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Fiz contato com um oficial de alto escalão – como já mencionado – para apresentar a minha pesquisa e conseguir a autorização, no melhor dos cenários, já de imediato. O oficial me recebeu com deferência e respeito, parte por ser popularmente tido como uma pessoa carismática e “gente boa”, parte por sermos conhecidos, pois participamos de algumas iniciativas desenvolvidas na PM. Sua posição hierárquica lhe permitiu conceder a permissão. Em outros momentos, quando a instituição foi comandada por policiais mais avessos à pesquisa e, sobretudo, a um tema que poderia contribuir para a formação ou consolidação de uma imagem negativa, a autorização teria sido negada. Negar no modus operandi policial pode significar não responder ao pedido, sem justificativa. Esse fato exemplifica que até a negação não é assumida, mas, pelo contrário, velada, como uma forma de não responder pelo ato de negar. Esse fenômeno pode ser ilustrado no ditado popular: “o uso do cachimbo deixa a boca torta”.

Durante a reunião de apresentação do meu projeto de tese, depois de explicar “rapidamente” (já que os oficiais têm sempre uma burocracia extensa e diária para cumprir, com urgências sobrepondo outras urgências) que o fator tempo sofre racionamento, recebi o esperado “aceite”. Assim, o passo seguinte foi materializar a aprovação em um ofício, de fato o passe de entrada “no preto e no branco”. A definição das unidades a serem abordadas também ocorreu nesse momento porque aproveitei para identificar qual seria a UPP com a experiência mais consolidada, segundo a PM. Foi apontada a UPP Santa Marta, a unidade mais antiga, sendo essa favela a primeira em que foi implantado tal policiamento.

Com a autorização garantida e a definição da unidade policial, a próxima etapa foi conseguir os contatos dos comandantes para que pudesse apresentar a mim e ao projeto de pesquisa novamente. Para tal, fiz contato com o EMG, que me cedeu os telefones dos comandantes. Em seguida, primeiramente, procurei o comando das UPP, repetindo esse ritual de apresentação, para, posteriormente, enviar a autorização por e-mail. Nessas conversas, depois afirmar que a pesquisa foi autorizada, chega o pedido “me envie a autorização”. Depois de comprovar tudo o que foi perguntado, fase consecutiva é a de fazer contato com os comandos das unidades a serem abordadas. E, mais uma vez, passar pelos questionamentos das instâncias superiores. O percurso para a autorização demorou algumas semanas, que, para os prazos do doutorado, acabou por gerar atraso no cronograma previsto. E tais atrasos vão gerando outras delongas, assim gerando uma bola de neve em declive – difícil de parar.

Diante do fim da jornada de autorização, comecei, por fim, as entrevistas na UPP Santa Marta, depois de entrar em acordo com o comando da unidade sobre qual seria a estratégia de seleção dos policiais. Como o meu interesse de pesquisa está centrado no trabalho de polícia, escolhi entrevistar os praças. Definido isso, foi preciso identificar a forma de abordá-los e o local junto ao comando. Como trabalham por escala, a hipótese de entrevistá-los depois do

sua segunda jornada de trabalho – o famoso “bico” – ou simplesmente vão cuidar de sua vida pessoal e, principalmente, descansar. Por isso, não se pode contar com eles depois do trabalho. Para entrevistá-los, tive de abordá-los durante o expediente na PM. Para tal, foi necessária uma convocação formal do comando, ou seja, não foi uma participação voluntária, pelo menos inicialmente.

Ainda faltava identificar o local das entrevistas. Esse é um assunto complexo, já que não podiam sair da área de trabalho, que é o próprio morro, exceto com autorização prévia. Para isso, seria necessário disponibilizar uma viatura para o transporte. Isso significaria garantir organização e logística, além de contar com a sorte de não ter as viaturas ocupadas por qualquer outra razão prioritária. Outro cenário seria conseguir uma instituição local que pudesse ceder um espaço para as entrevistas. Essa opção demanda a garantia de um espaço onde não se pudesse escutar a entrevista e que aceitasse receber os policiais. Apesar da UPP estar há um tempo considerável na favela, já que foi inaugurada em 2008, a relação entre moradores e policiais permanece em construção. Há ressentimentos, desconfiança e medo dos policiais e, portanto, franquear esse espaço não se mostrou, no fim, como uma alternativa.

Restou a UPP, que, no Santa Marta, ocupa um edifício no qual funcionava uma instituição de ensino. No entanto, o prédio estava passando por reformas, o que reduziu em muito os espaços utilizáveis para essa finalidade. Decidi fazer as entrevistas nas instalações da UPP, tendo de adaptar o espaço para assegurar a devida privacidade, mudando de um lado a outro, movimento que eles também faziam para atender às demandas da reforma. Fiz entrevistas em vestiários, salas de trabalho e qualquer outro espaço disponível que oferecesse privacidade. Os policiais, durante seu turno de trabalho, deixavam seu local de plantão pelo tempo da entrevista, regressando logo em seguida. Fiz as entrevistas durante algumas semanas, assim procedendo com quem estava de plantão no momento. Essa foi a estratégia mais aleatória possível em termos de seleção de entrevistados. Mesmo com a “determinação” do comando

para a participação dos entrevistados e dos limites do espaço para a iniciativa, os resultados foram satisfatórios.

Inicialmente, estabeleci uma meta de 20 (vinte) entrevistas, mas, durante a primeira semana de pesquisa, percebi que não seria possível chegar a esse total estimado. A estratégia, por fim, desenhada como o comando, foi a de, a cada dia, convocar alguns policiais de plantão, sem prejudicar as atividades desenvolvidas. Isso se traduz em “vamos ver quantos policias será possível tirar do plantão”. Como estratégia de inserção no campo, a entrevista em um lugar fora do morro foi a mais factível pelo fato de o policiamento no morro ser realizado por meio de rondas pelo território. Para isso, os policiais estão necessariamente acompanhados por um ou mais colegas, fato este que não lhes garante privacidade para a entrevista. As escadarias do morro são a única via de circulação dentro da comunidade, que passam muito próximo das residências, o que permite que as conversas, tanto dentro quanto fora das casas, sejam escutadas. Essas características também prejudicariam a privacidade necessária: o trabalho da polícia na comunidade se realizava pelo deslocamento permanente pelo território, com pequenos espaços para descansar. Por essas questões, o local de trabalho dos policiais não se configurou como uma alternativa produtiva. A escolha por fazer a entrevista em um local fixo foi a que mais se adequou às especificidades do perfil de atividades policiais no local.

Ao alcançarmos a terceira semana, notei cansaço por parte dos que convocavam, pois a retirada de policiais dos seus locais de trabalho parecia estar incomodando. O campo estava me dizendo “até aqui está bom”, ou seja, não havia mais condições para seguir com a rotina necessária. Por isso, foram realizadas dez entrevistas ao todo. Desse montante, oito foram com homens e duas com mulheres. Entre os policiais entrevistados, foram nove soldados, além de um cabo. Entrevistei, ainda, a então comandante da UPP.

3.2.3. PERFIL DOS ENTREVISTADOS

Quadro 7: UPP Santa Marta

Grau hierárquico

Sexo Idade Tempo

de trabalho na PM Tempo de trabalho na UPP Grau de formação

Policial 1 Soldado F 35 2 anos 1 ano Ensino médio Policial 2 Soldado M 24 4 anos 3 anos Superior

incompleto Policial 3 Soldado M 28 4 anos 1 mês Ensino médio Policial 4 Soldado M 35 2 anos e 7

meses

5 meses Ensino médio

Policial 5 Soldado M 30 3 anos 1 ano e 6 meses

Superior incompleto Policial 6 Soldado F 34 2 anos 6 meses Ensino médio Policial 7 Soldado M 28 2 anos 4 meses Ensino médio Policial 8 Soldado M 26 2 anos 1 ano Superior

incompleto Policial 9 Cabo M 33 8 anos 7 anos Ensino médio Policial 10 Soldado M 28 2 anos 1 ano Ensino médio Policial 11 1º Tenente F 31 7 anos 2 meses Pós-graduação

Quadro 8: 2º BPM Grau hierárquico Sexo Ida de Tempo de trabalho na PM Tempo de trabalho na UPP Grau de formação

Policial 1 Sargento M 44 20 anos 19 anos Ensino médio Policial 2 Soldado M 27 2 anos 1 ano e 6

meses

Ensino médio Policial 3 Soldado F 30 3 anos 3 anos Superior

incompleto Policial 4 Soldado M 30 2 anos 1 ano e 6

meses

Superior incompleto Policial 5 Soldado M 35 2 anos 1 ano Ensino

médio Policial 7 Coronel M 48 25 anos 4 meses Pós-

graduação Fonte: PMERJ

Esse desenho metodológico resultou em quinze entrevistas com praças e duas com oficiais. O conteúdo coletado e a observação de campo foram suficientes para o que se pretendia. No Brasil, já disponho de outros trabalhos realizados junto a PM, inclusive a minha dissertação de mestrado – fato que me permite partir de um ponto inicial nesta pesquisa já com uma base de conhecimento anterior. Além disso, a produção bibliográfica sobre o tema também aporta um valioso background.

Outras entrevistas

Com o propósito de ampliar a minha base de investigação, entrevistei o comandante do CEFAP, onde ocorrem a formação os e demais cursos de aperfeiçoamento profissional para praças, e o PM342 da PMERJ. Isso contribuiu para que eu pudesse compreender o processo de

formação dos praças, o qual imputa nos policias valores culturais e o modus operandi da PM.

Notou-se, em algumas entrevistas, disponibilidade e interesse de imediato dos entrevistados; com outros, o interesse foi surgindo durante a conversa. Não houve quem não tenha se envolvido com a entrevista a partir de um determinado momento. Não percebi resistência ou temor de responder as perguntas, pelo contrário, via de regra, sentiram-se à vontade no espaço de entrevista. Essa característica talvez se explique pelo fato de as UPP serem alvo de diversas pesquisas. De fato, ao me apresentar na UPP, alguns policiais perguntaram se eu pertencia a alguns núcleos de pesquisas que conhecem por já terem passado pelo processo de entrevistas. Eles comentaram: “Já fizeram muitas entrevistas nas UPP. Todo mundo quer saber sobre as UPP”. Isso me impeliu a crer que estão acostumados com entrevistas, o que pode explicar o não estranhamento ao meu trabalho de pesquisa.

Depois de finalizadas as entrevistas, foi possível perceber que as falas estavam alinhadas em termos de visão sobre a autonomia policial, ou seja, as respostas eram semelhantes a ponto de se pensar que havia algo errado. O “problema” poderia estar no roteiro, ou no perfil dos entrevistados, já que majoritariamente entrevistei soldados que tinham passado a maior parte de seu tempo de trabalho em UPP, desenvolvendo uma ação de polícia circunscrita à realidade das favelas. Diante do cenário descrito, pareceu necessário testar o roteiro. Para tal, tomei como referência o 2º BPM, um batalhão tradicional de polícia localizado no bairro de Botafogo. Tendo definida essa unidade, fiz contato com o seu comando. A UPP Santa Marta está ligada

42 A gestão da PM se divide em seções, em total de cinco. A 3ª Seção, chamada PM3, é responsável pelo

administrativamente ao 2º BPM, o qual mantém os equipamentos, armamento e viaturas. O 2º BPM cobre os seguintes bairros: Botafogo, Cosme Velho, Glória, Flamengo e Aterro do Flamengo. Esses bairros emprestam ao batalhão diversidade de ocorrências, o que parece ser oportuno para testar o roteiro.

Após acertar os detalhes e necessidades para a realização das entrevistas – espaço reservado e com privacidade –, defini com o comando um calendário de entrevistas. Nessa unidade, consegui entrevistar seis policiais, além do comandante. Foi decisivo testar o roteiro, pois pude afastar o fantasma que me assombrava, até porque foi validado pelo fato de os resultados apontarem visões distintas sobre assuntos centrais da pesquisa. Isso afastou a possibilidade de o roteiro não estar alcançando o objetivo, já que, ao mudar o perfil dos entrevistados, pontos de vista diferentes foram surgindo. Essa constatação acabou por gerar mais confiança no roteiro, que foi o mesmo adotado na Colômbia, com as necessárias adaptações.