Este capítulo, elaborado com base numa publicação efetuada em 2014 que englobou um Manual de Medicina Sexual26 apresenta uma reflexão acerca das dimensões corporais implicadas na interação entre profissionais e doentes no âmbito da saúde/doença sexual, evocando a sexualidade como fio condutor.
O desenvolvimento do interesse científico pela sexualidade humana, impulsionado pelo protagonismo do “movimento da medicalização da sexualidade” (Aboim, 2013) e da “farmacologização” da saúde (Williams, Martin & Gabe, 2011), adquiriu visibilidade nas últimas décadas. A divulgação dos saberes sobre sexualidade e sobre as novas possibilidades terapêuticas disponíveis (Aboim, 2013) invadiu os media, imiscuiu-se nos cuidados de saúde e enfatizou a importância de diagnosticar e tratar as disfunções no desempenho sexual (Vilar, 2010). As expectativas terapêuticas por parte dos indivíduos aproximaram-nos dos cuidados de saúde na procura de soluções para os seus problemas, o que esteve na base da (re)definição das formas de interação entre os profissionais e os homens e dos contextos considerados legítimos para o seu tratamento.27
Na abordagem do corpo como o lugar de descodificação dos sinais e sintomas de doença, onde as práticas da enfermagem e da medicina sexual acontecem, o conceito de risco associado às intervenções desenvolvidas emerge com um impacto considerável. Diagnosticar e tratar legitima invadir órgãos, infligir dor (Nettleton, 2006), provocar “inaptidão” e negligenciar a privacidade e o pudor. Neste contexto, realçam-se as abordagens terapêuticas relativas aos problemas prostáticos, que para muitos homens se constituem como uma ameaça à sua masculinidade, tendo como consequência diagnósticos tardios que arrastam consigo a ameaça dos “cuidados paliativos” e que, por vezes, conduzem a finais trágicos legitimados pela resolução inabalável de “querer ser homem até ao fim” (Tereso, 2015).
Emerson (1987) analisa a valorização da definição médica da situação (incluindo os seus efeitos objetivos e subjetivos), e considera que, por um lado, legitima a realização dos procedimentos invasivos e que, por outro, minimiza a perceção do paciente sobre a ameaça potencial à sua dignidade.
26 Tereso, Alexandra (2014) Sexualidade e Profissionais de Saúde: de corpo a corpo. In Barros, F.
e Figueiredo, R. (2014) Manual de Medicina Sexual. Lisboa: HSJ. pp. 543-546.
64 Neste contexto, os quotidianos dos profissionais de saúde são atravessados por processos de mediação das dimensões corporais que estão intimamente ligados às interações corpo a corpo, que lhes permitem comunicar, “experienciar necessidades comuns, desejos, satisfações e frustrações” (Doyal & Gough, 1991). Nestas interações, evidenciam-se normas sociais que regem as distâncias entre os corpos e contribuem para delimitar universos culturais e simbólicos distintos, onde se abrigam a construção social da sexualidade dos profissionais e a dos doentes (Mercadier, 2002).
No âmago das configurações institucionais, a prática médica geralmente acontece na intimidade de um consultório ou de um gabinete de atendimento em que se (des)ocultam intimidades e corporeidades. Nestes espaços, onde os corpos se aproximam, é presumido que os médicos sejam objetivos, sejam emocionalmente distanciados e se guiem pelas regras das boas práticas profissionais (Morgan, 2003). A conformidade com estas presunções gerais é considerada como um requisito essencial para a realização de intervenções terapêuticas, especialmente quando implicam a observação dos órgãos genitais ou envolvem a obtenção de informações sobre aspetos considerados íntimos pelo paciente (Morgan, 2003). É nestes contextos, onde objetiva e subjetivamente se revelam intimidades, que a erotização das interações pode invadir a relação entre cuidador e cuidado e metamorfoseá-la numa relação entre sujeito de desejo e sujeito desejante.
Nas interações entre profissionais e doentes, os uniformes podem contribuir para ocultar os corpos dos profissionais e a sua sexualidade (Mercadier, 2002). No entanto, apesar de simbolizarem uma suposta insensibilidade à dimensão erótica do corpo do outro, não impossibilitam a transformação de lugares terapêuticos em lugares povoados pelo desejo, onde o olhar e o toque procuram o corpo do outro, fora de lógicas terapêuticas supostamente assexuadas (Mercadier, 2002).
O facto de a medicina atualmente não ser considerada como um sacerdócio exercido por seres superiores, assexuados e providos das melhores intenções, não anulou a crença de que os profissionais de saúde são seres “dessensualizados” e “agenderizados” que observam e examinam o corpo de uma forma estritamente clínica (Morgan, 2003). A bata branca que envergam parece constituir-se como um artefacto que simboliza a pertença profissional, legitima o acesso ao corpo do outro, permite tornar pública a intimidade e a privacidade alheias e contribui para considerar o pudor como obsoleto face à nobreza do objetivo terapêutico (Lhez, 1995).
65 No início do percurso formativo de qualquer enfermeiro ou médico surge o momento da descoberta e do confronto com o corpo do outro. Diagnosticar e tratar o corpo doente requer proximidade, olhar, tocar e, por vezes, invadir. Na sua socialização, os estudantes aprendem a responder com neutralidade e de forma “rotinizada” a situações delicadas e embaraçosas que envolvem o toque íntimo (Atkinson, 1981). No entanto, a ansiedade e o incómodo em relação à abordagem de questões sobre sexo ou sexualidade com os doentes torna-se visível na omissão de registos na história do doente e na ausência do exame físico (Wimberly & Moore, 2007) que seria normalmente justificado pelo eventual mal-estar, unicamente imputável ao doente. Neste âmbito, realça-se que o desconforto na abordagem da sexualidade com os doentes não se restringe aos processos formativos. No exercício clínico em Portugal, evidenciam-se estratégias que sugerem o evitamento da observação dos órgãos genitais dos homens, mesmo em situações em que estes o solicitam (de forma mais ou menos explícita) em virtude de alguma queixa ou sintoma. Entre estas estratégias realçam-se o encaminhamento para um especialista (sendo que muitas vezes os especialistas consideram o encaminhamento injustificado), a solicitação de exames complementares de diagnóstico (que passam a constituir o único meio de diagnóstico, excluído o exame físico e a observação) e a prescrição de tratamento com base nas queixas verbalizadas (Tereso, 2015).
Apesar da crescente verbalização da sexualidade (que é vista como relevante no que pode ser considerado como “processo de erotização das relações”) (Aboim, 2013), para muitos homens e profissionais, a sexualidade e o sexo são considerados aspetos íntimos (Wimberly & Moore, 2007) e os sentimentos negativos face à sexualidade, como a vergonha ou a culpa (Nettleton, 2006), parecem evidenciar-se como constrangimentos e limitações no desenvolvimento das interações.
Nos pacientes, o evitamento de assuntos respeitantes à sua saúde sexual (Wimberly & Moore, 2007) parece estar relacionado com a aparente indiferença dos profissionais no que diz respeito às questões de género na saúde, fundamentada pela falta de sensibilização e de preparação técnica (Prazeres, 2008).
No que se refere aos profissionais, destacam-se:
• O pudor dos próprios profissionais, que evitam olhar e tocar o corpo dos doentes; • A falta de formação para lidarem com situações que envolvem a proximidade física,
66 • Os modelos formativos que privilegiam o desenvolvimento de estratégias de aproximação ao corpo feminino e nos quais é desvalorizada a necessidade de aproximação ao corpo masculino (Turner, 1999);
• A constatação de que, nas práticas quotidianas, a autoridade, a rotinização e a despersonalização parecem ser consideradas funcionais quer para os profissionais, quer para os pacientes (Lupton, 1994);
• A crença de que o ambiente médico é inócuo e asséptico, logo anti-erótico, e que nesse contexto o paciente tem de ser visto como um objeto clínico (Emerson, 1987).
No entanto, para além dos aspetos descritos, centrados nos profissionais, a literatura sobre este tema realça ainda os que dizem respeito às manifestações da sexualidade dos doentes para com os profissionais, tais como os olhares insidiosos, a procura do contacto físico e até mesmo as manifestações de desejo (Mercadier, 2002; Lupton, 1994). Estes comportamentos, que por vezes desencadeiam nos profissionais reações de reprovação, recriminação e até de punição, são sobretudo evidenciados em situações que envolvem questões relacionadas com a idade, com o género e com a orientação sexual de profissionais e doentes, e apresentam contornos variáveis e significações distintas, de acordo com os contextos terapêuticos, as situações clínicas, os profissionais envolvidos e o ethos que preside às práticas profissionais.
Concretamente, no que diz respeito aos profissionais de enfermagem, são realçados alguns aspetos que parecem contribuir para a complexidade relacional:
• O tipo de atividades que os enfermeiros desenvolvem e que implicam a proximidade física e a manipulação dos órgãos genitais dos doentes (Mercadier, 2002; Lupton, 1994);
• A simbologia associada ao estatuto profissional dos enfermeiros, que os aproxima da sua identidade corporal (Lupton, 1994). Nesta questão, alguma literatura disponível realça ainda o impacto da carga erótica atribuída à figura feminina da profissão de enfermagem e à sua imagem estereotipada como objeto sexual disponível (Fagin & Diers, 1984).
Neste contexto é também relevante referir as interações nas situações de doença e as alternativas terapêuticas que interferem de forma objetiva no bem-estar sexual dos homens. Nestas situações, apesar de os doentes poderem manifestar objetivamente a necessidade de abordar o impacto das patologias e das terapêuticas na sua sexualidade e intimidade, os profissionais evitam o assunto e consideram a expressão sexual dos
67 doentes e companheiras/os como “inapropriada” face às circunstâncias. Apesar de na globalidade os profissionais de saúde considerarem pertinente a abordagem dos aspetos sexuais, a sua abordagem é evitada, quase criticada quando é solicitada pelos doentes (Kadwell, 2016). No âmago de crenças pessoais e profissionais de que as pessoas idosas ou em situação de doença são assexuais, situa-se o silêncio que resguarda o constrangimento e a inibição dos profissionais e ameaça a saúde sexual dos doentes (Royal College of Nursing, 2018).
Os sentimentos dos profissionais de saúde sobre sexualidade influenciam a forma como abordam o tema com os homens. A capacidade dos indivíduos para alcançarem a saúde sexual depende do acesso a informações compreensíveis sobre sexualidade, do conhecimento sobre o risco que enfrentam, da vulnerabilidade para as consequências adversas da sua atividade sexual, do acesso a cuidados de saúde sexual de boa qualidade e de um ambiente que afirme e promova a saúde sexual. Não obstante a importância da abordagem de aspetos relacionados com a sexualidade dos pacientes, não são raros os médicos que evidenciam ansiedade e desconforto nessa abordagem. Alguns aspetos, tais como o percurso biográfico e a religião, parecem ter um impacto significativo na moral e nos valores que os profissionais de saúde defendem em relação à sexualidade (Wimberly & Moore, 2007). Neste contexto, realçam-se dificuldades em promover um ambiente facilitador para a exposição de aspetos íntimos por parte dos pacientes. Wimberly e Moore (2007) referem que, apesar de o acesso à informação adequada sobre sexo e sexualidade ser vital para a saúde do individuo, muitos clínicos gerais, ao efetuarem a história do doente e o seu exame físico, não englobam aspetos relativos à sexualidade e consideram a história sexual do paciente como algo “privado”, que não deve ser inquirido.28
Como conclusão, realça-se o impacto dos modelos e das ideologias formativas e institucionais que enquadram as práticas dos profissionais de saúde e que se imiscuem nas interações que se pretendem terapêuticas. Habitualmente, a experiência erótica é vivida em segredo e raramente é partilhado o desconforto provocado pelo “erotismo da situação”. “Proibida, negada, apagada, disfarçada, é assim a sexualidade no hospital; o véu do silêncio recobre quase permanentemente a dimensão erótica dos cuidados.” (Mercadier, 2002: 183). Neste contexto, salienta-se que, para uma abordagem positiva das dimensões corporais e da erotização dos cuidados, é fundamental uma análise
68 transdisciplinar, desmistificar silêncios e promover a efetivação da “verbalização da sexualidade”.
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