Entre as ambivalências existenciais apresentadas pela modernidade sem ilusões, está a possibilidade de o indivíduo reencontrar-se consigo mesmo, com a dinâmica trágica inerente a sua condição existencial contingente, passageira e finita. Reconhecer-se, assumir-se como uma existência em risco, a caminhar sobre o abismo equilibrando-se no fio tênue da vida, não ter a segurança de que o próximo passo, a decisão a ser tomada, seja a melhor e evite a queda. Enfim, fazer de cada jogada talvez a última, ou mesmo, a possibilidade de dar continuidade a mais uma jogada, o que exige um mínimo de autonomia. Em sentido inverso, ambivalente, diante desta possibilidade de retomada da autonomia existencial, apresentada ao indivíduo civilizado, o qual pode procurar refúgio, segurança, certeza nas mãos de especialistas, consultores, conselheiros que amparem suas jogadas, que mostrem o melhor caminho, que lhe dêem o melhor conselho de auto-ajuda. Pode, portanto, privatizar a incerteza, o acaso e a contingência que se apresentam ameaçadoras à condição humana.
Freud nos alertou que toda proposta civilizatória se apresenta para o homem como uma permuta. Para suprir as angústias existenciais diante das incertezas, das contingências, dos riscos de viver, oferece em contrapartida a estas situações desconfortantes, segurança, proteção, certezas e verdades. Porém, o esforço civilizatório não permanece nesta simples troca. Para que ela realmente aconteça e possibilite ao indivíduo vivenciar as benesses de um mundo ordenado, universalizado, eternizado, previsível em suas leis, se faz necessário que o indivíduo se submeta às restrições de sua liberdade individual, que se imponha uma disciplina de aceitação das imposições ordenadoradoras do caos existencial.
Há exatamente 70 anos Sigmund Freud escreveu Das Unbehagen in der Kultur (O mal-estar
na civilização) [...]. Nesse livro, Freud argumenta que a “civilização” [(referia-se, claro à
nossa civilização moderna e ocidental (...)] é uma permuta: um valor acalentado é sacrificado a outro igualmente imperativo e querido. [...] a dádiva da civilização é a segurança – proteção contra os inúmeros perigos da natureza, contra o próprio corpo e contra outras pessoas. Ou seja, a civilização oferece libertação do medo ou, pelo menos, torna os medos menos assustadores e intensos do que de outra forma seria. Em troca, no entanto, impõe suas restrições à liberdade individual – por vezes severas, em geral opressivas, sempre maçantes. [...]. Os instintos são controlados ou totalmente reprimidos – o que é uma infelicidade cheia de desconforto físico, neurose e revolta. Os desgostos, insatisfações mais comuns decorrem, conclui Freud, do sacrifício de grande parte da liberdade individual ao que ganhamos coletiva e individualmente em termos de segurança, seja lá o que for. (BAUMAN, 2000, p. 24).
Na tentativa de ordenar o caos e conferir à existência uma perspectiva dotada de sentido e finalidade, o que possibilitaria tornar a vida um fardo suportável diante da constatação de sua finitude, parcialidade e contingência, o modelo civilizatório ocidental impôs em grande parte de sua trajetória nestes últimos dois mil e quinhentos anos, uma
estratégia heterônomica ao indivíduo. A característica marcante desta estratégia é a aniquilação total do indivíduo, participante que é do mundo temporal como um reflexo de um mundo intemporal, da eternidade infinita. O que estava em jogo era participar da vida terrena integrado ao rebanho, caminhando rumo à vida eterna, ao além- mundo. Sem dúvida um mundo dotado de sentido e finalidade nitidamente estabelecidos, conferindo certezas, verdades e seguranças na perspectiva de uma vida além-mundo como prêmio à sua resignação, ressentimento em relação à vida, à terra. Ou seja, a vida humana participava de uma totalidade duradoura, na qual não tinha a mínima possibilidade de interferência.
Apresentava o mundo temporal como um mero átimo na eternidade infinita, uma pousada em que se passa a noite em preparação para a verdadeira viagem que é a vida eterna. Nem o tempo de chegada nem o tempo de partida são escolhidos pelo viajante; ninguém veio ao mundo por vontade própria e partirá quando chegar a hora, também, sem escolha. [...]. O âmago da questão, porém, é que a vida, embora transitória, tem grande importância para a existência eterna que vem após a morte.(BAUMAN, 2000, p. 40).
Com o advento do modelo civilizatório ocidental em sua lógica moderna, na continuidade dos esforços civilizatórios de ordenação do mundo, do caos, da existência, de superação da finitude entendida como humilhação da condição humana, estabelece-se a estratégia heteroautônoma. Tratava-se de elevar o indivíduo à condição de sujeito histórico, ou seja, com a possibilidade de o indivíduo participar na construção das totalidades sociais. Esta participação ativa, consciente, na defesa dos interesses da classe, da nação e da família conferiam sentido e finalidade à existência individual, proporcionavam-lhe a experiência da transcendência para além dos limites fisiológicos da vida. A estratégia heterautônoma revela toda sua ambivalência no jogo de elevar o indivíduo à condição de sujeito, privilegiando sua participação na elaboração dos projetos de ordenação, mas ao mesmo tempo, sujeitá-lo, na medida em que tais projetos ordenadores do mundo, ao saírem das pranchetas dos engenheiros, arquitetos, legisladores, políticos e filósofos e ganharem contornos reais, conferem limites, fronteiras de segurança à criatividade e ludicidade humana, impondo certezas às manifestações contingentes da vida em sua diversidade de manifestações, impedindo a experiência da tragédia. A imortalidade, o além-mundo se concretizava nas totalidades societárias humanamente construídas e aceitas enquanto tal. Mudaram-se os pastores, mas o rebanho continuou praticamente o mesmo. Se o homem moderno matou deus numa perspectiva nietzschiana, não conseguiu livrar-se do seu cadáver, do qual brotaram novas crenças, na objetividade do método científico, na racionalidade tecno-científica, nas propostas societárias de felicidade, de paz e de justiça para a condição humana, nas leis de mercado.
A nova estratégia moderna era heterônoma: como a sua antecessora pré-moderna, baseava-se na inclusão predeterminada de cada vida individual transitória numa cadeia de ser que existia antes dela e sobreviveria a ela. [...]. como no caso da estratégia pré-moderna puramente heterônoma, não restava muito ao indivíduo senão abraçar e aceitar o destino e seguir uma vida transitória que em sua linhas gerais era de fato predestinada pela inclusão numa totalidade duradoura. E no entanto a estratégia moderna era, simultaneamente, autônoma – uma vez que também salientava a origem humana da totalidade em questão, além de ressaltar bem a mútua dependência entre o itinerário de vida escolhido por cada participante da totalidade e a duração desta. O destino não escolhido cancelava a absurda brevidade da vida individual e ligava-a à eternidade; mas era a aceitação consciente e ávida desse destino por cada indivíduo e, subseqüentemente, a vontade e zelo individuais em seguir suas conseqüências que sustentavam essa ligação e tornavam efetiva a transcendência da morte individual. (BAUMAN, 2000, p.41).
O que Bauman nos possibilita constatar é que no contexto existencial presente, em suas manifestações ambivalentes, de uma modernidade sem ilusões, convivemos com esse sentimento de desconforto, de decepção frente à falência destas estratégias civilizatórias com as quais o indivíduo havia negociado garantias frente à morte, à contingência, ao caos, à tragédia. Talvez seja a possibilidade da experiência de vivenciar a proposta de Kierkegaard: “[...], o desespero é o despertar de nem sequer poder morrer. [...]. Eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte [...], mas morrer a morte significa viver a morte. [...]. No desespero, o morrer continuamente se transforma em viver. Quem desespera não pode morrer.”(KIERKEGAARD, 2001, p. 23).
Imersos nestas ambivalências, sentenciados a posicionar-se continuamente diante da vida, de encarar a possibilidade de fazer a experiência da morte como possibilidade da vida, questionamentos se apresentam: Qual a estratégia adotada pela modernidade sem ilusões ? É o abandono do indivíduo? O que sobrou destas experiências é a perspectiva da autonomia ? A autonomia é possível na vida em sociedade? O que implica assumir-se como indivíduo autônomo frente a um mundo de incertezas e inseguranças ? Quais os custos existenciais exigidos pela autonomia ?
Talvez as ambivalências que se apresentam à condição humana, na medida em que as totalidades societárias perdem seu státus de função nomeadora, de determinar o sentido da vida humana, são a possibilidade de que o indivíduo abandonado a suas frágeis forças, venha a fazer a experiência de conviver com os próprios medos, de tentar curar suas feridas, mesmo sabendo que são incuráveis, mas que terá que fazer algo para pelo menos minimizar suas dores, vivendo intensamente cada instante vital, tornando-se doador do sentido da própria existência na contingência do tempo e do espaço em que se encontra. A perspectiva niilista ativa apontada por Nietzsche é a possibilidade de o homem superar o próprio homem civilizado, criando as condições em meio ao caos da existência, de estabelecer seus próprios critérios de vida como senhor do próprio destino, do caminhante que constrói o caminho durante a própria caminhada.
O homem pertencente ao primeiro tipo procura realizar o estado de plenitude da vida, a contínua prodigalização da riqueza, valorizando a coragem, a franqueza, a veracidade, a alegria e desprezando o amor ao próximo, a igualdade entre os homens, a compaixão: haure antes a noção bom (gut) de sua própria experiência e a atribui somente a si, para depois conceber a idéia derivada, subsidiária ruim (schlecht); a criação de valores é seu apanágio, não dependendo de aprovações ou louvores; ele estipula sua própria medida; diz sim à vida e a si mesmo, não se limitando a temer ou tolerar o fluxo implacável do vir-a-ser, mas o aceitando integral e jubilosamente, a ponto de desejar seu retorno eterno, numa prova de supremo amor.(ONATE, 2000, p. 66).
A partir desta perspetiva ambivalente apontada por Bauman é possível observar que este desafio à autonomia que se apresenta ao homem civilizado, participante de uma modernidade sem ilusões, pode se colocar também como um disfarce, uma fuga, uma máscara que encobre a heteroautônomia presente na relação entre indivíduo e mercado, ou seja, o mercado ocupa o lugar de demiurgo ordenador do caos da existência a amparar e a conferir verdades e certezas aos temores humanos, a esta realidade que se apresenta de múltiplas formas, dotando o indivíduo de um conjunto de estratégias de sobrevivência que lhe permite livrar-se do enfrentamento da condição humana trágica, contingente, finita, insegura, repleta de riscos em suas decisões. O mercado apresenta-se como possibilidade de canalizar grande parte das energias do indivíduo para uma perspectiva existencial profundamente ligada ao consumo instantâneo da vida, do mundo, do lançamentos de novos produtos que garantam paz, felicidade e segurança, mesmo que todas estas garantias sejam apenas eventos, sensações instantâneas frente aos riscos, às ambivalências, à perda de sentido, de um telos alcançável, da ordem perfeita, do domínio sobre o futuro, do fim da contingência. “[...]. “Mercado” não é tanto uma interação de barganha de forças competidoras quanto pressões de demandas manipuladas, artificialmente criadas, e desejo de lucro rápido”. (BAUMAN, 1999/4, p. 65).
Na sua forma pura e bruta, o medo existencial que nos torna ansiosos e preocupados é incontrolável e portanto incapacitante. A única maneira de suprimir essa verdade horripilante é dividir o grande medo esmagador em pedacinhos menores e controláveis – reformular a grande questão (sobre a qual nada podemos fazer) num conjunto de pequenas tarefas “práticas” que podemos esperar realizar. Nada acalma mais o ser pavoroso que não conseguimos erradicar do que se preocupar e “fazer algo” a respeito do problema que podemos enfrentar. [...] enquanto pudermos nos iludir podemos pelo menos continuar vivendo – e vivendo com um propósito, vivendo portanto uma vida com sentido.(BAUMAN, 2000, p. 51).
Portanto, frente às incertezas, às dúvidas, aos riscos inerentes às opções que o indivíduo tem que fazer quotidianamente, torna-se cômodo recorrer aos especialistas, às consultorias, aos aconselhamentos, ao mercado, na tentativa de encontrar alternativas de amenização à condição contingente a que está submetido o homem. “Na privatização da insegurança existencial humana, os medos que cada um sente só podem ser cortados, mas não partilhados ou unidos numa causo comum.”(BAUMAN, 2000, p. 54).
Nestas circunstâncias estabelece-se a privatização das incertezas existenciais, na medida em que a ambivalência presente na autonomia do indivíduo que participante de uma modernidade sem ilusões, torna-se presa fácil das leis de mercado, e passa a apresentar ao indivíduo estratégias ditas autônomas de eximir-se, de livrar-se das ameaças, dos medos interiores, da insegurança, da incerteza que afligem nossos tempos. A estratégia de mercado para a privatização das incertezas existenciais é levar o indivíduo a fazer a experiência da imortalidade na possibilidade de alternativas sempre novas de consumo, seja de produtos industrializados, seja do próprio corpo, nas imposições estéticas do momento.
Na sua fase hodierna, [...] identificamos o surgimento de uma nova utopia em substituição aquelas perdidas, ou ainda inacessível: uma utopia centrada no corpo, na saúde em aliança com um modelo de beleza identificado com a beleza como tal. [...].
O corpo encontra-se no centro da nova utopia; os esforços em torno desse ideal são justificados pela sua identificação com um novo arquétipo da felicidade humana. A passagem para o novo universal se dá por meio da tecnologia que investe, profundamente, nas questões do corpo, ela mesma identificada com progresso e a serviço do mercado que busca se expandir ilimitadamente. [...] vinculação cada vez mais ostensiva entre bem estar- físico e felicidade individual. (SILVA, SOARES e ASSMANN, 2003, p. 275).
A privatização como estratégia e solução na busca de doses diminutas e homeopáticas de certezas e verdades, frente as incertezas, as contingências existenciais, conferem ao homem contemporâneo a “sensação” de autonomia, de uma liberdade de ação, de fazer tudo aquilo que for necessário para sua própria satisfação momentânea, para além da necessidade de observar limites éticos e morais. “[...]; o infinitismo da ciência e do progresso técnico [...]; e o princípio do verum-factum, o de que é verdadeiro o que é tecnicamente feito [...] princípio fundamentado na autonomia da subjetividade moderna e em sua soberania frente à natureza [...]. (SILVA, SOARES e ASSMANN, 2003, p. 291), remete o homem a uma experiência instantânea com a imortalidade, que se materializa no consumo imediato de toda e qualquer experiência com o mundo natural ou humano. “A “escolha racional” na era da instantaneidade significa buscar a gratificação evitando as conseqüências, e particularmente as responsabilidades que essas conseqüências podem implicar”. (BAUMAN, 2001, p. 148).
A estratégia autônoma não lida realmente com a imortalidade, exceto a “experiência da imortalidade” [...] que visa ao consumo imediato, instantâneo. Essa estratégia não visa a transcender os limites mortais do eu nem a construir pontes entre a vida mortal e o universo eterno. Visa a tirar do peito essa tarefa aflitiva e aterradora, de modo que todos os recursos materiais e energia mental possam ser utilizados no esforço de tornar a vida mais ampla: não ampliando os seus limites temporais, mas dotando-a mais densamente de bens, quinquilharias, artefatos e curiosidades.(BAUMAN, 2000, p. 50).
O modelo civilizatório ocidental encontra-se em seu estágio moderno diante de uma multiplicidade de possibilidades, sua contradição se apresenta entre essência e aparência, entre a busca do além-mundo ou viver os valores da terra, entre os valores da transcendência,
ou, os valores fisiológicos, os instintos, a paixão e a vontade, entre a possibilidade de o indivíduo assumir-se a si mesmo como criador dos próprios valores ou submeter-se aos valores transcendentes de mercado. Talvez, seja possível dizer que em nenhum outro momento da trajetória ocidental moderna, a não ser na Grécia Antiga, na época dos trágicos, apresentou-se de forma tão intensa a possibilidade de participarmos da vida em sua manifestação lúdica, ao acaso, desprovida de um caráter valorativo e ressentido em relação a sua dinâmica trágica.