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CONVERGENCE FOR METHODS WITH RANDOMIZED ORDER

uma pergunta assim, sei que você é lá da terra do Alfredo, dos grandes intelectuais dessa área do pensamento foucaultiano das instituições, o que pode se fazer com esse campo para que a pedagogia, as escolas não sejam tão influencia- das, tenham uma certa postura de autonomia, de rejeição do processo de medicalização? Por- que de fato, os nossos centros de saúde lá da Fiocruz, a maior parte das crianças já chegam diagnosticadas com TDAH pelos professores, que já mandam com o diagnóstico, crianças hi- perativas e assim já medicalizou. E no momento que deu essa medicação aos pais, nós sabemos as consequências, né? Então, muito obrigado.

Cida Moysés: Eu queria mais que tudo agradecer vocês por esta conferência com- partilhada, acho que foi algo assim fantástico porque uma das coisas que a gente já vinha comentando é como nós precisamos nos rea- propriarmos da avaliação, porque a gente faz avaliação, a gente tem de avaliar. E, de repente, parecia que você criticar era ser contra a avalia- ção. A gente é contra uma avaliação padroniza- da, que coisifica o sujeito, que é violento e que não escuta as pessoas. Eu conto alguns causos de avaliações padronizadas que eu vi, de não escutar o sujeito e quando você escuta, você vê como a avaliação tinha sido ridícula. Uma me- nininha, agora ela já é uma moça, ela tinha cin- co anos e a escola tanto insistiu, tanto insistiu que tinha de fazer uma avaliação, a mãe dela era professora na Unicamp e não queria, mas foi convencida e ela falou, “tá bom, pode fazer, mas vai fazer naquela sala que tem espelho es- pião, “eu quero ver”. E aí chegou a psicóloga, “Olá, tudo bem? Eu vou te mostrar uns desenhos

pra você ver”. Aí mostrou o famoso gato sem

bigode, “e aí, falta alguma coisa?”, “não, não”, o caderno inteiro a menina disse que não faltava nada. E a mãe, no terceiro desenho, começou a ficar preocupada, no décimo ela estava deses- perada, “o que eu fiz com a minha filha que não

percebi?”, enfim, saiu de lá arrebentada, andan-

do, menina correndo para lá e para cá e a mãe se sentindo um horror de mãe. Porque, inclusi- ve, não tinha deixado fazer a avaliação antes na menina. Aí ela fez aquilo que ela sabia que não devia fazer, mas fez. “Vem cá, querida, con-

ta pra mim, você não viu mesmo nada faltando naqueles desenhos?”, aí ela assumiu a posição

de açucareiro, certo? “Mãe, você não diz que eu tenho que ser educada, como é que eu vou

falar para aquela mulher tão velha que ela não sabe desenhar?”. Uma avaliação padronizada faz esses tipos. Você não escuta, você tem de dar a resposta certa. Eu falei, na psicologia tem também a do famoso mini mental test, acho que muita gente aqui deve conhecer, parece que ele saiu um pouco de moda, que era para fazer um diagnóstico de demência, e como a pessoa que está nessa avaliação, qualquer avaliação, sem- pre sabe que está sendo avaliada, portanto, é uma situação de tensão, e uma vez aqui no hospital de clínicas, eu estava passando e vi um velhinho, era um velhinho mesmo, sofrendo com o mini mental. Ele era assim bem do interior de São Paulo. Estava lá, aí eu tinha que parar e as- sistir. Aí foram aquelas perguntas e ele pensava o quê? Que as perguntas eram todas armadi- lhas, “o que querem de mim?”. Com prova, a gen- te precisa descobrir quem é o professor que fez a pergunta para saber o que precisa responder, não é? Aí veio a fatal, “jacaré voa?”, ele parou, olhou, sabe aquela coisa assim, paralisa, né? Ele só não puxou o cigarrinho de palha porque não podia. Aí ele responde, “bom, eu nunca vi, mas um

amigo meu jura que já viu”. Saiu com diagnósti-

co de demência, porque ele não respondeu que jacaré não voa, certo? E acho que o avaliador precisa ser avaliado nessa situação. Mas enfim, acho que é isso, então, eu queria agradecer a vocês por nos devolverem a avaliação. Acho que a gente pode dizer que a avaliação é nossa, nós avaliamos, eles coisificam, eu acho que a gen- te tem que fazer avaliações que nos respeitem e respeitem a pessoa que está à nossa frente, o sujeito, porque quando a gente transforma o outro no objeto, a gente também se transfor- ma em objeto. Não existe relação sujeito com objeto, aí é objeto, então o que a gente está fa- zendo em todas as nossas ações e em todas as nossas práticas, é nos respeitarmos como sujeitos, aí a gente respeita os outros como su- jeitos. E quando a gente respeita todos como sujeitos, a gente grita ele não.

Jonas: Meu nome é Jonas, eu sou psicólo- go em Rio Claro e trabalho no serviço que tra- ta pacientes com HiV/Aids e hepatites. A gen- te lida com algumas situações lá que eu acho muito delicadas, que eventualmente a gente tem que lidar, que é trabalhar com a articulação entre o sofrimento de um paciente e a situação dele com relação aos seus direitos, e com iNSS, com afastamentos, com licenças etc. E eu tenho muita dificuldade, particularmente, com aquela

C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C A D E R N O S T E M ÁT iC O S C R P S P P a

tologização e medicalização das vidas: reconheciment

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situação em que você começa a atender o pa- ciente e ele já está instalado em uma situação assim. Ele passou por um psiquiatra, por exem- plo, um caso particular, que identificou que havia um sofrimento no serviço, alguma dificuldade com o trabalho, aí o psiquiatra deu um diagnós- tico para afastar o paciente. Ele prescreveu um monte de depressões ali, depressão repressiva recorrente, depressão grave, depressão... então, ele montou um laudo pra afastar o paciente. O que acontece? Ele se afasta e não consegue voltar mais, que é uma coisa que eu tenho visto com muita frequência depois que você afasta um paciente. Quando da nossa escuta, o nos- so contato com ele, nos dá a impressão que ele teria ficado melhor se ele tivesse continuado no trabalho e trabalhando as dificuldades dele, fa- lando e tentando modificar a própria situação dele, a forma de se colocar no serviço, de se co- locar na comunidade etc. Mas você o afastou, e ele não consegue voltar com a possibilidade de rever a sua situação ali no serviço. Então, porque não existe esse mecanismo, pode até existir assim burocraticamente, mas não existe na prática, uma tentativa de botar de volta o sujeito ali, ver o necessário e depois repensar. Então, se ele arriscar tentar de novo, ele perde o benefício, perde aposentadoria, perde afasta- mento, perde tudo o que ele tinha conquistado, para ele é uma conquista, porque agora ele está recebendo um benefício, está afastado e apo- sentado, ele não precisa trabalhar mais, só que na escuta, você vê que há um sofrimento muito grande implicado nisso aí, porque por um lado, a pessoa incorpora o laudo, se define. Eu estou falando de um adulto, imagine uma criança, né? Tenho pouquíssima experiência com criança, mas os adultos, eles incorporam, “eu sou bipo- lar, eu sou...”, “eu tenho depressão recorrente...”, mas é interessante que a depressão recorria na véspera da avaliação, da perícia do iNSS, era de lei isso, né? Então, eu queria que vocês co- mentassem um pouco. Vocês têm alguma dica, alguma estratégia, como lidar, conversar, como articular essas situações? Porque a gente tem uma variedade grande de pacientes que a im- pressão que eu tenho é que quando você está nessa situação, você já pega essa situação, e você não participou da produção de um laudo, de um estudo, e ele já tá afastado, né? Então, é difícil reverter, repensar isso, né? A impres- são que eu tenho é assim, a gente está lidando também com o ganho secundário que o pacien- te tenha, com o ganho secundário que ele tenha

a partir de um sofrimento que ele acha melhor continuar sendo beneficiado por esse benefí- cio, do que se responsabilizar pelo seu próprio sofrimento, e daí eu acho que é pertinente ao movimento de despatologização, que é pen- sar o sujeito, escutar o sujeito implica também responsabilizá-lo pelas suas escolhas, né? Já é uma coisa importante, né? Então, eu queria que vocês comentassem um pouco isso, como que a experiência que vocês têm trazido isso, como vocês têm lidado.

Biancha: Bom, vou colocar a questão que o colega nos traz, uma discussão que fazíamos. Começamos a nos organizar para fazer um cole- tivo no Despatologiza, em relação às professo- ras ali, vou dar o exemplo das professoras, por- que é o meu terreno. Na história do burnout, não é algo específico da carreira docente, mas que era o local como um exemplo. Então, o que você tem? Você tem o contexto laboral que produz so- frimento, que não encontra campo de interlocu- ção e transformação, que se torna adoecimento. Esse adoecimento só vai ser percebido quando incide sobre o corpinho, aquela vida humana da professora, sim, e ela entra em sofrimento tal, muitas vezes em processo de adoecimento, ok. A gente sabe que... até porque tô usando categoria burnout porque por definição tem a ver com um sofrimento decorrente da situação laboral. Bom, essa pessoa é afastada para cui- dar de si, muito bem, enquanto ela cuida de si, afastada do trabalho, o lugar gerador do sofri- mento e do adoecimento, a vida anda, faz-se os diversos processos de cuidado, mas no que que isso repercute? Para a instituição que não faz a pergunta, como é que a gente produz pessoas que adoecem? E às vésperas da avaliação para retorno, cessação do afastamento para o retor- no para atividade laboral, essas pessoas entram em ansiedade, porque elas sabem para onde elas vão voltar, elas não estão fazendo uma fan- tasia a respeito de como vai ser o retorno, elas vão voltar para o lugar que as adoeceu e aquele lugar que as adoeceu não pensou sobre isso e não produziu transformações, não produziu e ela vai voltar para lá e muitas vezes ela volta para lá na condição de professora readaptada, ou seja, ela não pode voltar para sala de aula, porque ela é um risco para os estudantes, ela não pode voltar para sala de aula, ela vai desenvolver ou- tras atividades na escola. Então a sua identida- de profissional, que é de professora, sofre um processo de diminuição, de deslocamento que,

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