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A teoria de representações de álgebras de Lie tem um papel fundamental no estudo das mesmas, pois através de uma representação podemos descrever uma álgebra de Lie como uma álgebra de transformações lineares, o que algumas vezes pode facilitar bastante o trabalho.

Nesta subseção veremos apenas os resultados principais a respeito do assunto, e maiores detalhes podem ser encontrados em [4] e [15].

Definição A.2.18. Sejam V um espaço vetorial, e gl(V ) a álgebra de Lie das transformações lineares de V . Seja também g uma álgebra de Lie (sobre o mesmo corpo de escalares de V ). Uma representação de g em V é um homomorfismo

ρ : g −→ gl(V ).

Na terminologia usual, V se denomina o espaço da representação, enquanto sua dimensão é a dimensão da representação. Uma representação ρ é dita fiel se Kerρ = {0}.

Notemos que, sempre que uma representação for fiel, pelo TeoremaA.2.16, podemos olhar para g como uma subálgebra da álgebra de Lie das transformações lineares de V .

Exemplo A.2.19. (a) Se g ⊆ gl(V ) é subálgebra, a inclusão define, de modo trivial, uma repre- sentação de g em V , denominada representação canônica;

(b) A aplicação a b c −a ! ∈ sl(2, K) 7−→    2a −2b 0 −c 0 b 0 2c −2a   ∈ gl(3, K)

é uma representação de sl(2, K). De fato, seja a base {X, H, Y } de sl(2, K), em que

X = 0 1 0 0 ! H = 1 0 0 −1 ! Y = 0 0 1 0 ! .

146 NOTAÇÃO, DEFINIÇÕES E RESULTADOS BÁSICOS A.2 Suas constantes de estrutura são dadas por

[H, X] = 2X [H, Y ] = −2Y [X, Y ] = H.

As imagens dos elementos dessa base formam uma base de Imρ, que tem as mesmas constantes de estrutura.

Definição A.2.20. Um módulo à esquerda sobre uma álgebra de Lie g é um espaço vetorial V sobre o mesmo corpo de escalares de g, juntamente com uma lei de composição externa g×V −→ V , denotada por (X, v) 7−→ Xv, que satisfaz, para X, Y ∈ g, u, v ∈ V e um escalar x, as seguintes propriedades:

(a) (X + Y )v = Xv + Y v;

(b) X(u + v) = Xu + Xv;

(c) (xX)v = X(xv);

(d) [X, Y ]v = XY v − Y Xv.

Notemos que, simetricamente, podemos definir um módulo à direita. Porém, neste texto, sem perda de generalidade, ao nos referirmos aos módulos sobre uma álgebra de Lie, estaremos tratando de módulos à esquerda.

Observação A.2.21. Em um módulo V , cada X ∈ g define uma aplicação linear de V por multi- plicação à esquerda:

v ∈ V 7−→ Xv ∈ V.

Em virtude das propriedades de módulo, essas aplicações lineares definem uma representação de g em V . Vice versa, dada uma representação ρ de g em V , o produto g × V −→ V dado por

(X, v) 7−→ Xv = ρ(X)(v)

define um módulo sobre g. Em outras palavras, os conceitos de módulo e de representação são equivalentes.

Definição A.2.22. Para um elemento X na álgebra de Lie g, considere a transformação linear

ad(X) : g −→ g

definida por ad(X)(Y ) = [X, Y ]. A aplicação

ad : X ∈ g 7−→ ad(X) ∈ gl(g)

define uma representação de g em g, denominadarepresentação adjunta. O fato de ad ser linear provém da bilinearidade do colchete. Já a propriedade de homomorfismo de ad é equivalente à

A.2 ÁLGEBRAS DE LIE 147 identidade de Jacobi. De fato, a igualdade ad([X, Y ]) = ad(X)ad(Y ) − ad(Y )ad(X) é a mesma que

[[X, Y ], Z] = [[X, Z], Y ] + [X, [Y, Z]], para todo Z ∈ g.

Definição A.2.23. O núcleo da representação adjunta é denominado centro de g e é denotado por z(g):

z(g) = {X ∈ g | ad(X)(Y ) = [X, Y ] = 0, para todo Y ∈ g},

isto é, o centro de uma álgebra de Lie é o conjunto de seus elementos que comutam com todos os seus elementos. Notemos que z(g) é um ideal abeliano de g.

Podemos generalizar a definição acima para qualquer subconjunto A ⊆ g, como segue:

Definição A.2.24. O centralizador de um subconjunto A ⊆ g é definido como

z(A) = {Y ∈ g | ∀X ∈ A, [X, Y ] = 0}.

Se A = g, as definições de centro e centralizador coincidem. O centralizador de qualquer A ⊆ g é uma subálgebra de g, pois se X, Y ∈ z(A) e Z ∈ A, então

[[X, Y ], Z] = [[X, Z], Y ] + [X, [Y, Z]] = 0,

já que [X, Z] = [Y, Z] = 0.

Definição A.2.25. Uma representação ρ de uma álgebra de Lie g em um espaço vetorial V é dita irredutível se os únicos subespaços invariantes por ρ são V e {0}, o que é equivalente a dizer que V , como g-módulo, não possui submódulos próprios.

Definição A.2.26. Uma representação ρ de uma álgebra de Lie g em um espaço vetorial V é dita completamente redutível se V se decompõe como uma soma direta de subespaços invariantes tais que a restrição de ρ a cada um deles é irredutível, isto é, como g-módulo, V é uma soma direta de g-submódulos irredutíveis. As representações completamente redutíveis são também denominadas representações semissimples.

Notemos que uma representação irredutível é sempre completamente redutível.

Definição A.2.27. Uma aplicação linear D : g −→ g é uma derivação da álgebra de Lie g se satisfaz

D([X, Y ]) = [D(X), Y ] + [X, D(Y )], para todo X, Y ∈ g.

Um exemplo de derivação que surge com frequência são as adjuntas dos elementos de g. Utilizando a identidade de Jacobi, para todo Z ∈ g, temos

ad(X)([Y, Z]) = [X, [Y, Z]] = [[X, Y ], Z] + [Y, [X, Z]] isto é, ad(X)([Y, Z]) = [ad(X)(Y ), Z] + [Y, ad(X)(Z)],

148 NOTAÇÃO, DEFINIÇÕES E RESULTADOS BÁSICOS A.2 Definição A.2.28 (Série Derivada). Seja g uma álgebra de Lie. Para dois subconjuntos A e B quaisquer de g, denotaremos por [A, B] o subespaço de g

[A, B] =< {[X, Y ] | X ∈ A, Y ∈ B} > .

Definimos então, por indução, os seguintes subespaços de g:

g(0) = g g0 = [g, g]

.. .

g(k)= [g(k−1), g(k−1)].

Esses subespaços são ideais de g, pois para quaisquer ideais i, j de g, a identidade de Jacobi implica que [i, j] é um ideal de g.

Essa sequência de ideais é conhecida como série derivada de g e suas componentes são as álgebras derivadas de g.

Exemplo A.2.29. Seja g = sl(2, R). Então, g = g0 e, portanto, g(k)= g, para todo k ≥ 0. De fato, sejam X = 0 1 0 0 ! H = 1 0 0 −1 ! Y = 0 0 1 0 ! .

Então, [H, X] = 2X, [H, Y ] = −2Y e [X, Y ] = H e, portanto, X, Y e H estão em g0. Como {X, H, Y } é uma base de g, então g0 = g. A mesma afirmação vale para sl(2, K), desde que K seja um corpo de característica diferente de 2.

Se a característica é 2, g0 é o subespaço de g gerado por H e, portanto, g00= {0}.

Definição A.2.30 (Álgebras Solúveis). Uma álgebra de Lie g é solúvel se alguma de suas álgebras derivadas se anula, isto é,

g(k0)= {0},

para algum k0 ≥ 1 (e, portanto, g(k)= {0} para todo k ≥ k0).

Exemplo A.2.31. Um exemplo clássico de álgebra solúvel são as álgebras de Lie das matrizes triangulares superiores sobre um corpo K:

g= {       ∗ ∗ · · · ∗ 0 ∗ · · · ∗ .. . ... . .. ... 0 0 · · · ∗       n×n }, em que g(n)= {0}.

A.2 ÁLGEBRAS DE LIE 149 (a) Se g é solúvel, e h ⊆ g é subálgebra, então h também é solúvel (em particular, um ideal de

uma álgebra solúvel é também solúvel);

(b) Se g é solúvel e h ⊆ g é um ideal, então g/h também é solúvel.

(vide [15, p.46])

A partir do resultado acima, podemos afirmar que imagens homomórficas de álgebras solúveis são também solúveis. De fato, se ϕ : g −→ h é um homomorfismo sobrejetor de álgebras de Lie, pelo Teorema A.2.16, g/Kerϕ ∼= h e, pela proposição acima, g/Kerϕ é solúvel, já que Kerϕ é um ideal de g.

Proposição A.2.33. Sejam g uma álgebra de Lie e h ⊆ g um ideal. Suponha que tanto h quanto g/h sejam solúveis. Então, g é solúvel.

(vide [15, p.47])

Definição A.2.34 (Série Central Descendente). Seja g uma álgebra de Lie. Definimos, por indução, a série central descendente como

g1 = g

g2 = [g, g] = g0 ..

.

gk= [g, gk−1].

Como o produto de ideais é ideal, segue que gk é um ideal de g, para todo k ≥ 1. Assim, temos gk+1 = [g, gk] ⊆ gk, o que nos dá uma cadeia descendente de ideais

g1= g ⊇ g2 ⊇ ... ⊇ gk⊇ ...

Definição A.2.35. Seja g uma álgebra de Lie. Diremos que g é nilpotente se sua série central descendente se anula em algum momento, isto é, gk0 = {0}, para algum k

0 ≥ 1 (e, portanto, gk = {0}, para todo k ≥ k0).

Proposição A.2.36. Seja g uma álgebra de Lie nilpotente.

(a) Se h ⊆ g é subálgebra, então h é nilpotente;

(b) Se h ⊆ g é um ideal, então g/h é nilpotente.

(vide [15, p.48])

Proposição A.2.37. Seja g uma álgebra de Lie. Então, sua série derivada tem decrescimento mais rápido do que sua série central descendente, isto é,

g(k)⊆ gk+1,

150 NOTAÇÃO, DEFINIÇÕES E RESULTADOS BÁSICOS A.2 (vide [15, p.45])

Notemos que a proposição acima nos permite concluir que álgebras nilpotentes são solúveis. A afirmação contrária porém, não é sempre verdadeira. Para obter um exemplo disso, basta observarmos que a álgebra de Lie das matrizes triangulares superiores é solúvel, mas não nilpotente. Um outro exemplo de álgebra solúvel que não é nilpotente é a álgebra de dimensão dois não abeliana. Para essa álgebra, gk6= {0}, se k ≥ 2, mas g00= {0}.

Exemplo A.2.38. O centro de uma álgebra de Lie nilpotente não é trivial. De fato, existe k ∈ N tal que gk6= {0} e gk+1 = {0}. Assim, [g, gk] = gk+1 = {0} e, portanto, gk⊆ z(g).

No entanto, o centro de uma álgebra solúvel pode se anular; é o que ocorre, por exemplo, com a álgebra não abeliana de dimensão dois.

Proposição A.2.39. Seja g uma álgebra de Lie de dimensão finita. Então, existe em g um único ideal solúvel τ ⊆ g que contém todos os ideais solúveis de g. Esse ideal é chamado de radical solúvel de g, e usamos a notação τ (g).

(vide [15, p.49])

Na verdade, o resultado é mais geral, pois é possível prová-lo também para álgebras de Lie de dimensão infinita.

Definição A.2.40. Uma álgebra de Lie g ésemissimples se não contém ideais solúveis além do ideal trivial {0}.

Definição A.2.41. Uma álgebra de Lie g é simples se

(a) Os únicos ideais de g são {0} e g, e

(b) dim g 6= 1.

Exemplo A.2.42. sl(2, R) é simples. De fato, consideremos uma base formada pelos elementos

X = 0 1 0 0 ! H = 1 0 0 −1 ! Y = 0 0 1 0 ! .

Os colchetes entre eles são dados por [H, X] = 2X; [H, Y ] = −2Y e [X, Y ] = H. Suponha que exista um ideal I de sl(2, R) tal que I 6= {0} e considere Z = aX + bH + cY ∈ I, com a, b, c ∈ R e pelo menos um deles não nulo. Então,

ad(X)(Z) = −2bX + cH e ad2(X)(Z) = −2cX,

de onde temos que Z, ad(X)(Z) ou ad2(X)(Z) é múltiplo não nulo de X, isto é, X ∈ I. Como H = −[Y, X] e I é ideal, então H ∈ I; e como Y = 1/2[Y, H], temos que Y ∈ I, pelo mesmo motivo. Assim, I = sl(2, R), e sl(2, R) é simples.

Observação A.2.43. Conforme Teorema 4.25 em [4], temos que sl(n, C) é simples, para qualquer n ∈ N. Na verdade, sl(n, K) é simples sempre que K for um corpo de característica diferente de dois.

A.3 ÁLGEBRAS DE LIE 151 Observação A.2.44. O centro de uma álgebra de Lie é um ideal abeliano e, portanto, solúvel como álgebra de Lie. Assim, o centro de uma álgebra semissimples é trivial.

Observação A.2.45. Como o centro de uma álgebra de Lie g semissimples é trivial, então a representação adjunta dessa álgebra é uma representação fiel, pois o centro de uma álgebra de Lie é o núcleo de sua representação adjunta. Assim, podemos "olhar"para uma álgebra de Lie semissimples como uma subálgebra de gl(g).

Definição A.2.46. Sejam g uma álgebra de Lie, e h uma subálgebra. O normalizador de h é definido como

n(h) = {X ∈ g | [X, h] ⊆ h}.

n(h) é uma subálgebra de g. De fato, sejam X, Y ∈ n(h), H ∈ h. Então,

[[X, Y ], H] = [[X, H], Y ] + [X, [Y, H]],

pela Identidade de Jacobi. Como [X, H] ∈ h e [Y, H] ∈ h, temos que [[X, Y ], H] ∈ h, o que nos dá o resultado desejado.

Definição A.2.47. ([18, p.635]) Seja g uma álgebra de Lie. Uma subálgebra h de g é chamada de subálgebra de Cartan de g se:

(a) Todo elemento h ∈ h é localmente nilpotente em h, isto é, fixando h ∈ h, para todo h0 ∈ h, existe m0∈ N tal que adm0(h)(h0) = 0;

(b) h é seu próprio normalizador em g.

Definição A.2.48. ([18, p.640]) Seja g uma álgebra de Lie de dimensão finita. Uma subálgebra h de g é chamada de subálgebra de Cartan de g se:

(a) h é nilpotente, e

(b) h é seu próprio normalizador em g.

Exemplo A.2.49. Ao considerarmos g = sl(2) (sobre um corpo K de característica diferente de 2),

h= { a 0

0 −a !

, a ∈ K} é uma subálgebra de Cartan, pois h é abeliana e, considerando

{X = 0 1 0 0 ! , H = 1 0 0 −1 ! , Y = 0 0 1 0 ! }

temos [H, αX + βH + γY ] = 2αX − 2γY , com α, β, γ ∈ K, que está em h se e só se α = γ = 0, o que nos mostra que h é igual ao seu normalizador.

Observação A.2.50. Conforme Proposição 4.26 em [4], o conjunto das matrizes diagonais em sl(n, C) tem dimensão n − 1 e é uma subálgebra de Cartan de sl(n, C), para todo n ∈ N.

152 NOTAÇÃO, DEFINIÇÕES E RESULTADOS BÁSICOS A.3

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