Encadré 7 : De la tarification optimale d’usage des infrastructures au péage urbain
3.3.3 Le couplage entre la répartition modale et le choix d’heure de départ
A vida em sociedade não é algo natural. Foi através da produção dos instrumentos de trabalho e da linguagem que o homem construiu a sociedade. A vida grupal coletiva foi se tornando cada dia mais complexa na medida em que aumentou a complexidade das necessidades. Assim instrumentos de produção e formas de linguagem foram produzidos e produzindo estas complexificações, um trabalho interdependente e complementar.
Dentro da sociedade, a linguagem carrega o papel de expressão e de interação entre os indivíduos. É com ela e por ela que os indivíduos estabelecem suas relações (intrapessoais e interpessoais) e produzem as formas de suprir as suas necessidades.
Foi Leontiev (1978) que destacou que nos objetos se cristalizam as habilidades humanas, e como esta cristalização se expande nas duas direções (do objeto e do sujeito) e se condicionam mutuamente. Nos objetos construídos a partir do movimento de apropriação, consciência/subjetivação e objetivação, os homens imantam de subjetividade estes objetos tanto no produzir como no consumir.
Codo, Sampaio e Hitomi (1994c) afirmam que em toda a atividade humana está condenada à mediação. Segundo estes autores, esta mediação é ao mesmo tempo objetiva, subjetiva e transubjetiva, e ela implica necessariamente nestas três dimensões. Eles destacam que ao mesmo tempo em que as mediações estão presentes, há no gesto do homem as reações imediatizadas, ou imediatas: “meu contato com o outro, ao mesmo tempo em que espalha pelas coisas os fantasmas das pessoas, carrega um sentido primevo, o outro imediato.” (p. 188). Estes autores chamam de afeto (no sentido de "afetar, tocar", do latim affectare), a este contato imediato.
Na produção do significado, na formação da consciência humana, em qualquer que seja o modo de produção, existe sempre uma transferência de subjetividade ao produto: “trabalhar é impor à natureza a nossa face, o mundo fica mais parecido conosco e portando nossa subjetividade depositada ali, fora de nós, nos representando.” (Codo, Sampaio e Hitomi 1994c, p.188)
Entendendo desta forma, constatamos que parte de nós que foi transferida para os produtos são por sua vez também apropriadas quando o produto é apropriado. Assim, podemos dizer que os produtos são “afetados”, investidos do afeto, e, por conseguinte, influenciam o outro com este afeto.
Codo, Sampaio e Hitomi (1994c) buscam definir como historicamente o trabalho vem conformando o afeto. E distinguem grosseiramente em três períodos, em três cortes distintos nas relações afeto-trabalho:
Para eles, originalmente afeto e trabalho eram fundidos. Antes da divisão em classes sociais o trabalho se enquadra no que Marx (1985) chamou de "trabalho genérico, o metabolismo entre o homem e a natureza". Ali o instrumento de trabalho comparece como a presença do outro e a onipresença do sujeito perante o outro. Exemplificam que os homens marcavam a sua lança e eram enterrados com ela, há nas comunidades primitivas a fusão entre os homens, e destes com a natureza. Na relação homem-natureza-homem constata-se a imantação dos objetos com o afeto, observa-se isto constantemente ao nosso redor, como, por exemplo, uma criança que carrega de afeto um pedaço de pano velho que usa para dormir. Ela estabelece uma relação com este objeto, conversa com ele, e é assim que para ela é mais fácil suportar a ausência dos pais; ou ainda o homem enamorado que guarda com carinho na gaveta do escritório o primeiro presente, mesmo que coisa supérflua, inútil, que recebeu da amada, para ser
revisitado toda vez que a presença se impuser apesar do cotidiano. Os objetos então de certa forma começam também a representar as pessoas subjetivadas neles.
Um segundo período marca a relação afeto trabalho. Para Codo, Sampaio e Hitomi (1994c), com o surgimento da escravidão se instala uma dinâmica cujo centro é a existência pessoal definida pelo outro. Os afetos se anulam ao se reapresentarem com a face do senhor. Da comunidade primitiva até a crise da Idade Média, não havia distinção entre a estrutura produtiva e a estrutura reprodutiva. Nesta configuração, o afeto e o trabalho continuam fundidos. As pessoas viviam entre o outro imediato e as mediações do outro, porque não havia ruptura entre o produto e o produtor do trabalho, não havia o desligamento, não havia a alienação.
No terceiro período acontece a cisão entre o afeto e o trabalho. Para estes autores, com o advento do capitalismo o mundo enfrenta pela primeira vez a ruptura entre a produção da existência e a reprodução da vida. O mundo do trabalho e o mundo do afeto passam a se desenvolver em dois universos distintos, como, por exemplo, a fábrica e o lar. O modo de produção separa o produtor de seu produto, com o trabalho transformado em mercadoria e vendido como força de trabalho, o modo de produção transforma os trabalhos diferentes (portadores de subjetividades diferentes) em iguais. Nesta perspectiva os produtos passam a ser apenas mercadorias, mercadorias equivalentes, trocadas e vendidas no mercado. Esta transformação do trabalho em força de trabalho impede a subjetivação do indivíduo no trabalho, e empurra o ser subjetivo do homem para fora da fábrica, ficando o ser subjetivo restrito ao lar. Para Codo, Sampaio e Hitomi (1994c), ao subsumir o trabalho ao capital, o capitalismo subsume o afeto ao trabalho, pela eliminação do primeiro. Os ambientes de trabalho tornam-se impessoais e o uso do uniforme como descreve Goffman (1974, apud Codo, Sampaio e Hitomi, 1994c) despem o trabalhador dos seus "estojos de identidade". Assim, é pelo
trabalho que o capitalista elimina a marca pessoal do trabalhador, “o gesto perdeu o estilo”. Defendem estes autores que o trabalho foi transformado em força de trabalho, e plasmando as diferenças que ele mesmo inventou, ele age como agente indiferenciador perante o mercado. Como valor de troca, trabalho e trabalhador significam a mesma coisa, quantidade de trabalho injetada na mercadoria.
Segundo estes autores, quando as relações de produção se arquitetam de maneira a operar uma ruptura entre o afeto e o trabalho (tornando o primeiro restrito ao lar e a família, expulsando o segundo da produção) o trabalho ficaria desafetivado, portanto insuportável. Consequentemente, o trabalhador reage reafetivando o seu ambiente de trabalho, inventando laços e resistindo à impessoalidade do trabalho. Assim, os afetos, de certa maneira, se recriam clandestinamente.
Voltando ao conceito da duplicidade de valor do trabalho (de uso e de troca), reaparece aqui a grande contradição: O trabalho de conformador da interrelação objetividade e subjetividade quando transformado em força de trabalho age como agente indiferenciador perante o mercado. Codo, Sampaio e Hitomi (1994c) ressaltam que tanto o valor de uso como o de troca não podem desaparecer, pois são eles que dão o afeto e conformam a identidade do trabalhador. Desta forma afeto e trabalho, que inicialmente eram fundidos, agora aparecem como siameses e inimigos.
Retomemos também ao ponto da divisão do trabalho. Na vida em grupo e na busca dos meios para satisfazer as suas necessidades, o homem teve que organizar suas ações (caçar) para conseguir o fim (alimento). Foi Leontiev (1978) que melhor descreveu a evolução na consciência da organização e a divisão do trabalho. Destacou o autor que as ações individuais tiveram de ser coordenadas pelo objetivo do grupo, foi a relação social que garantiu aos homens que as suas ações individuais se transformassem
em atividade coletiva. Desde os tempos mais primitivos, a participação na atividade coletiva garantiu a cada indivíduo a sobrevivência e o sentimento de pertencimento.
Com o desenvolvimento das relações de produção, uma mesma regra foi sendo seguida, a fragmentação horizontal da tarefa. A distribuição das ações para cada membro do grupo promoveu essa fragmentação horizontal da atividade. Na atividade coletiva, quanto mais complexa a atividade, maior é o número de ações e, consequentemente, maior a distância do fim, fato que pode contribuir para a perda do motivo. Quanto maior a parcialização das tarefas maior a necessidade dos participantes da atividade estarem conscientes do fim. Em outras palavras, quanto mais parcializada a atividade, maior a necessidade do significado estar ligado ao sentido.
Codo, Sampaio e Hitomi (1994c) destacam que, em atividades hierarquizadas e burocráticas, a cada seção criada o trabalho é esmigalhado, e com ele a possibilidade de autonomia do trabalhador, pois em muitos casos são tantas chefias a quem o trabalhador é obrigado a prestar reverência que esta lida cotidiana arquiteta uma generosa rede afetiva que necessariamente tem que funcionar como uma segunda moeda corrente nas relações de trabalho.
Esta rede que se forma congrega informações e relações interpessoais que criam o mosaico do trabalho e do espaço de trabalho. Na configuração desta rede, ressalta-se o valor de uso e de troca das palavras e mensagens, sendo a linguagem a mais valiosa moeda corrente. Nesta rede, é a comunicação (linguagem) que carrega e corporifica o conhecimento e o afeto.