No imaginário judaico-cristão, Cristo, do grego Χριστός, Khristós, significa aquele que foi “ungido”, significando o Messias, o Filho de Deus, tanto aguardado pelos cristãos. Segundo o Velho Testamento, Cristo nasceu de uma mulher terrena, Maria, ainda virgem, por intermédio do Espirito Santo: “Eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho […] ” (Is 7:14). Cristo é, portanto, tanto divino como humano, pois anda na terra como um deus feito homem, isento de todos os pecados. No Velho Testamento,
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é Deus que anuncia que colocou o seu espírito no seu Filho para dar uma nova oportunidade de redenção à humanidade:
Eis aqui o meu Servo, a quem sustenho, o meu Eleito, em quem se compraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; juízo produzirá entre os gentíos. […]
Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas. […] Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai para que possaís ver.
(Is 42: 1, 7, 18)
Também no Velho Testamento, nos Salmos e no livro de Zacarias, se lê a profecia de como Cristo será traído e vendido por trinta moedas de prata, por Judas, embora o nome do discípulo não seja mencionado. Veja-se, pela mesma ordem, as seguintes passagens do Velho Testamento, lidas como profecias do Novo:
Até o meu próprio amigo intimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar.
(Sl 41:9)
E pesaram o meu salário, trinta moedas de prata. O Senhor pois me disse: Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado por eles. E tomei as trinta moedas de prata, e as arrojei ao oleiro, na casa do Senhor.
(Zc 11:12-13)
Embora Cristo pregasse a palavra de Deus, o povo acusou-o de blasfémias. Mesmo assim, será ele a morrer pelas transgressões da humanidade, redimindo os pecados cometidos desde Adão: “Eu, eu mesmo, sou eu que apago as tuas transgressões, por amor de mim [...] ” (Is 43: 25). É o profeta Isaías que descreve o sofrimento de Cristo pelos homens:
Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si: e nós o reputámos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido pelas nossas iniquidades: o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
Todos nós andámos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho: mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.
Ele foi oprimido, mas não abriu a sua boca: como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como a ovelha muda, perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. […]
mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercede.
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Pouco antes de morrer na cruz, Cristo entrega a alma a Deus e aceita o que do amor virá. Porém, passados três dias da sua morte ressuscita: “Depois de dois dias, nos dará a vida: ao terceiro dia, nos ressuscitará, e viveremos diante dele” (Os 6: 2). Caminha, novamente, pela terra durante quarenta dias, após os quais, ascende aos céus e fica à direita do seu Pai: “Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110: 1).
Os momentos mais importantes da vida de Cristo a que tentarei aqui dar destaque, podem, de certa forma, ser comparados a Calisto: são o seu Ministério, a Tentação, a Transfiguração, a Ressurreição e a Ascensão. O nosso anjo decaído, agora homem em transformação, na sua terceira “queda” passou por momentos semelhantes, que me parece que sejam pertinentes referir.
Cristo prega e vai reunindo apóstolos à medida que avança pelas terras da Galileia. Calisto também acaba por ter os seus “seguidores”, os deputados que passam a seguir os seus ideais. Calisto influencia-os com as suas palavras. Cristo tinha o Verbo, a palavra divina para convencer o povo, não o influenciou. O mesmo sucede com Calisto, afinal.
Calisto Elói passou, como Cristo, pelo caminho da tentação, embora de forma diferente: ambos se pensam, por momentos, abandonados por Deus, ou lhe pedem para não beber do cálice. Neste ponto, podemos aferir que tanto Cristo como Calisto foram tentados, mas ambos cedem ao amor.
É numa montanha sem nome que Cristo se transfigura diante dos seus apóstolos, “transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e os seus vestidos se tornaram brancos como a luz” (Mt 17: 2). À semelhança de Cristo, Calisto também se transfigura. É quando Calisto se transfigura que se revela um “anjo humanizado”, isto é, um ser intermédio entre o terreno e o divino.
– Não sei o que é a felicidade. Tenho quarenta e quatro anos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos anos procurei aturdir-me no estudo. […] Eu tinha consumado a paralisia do coração, e chamado sobre mim os hábitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o ressurgimento da vida, sepultada antes de haver consciência de si. Achei-me entre homens, aquecidos à luz deste século. […] Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade… […] Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus.
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Calisto tem também, à sua medida, uma morte e uma ressurreição: a sua travessia no deserto, política e amorosa, quando abandonado pelos correligionários. Mas o amor redime-o, até socialmente.
À semelhança de Cristo, que ascendeu aos céus e se tornou, novamente, divino, Calisto Elói também “ascendeu” aos céus quando se transfigura num novo homem. Conhecendo-se a si próprio, o morgado toma conhecimento, não só dele, mas também do que o rodeava, de tudo o que desconhecia antes de chegar à capital.
Retomemos a Paradise Lost, apenas para termos uma pequena noção de como o tema de Cristo é aqui tratado de forma diferente do da Bíblia. Milton descreve que foi Cristo que se ofereceu para resgatar a humanidade das suas iniquidades, pois o seu Pai estava decidido a destruir toda a humanidade pelas suas transgressões:
Behold me then, me for him, life for life I offer, on me let thine anger fall; Account me man; I for his sake will leave Thy bosom, and this glory next to thee Freely put off, and for him lastly die
Well pleased, on me let Death wreak all his rage; Under his gloomy power I shall not long
Lie vanquished; thou hast given me to possess Life in myself for ever, but thee I live, Though now to Death I yield…
(Milton, 2006: 116-118, vv. 236-245)
Deus aceita a expiação através do seu Filho e, na terra, ele será Deus e Homem, o seu amor pelos homens é maior do que a sua glória. Qualquer castigo que Deus queira dar aos homens, deverá recair sobre ele:
I go to judge
On earth these thy transgressors, but thou knowst, Whoever judged, the worst on me must light, When time shall be, for so I undertook Before thee; and not repeating, this obtain Of right, that I may mitigate their doom On me derived, yet I shall temper so Justice with mercy, as may illustrate most Them fully satisfied, and thee appease.
(Ibid: 432, vv. 71-79)
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For this he shall live hated, be blasphemed,
Seized on by force, judged, and to death condemned A shameful and accursed, nailed to the cross
By his own nation, slain by bringing life; […] and the sins
Of all mankind, with him there crucified […] (Ibid: 556-558, vv. 411-414, 416-417)
Como entendemos, tanto na Bíblia como no Paradise Lost, Cristo é reconhecido como o salvador da humanidade, aquele que morreu pelas iniquidades dos homens, ascendendo, depois, ao Céu. Em A Queda dum Anjo, Calisto sofre sucessivos avatares para nos mostrar como pode um anjo caído voltar a levantar-se.