1. Convertisseurs DC/DC dans la littérature
1.3. Les moyens de conversion
1.3.4. Convertisseurs DC/DC à base de MEMS
Ainda que possam parecer recentes os estudos que tomam por objeto a produção e a circulação do discurso político no interior de uma ordem do espetáculo, é importante considerar que, já na década de 1980, Michel Pêcheux e Jean-Jacques Courtine observavam esse movimento de produção e circulação dos discursos que se organizavam sob novas formas.
76O espetáculo da maternidade, observado na campanha de Heloísa Helena, e, nas eleições de 2010, no
programa da candidata Dilma, que já vinha construindo um discurso que lhe atribuía a maternidade das obras do Programa de Aceleração do Crescimento – o que possibilita a imbricação da estratégia de competência administrativa com a metáfora de um governo sólido – encontrou, na circunstância do nascimento de seu primeiro neto, o baluarte da produção de efeitos de sentido da esfera sedutora do conceito de maternidade: a emoção/bênção/dádiva de ser mãe/avó.
Se considerarmos que a AD, na década de 1970, atravessava um período de surgimento e consolidação enquanto ciência, formulando, reformulando e aprimorando seus conceitos e sua metodologia com relação aos discursos que circulavam sob a forma de textos escritos, é possível dizer que ela se volta, rapidamente, para a observação dos discursos que se valem de novos meios de circulação e deslizam de universos logicamente estabilizados, produzindo efeitos de sentido que demandam novas práticas de análise.
Quando Courtine (1981, [1987] 2006) coloca em pauta as limitações dos domínios de análise da AD para pensar o discurso político heterogêneo em relação a si mesmo e busca, na Arqueologia de Foucault, novos modos de pensar sobre esse discurso, ele define as novas práticas de produção e circulação dos discursos como
performáticas: práticas que abandonam a prioridade do verbal em favor das imagens e
dos gestos. Definindo tais práticas discursivas, ele chama a atenção para a complexidade da mensagem política que, a partir de então, requer outros métodos de análise além daqueles que se voltam unicamente para as questões linguísticas.
Isso não significa a defesa da supressão das questões linguísticas77 nas análises
do discurso político contemporâneo em prol de um balé de imagens que, sem procedimentos analíticos, funciona, unicamente, enquanto entretenimento. Courtine ([1987] 2006) alerta para a necessidade da renovação de uma semiologia da mensagem política para a sua apreensão global e para que o analista resista ao espetáculo dessas mensagens complexas. Trata-se de uma proposta de inflexão sobre os discursos na busca por rever as práticas analíticas e metodológicas às quais era submetido o discurso político em texto escrito, para que se possa trabalhar com os discursos produzidos em meios de circulação que veiculam, além do escrito, o oral e o imagético.
De fato, Courtine ([1987] 2006) ressaltava a importância de que o olhar do analista se reorganizasse de modo a contemplar a forma plural e multidirecional na qual se produzia, então, o enunciado do discurso político, já que, ao obedecer essa nova ordem discursiva que espetaculariza a política, o próprio espetáculo pudesse fazer com
77 O fato de a AD permitir uma multiplicidade de estudos e estar aberta ao diálogo com outros campos
teóricos – o que enriquece seus próprios construtos teóricos – dá margem ao abandono de conceitos originalmente pensados para o discurso em trabalhos que, atualmente, desconsideram as questões linguísticas em prol de uma análise de imagens que, não raramente, se mostram colagens de uma terapia das cores, insuficiente para pensar a produção e a circulação histórica dos discursos.
que escapasse da análise o enfrentamento dos discursos, as contradições ideológicas que imprime ao discurso político uma unidade dividida, “o fato de que a luta política afeta a apresentação das contradições ideológicas no interior de cada um dos conjuntos do discurso (COURTINE, [1987] 2006, p.68)”.
A reorganização do olhar analista para analisar as mensagens complexas deve proceder a partir da associação dos aspectos linguístico e imagético, e com a atenção voltada à especificidade de transmissão do medium – audiovisual –, pois, na composição desse enunciado sincrético, todos os elementos “falam” ao mesmo tempo, combinando-se de inúmeras formas, produzindo efeitos de sentido que só se podem observar dentro desse próprio conjunto enunciativo.
Em sua tese de doutoramento, de 1981, transformada em livro, no Brasil, com o título Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos ([1981] 2009) Courtine já evidencia a heterogeneidade do discurso político com relação a si mesmo ao analisar a manifestação do discurso religioso no interior do discurso comunista; fragmentações das Formações Discursivas que determinam as contradições e possibilitam olhar para o modo como a história se constitui, na articulação entre o intradiscurso e o interdiscurso. As considerações sobre essa heterogeneidade criam espaço para as reflexões posteriores sobre os discursos complexos nos demais meios de circulação, já que os estudos anteriores que se filiavam à AD buscavam conduzir uma homogeneidade dos corpora em análise. Assim, olhando ainda para o texto escrito, Courtine ([1981] 2009) abre caminho para os estudos de outros modos de produção do discurso político, valendo-se de princípios que permanecem operatórios para as análises dos discursos nos meios audiovisuais, ou seja, o ponto de partida das análises dos discursos, sejam escritos, sejam orais, produzidos neste ou noutro meio de circulação, é, basicamente:
i) observar qual é o sujeito do discurso e como caracterizar a emergência desse sujeito; observar de quê fala o discurso e quais são seus temas (parte descritiva do objeto de análise);
ii) observar as condições de possibilidade nas quais o discurso é produzido, compreendido e interpretado (o interdiscurso);
iii) observar em que medida as condições de possibilidade se articulam na relação do discurso com a língua – no intradiscurso – e com a história.
É nesse entrecruzamento das três instâncias que se constituem as análises discursivas, de qualquer que seja o modo de produção dos discursos. A diferença entre
os tipos de discurso se dá pela observação dos elementos que os constroem dentro de um meio de circulação, e que determinam o tipo de olhar que o analista deve ter sobre seu material de análise. No caso deste trabalho, o olhar analítico é multidirecional, dado o caráter do suporte discursivo a partir do qual circulam os discursos que se propõe analisar.
Dois anos após a publicação da tese de Courtine, Pêcheux ([1983] 1990) também volta seu olhar para outras formas de manifestação do discurso político, dessa vez, analisando o espetáculo produzido na eleição de Mitterrand, em 1981, no grito do povo que festejava a vitória nas urnas (“on a gagné”), em Discurso: estrutura ou
acontecimento78.
O trabalho analítico que Pêcheux realiza em torno do enunciado em questão, na articulação entre a estrutura da língua e a produção da história, permitiu compreender que o discurso político, naquele momento, já era atravessado por outros modos de dizer, influenciado pelo meio televisivo, que colocava na ordem do dizer estruturas que deslizavam entre universos logicamente estabilizados e produziam distintos efeitos de sentido. Esse é, talvez, o ponto-chave que destaca a transformação do discurso político na história ocidental e que mostra que já não era suficiente olhar para o discurso político unicamente em sua forma textual, já que o próprio enunciado analisado vem de um pronunciamento oral, desliza do domínio esportivo – lugar de produção de estruturas logicamente estabilizadas –, e prescinde de sujeito e de complemento, o que demanda um olhar para outros lugares discursivos: a falta do sujeito (ou sua suspensão, como sugere a língua francesa) implica a opacidade da posição política ao apoio dessa vitória (esquerda/direita), permitindo que todas elas sejam possíveis, desde as posições militantes até a posição do espectador da eleição, que recebe, passivamente, as transmissões do acontecimento político na televisão; a falta do complemento implica uma multiplicidade de efeitos de sentido, como o poder como objeto adquirido ou consequência da sorte, mas que, ao fim e ao cabo, evidencia a própria opacidade do acontecimento: um candidato de esquerda vencendo as eleições, na França, na década de 1980, quando o movimento ideológico de esquerda se mostrava enfraquecido, imprimia as mesmas condições de interpretação do enunciado produzido quando da vitória nas urnas.
Observando as possibilidades de deriva de todo enunciado linguístico que irrompe na história, o trabalho de Pêcheux também se registra na esteira dos trabalhos que começavam a observar, na década de 1980, novos aspectos na configuração do discurso político, facilitados pelo desenvolvimento e pela difusão dos meios de comunicação de massa, (re)organizando a produção e a circulação do dizer.
“a psicologização dos conflitos, através da retórica do suspense, da reconciliação e da disputa, vai de par com uma informação das ‘bases’ que passa agora mais rápida pelo canal de TV [...].” (PÊCHEUX, [1983] 1990, p. 60).
Importante salientar, aqui, é que, já no começo dos anos 199079, a AD havia
avançado teoricamente junto com a percepção das transformações discursivas atravessadas pelo desenvolvimento midiático, o que também proporcionou o desenvolvimento dos estudos na área da comunicação. Essa consolidação de uma nova ordem discursiva vai evidenciar a performatividade dos discursos que circulam na televisão, e que atingem também a produção e a circulação do discurso político. E a difusão dos estudos dos discursos complexos sobre os suportes audiovisuais vai possibilitar o desenvolvimento das reflexões sobre a própria complexidade da materialidade do discurso político televisivo contemporâneo, em que é possível observar a atração do olhar pela imagem, fruto da especificidade do meio televisivo e da evolução histórico-tecnológica do olhar humano sobre a imagem.
[...] imagem e verbo estão profundamente imbricados, devido ao predomínio midiático contemporâneo, que apresenta verbal e não- verbal, fala, corpo, rosto, gesto, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, numa sucessão de flashes – exigindo do analista a articulação da língua e da história num entrecruzamento de séries de enunciados verbais aliados a diversas práticas sociais. (GARCIA, 2010, p. 28)
79 No Brasil, a partir de 2003, vemos as reflexões sobre o discurso político espetacularizado,
particularmente, em Gregolin (2003), organização a partir da qual se discute a cultura do espetáculo na construção da história dos discursos contemporâneos, e cujos trabalhos de Sargentini (2003) e Piovezani (2003) apontam para as transformações no discurso político posto em circulação pela mídia. Os trabalhos de Sargentini (2003, 2009, 2011) e de Piovezani (2007, 2009), são exclusivamente dedicados a observar as transformações e os deslocamentos do discurso político brasileiro a partir das reflexões de Jean- Jacques Courtine sobre as metamorfoses do discurso político.