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No início no século XX, logo em suas primeiras décadas, surge a chamada Imprensa Negra, com o propósito de denunciar a situação de marginalidade em que se encontrava a população negra e incentivar sua integração na sociedade. Constituíram-se enquanto veículos dessa “velha imprensa negra” os jornais: Menelick(1915), Getulino(1923), Elite(1924),

Clarim d’Alvorada(1924), A Voz da Raça –da Frente Negra Brasileira107– (1933), O

Quilombo – do Teatro Experimental do Negro, entre vários outros. De acordo com a literatura que se refere à imprensa negra, o contexto de exclusão em que fora posta a população negra fez com que seu traço principal até 1930, fosse o esforço pela integração do negro na “sociedade global”:

107 O jornal A Voz da Raça era um órgão próprio de divulgação da Frente Negra Brasileira, fundada em 19

de setembro de 1931 e “o primeiro grande sucesso na tentativa de unir brasileiros de cor de pele negra numa entidade que seguia ‘modelos ocidentais modernos’ de organização política”. Decidiu-se transformá-la em partido político em 1936, mas pouco depois, com o Estado Novo, as atividades de todas as organizações políticas ficaram proibidas e “a FNB foi fechada em dezembro de 1937” (HOFBAUER, 1999, p. 294-295).

os textos, de feitio rebuscado e literário, noticiam aniversários, casamentos, eventos sociais; veiculam protestos contra o preconceito racial; incitam a educação como recurso de ascensão social; condenam o alcoolismo e as práticas boêmias. Predomina a moral puritana, valorizada como meio de obtenção de respeitabilidade e equiparação aos padrões brancos108.

A partir de 1930 com a Frente Negra e A Voz da Raça o discurso assume um forte tom de reivindicação e protesto racial, ainda que o horizonte mantenha-se integracionista e voltado para uma perspectiva que aponta a necessidade de um “adestramento”109, no sentido de

disciplinar a mente, o corpo e o comportamento para melhor acomodar-se à sociedade hegemônica e seus valores. De todo modo, com a Frente Negra consolida-se a reivindicação política.

Maria Aparecida Lopes faz uma análise de como os discursos sobre a beleza e ascensão social apareciam na Imprensa Negra paulistana de 1920 a 1940. Sua análise concentra-se nos discursos sobre o embelezamento negro especificamente em o “Clarim d’Alvorada”, o “Progresso” e “A Voz da Raça”, a partir dos quais a autora afirma:

os três jornais alternativos concluíram que se a comunidade negra se excluísse das ridicularizações físicas, se adotasse o padrão de beleza da época, poderia igualar-se corporalmente aos brancos. Nesta etapa final os negros alcançariam o posto do que era ser belo na época, bem como garantiriam para si uma integração maior dentro da sociedade paulistana110.

A análise realizada por Lopes parece também mostrar a associação a que nos referimos e que se encontra consubstanciada no termo estética: aquela entre aparência física, valores e comportamentos. O trecho seguinte, a nosso ver, parece demonstrar como tais associações integrantes de nosso imaginário social aparecem no discurso da imprensa negra que busca caminhos para uma integração do negro na sociedade da época. A imprensa negra parece ter concluído que o caminho para alcançar a tão almejada integração da população negra passaria por uma mudança no trato do corpo e nos comportamentos implicando uma adequação ao modelo aceito na época. Como afirma Lopes:

Naquela época, as imagens consideradas positivas serviram como exemplo para os negros "desarrumados" da cidade; "desarrumados", que desde a escravidão eram inferiorizados porque[...] possuíam

uma "epiderme de cor mais escura e traços menos delicados", traços julgados grosseiros (de má qualidade, malfeitos, rudes,

108 SODRÉ, 1999, p. 239.

109 ROSA afirma que para o Teatro Experimental do Negro, que convive com a Imprensa Negra do pós

1930 e da qual faz parte seu jornal – O Quilombo–, o termo “adestramento” consistiria numa estratégia que, no limite, pretendia inverter a visão de inferioridade que impera sobre a imagem do negro (2007, p. 102-105). A autora ressalta o papel educativo a que se propunham os órgãos da imprensa negra dessa época.

incivis, indelicados) em oposição aos traços delicados (afáveis, corteses, educados)111

O trecho acima mais uma vez nos mostra que a inferiorização da população negra passa por relações estabelecidas entre pele escura e traços considerados grosseiros, indelicados que supostamente derivariam uma incivilidade (já que os traços “malfeitos” eram também “incivis”); ao contrário, os traços corpóreos, fenotípicos ou diacríticos considerados delicados estavam associados à educação, afabilidade e cortesia.

Não se pode deixar de registrar que, ainda que sua própria visão estivesse em boa medida imersa no padrão hegemônico, já nesse momento os órgãos da imprensa negra percebiam a importância da valorização do corpo negro e da eleição de ícones da beleza dentro da população negra. Segundo Maria Ap. de O. Lopes, foi a partir de um desses órgãos da imprensa negra que se realizou em 1923 o “concurso de beleza feminino da cidade de Campinas, onde ocorreu o primeiro concurso de beleza negra organizado pelo movimento negro, ou mais especificamente promovido pelo jornal “Getulino” da década de 20112. São

poucas as informações sobre as modelos e as concepções que orientaram o julgamento da beleza do concurso, bem como outros realizados posteriormente, como é o caso daquele realizado pelo jornal “Progresso”. De acordo com as informações que a autora fornece, os jornais realizadores do concurso estabeleciam acordos com lojas e outros estabelecimentos comerciais que patrocinavam o evento. Ao que parece, a os critérios para a eleição da representante da beleza negra tinha mais em conta comportamento e modos apropriados, gosto sobre moda(aludindo aos modos adequados de se vestir em concordância com os padrões do momento), bem como o prestígio social da família da moça, que se configuravam nos elementos considerados como formadores da representação ideal da mulher negra, de forma bastante consoante com os ideais da sociedade da época. Vejamos segundo Lopes o que foi publicado pelo jornal Getulino sobre a vencedora de seu concurso.

Inteligência aguda e clara, typo de creatura fina e distincta, exprimindo-se com facilidade, apóiam o colorido da phrase na encantadora mobilidade da physionomia em que paira, por vezes, um sorriso de ironia leve, ou aza de ideal melancolia brandamente tosca, para a tornar mais doce e mais bella, se possível a senhorinha Lais de Moraes, e em extremo gentil, não se furta, a quem a procura, nem mesmo, as pessoas que pretendem hostilizal-a, como se ella tivesse culpa de... ser bonita113

111 LOPES, 2002b, p.25. Grifo meu. 112 Ibid, p.119.

O julgamento da beleza aqui reforça e prioriza atributos como inteligência e gentileza, bem como o fato de ser a moça uma criatura fina e distinta, dando a impressão que os símbolos de educação e posição social importavam mais que a beleza física, ajudando na realidade a constituí-la. Tendo em vista que essa imprensa negra tinha uma enorme preocupação com a inclusão dos negros nos padrões morais e de comportamento da sociedade da época, faz-se absolutamente compreensível a ênfase nesses atributos; que parecem buscar contrapor um modelo ideal de comportamento ao comportamento recriminado da maioria dos negros pobres do período. De certa forma isso estará presente também nos concursos de beleza realizados pelo Teatro Experimental do Negro, que veremos adiante, ainda que o TEN apresente um discurso mais politizado e proponha uma valorização da imagem do negro menos imersa nos valores hegemônicos.

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