se tornem repetitivos. Para ficar só na queles que ainda não fracionam a coluna, recorro a "Memória da beleza", "A colecionadora", "0 céu nos classificados" e à série
"Cartas de estimação" (12!). No primeiro, a leitura de um supos to comunicado que suspende o leilão das jôias de uma senhora le va o cronista a discorrer sobre ela, imaginando-a jovem e bela num tempo passado. 0 segundo exemplo traz um diálogo entre o cronista e a colecionadora que se desfaz de coleção de guarda- chuvas através de anúncio, o qual è reproduzido no inicio do t e x t o . Qs agradecimentos e preces religiosas dos classificados, no terceiro caso, dão margem às especulações sobre "a igreja
aberta dos jornais". Um anúncio datado de 1921 e que, segundo o cronista, o JB republica, anos depois, no seu próprio "Caderno de Classificados", do qual o cronista se apropria, reproduzindo -o na coluna, dá inicio à série que ilustra o último exemplo. Ali, em suspense, desenrola-se uma narrativa ficticia que incor pora cartas a telefonemas.
Para este esboço que resume o universo pluriforme dos textos integrantes do primeiro bloco, resta me deter, de um la do, sobre aqueles que se pautam pela diferença; e de outro, so bre os que anunciam o processo de esfacelamento da coluna drum- mondiana.
Entre os primeiros, menciono "Cante, se quiser", que se costura calcado sobre uma breve coletânea de músicas de Carnaval e sobre o comentário saudosista do cronista «1 2 9 ). "Que è is so?", "Novo jogo de salão" e "Inventário e conselho final" for mam uma série que principia por um diálogo sem nexo, logo escla recido, ao longo dos outros dois textos, como sendo o resultado da citação de titulos de obras publicadas ou encenadas (i3°). "Passatempo de domingo", por sua vez, intensifica o caráter lú dico da crônica, ao propor aos leitores a descoberta da autoria de um texto-montagem (131).
Hà, ainda, "Garbo, a estrela", "0 terrorista ontem e hoje", "Passeio através de dedicatórias", "Intenção e arte das dedicatórias" e "As dedicatórias diferentes" <132). o primeiro retoma, a exemplo de "Greta Garbo na minha vida", crônica de Fa la, amendoeira, a experiência ficticia vivida por Drummond, ain da na década de 20, quando, secretamente, ele teria ciceroneado a atriz Greta Garbo numa visita ao Brasil. 0 segundo, publicado em 1980, reproduz, por força da atualidade do tema, segundo o próprio Drummond, o texto "0 terrorista", veiculado pela primei ra vez no JB em 1970 (133). qs três últimos, por sua vez, enfo cam a importância das dedicatórias, jà que "podem esclarecer a psicologia do autor e servir ao estudo dos costumes literários". Dificil, aqui, è não rememorar Viola de bolso (1952), Viola de bolso novamente encordoada (1955) e Poesia errante (1988), em que Drummond reúne as dedicatórias que fez para os amigos/pares.
Ilustram os outros casos "13 soluções de um problema", "Você sabia ?", "0 jogo das 100 opções" e "Continua" (134). a o lançar a pergunta sobre os prováveis resultados da eleição indi reta para a escolha do, então, futuro governador do Rio, o cro nista divide e apresenta o primeiro texto em 13 hipóteses. No segundo, com a repetição da pergunta "você sabia ?", subentendi da nos seus 12 parágrafos, Drummond fala de Augusto Ruschi e da necessidade de se preservar a natureza. No quarto exemplo, com a palavra "entre" reescrita exatas 100 vezes, sempre no inicio de cada frase, propõe alternativas de escolha focadas em temas do momento. Por fim, Drummond recorre, no último, em tom lirico, à palavra "continua", também repetida a cada parágrafo, para re tratar o cotidiano de seu tempo.
Aproveitando a semelhança entre esse tipo de crônica
entrecortada e a prosa miúda, feita de diálogos curtos e/ou de leves e irônicas observações do dia-a-dia, geralmente batizada de "mínimas", inauguro a descrição do bloco que fraciona a co luna drummondiana do JB. A ocasião requer a reprodução da con cepção do cronista para esse tipo de texto:
"... Para que melhor lhe degustem o sabor, dividi-o (o texto) em pedacinhos, como a um licor se sorvem goles mínimos que contêm a essência da composição e a prolongam indefi nidamente" (135).
Distribuídas ao longo de toda a produção, com ou sem subtitulo, separadas por espaços ou discretos simbolos gráficos, como reticências ou asteriscos, elas se caracterizam por compor textos que captam o plurilingUismo de uma época e mimetizam, pe la forma, o seu tempo fugidio e imediatista. Com isso, alcançam desenhar uma espécie de espelho multifacetado da sociedade bra sileira nas décadas de 70 e 80.
Sirvam de exemplo "Pequeninas (E não resolvem) ", "Tri vial variado", "Estes são os diálogo da época", "Rapidamente -
(Prosa miúda para assuntos miúdos)" e "0 cronista ouviu por ai"
(1 36). Em "Frases colhidas no ar", diferentemente dos outros
exemplos, o cronista identifica os seus dispares e "supostos au tores": Delfim Neto, César Cais, Carlos Alberto Parreira, Ronald Reagan e Deus, entre outros (1 37).
0 mesmo estilo de texto-plural, agora resultado da reu nião do que o cronista chama de "pipocas", surge com a série "0 pipoqueiro da esquina", publicada entre 1979 e 1981 - embora suas primeiras aparições no JB tenham sido com os titulos
"Miudezas" e "Varejo de pipocas" <13 8 ). Mais irônicas e contun dentes, por isso, mais próximas da charge, essas frações "explo dem ao calor dos acontecimentos", em especial dos fatos politi cos e econômicos do momento <139). Recebem do cartunista Ziral- do, co-autor de 0 pipoqueiro da esquina (1981), onde parte delas passa por uma espécie de "transposição de linguagem", a defini ção de "charges em estado de dicionário" <140 >.
No JB, a cada texto, estão reunidas em sequência - tam bém separadas por espaços ou recursos gráficos como pontos ou asteriscos - e se fazem acompanhar por titulos que as complemen tam. 0 forte das "pipocas", sem dúvida, é o jogo de idéias e de palavras para ironizar os fatos presentes. Valem os exemplos:
" Moral do outro lado
A prova de que há um retrocesso na pornogra fia è que as capas de revistas especilizadas só apresentam nádegas"
e
"Suando a camisa
0 candidato oficial à Presidência da Câmara dos Deputados percorre o pais em busca de vo tos. Para ser Presidente da República não se exige tanto" (14D .
Fazer da própria coluna uma espécie de jornal dentro do jornal parece ter sido mesmo uma das principais preocupações do cronista Carlos Drummond de Andrade. Embora dissimulada em tex tos multiformes, sempre atentos ao cotidiano - segundo venho tentando desvelar até agora - a maneira particular como, dentro do JB, Drummond faz seu próprio jornalismo ganha força, defini tivamente, com a publicação de "Jornal pequeno", "Minijornal" e
das séries "Jornal em dràgeas", "Jornalzinho simples" e "Miran te" (142).
A parte o emprego da palavra "jornal" para os titulos, a maior prova de que, nesse momento, Drummond assume a profissão de jornalista - exatamente como declara em suas últimas entre vistas - está na transgressão por que passa a coluna. "Jornal pequeno" e "Minijornal", textos mais antigos, apesar de ainda respeitar os limites verticais da coluna, jà introduzem o fra- cionamento dos textos através de subtítulos. Seu intuito è transmitir o maior número de noticias, nem sempre compatíveis entre si.
Verdadeiros textos-mosaico, as séries, por sua vez, mostram a radicalização das inquietações do cronista e, lite
ralmente, transformam a coluna num verdadeiro jornal. Embora distante das redações desde meados dos anos 30, para Drummond, o jornalismo teria sido a sua profissão. E ele próprio quem d i z :
"Eu não s ei, porque todas as vezes que os jornais se referem a mim me chamam de poeta.