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COURANT de FORCE :

Dans le document Td corrigé A - Exercices corriges pdf (Page 29-32)

raticava. Reforçando a afirmação feita no inicio desta descrição - de que a produção em questão se marca pelo caráter lúdico e criativo - faço uso das palavras do cronista.

"E um gênero menor e engraçado, que se enqua­ dra exclusivamente no segundo caderno dos jornais. Esse tem, a meu ver, a função de corrigir o primeiro, que è um estoque fabulo­ so de terremotos, crimes e misérias. Depois de tomar contato com tudo isso, durante o ca­ fé da manhã, o leitor precisa de distração. Como cronista, eu m e sinto um palhaço, um

"jongleur", dando saltos e cabriolas, fazendo molecagens <9 4 > (grifos meus).

Há, ainda, metacrônicas, das quais cito mais dois exem­ plos: "Hoje não escrevo" e "Ano novo: minhocas" <9 5 >. Na primei­ ra, discorrendo em terceira pessoa, Drummond parte da "falta de assunto", para, depois de se referir às tarefas do cronista e, assim, elaborar o texto, concluir que "Então, hoje não tem crô­ nica". Na segunda, delineando uma analogia entre a minhoca e a matéria-prima da crônica - ambas despretenciosas, infiltradas na raiz das coisas, pequenas e vibrantes - arremata

"Cronista sou, e vivo de minhocas (...) Me atrai o caso quase imperceptível, para o qual é feita sob medida a crônica, parenta insig­ nificante da história" (9 6 >.

Aliás, dentre as crônicas-carta, a que se vinha aludin­ do, testemunho da preocupação do cronista frente à obrigação de

os textos que se dirigem a um suposto compadre <9 7 >. Recorrentes no JB, eles trazem mais uma das soluções encontradas pelo cro­ nista para registrar e retratar o presente. Compostos sob a for­ ma epistolar, mas concebidos segundo a perspectiva do interiora- no que vive na metrópole, seu tema diz respeito ao cotidiano ca­ rioca. Em "Depois da eleição", um dos primeiros, o enfoque se volta para o dia do pleito em questão (é o ano de 1974), com uma ironia audaciosa em relação ao momento politico do pais - então, em plena ditadura militar - quando, segundo o missivista,

"Foi tudo tão sereno, tão burocrático, tão bitolado que a gente se pergunta: Mas houve mesmo eleição?" (9 8 >.

"Ao compadre, em sua fazenda" e "Noticias para o compa­ dre", textos publicados 10 anos depois, só diferem daquele por revelarem a identidade do remetente: Antonio Crispim, sobre quem jà me detive, ao elencar os pseudo-nomes de Carlos Drummond de Andrade no JB ( " > . A parte a relação desses textos com o con­

texto nacional, eles fornecem farto material para elocubrações a respeito da tensão entre interior-metrópole/tradição-modernidade presente na obra drummondiana - como jà apontaram alguns críti­ cos ( 1 0 o ) .

Esse tipo de registro que assinala a passagem dos dias e dos fatos mais efêmeros, não se limita, no entanto, apenas à modalidade epistolar, onde o cronista fala através de terceiros. Aspectos da vida cotidiana do Rio de Janeiro, do Brasil e, menos frequêntemente, do mundo, também são objeto de atenção em textos como "Noticia vária" e "Cardápio variado", entre outros O que os distingue, prenunciando o esfacelamento da coluna, são grandes subdivisões, marcadas por subtítulos ou espaços em bran­ co. Formam-se blocos. Em cada um, Drummond se volta para deter-

minado assunto do momento. Nos exemplos em questão, os comentá­ rios vão do censo à moda, dos calendários aos filmes do momento. 0 aspecto plural desses textos faz pensar no velho folhetim, es­ tampado no pé das primeiras páginas, tentando abarcar tudo o que ia pela sociedade <102).

Sem separar os diferentes assuntos por subtítulos ou espaços em branco, como nos casos acima, embora com o mesmo ob­ jetivo de reportar para a coluna o que acontece ao seu redor, Drummond pratica também o conhecido puxa-puxa" (associação se­ mântica) - para usar definição de Manuel Bandeira, citada por David Arrigucci Jr. (103). Trata-se da prática de discorrer so­ bre vários assuntos, sem que eles tenham ligação entre si. Apon­ to, como exemplo, "0 bode, a arte, a vida", em que, a partir do sacrificio de um bode, numa encenação de Shakespeare, passa-se a falar de tobogãs para se chegar ao restaurador Edson Mota, do SPHAN (io4).

Na mesma trilha do puxa-puxa merecem destaque, ainda, "Desfile (I) ", Desfile (II) e "Solilóquio de gripe" d ° 5 ) . A pertinência da citação se justifica pelo fato desses textos aco­ modarem sua forma ao conteúdo. Os dois primeiros, quando discor­ rem sobre os desfiles de Carnaval, por exemplo, através do rápi­ do encadeamento das descrições, alcançam simular a imagem e as sensações de se estar assistindo à passagem dos carros alegóri­ cos das escolas de samba. 0 último, por sua vez, ao extrapolar as próprias dimensões do puxa-puxa, acaba se tornando monólogo interior. Escrito em primeira pessoa, num único parágrafo, pre­ cedido de travessão, o texto constitui-se pela enumeração de as­ suntos, em ritmo crescente, procurando mimetizar os "delírios febris" que ai subjazem como eixo central.

Ao longo de 1979, por 12 vezes, o cronista recorre, em­ bora sem a radicalização do monólogo interior, a essa mesma mo­ dalidade de texto que se desenrola e se desdobra em vários as­ suntos. A particularidade, agora, reside no fato de que quase todos levam no titulo a palavra semana. Rememoro, entre outros, "Foi assim a semana" e "Nos gabinetes e nas ruas: a semana" (i°6 ). Dada a contaminação que Carlos Drummond de Andrade as­ sume ter sofrido do cronista Machado de Assis, è dificil, aqui, não pensar na coluna machadiana "A Semana" (107). Mais uma vez, para fundamentar minha afirmação sobre a contaminação Macha- do/Drummond, reporto-me às próprias declarações do cronista mi­ neiro. Perguntado se seus textos tinham algo das crônicas macha- dianas, Drummond reconhece que

"... Tinham e acho que ainda têm muito, por mais que eu tente despistar. Fui marcado pelo bruxo, indelevelmente. Quando dou conta, p r o ­ curo disfarçar, mas às vezes até gosto de confessar a filiação. Que hei de fazer ? E o escritor brasileiro que eu mais respeito, amo e admiro. De outros cronistas não me lembro de ter sofrido influência, salvo de Alvaro Moreyra, mas este foi mais uma questão de es­

tilo, em época de formação intelectual, e não de fundo. Em, Machado, a influência é de for­ ma e fundo, "hélas" !" <108>.

Lançar mão dos recursos peculiares às narrativas fic­ cionais, para estruturar crônicas, já não constitui novidade nas décadas de 70 e 80. 0 próprio Carlos Drummond de Andrade envere­ dou pelo mesmo caminho nas páginas do Correio da Manhã, Mundo Ilustrado e Pulso (109). Não è de se estranhar, portanto, a quantidade e a variedade de textos do JB que apresentam, por exemplo, narrador, enredo e personagens - quase nos limiares do conto.

"Mulheres montanhistas", "Pé na estrada" e "Helicópte­ ro" fazem parte dessa modalidade de texto que, por conta de um enredo mais longo, acabam publicadas em sequência nas páginas do JB (110 >. 0 suspense, advindo do intervalo entre uma e outra pu­ blicação, também remete às técnicas folhetinescas, em seu segun­ do momento, quando, contribuindo para acelerar as vendas dos pe­ riódicos, antecipavam o sucesso comercial do romance ( u i ) . Caso semelhante è o da série "A visita inesperada", entre outros exemplos ( H 2 ). & proximidade entre esses textos e o conto não é

mera coincidência. Basta considerar, para tanto, o fato de ambas as séries, depois de incluídas, respectivamente, nos livros De noticias & não-noticias faz-se a crônica e Os dias lindos (1977), terem sido republicadas em 70 historinhas (1978), obra de contos, segundo classificação do próprio Drummond, adotada na 4 a edição de Poesia completa e prosa (H3 ) .

A mesma oscilação quanto ao gênero se repete em outra série, veiculada no JB, desta vez de 1978 a 1980. Apresentada geralmente em blocos de quatro textos, todos com subtítulos, ela também traz narradores, personagens e enredos - embora, na maio­ ria das vezes, inusitados. Sirvam de exemplo "Contos silencio­ sos" e "Contos de João Brandão" ( n * ) . a partir de seus títulos, onde a palavra "conto" vem sempre seguida de complementos como "relativos", "indecisos" ou "de faz-de-conta", dentre outros, palpa-se a fusão de fronteiras crônica-conto (115>. Reforça a afirmação - a exemplo de 70 historinhas - a reunião desses tex­ tos no livro Contos plausíveis ...(1981). (grifo meu)

Cabe lembrar, aliás, que a preocupação de Drummond quanto à parte de sua produção jornalística, oscilante en­ tre a crônica e o conto, remonta à década de 50, quando vem à

luz Contos de aprendiz (1951), senão antes <116).

A crônica já consagrada por Carlos Drummond de Andrade nos anos que antecedem à produção do JB - reunida em Fala, amen­ doeira (1957), A bolsa & a vida (1962), Cadeira de balanço

(1966) e em Caminhos de João Brandão (1970) - prolonga-se, ela também, no "Caderno B " . Ai existem os textos que primam pelo hu­ mor e pela ironia, traçando o cotidiano, com recurso aos discur­ sos direto, indireto e/ou indireto livre. "Novo cruzeiro velho", por exemplo, constròi-se calcado sobre o diálogo ficticio entre o narrador e sua empregada, a partir da qual se reproduz o su­ posto telefonema do, então, presidente do Banco Central, Ernani Galvêas, e a troca do nome da moeda nacional (ii?). já "Nome de boutique" traz um narrador que, através do discurso indireto li­ vre, se contamina pelas expressões e visão-de-mundo próprias dos

jovens personagens de quem fala e que discutem, em discurso di­ reto, o nome da loja que pretendem abrir no Leblon (118>.

A estrutura do texto teatral também comparece na coluna drummondiana, ainda que mais raramente. Ilustram mais essa face­ ta "Auto brasileiro de Natal", "A música popular entra no paraí­ so" e "Teatro de brinquedo" (119> . Respectivamente, vêm à cena o ensaio sui-generis de um auto natalino; a conversa entre Deus e São Pedro, quando da chegada de Vinicius de Morais ao céu; e a sucessão presidencial protagonizada por João Batista Figueiredo, Mário Andreazza, José Sarney, Ernesto Geisel e Paulo Maluf, en­

tre outros. Em geral, nesses textos, as falas são precedidas da identificação dos personagens e, entre parênteses, regis­ tram-se as marcas de entonação de voz/expressOes faciais e/ou da movimentação em cena - exatamente como numa peça de teatro.

Cumpre mencionar, ainda, entre os exemplos que incre­ mentam o aspecto plural da coluna drummondiana a série "Hoje tem espetáculo" (1 2 0 ). Mais uma vez, registra-se, aqui, a contamina­

ção da forma pelo conteúdo dos textos. Para falar do circo, o cronista recorre à linguagem e sequência tipicas dos espetáculos circenses. Já na apresentação, para se ter uma idéia, o texto tem inicio com o tradicional "Respeitaaaàvel público". A cada um dos 14 subtítulos, como se fossem diferentes números do entrete­ nimento, o cronista-apresentador enfoca trapezistas, palhaços, leões, amazonas etc. Os textos oscilam entre a prosa poética e o poema e, como outros tantos, também "saltam do baú" para o JB

(1 2 1),

Paródias de discursos institucionalizados garantem boa dose de humor ao espaço drummondiano no "Caderno B " . "Elefantex S.A. (Relatório da diretoria) ", texto dirigido "Aos senhores acionistas", por exemplo, estrutura-se a partir da linguagem própria das comunicações empresariais, embora o seu conteúdo ca­ minhe pelo non-sense >122). Já "A lei do verão, que vem ai" e "Esta lei é forte e pode pegar" se constróem à semelhança de ar­ tigos, reproduzindo as leis administrativas na forma e no espi­ rito (123).

"Sermão da planicie - (Para não ser escutado) ", por sua vez, remetendo ao biblico Sermão da Montanha, repete, exaus­ tivamente, a expressão "Bem-aventurados" no inicio de cada um de seus 17 parágrafos, todos dedicados ao futebol (1 2 4 ). Em "Dias

de festa em Brasilia" e em "Bela noitada", a atenção do cronista volta-se para os discursos jornalísticos: o primeiro imita, logo na abertura, a exemplo das reportagens, a expressão "(Do corres­ pondente secreto deste cronista)", e o último envereda pelos as-

suntos tipicos das colunas sociais, assumindo-lhes a estrutura ( 1 2 5

).

Quanto às entrevistas, estão sempre à mão, quando o ob­ jetivo do cronista è exercitar, mesmo que pelo viés da ficção, seu estilo todo próprio de jornalismo. Destaco, nesses casos, "Fala peixe-boi", "A coisa, como è a coisa" e "0 poeta Quintana agora é dos nossos" (1 2 6 ). no primeiro texto, o

peixe-boi, então exposto na Feira da Providência, no Rio, ao responder às questões do seu entrevistador - que também è o nar­ rador - levanta a insensibilidade dos homens em relação à natu­ reza. A noticia de uma senhora mineira que completa 135 anos, por sua vez, leva o cronista a fazer, no segundo, uma "entre­

vista imaginária" com a conterrânea. As opiniões do poeta Mário Quintana, extraidas do "Caderno H " , de acordo com o próprio Drummond, complementam as perguntas da entrevista que estrutura o último exemplo.

Fonte constante de inspiração para a produção drum- mondiana são também as páginas classificadas dos periódicos. Em

"Classificados" è o próprio cronista quem afirma

"Confesso meu interesse antigo pelos classi­ ficados. Al estão as noticias mais puras, em estado virginal e em dimensão de indivíduo

(12 7).

Apesar de recorrentes, no entanto, ao usá-los em seus próprios textos, também aqui a verve de Carlos Drummond de A n ­ drade não permite que se tornem repetitivos. Para ficar só na­ queles que ainda não fracionam a coluna, recorro a "Memória da beleza", "A colecionadora", "0 céu nos classificados" e à série

"Cartas de estimação" (12!). No primeiro, a leitura de um supos­ to comunicado que suspende o leilão das jôias de uma senhora le­ va o cronista a discorrer sobre ela, imaginando-a jovem e bela num tempo passado. 0 segundo exemplo traz um diálogo entre o cronista e a colecionadora que se desfaz de coleção de guarda- chuvas através de anúncio, o qual è reproduzido no inicio do t e x t o . Qs agradecimentos e preces religiosas dos classificados, no terceiro caso, dão margem às especulações sobre "a igreja

aberta dos jornais". Um anúncio datado de 1921 e que, segundo o cronista, o JB republica, anos depois, no seu próprio "Caderno de Classificados", do qual o cronista se apropria, reproduzindo -o na coluna, dá inicio à série que ilustra o último exemplo. Ali, em suspense, desenrola-se uma narrativa ficticia que incor­ pora cartas a telefonemas.

Para este esboço que resume o universo pluriforme dos textos integrantes do primeiro bloco, resta me deter, de um la­ do, sobre aqueles que se pautam pela diferença; e de outro, so­ bre os que anunciam o processo de esfacelamento da coluna drum- mondiana.

Entre os primeiros, menciono "Cante, se quiser", que se costura calcado sobre uma breve coletânea de músicas de Carnaval e sobre o comentário saudosista do cronista «1 2 9 ). "Que è is­ so?", "Novo jogo de salão" e "Inventário e conselho final" for­ mam uma série que principia por um diálogo sem nexo, logo escla­ recido, ao longo dos outros dois textos, como sendo o resultado da citação de titulos de obras publicadas ou encenadas (i3°). "Passatempo de domingo", por sua vez, intensifica o caráter lú­ dico da crônica, ao propor aos leitores a descoberta da autoria de um texto-montagem (131).

Hà, ainda, "Garbo, a estrela", "0 terrorista ontem e hoje", "Passeio através de dedicatórias", "Intenção e arte das dedicatórias" e "As dedicatórias diferentes" <132). o primeiro retoma, a exemplo de "Greta Garbo na minha vida", crônica de Fa­ la, amendoeira, a experiência ficticia vivida por Drummond, ain­ da na década de 20, quando, secretamente, ele teria ciceroneado a atriz Greta Garbo numa visita ao Brasil. 0 segundo, publicado em 1980, reproduz, por força da atualidade do tema, segundo o próprio Drummond, o texto "0 terrorista", veiculado pela primei­ ra vez no JB em 1970 (133). qs três últimos, por sua vez, enfo­ cam a importância das dedicatórias, jà que "podem esclarecer a psicologia do autor e servir ao estudo dos costumes literários". Dificil, aqui, è não rememorar Viola de bolso (1952), Viola de bolso novamente encordoada (1955) e Poesia errante (1988), em que Drummond reúne as dedicatórias que fez para os amigos/pares.

Ilustram os outros casos "13 soluções de um problema", "Você sabia ?", "0 jogo das 100 opções" e "Continua" (134). a o lançar a pergunta sobre os prováveis resultados da eleição indi­ reta para a escolha do, então, futuro governador do Rio, o cro­ nista divide e apresenta o primeiro texto em 13 hipóteses. No segundo, com a repetição da pergunta "você sabia ?", subentendi­ da nos seus 12 parágrafos, Drummond fala de Augusto Ruschi e da necessidade de se preservar a natureza. No quarto exemplo, com a palavra "entre" reescrita exatas 100 vezes, sempre no inicio de cada frase, propõe alternativas de escolha focadas em temas do momento. Por fim, Drummond recorre, no último, em tom lirico, à palavra "continua", também repetida a cada parágrafo, para re­ tratar o cotidiano de seu tempo.

Aproveitando a semelhança entre esse tipo de crônica

entrecortada e a prosa miúda, feita de diálogos curtos e/ou de leves e irônicas observações do dia-a-dia, geralmente batizada de "mínimas", inauguro a descrição do bloco que fraciona a co­ luna drummondiana do JB. A ocasião requer a reprodução da con­ cepção do cronista para esse tipo de texto:

"... Para que melhor lhe degustem o sabor, dividi-o (o texto) em pedacinhos, como a um licor se sorvem goles mínimos que contêm a essência da composição e a prolongam indefi­ nidamente" (135).

Distribuídas ao longo de toda a produção, com ou sem subtitulo, separadas por espaços ou discretos simbolos gráficos, como reticências ou asteriscos, elas se caracterizam por compor textos que captam o plurilingUismo de uma época e mimetizam, pe­ la forma, o seu tempo fugidio e imediatista. Com isso, alcançam desenhar uma espécie de espelho multifacetado da sociedade bra­ sileira nas décadas de 70 e 80.

Sirvam de exemplo "Pequeninas (E não resolvem) ", "Tri­ vial variado", "Estes são os diálogo da época", "Rapidamente -

(Prosa miúda para assuntos miúdos)" e "0 cronista ouviu por ai"

(1 36). Em "Frases colhidas no ar", diferentemente dos outros

exemplos, o cronista identifica os seus dispares e "supostos au­ tores": Delfim Neto, César Cais, Carlos Alberto Parreira, Ronald Reagan e Deus, entre outros (1 37).

0 mesmo estilo de texto-plural, agora resultado da reu­ nião do que o cronista chama de "pipocas", surge com a série "0 pipoqueiro da esquina", publicada entre 1979 e 1981 - embora suas primeiras aparições no JB tenham sido com os titulos

"Miudezas" e "Varejo de pipocas" <13 8 ). Mais irônicas e contun­ dentes, por isso, mais próximas da charge, essas frações "explo­ dem ao calor dos acontecimentos", em especial dos fatos politi­ cos e econômicos do momento <139). Recebem do cartunista Ziral- do, co-autor de 0 pipoqueiro da esquina (1981), onde parte delas passa por uma espécie de "transposição de linguagem", a defini­ ção de "charges em estado de dicionário" <140 >.

No JB, a cada texto, estão reunidas em sequência - tam­ bém separadas por espaços ou recursos gráficos como pontos ou asteriscos - e se fazem acompanhar por titulos que as complemen­ tam. 0 forte das "pipocas", sem dúvida, é o jogo de idéias e de palavras para ironizar os fatos presentes. Valem os exemplos:

" Moral do outro lado

A prova de que há um retrocesso na pornogra­ fia è que as capas de revistas especilizadas só apresentam nádegas"

e

"Suando a camisa

0 candidato oficial à Presidência da Câmara dos Deputados percorre o pais em busca de vo­ tos. Para ser Presidente da República não se exige tanto" (14D .

Fazer da própria coluna uma espécie de jornal dentro do jornal parece ter sido mesmo uma das principais preocupações do cronista Carlos Drummond de Andrade. Embora dissimulada em tex­ tos multiformes, sempre atentos ao cotidiano - segundo venho tentando desvelar até agora - a maneira particular como, dentro do JB, Drummond faz seu próprio jornalismo ganha força, defini­ tivamente, com a publicação de "Jornal pequeno", "Minijornal" e

das séries "Jornal em dràgeas", "Jornalzinho simples" e "Miran­ te" (142).

A parte o emprego da palavra "jornal" para os titulos, a maior prova de que, nesse momento, Drummond assume a profissão de jornalista - exatamente como declara em suas últimas entre­ vistas - está na transgressão por que passa a coluna. "Jornal pequeno" e "Minijornal", textos mais antigos, apesar de ainda respeitar os limites verticais da coluna, jà introduzem o fra- cionamento dos textos através de subtítulos. Seu intuito è transmitir o maior número de noticias, nem sempre compatíveis entre si.

Verdadeiros textos-mosaico, as séries, por sua vez, mostram a radicalização das inquietações do cronista e, lite­

ralmente, transformam a coluna num verdadeiro jornal. Embora distante das redações desde meados dos anos 30, para Drummond, o jornalismo teria sido a sua profissão. E ele próprio quem d i z :

"Eu não s ei, porque todas as vezes que os jornais se referem a mim me chamam de poeta.

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