Nesse primeiro capítulo, discute-se as Feiras Agroecológicas enquanto circuitos curtos de comercialização e a construção de mercados alternativos. A discussão sobre mercados é alocada e buscou-se compreender as experiências de mercados alternativos para a agricultura familiar e sob quais bases se estruturam na contemporaneidade.
A venda direta de alimentos a consumidores é uma prática milenar que foi secundarizada com intensidade a partir do século XX, como consequência do modelo de modernização da agricultura, assim como do processo intensivo de industrialização e especialização agrícola, instituindo a agroindustrialização alimentar. Configura-se assim, o modo de comercialização dos alimentos em cadeias longas, em que o sistema de transportes e as técnicas de conservação dos alimentos se estabelecem como modelos “modernos”, resultando para os agricultores e agricultoras a condição de trabalhadores operários para manter essa lógica de produção. Ademais, os consumidores das cidades intensificam o consumo a alimentos comprados nas prateleiras dos supermercados. É a partir da década de 1990 que surge a demanda para a produção orgânica, pois a população humana encontra-se insatisfeita com os efeitos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente do modelo de produção alimentar dominante (DAROLT, 2013).
De acordo com Maluf (2006) há no país uma diversidade de iniciativas governamentais e da sociedade civil em estimular o consumo de alimentos, de modo que seja garantido à população, e, sobretudo, as pessoas em situação de vulnerabilidade social, o acesso ao alimento de qualidade. Assim, as ações que emergem no Brasil são diversas. A questão do abastecimento e do acesso entram como categorias centrais. E nesse sentido, é necessário que sejam estimuladas as iniciativas de feiras locais e regionais que visam aproximar agricultor/produtor e consumidor. A criação desses mercados, nessas lógicas, pode promover a dinamização do território onde estão inseridos, assim como, potencializar novos hábitos alimentares na população. Tem-se assim um cenário que demonstra que regiões tidas como atrasadas, começam apresentar seu potencial de desenvolvimento local/regional. Além de configurarem uma relação social de mercado em que agricultores, agricultoras e consumidores estabelecem laços
32 de confiança recíproca, no sentido de que esses distintos atores validam essas experiências que estão para “além das porteiras” do campo, e representam uma possibilidade de reprodução do campesinato na contemporaneidade. Para Seyfert (2015, p. 147), “a comida é um marcador cultural facilmente metaforizado pela memória; por isso tem importância na significação de identidades étnicas, regionais e nacionais”.
Quando refere-se a proximidade entre agricultores e consumidores, é necessário não deter-se apenas à aproximação geográfica, pois sabe-se que é uma tendência não só no Brasil, mas igualmente na Europa a abertura de pequenas lojas para atender a demanda do mercado local, mantendo-se contudo, o modelo de produção e distribuição hegemônicos. Nesse sentido, afirma Perez-Cassarino (2013, p. 190):
Há uma “rastreabilidade” socialmente construída no âmbito destes mecanismos de mercado. E, mais que a técnica ou o controle físico da origem do produto, o diálogo e a transparência no processo de produção e consumo viabilizam esta rastreabilidade. Produtos identificados com os nomes das famílias produtoras, o controle social possibilitado pela comercialização coletiva, bem como a abertura das unidades de produção a visitas de consumidores, estabelecem formas de controle social sobre a origem dos produtos.
Embora, no Brasil, os estudos ainda sejam incipientes para entender o papel do consumidor nas feiras agroecológicas, alguns autores já apontam que essa é uma nova tendência que pode orientar a sociedade para um momento de transição paradigmática, no intuito, sobretudo, de construir outra realidade. Assim, o papel dos consumidores vai assumindo um lugar significativo nessa relação alimento, sociedade e natureza (BETTI, et al., 2013). Zanini e Froelich (2015) ressaltam que a feira é um vasto campo de análise e de sociabilidades mais amplas, em que é possível ver também espacialidades diversas (rurais e urbanas; da casa/família e da rua). Na pesquisa das autoras, a feira tem se transformado em um espaço lúdico e de sociabilidade prazerosa.
Autores como Bauman e Hall (2007; 2002) nos indicam que a humanidade na pós-modernidade se encontra frente a processos de identidades híbridas, fluídas e transitórias. Assim, para tentar desvelar o papel do consumidor nesse cenário, é preciso considerar que esses atores fazem suas opções a partir de distintos conceitos norteadores. Nesse sentido, consideram Betti, et al. (2013, p. 269) “assim, emerge o consumidor contemporâneo: fragmentado, composto de múltiplas identidades, que acompanham diferentes quadros estruturais e institucionais”.
33 As identidades dos sujeitos por vezes apresentam caráter contraditório, desfragmentado em um processo descontínuo, nesse sentido, percebe-se também uma mudança no perfil de consumo, não identificado agora apenas do ponto de vista econômico, mas considerando, sobretudo, o perfil sociológico e antropológico, onde percebe-se um compartilho da visão de mundo, de identidades e culturas. Assim, Betti, et al. (2013, p. 271) consideram:
Desse modo, na medida em que constroem e expõem culturas e, por isso, são carregadas de valores, pode-se afirmar que as diferentes maneiras de consumir compõem identidades igualmente diversas. No contexto que impele as mudanças de identidade, também se observam novos valores e novas formas de se relacionar com o mercado por meio das ações dos consumidores, as quais passam a compor novas identidades de consumo.
Betti et al., (2013) falam de uma multiplicidade de atores e entidades, como movimentos sociais que tem incorporado em seus discursos escolhas e hábitos de produção e consumo de valores como solidariedade, ética e responsabilidade. Dentre as categorias analíticas presentes nessas novas posturas, pode-se citar agroecologia, comércio justo, produtos orgânicos, todos com a finalidade de redefinir as relações entre produção e consumo. Em sua pesquisa, os autores evidenciaram que dentre as justificativas para aquisição aos produtos agroecológicos e assiduidade nas feiras investigadas, uma constante é a confiança entre agricultor e consumidor. Alguns consumidores enfatizaram que o que os motiva é conhecer o local de produção, saber quem está produzindo o alimento que eles colocam à mesa, evidenciando assim, laços de reciprocidade e confiança.
Nesse sentido, afirma Martins (2000, p. 14):
Nesta mesma perspectiva, deve-se registrar que sem o valor-confiança nutrido reciprocamente entre produtores e consumidores (os produtores precisam acreditar que os consumidores não vão conspirar no momento do comércio e vice-versa) as trocas mercantis entram em colapso. Pois o valor-confiança não pode nascer de contratos jurídicos e formais por mais elaborados que esses sejam, mas apenas da confiabilidade da relação interpessoal, da expectativa mútua das partes envolvidas de que o parceiro da troca mercantil devolva não a traição, mas a amizade e a solidariedade. O valor-confiança constitui um atributo que apenas se desenvolve primariamente no nível das relações da dádiva, no dar ao outro gratuitamente um crédito de honra, no acreditar que ao se dar esse crédito a alguém ele será retribuído com
34 algo que faça circular adequadamente a confiança inicialmente depositada.
Sob este prisma, compreende-se que as Feiras Agroecológicas são espaços de análise da realidade em que o consumo vai se constituindo como elemento que valida essa experiência. Assim, o consumo nos dias atuais de produtos agroecológicos está relacionado a necessidade dos consumidores, que motivados por razões diversas se dirigem a esses espaços para adquirir produtos, que por sua vez, carregam em si uma trajetória de construção social da realidade e condição camponesa. Então, a confiança passa a se constituir como elemento central dessa relação, como bem afirma Martins (2000).
Radomsky (2013) em sua pesquisa sobre aspectos da relação entre agricultores e consumidores evidenciou que no alimento agroecológico, por parte dos consumidores, o que conta muito é saber a procedência do produto; além de os consumidores terem uma clara distinção entre mercadoria, alusão às prateleiras dos supermercados, e alimento, este assumindo uma conotação de saudável e confiável, uma vez que é produzido por atores sociais que os consumidores conhecem. Quanto ao perfil dos consumidores evidenciou-se que trata-se de moradores do espaço urbano que compartilham de uma visão crítica do mundo, comum aos agricultores familiares, no sentido de estarem insatisfeitos e descrentes com o modo de produção alimentar da agricultura convencional. Assim, na referida pesquisa, constatou-se que os consumidores são associados a sindicatos, ou trabalham em espaço que lhes possibilita reflexão e ação perante a finalidade maior das feiras, valorização da agricultura familiar, assim como mudança na forma de se relacionar com o alimento. Nesta experiência, a Rede Ecovida conta com a participação dos consumidores para certificar a produção dos agricultores que optam pela transição.
Canuto (1998) discute sobre as ações que aferem uma configuração específica para a agricultura familiar e considera que as diferentes formas de compra direta de produtos agrícolas no Brasil é um processo recente e promissor, que resulta em vantagens para o produtor e o consumidor. Para o primeiro, a supressão dos intermediários, potencializando maior retorno econômico e a possibilidade de ouvir dos consumidores avaliações do que está produzindo; para o segundo, adquirir produtos mais frescos a preços mais baixos, favorecer pequenos e médios produtores, além de 41
35 obtenção de maior conhecimento sobre a origem e forma de produção dos alimentos que vai consumir. Nesse sentido, consideram Nierdele, Almeida e Vezzani (2013, p. 52):
Em uma feira-livre o espaço de mercado é definido por uma rede de proximidade em que produtores e consumidores interagem por meio de produtos que possuem um forte apelo valorativo associado à artesanalidade da produção. As normas e regras estabelecidas à circulação desses produtos são regidas a partir desta pressuposição valorativa, ainda que em conflito permanente com outros princípios qualitativos (técnicos e mercantis, por exemplo).
A proximidade e estreita relação nas feiras agroecológicas entre agricultor consumidor é característica peculiar nessa modalidade de circuito curto, pois, em alguns desses espaços, os consumidores assumem um novo perfil, participam da feira, mas participam também dos momentos que as antecedem, no plantio, na convivência com as comunidades rurais. Além de romper com um perfil de consumidor passivo, comum nos moldes da comercialização via grandes redes varejistas.
Segundo Darolt (2013) a comercialização possibilita aos agricultores reinventarem os mercados locais aproximando-se dos consumidores, o que por sua vez estimula a compra de alimentos de base ecológica e cria-se o desafio de construir um modelo de consumo alimentar ecologicamente correto. Rozendo (2017) considera que essa proximidade cria relações menos assimétricas, ao passo que proporciona a esses atores emancipação, condição que eles não adquirem no modelo convencional de produção agroalimentar.
Assim, essa relação agricultor e consumidor assume características peculiares e conferem autonomia aos sujeitos, assim como delineia um novo perfil para os consumidores de alimentos na contemporaneidade. Nesse sentido, afirmam Nierdele, Almeida e Vezzani (2013, p. 40):
Por isso, mercados diretos como as feiras-livres configuram-se tão importantes na perspectiva de determinados movimentos agroecológicos, porque as múltiplas interfaces culturais estabelecidas nesses espaços sociais facilitam o reencantamento das relações de consumo alimentar.
36 A importância de tratar de circuitos curtos de comercialização deve-se também, a discussão sobre aspectos abrangentes que se colocam como pano de fundo para entender a abordagem socioeconômica que tenciona agricultores e agricultoras familiares a desenvolverem estratégias de comercialização que operam sobre valores e princípios que se distinguem das práticas econômicas convencionais, considerando também a crise do modelo neoliberal econômico adotado pela maioria dos países e nações. São mudanças estruturais que têm contribuído para construir mercados para a agricultura familiar e essas mudanças, embora sejam desafios, as têm fortalecido.
Schneider, Marques e Conterato (2016), ressaltam aspectos importantes dessas mudanças, tais como, acesso a políticas públicas que possibilitam aumento e dinamização da produção, diminuição da pobreza e desigualdade no espaço rural, aumento da segurança alimentar, e somado a isso, inserção dos agricultores familiares nas redes de mercados alternativos, onde eles/elas mesmos (as) comercializam a sua produção. Assim, a construção social dos mercados constitui-se como elemento de muita importância para compreender as nuances e performances do rural contemporâneo.
Nesse sentido, percebe-se um aumento da demanda da produção agrícola tanto por parte das commodities, como também da disseminação de mercados alternativos, que por sua vez, passam a coexistir com os circuitos convencionais. Assim, os estudos podem auxiliar na compreensão desses processos distintos, pois mesmo que o modelo convencional de produção agrícola nos indique seu crescimento, há outras performances desenvolvidas por uma diversidade de atores que apontam para outra direção, segundo Schneider, Marques e Conterato (2016, p. 13) “impulsionadas pela emergências de novas formas de produção e de governança”. E nesse sentido, afirmam:
Estamos convencidos de que simplesmente não é possível conceber a existência de uma agricultura (mesmo que seja familiar e praticada em pequena escala) e de estratégias de desenvolvimento rural sem levar em consideração o papel e o lugar dos mercados. Cada vez mais, as transformações em curso no mundo rural estão associadas ao modo como os agricultores e outros atores sociais interagem, trocam e constroem circuitos de comércio que lhes garanta algum tipo de renda, acesso a serviços ou mesmo interação social (SCHNEIDER, MARQUES; CONTERATO, 2015, p. 14).
No que diz respeito ao entendimento dessas mudanças para a agricultura familiar, é válido ressaltar que essas iniciativas são reflexos também, de uma ação mais
37 efetiva por parte do governo federal nos últimos anos que resultou diretamente em acesso a renda às pessoas que se encontravam em situação de extrema miséria, bem como maior acesso às políticas públicas (BAVA, 2016; MOURA, 2017).
É relevante o entendimento de que os circuitos longos são caracterizados por se situarem dentro de uma grande cadeia de produção, onde os países em desenvolvimento destinam grandes áreas para a monocultura, como por exemplo, soja e milho, e através de uma grande rede de construção de estradas e aeroportos, esses alimentos sejam levados para outros países, configurando assim, o modelo agroexportador ou agronegócio (BAVA, 2016). Assim como, a compreensão de que as cadeias agroalimentares são cadeias agroindustriais, e que operam sob uma cadeia complexa e longa de agentes intermediários, que segundo Gazolla e Schneider (2017, p. 10):
Começa antes mesmo de se jogar uma semente na terra, passa por empresas de insumos, sementes, implementos e mesmo combustíveis, e vai além da porteira dos estabelecimentos agropecuários, envolvendo unidades de transformação de fibras e matérias-primas alimentares. Em face desse tamanho e complexidade, as cadeias agroalimentares ou agroindustriais são longas. Nas cadeias longas, as relações e interações entre produtores e consumidores são quase inexistentes, pois os alimentos acabam sendo produtos de uma indústria ou de um supermercado, vendidos com marcas específicas ou “nomes fantasia”.
Esse modelo se caracteriza ainda pelos grandes impactos sociais, ambientais e econômicos que gera. A saber, a concentração fundiária, o poder das grandes corporações que controlam grandes extensões de terra, controlam assim as terras e as sementes, assim como o sistema de transporte e cadeia dessa produção. Além de utilizar pouca mão-de-obra, o que por sua vez gera mais pobreza e desigualdade. Os recursos ambientais são degradados para implantação desse modelo, comprometendo assim, a biodiversidade local, e a capacidade de resiliência dos ecossistemas naturais. O impacto direto é percebido também no grande dispêndio de energia utilizado, se comparado, sobretudo, com os resultados dessa produção.
Assim, esse modelo pode ser sinteticamente apresentado como um modelo que gera exclusão e compromete a segurança e soberania alimentar nacional, degrada o meio ambiente e a diversidade de ecossistêmicas e biomas nacionais, logo, não pode mais ser pensado em longo prazo. Sobretudo, se considerarmos que nos últimos anos vozes que atestam que a humanidade precisa rever o caminho de desenvolvimento e
38 crescimento que tem percorrido, propondo assim, pensar desenvolvimento e sustentabilidade como categorias necessárias para pensar em um modelo que oriente para a mudança.
Difere, nesse sentido, o caminho percorrido por diversos atores sociais, em que evidenciamos os circuitos curtos, caracterizados por maior envolvimento de agricultores e agricultoras familiares, entidades e organizações civis, com a finalidade de que o agricultor e agricultora, estejam mais próximos aos consumidores, de modo a beneficiar o desenvolvimento local e regional, articulando cadeias produtivas, e valorizando a mão de obra local. Assim, compreende Bava (2016, p. 181):
Por circuitos curtos entendemos a busca pela aproximação entre os locais de produção e consumo de bens e serviços; a redução da escala das distancias percorridas pelos produtos a serem transportados; a diminuição da necessidade de uso de redes de transporte, energia e logística; a utilização de mão de obra do território; o financiamento em condições acessíveis aos micro e pequenos empreendedores com novos mecanismos de intermediação financeira; a maior participação dos atores sociais nos processos de decisão política, o maior cuidado com o meio ambiente do lugar em que vivem.
No Brasil, os estudos sobre cadeias curtas de comercialização, se dá a partir de meados da década de 1990, e é nesse período que surgem artigos sobre os processos de beneficiamento, processamento e comercialização doméstica de alimentos que já demonstrava que, enquanto se configura no cenário nacional e internacional a afirmação do agribusiness, era atestada igualmente a resistência e inovação dos agricultores familiares que “se mostravam hábeis produtores e comerciantes de seus produtos, vendendo-os especialmente em pequenas feiras ou mesmo de porta em porta aos consumidores”. Segundo os autores, embora os estudos terem se concentrado no Sul do Brasil, no Nordeste já era evidente trabalhos sobre o processamento de polpas de frutas, e no Norte castanha e açaí no Pará (GAZOLLA; SCHNEIDER, 2017, p. 16).
Estudos têm sido realizados em outros países e Renting, Marsden e Banks (2017), ressaltam que para compreender o desenvolvimento rural na contemporaneidade, é preciso captar a riqueza empírica das redes alimentares alternativas emergentes, considerando, sobretudo, que há ainda carência de estudos teóricos e empíricos conduzidos sobre as Redes Agroalimentares Alternativas. Os
39 autores1 utilizaram três categorias de redes alternativas ou cadeias curtas de abastecimento de alimentos, consistem em agricultura orgânica, produção de especialidades e venda direta.
Para entender esse quadro atual que aponta para o fortalecimento, consolidação e surgimento das RAAs, Renting, Marsden e Banks (2017) defendem a compreensão do contexto em meio ao qual essas experiências sugiram e têm se fortalecido. A partir dos autores, podemos sistematizar que o referido contexto diz respeito a: 1) preocupações por parte do público consumidor com as questões ecológicas, de saúde e bem-estar animal; 2) crescente falta de confiança na qualidade dos alimentos advindos da agricultura convencional; 3) a dissociação entre produção, processamento e consumo dos alimentos criou uma necessidade estrutural de construção de outro tipo de garantia de qualidade alimentar institucionalizada.
É importante atentar ainda, para o significado da inserção nas RAAs para os agricultores e agricultoras familiares, que para os autores trata-se de uma forma de amenizarem o “aperto” em que os custos de produção têm se elevado, tendo inclusive que investirem mais na propriedade atendendo as regulamentações ambientais, medidas sanitárias, dentre outras, podendo dinamizarem-se e recuperarem valor na cadeia de abastecimento (RENTING; MARSDEN; BANKS, 2017).
Goodman (2017, p. 65), ressalta que no que diz respeito aos produtores inseridos nas RAAs e CAAs no contexto europeu, espera-se destes algumas expectativas que podem assim ser elencadas: 1) desenvolvimento de novas formas de subsistência utilizando novas fontes de valor agregado e 2) reconectarem-se com os consumidores; sendo assim, incentivados “a interromper as cadeias industriais de suprimentos e reconstruir a relação produtor-consumidor através da interação com diferentes convenções e construções de atributos”.
Convém refletir sobre o que possibilita ou não, a permanência, viabilidade e consolidação dessas experiências para além das previsões e conceitos simplificadores da realidade. Pois, como afirma Goodman (2017) o grande capital também se apropria dos conceitos e práticas que respondem por um alimento diferenciado. Resta-nos compreender o que possibilita a permanência ou não dessas experiências. Quais as suas bases e fundamentos que fragilizam ou potencializam suas práticas para além do status
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O Projeto IMPACT foi realizado em sete países europeus (Holanda, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Itália, Espanha e França. Resultou em um panorama da difusão e do impacto das CCAAs nos referidos países que juntos representam 75-85% da agricultura da EU (RENTING; MARSDEN, BANKS, 2017).
40 quo da produção alimentar. Atentando ainda para o fato de que as grandes corporações se proponham a ofertar um alimento saudável, esse ainda é considerado inacessível para boa parte da população devido, sobretudo ao preço elevado, assim “apenas consumidores privilegiados têm condições de aderir a esta “fuga para a qualidade”, deixando os demais como “convidados ausentes à mesa”.
Otimizar os circuitos curtos de comercialização consiste assim em um desafio,