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Maria: Que bom encontrar-me com vocês depois de uma semana de ausência.

Parece que foi uma eternidade. Senti muita falta das nossas atividades aqui Margarida. Fiquei muito surpresa quando soube do ocorrido e gostaria de ter estado naquele momento aqui com vocês.

Margarida: Eu também senti muita falta de vocês. Só estávamos nós três, eu, Miguel e Jequitibá no dia do ocorrido. Mas de certa forma foi melhor para ser menos traumático a todos. E o mais importante é que hoje iremos recomeçar.

Jequitibá: O pior é a ansiedade de ficar esperando sem sabermos exatamente

quando íamos voltar.

Miguel: E a conversa com o monsenhor você vai nos contar como foi não é

mesmo Margarida?

Margarida: Vou sim. Temos muito do que conversar.

Bartolomeu: Olá Margarida. Olá pessoal. Desculpem o atraso.

Margarida: Olá Bartolomeu. Animado para recomeçarmos os trabalhos? Bartolomeu: Estou sim Margarida. E também curioso para sabermos como atuaremos a partir de agora.

Henrique: Cheguei. Vim correndo. Desculpem, mas o ônibus atrasou. Olá Margarida! Que saudade! Espero que hoje dê tudo certo e que os guias cooperem conosco. Queria também avisar a vocês que Fortunato, Bethy e Iago não poderão vir. Mas no nosso próximo encontro estarão aqui.

Margarida: Tudo bem Henrique. Fico feliz em saber que eles voltarão a estar conosco. Tenho uma sugestão para vocês antes de contar como foi conversa que tive com o monsenhor e de fazer uma retrospectiva da nossa "narrativa" e de nosso passo seguinte em sua construção.

Jequitibá: Qual é a sugestão Margarida?

Margarida: Utilizarmos a estratégia do silêncio na Capela Dourada. Bartolomeu: Gostei da expressão, estratégia do silêncio.

Margarida: Atuaremos sem falarmos uma única palavra. O importante é observarmos o que isto pode provocar em nós mesmos e nos públicos que por lá estiverem.

Miguel: Margarida, eu não concordo em atuarmos em silêncio. Se fizermos isto, estaremos aceitando a imposição dos guias. Que indiretamente ou não, se

incomodam com a nossa presença. Eles vão achar ótimo em saber que baixamos a cabeça e nos submetemos as suas pressões e exigências.

Margarida: Não considero uma submissão Miguel. O fato de estarmos experimentando de outra forma, não quer dizer que estamos abrindo mão dos nossos princípios de atuação e nem aceitando o que nos impõe, mas uma maneira de buscarmos subvertermos a própria censura e buscarmos outras estratégias de ação.

Bartolomeu: Mas Margarida, o mais importante para nós não é a nossa

construção narrativa? Vejo como se estivéssemos medindo forças com eles. Como jogos de poder. Será que isso é realmente necessário?

Margarida: A nossa construção narrativa não conseguirá ficar imune à atmosfera aqui do Centro Bartolomeu, porque estamos imersos neste contexto e que envolve questões políticas e também de relações de poder.

ficcional e a construção dos nossos personagens serão afetados por toda esta realidade existente aqui.

Margarida: Sim, serão. Ao contrário do que acontece aqui no Centro, poderemos

na construção da nossa história dar a liberdade de fala aos personagens. De falar o que aqui não pode ser dito. E de pensarmos e refletirmos sobre as consequências e transformações que possam ocorrer em contextos cujas vozes passam a ser ativas. Estaremos estabelecendo constantemente relações Bartolomeu através das nossas experiências na construção desta história, o que faz da mesma uma “narrativa”.

Bartolomeu: Compreendo Margarida.

Margarida: Voltamos ao Centro, mas voltamos de certa maneira se não

modificados, mais atentos, cientes de que o que fizermos e as nossas escolhas não ficarão impunes ao nosso próprio ofício e a instituição, o Centro Cultural.

Subvertermos a censura, para dizermos o que queremos dizer do que sentimos das imagens dos acervos juntamente com os públicos, será isto possível?! Se o

narrador é bem mais um homem que sabe dar conselhos como diria Walter Benjamim (1992) e menos aquele que responde a uma pergunta, mas que promove mais questionamentos para além dela, das sugestões que faz sobre a continuação de uma história, então precisaremos saber narrar esta história. E fazer dos indivíduos sujeitos nesta construção. Mas não é fugindo dos problemas e sim fazendo destes um aliado na construção desta história e com isso ir promovendo pouco a pouco conhecimento. Vamos lá então?

Miguel: Isto foi muito bom! Descobrimos outras dimensões do espaço e experienciamos sem as palavras o que dizíamos anteriormente.

Jequitibá: Também senti que o nosso contato visual aumentou porque passamos a precisar ver mais um ao outro, ouvir mais, sem nenhum som e assim nossos gestos ampliaram-se ou se transformaram pela restrição do silêncio, ao tempo que também se transformou em potencial, em atitude política. Mas mesmo assim uma sensação de solidão se instaurou em mim.

Margarida: Tens razão Jequitibá. Uma sensação de exclusão. Mas também percebi que mesmo sem usar nenhuma palavra ainda tínhamos ou mantínhamos uma força de presença que mesmo os alunos que ouviam as explicações da guia não conseguiam desviar o olhar de nós. Mesmo com toda a explicação eram nossas ações que atraiam a atenção, mesmo sem nenhuma palavra.

Bartolomeu: Não sei se chegaram a perceber. Mas os estudantes quando entraram na Capela Dourada estavam submetidos ao poder imposto tanto pela professora como pela guia, em meio às repreensões que recebiam dos mesmos. Começamos então a falar com eles baixinho ainda como os personagens. A situação foi então se transformando aos poucos. Os sorrisos deles e o olhar insistente de um menino em nós me fez perceber de que estavam conosco na experiência.

Jequitibá: Vocês perceberam o olhar deles? Quando eu disse baixinho: “Se eles quiserem podem vir conosco, mas eles não podem, estão presos a este mundo, o que os impede de voar.”

Miguel: Você rompeu com o nosso pacto de total silêncio.

Jequitibá: Foi mesmo rompi. Mas foi por poucos instantes. Não resisti.

Margarida: Os estudantes eram nossos cumplices, os seus olhares diziam isso. Quando sentamos para descansar, vi ao longe uma menina do grupo do guia Aurélio que acenou para a gente e sorriu, acenei também para ela. Gostaria de saber de que forma essa nossa experiência pode contribuir para a nossa

sobre isso? Bartolomeu?

Bartolomeu: Com esta nossa experiência Margarida pude perceber o que antes havia discordado quanto aos fatos aparentemente externos a nossa “narrativa” poderem ser dispensáveis em sua construção, mas agora pude entender que eles podem se tornar fundamentais na construção de conceitos como a “inclusão”, que pode ser construída a partir de uma suposta exclusão. Éramos ignorados pelos guias e professores que forçavam os seus alunos a prestarem atenção ao que diziam, mas os alunos se envolviam com o que fazíamos e não com o que tinham por obrigação terem de ouvir. Então pensei na chegada dos anjos na vila e nas crianças que presenciaram o acontecimento. Elas conseguiram ver e dar importância ao que os outros simplesmente ignoravam. Elas encontravam empolgação pelo que viam.

Jequitibá: E acho que foi um pouco disso que Bartolomeu nos fala, que me mobilizou a pronunciar algumas palavras rompendo o nosso total silêncio. Porque os alunos pediam algo mais pela maneira como nos olhavam, tentando

concentrar-se em nossas ações. Quando o meu personagem do anjo interage com a personagem de Margarida, construímos falas que ainda não existiam para os personagens e o melhor disso tudo, é que foi de maneira a incluir os alunos que dividiam aquele momento conosco na Capela Dourada.

Miguel: É mesmo. Criamos um contexto que antes não existia. E acho que destacamos na “narrativa” o conceito de identidade, quando dividimos a

responsabilidade na ficção de construção de um mundo que ainda não existia com ajuda deles, os públicos, que no caso eram os estudantes e que em nossa

“narrativa” eram as crianças que presenciaram o acontecimento da chegada dos anjos.

Maria: É bonito saber que são as crianças que construirão este mundo. E que não é um lugar como a religião acredita ser, um céu, algo que nem sabemos onde é. Mas que pode ser aqui mesmo onde estamos a partir do nosso próprio trabalho e das coisas que realizamos. Mas acho que o anjo sabe disso e está tentando fazer com que as pessoas percebam que este mundo que não existe é aqui mesmo. Bartolomeu: Pois é Maria. Para se reivindicar uma identidade é preciso ser sujeito tornando-se ativo na construção de um mundo melhor. E aqui as crianças por não terem o direito de posicionarem-se, tornam-se passivas frente à imposição de um poder que vem de cima e das informações que unilateralmente para eles são apenas repassados. Quando a personagem fala: “Quem sou eu nisso tudo?” Pode representar a pergunta de cada um desses estudantes.

Margarida: Boa colocação Bartolomeu. As frases dos personagens do anjo e da mulher dizem muito sobre isso quando um diz ao outro: “Estava pensando, se a gente for e fizer com que esse mundo seja real com a ajuda deles? E assim eu posso descobrir quem sou eu!"

“E a gente pode perguntar a cada um deles e eles dirão!” “Eles podem dizer que lugar é esse de onde eu vim!” “Eles podem criar este mundo que não existe!”

Miguel: Mas acho que o anjo discordando um pouco de Maria, talvez não tenha certeza de onde veio.

Jequitibá: Já que ele estabelece uma dúvida quando diz: Até porque se este mundo existe a gente não sabe.

Margarida: Que ótimo! Dos conceitos a construção de sentidos. Então como a minha personagem diz: Se fosse eu, eu iria! Vamos em frente?

Henrique: Agora debateremos sobre a conversa que você teve com monsenhor Margarida?

Margarida: Sim. Foram momentos de muita ansiedade e preciso dividir com vocês o que foi a tão esperada conversa que nos possibilitou o retorno ao Centro. O monsenhor não gostou de ouvir o nome do demônio e falou que outras pessoas haviam mencionado o fato em um jornal. Quando falei que interpretávamos as imagens do teto através dos nossos sentimentos impulsionados por essas imagens, ele falou que desta forma estava então tudo explicado e que as pessoas haviam ouvido de forma descontextualizada, pois não haviam visto as “cenas”, mas apenas os gritos. Mas sei que no fundo ele não entendeu o que quis dizer. E se cometi um pecado foi de aceitar o fato dele não ter compreendido. Pois a

interpretação que o padre tornou aceitável era a reprodução das imagens do teto e não foi isso que fizemos.

Bartolomeu: Dificilmente eles aceitariam um trabalho como o nosso. Que busca dos sentimentos a partir das imagens, construir a atuação. Do que cada ator sente livremente. Acho que eles pensavam que iríamos fazer como você falou,

interpretações de temas religiosos.

Jequitibá: Alguns até chegaram a ver em nossa atuação um anjo caído por feitiçaria! Mas não tínhamos intenção de impor significados! Buscamos construir sentidos!

Margarida: As máscaras que usávamos se transformaram em signos que até então desconhecíamos. Para nós a utilização da máscara teve a função de ressaltar a expressividade das demais partes do corpo para construção das personagens que iam se elaborando a partir da nossa improvisação. Só que algumas pessoas associaram o que fazíamos a feitiçaria quando na nossa atuação performática o pano vermelho transforma-se na ficção em um bebê. No pátio aberto do Centro Cultural a teatralidade da cena performática evoca então aquilo que não poderia ser dito, como um jogo no limiar entre a arte e a vida.

Miguel: Margarida o interessante é que a sua personagem em uma de suas falas dizia querer falar com o padre.

Margarida: Pois é Miguel. Íamos sem perceber criando estas conexões entre a arte e a vida. A minha personagem precisava falar com o padre e eu nem mesmo sabia o que era. Mas ela talvez inconscientemente já o soubesse, embora eu não. Palavras estas mobilizadas da inquietude das imagens da igreja, no teto e paredes, do turbilhão de sensações que em nós afloravam. Sai daqui!! O padre não está!! Implorava o outro personagem. Psiiiii!!

Jequitibá: Outro fato semelhante foi quando em meio ao jogo com o pano vermelho, em que o personagem do Endemoniado tentava dissimular a sua maldade para a moça vestida de verde que interagia conosco do público, ela se revolta dizendo: “ele mente tanto que fica difícil de saber quem é do bem e quem é do mal.” E não quis entregar o bebê sem antes saber quem era do bem e quem era do mal. Não mentimos pensei comigo. Somos atores. Seria isto também uma meia- verdade?

Margarida: Em uma realidade não totalmente legível Jequitibá, seria imprudente buscar uma verdade, mas sim, reconhecer esta impossibilidade, a base de

construção de qualquer conhecimento. Intersecções entre a vida e a arte que ressaltam ontologicamente o poder ritualístico do teatro e que o fez durante séculos e em meio a tantas contradições ser relegado às camadas subalternas, devido ao seu impacto subversivo e transgressor.

Azul”, pega o “bebê” e contrariando qualquer verdade diz: “A fé remove montanhas!” A outra visitante que nos assustara com um latido de um cachorro, ou melhor, uivo de leão! Declara em meio a sorrisos “Mas não é que a doidera toda foi interessante!” E estive pensando há poucos instantes atrás e se voltarmos a atuarmos no pátio aberto?

Jequitibá: Aí eles nos expulsão de novo Miguel. Estais ficando louco?! Miguel: Poderíamos trocar as máscaras por narizes de palhaços.

Margarida: Não é tão simples assim Miguel. Envolve questões éticas e não apenas alteração de uma coisa por outra.

Miguel: Mas Jequitibá, diante da tamanha repercussão frente à atuação

performática, as máscaras e pano negro nos jogaram diante de cortes e censuras. Seria uma forma de subversão.

Jequitibá: Eles dirão que nós os chamamos de palhaços Miguel! Já imaginou? Estais ficando louco! Já não bastasse interrompermos o nosso trabalho uma vez, queres que interrompamos de novo?!

Bartolomeu: Fomos abalados por uma identidade cultural fortemente arraigada na religiosidade imanente do Centro, e como toda identidade sendo fundada em relações de poder traz também junto com ela a marca da exclusão (FOUCAULT apud STUART HALL, 2006).

Margarida: Mas nestes momentos, a própria “ausência” firma-se como “presença”, uma “presença em suspenso” em meio às restrições e assim como uma “dupla inscrição” talvez pudéssemos trocar as máscaras expressivas por narizes de palhaço, sem cometermos uma heresia, mas destacando a “différance” ou em outras palavras uma prática da alteridade (DERRIDA apud STUART HALL, 2006). O que fazer senão trocarmos máscaras por narizes de palhaço?! Seria blasfêmia! Por questões éticas com nosso ofício, não nos sentimos dispostos a o fazê-lo. Pelo menos ainda. Por outro lado, assumirmos como uma paródia a nossa criação coletiva no pátio é assumirmos que somos atores, que jogamos, brincamos com a realidade e dessa aventura de exposição vamo-nos capacitando a sermos críticos de nós mesmos. Ao contrário da ficção, a paródia não põe em dúvida a realidade do seu objeto, ela se coloca no limiar entre realidade e ficção, realidade e a coisa (AGAMBEN, 2007). A construção do nosso objeto de pesquisa, a nossa “narrativa”, estará constantemente daqui por diante, imersa sob estas tensões, que envolvem a instituição, a igreja, os museus, os acervos, os públicos e a suposta censura disfarçada ou mal disfarçada.

Precisaremos saber dar conselhos e receber conselhos incorporados na e pela experiência em meio às restrições. Assim como a “narrativa”, não podemos nos entregar, não devemos, e ao contrário da informação, que só tem valor no momento em que é nova e plausível, a “narrativa” conserva o seu aspecto miraculoso, deixando o leitor livre para interpretar a história como quiser, conservando as suas forças e depois de muito tempo ainda voltando, mantem seu frescor e a capacidade de se desenvolver (BENJAMIN, 1992). Assim como em um conto de fadas, parafraseando Walter Benjamin, (1992), em que uma escada chega até o centro da terra e se perde nas nuvens, ou em um lugar onde flores podem nascer de passarinhos, a “narrativa” torna-se uma imagem de uma experiência coletiva (BENJAMIN, 1992). E talvez possamos dizer um dia, assim como uma das cenas da nossa “narrativa” o faz, que os passarinhos deste lugar vivem livres e então nos sentirmos suficientemente seguros, para trocarmos finalmente as máscaras por narizes de palhaço. Agora tenho uma proposta para vocês.

Maria: Adoro quando dizes isto. É sinal que vem mais desafio para a gente. Margarida: Que tal visitarmos mais uma sala dos acervos para selecionarmos outras “frases geradoras” e retomarmos a nossa “narrativa” seguindo pelas improvisações?

Bartolomeu: Acho ótima a ideia. Não sei os demais amigos o que acham. Margarida: Já que todos concordam então vamos lá!

Margarida e seu grupo de colaboradores retornaram ao Centro Cultural um tanto temerosos.

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