tudos geográficos referente às noções adquiridas neste tri- mestre sobre o relevo e os cursos de água. Porque não basta compreender, discutir e reter o que aprendemos, é também necessário ver o mais possível por nós próprios.
Não podendo ir à Suíça, Noruega, Estados Unidos e em- preender uma difícil expedição através das regiões polares, só nos é possível contemplar os fenómenos que foram ques- tionados nas nossas aulas através das numerosas fotos que possuímos. Finalmente decidimos que iríamos tentar ver o máximo possível na Bélgica: montanhas, planícies, diferen- tes aspetos de vales e rios, as indústrias derivadas da terra.
Fui encarregado pelos meus colegas de preparar a via- gem, que dividimos em duas partes, cada uma de cinco dias, o que significa que dois passes de comboio para este período serão suficientes.
A primeira dessas viagens deve ocorrer no início de feve- reiro. De acordo com a informação que fui capaz de reunir até agora, creio poder afirmar que iremos para a região de Ourthe e Amblève, tendo como centro provável Aywaille ou Remou- champs. Consistirá sobretudo em ver montanhas, cursos de
água, cascatas, sumidouros, abismos, perdas de rios, nascen- tes, pedreiras… Iremos a Hautes Fagnes e a Baraque Michel, bem como ao Hérou e à confluência dos dois Ourthes. Visita- remos provavelmente também a Flandres para comparar a di- ferença entre um curso lento, suavemente inclinado e navegá- vel de um rio da região, e um curso rápido quase torrencial e não navegável da região das Ardenas, entre vales flamengos largos e pouco profundos e ravinas estreitas da Valónia.
A segunda parte será dedicada sobretudo a minas de car- vão, chumbo, ferro, zinco, pedreiras de pórfiro, mármore, arenito, fornos de cal, fábricas de cimento, à enorme indús- tria derivada da hulha e do ferro, a fábricas de vidro, de faianças, de cerâmica, de tijolos, que abundam na região. Isto de um modo geral e resumido, sem referir pormenores. Preparar adequadamente uma visita de estudo é algo muito demorado. Não vamos à deriva, guiados por uma qual- quer estrela, sem nos preocuparmos com o que vamos ou não ver. Um mês ou dois são necessários para a preparação. Em primeiro lugar, é preciso reunir os livros de que possamos ter necessidade, lê-los atentamente tomando notas do que for in- teressante e adicionar alguma ideia nossa. Depois disto, esta- mos diante de um maço de papéis cheios de projetos. Temos então de procurar em todos estes documentos as ideias essen- ciais e deixar o resto tentando localizar o máximo possível do que podemos ver em dois ou três pontos do país, para evitar deslocações inúteis e perda desnecessária de tempo. A seguir é preciso determinar os pormenores materiais da viagem: dias, datas, alojamento, alimentação, comboios, autorizações de visitas e os pequenospormenores que exigem muito tempo.
A última parte não é das mais fáceis: trata-se de prepa- rar os colegas, quer através das leituras, quer durante as
aulas, de modo que sejam capazes de entender tudo o que vão ver. Finalmente, não devemos perder de vista o lado estético e pitoresco... belezas naturais das regiões a atraves- sar, o que será mais fácil de fazer nos próprios locais.
Eis,grosso modo,comoireipreparara nossa visita de estudo.
Sintetizemos em poucas palavras os princípios e os factos relativos às visitas de estudo:
1.º A turma nomeia um, dois ou três alunos, consoanteaimportânciaeamplitudedoprojeto,pa- ra preparar e organizar a visita, tanto do ponto de vista material como do ponto de vista intelectual.
2.º A preparação e organização incluem: a) Pesquisa de todos os documentos e informa- ções sobre o assunto: leituras, notas. É antes de mais um trabalho pessoal dos alunos responsáveis pela preparação da viagem.
b) Classificação desses documentos, pesquisa das ideias essenciais, eliminando tudo o que não for conveniente, localização do que se pode ver em dois ou três pontos da região, a fim de evitar des- locações inúteis e perda de tempo. É um trabalho coletivo da comissão da visita.
c) O trabalho feito é apresentado à turma para que cada aluno acrescente as suas notas pessoais, as suas ideias e possa dar-se conta do projeto apre- sentado. Muitas vezes é um trabalho interessante para discussão. Em reuniões seguintes os mem- bros da comissão da visita preparam os colegas,
através de leituras e pequenas palestras, para que compreendam bem tudo o que irão ver.
d) É óbvio que durante a visita de estudo são também os alunos organizadores que têm a mis- são de fornecer informações no local e explicações complementares. São guias que devem mostrar e esclarecer o caminho a percorrer. São como peque- nos professores que, apoiando-se nos mais velhos, desempenham muito bem esse papel.
e) A organização material da viagem comporta igualmente numerosas responsabilidades: marca- ção dos dias e datas das visitas de estudo, questões relativas ao alojamento, alimentação, bilhetes de comboio, autorizações de visitas, contabilização de todos os custos, pois são os organizadores que pagam as despesas e se ocupam de muitos outros pormenores.
f) Mas terminada a visita de estudo, o trabalho não termina. É preciso registar os factos dignos de interesse. A turma reúne-se a fim de nomear o ou os alunos encarregados de fazer para os colegas, pais e amigos, conferências sobre a visita de es- tudo, caso se justifique, e organizar uma exposição de documentos, fotografias, mapas, gravuras, no- tas e produtos, enfim de todos os materiais reco- lhidos durante a viagem. É uma espécie de síntese, quadro vivo do trabalho realizado que mostra os resultados obtidos.
Após as palestras sobre a pré-história dadas por alguns alunos perante uma assembleia de pais, fizemo-los ver uma exposição organizada por nós, relacionada exclusivamente com as épocas pré-históricas. Durante dois dias a nossa sala de modelagem, cartonagem e desenho foi transformada. Dispusemos a toda a volta contra as paredes estantes como as de música sobre as quais colocámos em ordem cronoló- gica um número bastante grande de gravuras, quadros e fo- tografias de habitações pré-históricas, utensílios, ornamen- tos, armas. Expusemos coleções de fósseis, plantas, conchas recolhidas durante a nossa visita de estudo ou que nos foram dadas por amigos. Um dos nossos professores desenhou um grande quadro representando uma família pré-histórica nas suas ocupações... Esta exposição permitiu-nos perceber pelas imagens e pelos documentos tudo o que nos precedeu no mundo e assim começar com proveito o curso de história.
g) Agora perguntam-me: que papel desempe- nha o professor nisto tudo? Ele intervém, antes da visita de estudo, contribuindo para o trabalho de pesquisa e documentação e fornecendo, durante a visita, as informações e explicações que os alunos organizadores não sejam capazes de dar ou que os outros participantes não tenham conseguido enten- der. Ele não substitui nem faz o trabalho do aluno, mas orienta, esclarece, corrige, completa-o. O seu papel é o de guia. A sua função é mesmo essa, pois o conhecimento da criança deve ser fruto da sua própria experiência devidamente organizada[a].
11. Avaliação do trabalho, notas e boletins Vimos como e segundo que princípios traba- lham os nossos alunos. Talvez me perguntem como é que avaliamos o trabalho deles.
Trimestralmente enviamos aos pais uma cader- netadescrevendobrevementeosresultadosdoses- forçosque o aluno realizou durante o trimestre de- corrido. Esta caderneta, além de notas e indicações relativasaodesenvolvimentofísico,incluinume- rosasobservações psicológicas sobre as aptidões manuais,intelectuaisemoraisdacriança,sobreas áreasdeestudo,onúmerode horas que lhe foram dedicadas,asrazõesparaumatrasoouum avanço.
Seguimos cada aluno de perto, observamo-lo, estudamo-lo o melhor possível. E como lhe ofere- cemos muitas oportunidades para agir, num am- biente escolar muito ativo e variado, somos capa- zes de descobrir nele tendências, surpreender ap- tidões, comportamentos, preferências, interesses e constatar hábitos que nos permitem esboçar as grandes linhas do seu perfil psicológico.
Osmeuscolaboradoresajudam-mecomassuas observações que anoto regularmente e que eles me comunicam também com regularidade.
podemos chegar a compreender, de certo modo, o seu grau de desenvolvimento psicológico e assim adaptar a cada um deles os nossos métodos de educação e ensino.
Mantemos o aluno ao corrente do que pensamos dele. Evidentemente que tudo é feito com tacto, prudência e moderação. É necessário habituá-lo a admitirquecontrolamosassuasações,queasapre- ciamos; deve vir a compreender que não é perfeito.
A fim de desenvolver o espírito crítico do aluno e também o seu sentido de justiça e equidade, criei na escola uma organização cujos resultados me sa- tisfazem particularmente.
No final de cada período, procedemos à avalia- ção não só do trabalho mas também de outros ele- mentos resultantes da vida moral e social do aluno.
Estaavaliaçãorefere-se,portanto,aoesforçorea- lizado em sala de aula e a todas as manifestações da vida da criança na escola. Mas ao contrário do que normalmente se faz, incluímos neste processo os professores, os colegas do aluno e o próprio aluno. E a avaliação é o resultado do esforço realizado pelo aluno, não em comparação com o dos outros alunos, mas apenas com o seu próprio esforço, com os resul- tados do seu trabalho no passado. Procedemos as- sim. Dedicamos a última semana de cada trimestre
a este trabalho. Cada aluno é chamado a avaliar o seu trabalho e exprimimos em números a síntese das observações feitas. As palavras bom, mau, su- ficiente não exprimem o que queremos dizer com tanta precisão como os números; esses, apesar da sua natureza unilateral, portanto imprópria para exprimir valores psicológicos complexos, permi- tem no entanto estabelecer certas progressões e particularidades a destacar no aluno.
Entremos numa sala de aula. Professores e alu- nos procedem ao trabalho da avaliação: — "E tu, Pedro, trabalhaste? Fizeste progressos? Como ava- lias o teu trabalho?" O aluno diz o que pensa do seu esforço e atribui-se ele próprio uma nota de classificação de valores, seja 12 ou 13 ou 7 ou 8, que ele acredita expressar o valor do seu esforço.
Os colegas são de seguida convidados, um de cada vez,apronunciarem-sesobreotrabalho desse colega e a dar-lhe uma nota que devem justificar. O professor é o último a intervir. Ele faz a crí- tica da discussão encetada, dá o seu ponto de vista e justifica-o atribuindo uma nota. De todas as no- tas é feita a média.
E, como disse, são apreciados não só os traba- lhos da sala de aula mas também todas as ma- nifestações da vida da criança: ordem, asseio,
camaradagem, sociabilidade, lealdade.
Apercebemo-nos assim das vantagens que este sistema oferece.Tornaa criançaatentaaos seus progressosefalhas,ajuda-aaindagarosseuspon- tos fracos, a medir as suas forças e meios de que dispõe; habitua-a a refletir sobre si própria, a fa- zer um exame de consciência. O aluno é levado a avaliar o seu trabalho não em relação ao dos seus colegas, mas em relação a si próprio. Ao convi- darmos os colegas a pronunciarem-se, procura- mos despertar neles o sentido de justiça, o sentido da equidade e a exercer o pensamento crítico, ha- bituando-os a usar este instrumento de controlo com tacto, prudência e deferência, mas também com franqueza e lealdade. É bastante encorajador ver quanto este sistema teve bons resultados.
As nossas cadernetas não contêm apenas as ob- servações e notas dos professores mas também as dos próprios alunos, pois se o trabalho do aluno é um esforço pessoal, para cujo bom resultado con- tribui a coletividade da turma, é bom e lógico que esta também intervenha para o avaliar.
CAPÍTULOIII