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Conversions et reconversions

4. Activité monétaire des associations

4.6. Conversions et reconversions

“[O termo Paisagem Sonora refere-se à] qualquer ambiente sonoro ou qualquer porção do ambiente sônico visto como um campo de estudos, podendo ser esse um ambiente real ou uma construção abstrata qualquer, como composições musicais, programas de rádio, etc.” (SCHAFER – 1977, p.274)

As interpretações que Jan Svankmajer faz dos simbolismos presentes no conto de Lewis

Carroll não se limitam ao plano visual. Não são apenas os objetos que ele anima, as suas personagens e

seus cenários surrealistas que transfiguram significâncias para as peças presentes em Alice no País das

Maravilhas. Há toda uma construção sonora repleta de peças-chaves que nos transportam para a

atmosfera sombria da obra. São rangidos e sussurros, ruídos e efeitos sonoros que permeiam diferentes planos durante o filme. É perceptível o som do tique-taque do relógio que ecoa por quase todo o longa- metragem, ora como uma representação do relógio do Coelho Branco, ora como o relógio da Lebre de

Março, ou ainda como uma analogia simbólica do tempo.

Svankmajer traduz uma série de ações e sensações por estes sons que estão presentes em planos perceptíveis, os quais podemos chamar de sons audíveis. O filme começa com uma paisagem sonora ampliada de sons ambientes, a água que compõe um primeiro plano, o vento e os pássaros em um segundo plano. Depois as pedras atiradas por Alice colocando o som de suas batidas no rio em primeiro plano passando a água para segundo plano. Entra a narrativa da voz e, quando se passam exatamente noventa segundos, aparece o título sobre uma tela preta e inicia uma música instrumental que segue até os dois minutos e vinte e dois segundos do filme. Esta melodia instrumental, de aproximadamente cinquenta segundos, coberta por recortes de narrativa (da voz de Alice), é a ‘única música’ presente no longa-metragem. Para melhor elucidar, precisamos primeiramente entender as diferenças e funções de ruídos e efeitos sonoros.

Podemos entender ruídos como “sons que não estão ligados diretamente à imagem visual” e efeitos sonoros como “o uso de uma conexão direta em que podemos identificar a fonte que produz o som no ambiente visual” (SILVA, 2005). A composição de diferentes ruídos cria uma paisagem além daquela que a fotografia do filme nos apresenta. Em alguns momentos esta composição nos permite imaginar o cenário que está além do enquadramento da cena, em outros nos transporta diretamente para a mente de Alice e toda sua imaginação.

É perceptível um ruído metálico e grave logo após os créditos, preparando-nos para mergulharmos no universo mórbido que Svankmajer constrói com seu surrealismo mecânico15. Este

ruído se mantém por um longo tempo, passando de audível (som ‘perceptível’) para inaudível (som ‘imperceptível’) quando nosso ouvido se encontra acostumado com este som que deixa, em planos perceptíveis, efeitos sonoros, ainda que haja sons que se encontrem na tênue borda entre ruído e efeitos sonoros, como o tique-taque do relógio que ainda não está presente na cena, ou pelo menos, ainda não fora revelado.

Citemos também o momento em que Alice cai em um buraco, uma queda longa e demorada, na qual vemos objetos dos mais variados. Acompanhando a queda, há um som perceptível de um elevador, porém uma interferência a ele com ecos metálicos e sons de vidros que trazem uma sensação de que a nossa personagem, está de alguma forma interagindo com os objetos que passam à sua frente. Inaudível é o som do relógio que logo em seguida à queda, sai deste plano imperceptível e entra em um segundo plano, no qual passamos a percebê-lo, agora ignorando o som de elevador que permanece depois que

Alice não está mais em queda, desassociando-se de seu primeiro significado.

15 Surrealismo Mecânico: o termo vem do processo criativo de Svankmajer, que trabalha a mecânica dos objetos como linguagem de seus filmes. A função primeira para a qual determinados objetos foram designados são levadas à um segundo plano, enquanto que seu insight são as possibilidades que estes objetos oferecem tanto no movimento, quanto nos sons que podem emitir.

Em um estudo mais delineado, encontramos uma série destes sons em planos mais distantes que nos passam imperceptíveis (os sons inaudíveis) em uma primeira escuta, talvez por estarem em campos sonoros que nossos ouvidos ignorem dentro de um conjunto de sons ou por fazerem parte de uma ambiência previsível como o som de um vento suave, enquanto Alice corre por um gramado, atrás do

Coelho Branco, a água do riacho e o ‘barulho’ dos pássaros nas paisagens campestres.

Se pensarmos em todos estes sons (ruídos e efeitos sonoros) e como eles estão organizados dentro do filme, observamos a presença de uma certa rítmica e de uma melodia que resgatam o processo de criação de música aleatória, no qual alguns dos elementos da composição são deixados ao acaso, no entanto, aproximando este processo ao método do uso não-convencional de objetos como instrumentos musicais e da elevação de barulho-ruído ao status de música propostos por John Cage16.

Os objetos presentes em Alice regem o que podemos assim considerar como trilha musical, transfigurando uma imensa paisagem sonora.

“Em qualquer lugar, o que mais ouvimos são ruídos. Queremos capturar e controlar esses sons, e usá-los não como efeitos de estúdio mas como instrumentos musicais.” (CAGE, 193717).

16 John Cage: (1912 - 1992) foi um compositor, poeta, pintor, teórico musical experimentalista e escritor norte-americano. É o compositor da famosa peça 4'33", pela qual ficou célebre. Composta em 1952, a peça consiste em 4 minutos e 33 segundos de música sem uma nota sequer.

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