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Chapitre 7. Etudes de cas

7.2 Conversion binaire vers décimal

Juntamente com a Torá, Moisés recebeu de D’us a lei oral, que complementa a Torá e nos ensina como cumprir os mandamentos. Steinsaltz (1989) afirma que “a tarefa básica da lei oral era transmitir o significado das palavras” (p. 15). Pode ser que os conceitos empregados na Torá fossem claros e inequívocos para uma ou duas gerações, mas “valores e costumes modificam-se inevitavelmente e aparecem novos problemas, de modo que se torna essencial definir o significado preciso de certas palavras” (id.). À guisa de ilustração, podemos citar como exemplo o fato de nos Dez Mandamentos (Ex 20:10) constar que seja guardado o sétimo dia, o Shabat (sábado). No entanto, a exata natureza dos trabalhos proibidos no Shabat nos é fornecida pela lei oral. Sem esta, a maioria dos mandamentos outorgados por D’us nos seria incompreensível, haja vista a complexidade dos detalhes envolvidos em seu cumprimento na prática.

Com a destruição do Segundo Templo93 pelos romanos no ano 70 e.c. e a consequente dispersão do povo judeu na Diáspora94, os rabinos passaram a ver a necessidade de se preservar essa tradição oral de forma escrita para que não se perdesse.

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O Segundo Templo foi o templo que o povo judeu construiu após o regresso a Jerusalém, findo o cativeiro babilônico, no mesmo local onde o Templo de Salomão existira antes de ser destruído. Manteve- se erigido entre 515 a.e.c. e 70 e.c., tendo sido, durante este período, o centro de culto e adoração do Judaísmo.

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O termo diáspora (em grego antigo, διασπορά – "dispersão") é frequentemente usado para fazer referência à dispersão do povo judeu no mundo antigo, a partir do exílio na Babilônia no século VI a.e.c. e, especialmente, depois da destruição de Jerusalém em 135 e.c.

Tentativas de organização do material que constitui a tradição oral já haviam sido feitas nos séculos anteriores (cf. GIGLIO, 2000:20), mas ganhou força no período dos Tanaítas, que se iniciou no começo do reino do rei Herodes (73 a.e.c.). “Taná” significa aquele que estuda, repete e ensina o que aprendeu de seus mestres. Durante esse período, a lei oral foi organizada por assunto ou por formatos com o intuito de se facilitar sua memorização. Dois rabinos se destacaram em seu início, Hilel e Shamai, cujos pontos de vista se contrapunham. A escola de Hilel era mais liberal nos pontos de controvérsia, enquanto a de Shamai era mais estrita e severa em seu julgamento. “Shamai era irascível e julgava a si mesmo e aos outros por padrões rígidos” (STEINSALTZ, 1989:34). Os debates entre os discípulos das duas escolas se estenderam por gerações, até que a escola de Hilel passou a prevalecer, ocupando este o cargo de presidente do Sinédrio, a suprema corte judia legislativa e judicial de Jerusalém.

Quanto Iochanan ben Zacai, um discípulo de Hilel, passou a assumir a chefia do Sinédrio, obteve do imperador romano Vespasiano (69-79 e.c.) a autorização para estabelecer um centro de estudos fora de Jerusalém, em Iavne, devido à destruição do Segundo Templo. Iochanan havia se oposto à revolta contra os romanos, por entender que dela resultaria insucesso e acarretaria, ademais, consequências sombrias. Estabeleceu-se em Iavne um novo centro espiritual e intelectual do judaísmo, abrigando grandes sábios que contribuíram em muito nas discussões e debates em torno da lei oral. Como consequência do trabalho das diversas academias de eruditos e seus discípulos ao longo das gerações, tem-se o fato de que o material legal apresentou um grande crescimento em extensão, o que veio dificultar sua completa memorização. Paralelamente a esta explosão do conhecimento, “divergências entre diversas academias e a interação com as várias civilizações da época ameaçavam a unidade das leis judaicas derivadas, de maneira lógica e coerente, das Escrituras Sagradas” (GIGLIO, 2000:24). Devido a esses fatores, ocorreu a necessidade de se registrar por escrito o material que constituía a tradição oral. A esta compilação de material da lei oral no século II e.c. deu- se o nome de Mishná, cujo significado é “repetição”, palavra derivada do verbo shanah, “estudar e revisar”. O trabalho de codificação da Mishná foi levado a cabo pelo rabi Judá Ha-Nassi, o qual conseguiu completá-la e lhe dar sua forma e caráter permanentes (cf. STEINSALTZ, 1989:49-53).

A Mishná está organizada em seis Ordens (Sedarim): Zeraim (“Sementes”, sobre rezas, bênçãos, dízimos e leis agrícolas), Moed (“Festas”, sobre as leis do Shabat e das

Festas Judaicas), Nashim (“Mulheres”, leis das mulheres e da vida familiar), Nezikin (“Danos”, lida, sobretudo, com a lei criminal e civil judaica), Kodashim (“Coisas sagradas”, lida em particular com o serviço religioso no Templo de Jerusalém) e Tahorot (“Purificações”, lida com a distinção puro/impuro e sobre a pureza familiar). Cada uma destas Ordens está dividida em Tratados (Massechet) que, por sua vez, estão divididos em capítulos (Pereq), e estes em unidades menores, as Mishnaiót (plural de Mishná), que lidam com leis (Halachót, plural de Halachá) específicas ou conjuntos de leis interrelacionadas. O estilo sucinto da Mishná, praticamente telegráfico, é um desafio a mais para o tradutor. A língua em que está escrita é o hebraico.

Por sua vez, a Mishná foi exaustivamente estudada nas academias de Jerusalém e da Babilônia pelos diversos Amoraítas (Amoraim, cuja raiz é a mesma do verbo amar, “dizer”, significando “tradutores”, “explicadores”), doutores judeus do Talmud. Nos séculos seguintes, dois corpos de comentários da Mishná foram redigidos, um na Palestina e outro na Babilônia. A estes corpos de comentários da Mishná dá-se o nome de “Guemará”, palavra derivada do aramaico gamar, “estudar” ou “aprender por tradição”. Enquanto a língua da Mishná é o hebraico, a Guemará está redigida preponderantemente em aramaico, idioma vernáculo dos judeus da época.

Na Guemará encontram-se comentários, explicações e debates sobre o conteúdo legal da Mishná, além de muitas narrativas. Os debates envolvem as diversas leis rituais, comerciais, familiares e sociais. Combinando-se o uso da lógica e os diferentes recursos interpretativos das Escrituras Sagradas, são contrapostas diferentes opiniões rabínicas até que se chegue a um consenso sobre uma determinada controvérsia legal em debate. Este consenso passa, então, a incorporar o conjunto de leis judaicas, a Halachá.

A primeira grande publicação da Mishná data de cerca do século II da era comum, tendo como expoente, como visto supra, o rabino Judá Ha-Nassi. Quanto à Guemará, existem duas grandes versões. A primeira foi compilada pelos sábios de Israel entre os séculos III e IV e.c. A segunda grande versão foi compilada pelos eruditos da Babilônia por volta do século V.

A este conjunto de Mishná e Guemará dá-se o nome de Talmud. E, dependendo do lugar de sua compilação, é denominado Talmud de Jerusalém ou Talmud Babilônico. Por as academias da Babilônia propiciarem um ambiente mais profícuo de estudos, o Talmud Babilônico é mais completo do que o Talmud de Jerusalém e é a este Talmud que se comumente faz referência.

No entanto, as discussões apresentadas na Guemará necessitam frequentemente de uma explicação “para que se compreenda melhor a linha de raciocínio utilizada pelos Amoraítas, ou mesmo seja aclarada melhor a natureza da discórdia entre os rabinos” (GIGLIO, 2000:14). Uma das mais claras explicações da Guemará utilizada até hoje pelos estudiosos talmúdicos foi feita por um ilustre comentarista medieval, o rabino Shelomo ben Yitschak, conhecido como Rashi (1040-1105). Outros comentários também foram agregados ao Talmud, como, p.ex., as Tossafót (“acréscimos”), que compreendem explicações oriundas de uma série de sábios medievais, e os comentários de sábios mais modernos acerca das questões discutidas na Guemará.

Para os trabalhos de tradução da Guemará, é importante ter em mente seu método de redação, o qual reflete sua natureza e as maneiras em que difere da Mishná. Nesta, as diferenças de opinião entre os sábios surgem de forma abreviada. A Guemará, por sua vez, deveria ser considerada como “uma espécie de esboço resumido dos debates dos sábios” (STEINSALTZ, 1989:76). Sua importância principal não se encontra “nas conclusões haláchicas mas nos métodos de pesquisa e análise através dos quais se chega às conclusões” (id.). Finalizando, Steinsaltz continua: “o Talmud reflete os métodos de estudo das academias babilônias, e deveria ser encarado como um corte ou estrato de vida, como a essência da experiência intelectual de gerações” (id.).