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Este segundo momento desenvolverá uma reflexão sobre o que consiste o compatibilismo em teoria da ação, em geral, e o compatibilismo hobbesiano, em particular, fazendo a de- fesa do compatibilismo em Hobbes.

Assumiremos a já consagrada definição emprestada de Ro- bert Kane que afirma que o compatibilismo é

A visão de que realmente não existe conflito entre o determinismo e o Livre arbítrio – e que livre arbítrio e determinismo são compatíveis - é conhecido como Compatibilismo; e ele é a primeira perspectiva sobre o livre arbítrio que nós devemos considerar. O Compati- bilismo tornou-se uma doutrina cada vez mais popular na filosofia moderna porque fornece o que parece ser uma solução pura e simples para o problema do livre arbítrio. Se realmente não existe conflito entre o livre arbítrio e o determinismo, como dizem os compatibilis- tas, então o antigo problema do livre arbítrio está resol- vido de uma vez.71

O próprio Hobbes autodeclara a possibilidade e a sua adesão ao compatibilismo ao afirmar que “A liberdade e a necessi-

71 – Kane, R. (2005). A contemporary introduction to free will (p. 12). Nova Iorque: Oxford University Press. (“The view that there is really is no con- flict between determinism and free will—that free will and determinism are compatible—is known as compatibilism; and it is the first view about free will we shall consider. Compatibilism has become an increasingly popular doctrine in modern philosophy because it provides what seems to be a neat, simple solution to the free will problem. If there really is no conflict between free will and determinism, as compatibilists say, then the age-old problem of free will is resolved in one fell swoop”).

dade são compatíveis, o que ocorre com a água que não tem apenas liberdade, mas também a necessidade de descer pelo canal, também ocorre com as ações que os homens volunta- riamente praticam”.72

Vê-se claramente que Hobbes exige em sua asserção que a liberdade e a necessidade se expressem na realidade como mutuamente condicionantes e que seu compatibilismo im- plica ausência de constrangimento, determinação causal e deliberação segundo quid est.

Compatibilismo é toda teoria que defende a possibilidade de a realidade ser um misto composto de liberdade e neces- sidade, e que estes polos da ação humana não são autoe- xcludentes. Há toda uma gama de nuances na atualidade acerca destas questões, posto que o determinismo hard está em franco declínio na contexto contemporâneo, havendo raríssimos pensadores que, hodiernamente, o defendam. São compatibilistas pensadores como Hobbes, Hume, Stuart Mill e Hegel, por exemplo, e cada um ao seu modo, defen- dem a explicação da ação humana pela unidade entre a li- berdade e a necessidade.

Demonstrou-se ou espera-se tenha sido demonstrado, que em Hobbes o compatibilismo é matizado pelos seguintes momentos: (i) a constituição da ação desdobrando-se em disposição interna capaz de agenciar o movimento e em au- sência de impedimento externo que o obstacularize. Agora vamos nos colocar de modo prático neste universo do compatibilismo com um exemplo que lhe seja favorável. Imaginemos então que o indeterminismo está correto e que eu escrevi este texto sobre Hobbes e defendi a identidade entre liberdade e necessidade.

Estando a perspectiva indeterminista ou libertária correta, como seria possível explicar minha escolha e o próprio in- determinismo se todas as possibilidades se colocaram e eu não tinha condições de deliberar e refletir acerca delas dado seu caráter indeterminado?

Não se deve olvidar que o indeterminismo exige unidade de passado e pluralidade de futuros!

Tomemos um outro exemplo a favor do compatibilismo, em geral, e daquele hobbesiano em particular. Imaginemos que enquanto seres morais nós podemos fazer escolhas e que estas determinam nosso ser no mundo, adicionemos a isso a ideia de que o indeterminismo está correto, eis que surge o seguinte problema.

Estando certo que a realidade é indeterminada causalmen- te, como seria possível pensar uma ordem moral dado que é pré-condição da moralidade o estabelecimento de uma or- dem hipotético-condicional, baseada em descritores modais como poder, dever, ter que, etc?

Parece que a natureza indeterminística da realidade impe- de a natureza moral da realidade, entretanto, parece que há mais crenças, razões e argumentos para ficar com a mora- lidade, mesmo com toda sorte de dificuldades que ele nos traz, do que com o indeterminismo e a quase nominalização do mundo da vida e sua implosão discursiva.

Vejamos como um autor importante em filosofia como Peter van Inwagen descreve o estado da arte desta impossibili- dade do indeterminismo em seu texto intitulado Sobre dois

PAR TE 2 – ÉTI CA E D IREITOS HUMAN OS

argumentos para o compatibilismo

Se as ações de um indivíduo fossem indeterminadas, elas seriam “casuais e imprevistas”; elas não seriam atos mais livres do que seriam se fossem causados pelas manipulações do sistema nervoso desse indivíduo por um demônio bizarro. Portanto, ação livre não é mera- mente compatível com o determinismo; ela implica o determinismo.73

É claro que no texto em apreço parece que Inwagen está in- determinado em sua escolha, mas vamos, por hipótese ad- mitir que ele apenas ainda não quis decidir, mesmo sabendo que há uma única escolha, ao mesmo, uma única posição a

ser determinada na escolha!

Importa tematizar que Hobbes ao conectar ausência de cons- trangimento externo, potência interna e deliberação a partir da série causal necessária, vetou a possibilidade de que se entende a liberdade a partir de um livre arbítrio no qual o agente possa

após estabelecida as determinantes agir ou não agir.

Argumentar em tal perspectiva implicaria uma fratura na ordem causal, seja originante, no sentido do agente ser a causa de sua própria causalidade (tal como uma deidade), seja derivada, na medida que deliberando sobre múltiplos futuros estaria o agente determinando-se indeterministica- mente, o que não parece razoável argumentar.74

CONCLUSÃO

O compatibilismo em filosofia da ação e aquele hobbesia- no entende a possibilidade do livre arbítrio entendido como autodeterminação como um conceito contraditório e naïve. A negativa de dita perspectiva se coloca exatamente na compreensão de que a causalidade tal como exposta através da natureza empírica preenche a totalidade das circunstân- cias necessárias para a produção do efeito produzido, não havendo espaço para se pensar uma cisão entre o caráter suficiente e aquele necessário na causalidade, tal como pen- sado por pensadores como Luís Molina e outros, a exemplo de Peter van Inwagen.

O chave de acesso ou o segredo do compatibilismo hobbe- siano reside na ideia de que a ação humana é causada pela vontade, mas que esta, a vontade explicita um momento de uma rede causal necessária de causas empíricas, físicas, e estritamente necessárias.

Assim o ser livre (efeito de todo ser humano enquanto por- tador de livre arbítrio), reconhece-se como atuando desde a liberdade ao determinar sua vontade segundo a série causal necessária que ele reconhece como lhe constrangendo in- ternamente, pois seria insensato admitir que uma ação co- meçasse sem causa, ou que no curso de uma ação se pudes- se retroativamente regredir no tempo até atingir o momento de autodeterminação, o que equivaleria, a encontrar Deus!

Festa de São José de Anchieta!

73 – Van Inwagen, P.(Abr. 2014). Sobre dois argumentos para o compati- bilismo. Aufklärung Revista de Filosofia, 1(1), 287 290. DOI: http://dx.doi.

org/10.15440/arf.2014.18509

74 – Ao menos não razoável em termos hobbesianos, mas talvez razoável numa perspectiva aristotelizante de futuros contingentes.

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PAR TE 2 – ÉTI CA E D IREITOS HUMAN OS

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Parte 2

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