Olhar para o processo de configuração e reconfiguração do espaço público e reconhecer que, nesse caminho feito por experiências e histórias de vida, há diferentes significações, é se deparar com a perspectiva da materialidade gerada pela ação humana enquanto “gesto inacabado”, abordada pela brasileira Cecília Almeida Salles. A autora volta-se ao debate sobre as redes de criação e conexões sócio-culturais que configuram a concepção e a execução artística – o que também pode ser associado a outros objetos de análise, pois as percepções lançadas por ela acompanham a perspectiva dialógica de Bakhtin, como veremos a seguir.
Salles (2006, p.20-21), mostra-nos que a criação, enquanto capacidade inerente ao homem, compõe o movimento que impulsiona significativas e permanentes transformações no tecido social, que está em constante construção, pois, por resultar da interação desencadeada pelos sujeitos, jamais estará acabado, uma vez que a completude é inatingível. Esse é um percurso de permanente mobilidade, pois o inacabamento é intrínseco a todos os processos (SALLES, 2006, p.20).
Essa perspectiva aparece tanto na construção do objeto – bem como da obra de arte – assim como se manifesta no processo de ressignificação, o envolve ao longo da sua história, em diferentes momentos. Isso porque a construção está
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imersa na continuidade e na incompletude, em que “[...] há sempre uma diferença entre aquilo que se concretiza e o projeto do artista que está por ser realizado. [...] onde há qualquer possibilidade de variação contínua, muda ao longo do tempo”, (SALLES, 2006, p.20).
Outro aspecto inerente à incompletude é o seu caráter de inter-relação com os outros, fazendo-nos refletir sobre o processo de criação enquanto resultado de um ciclo formado por infinitas interações dialógicas. Estamos, portanto, referindo-nos ao campo relacional, onde os componentes não podem ser isolados em suas particularidades, uma vez que a complexidade do sistema relacional é constituída pela contextualização (SALLES, 2006, p.22), do espaço e do tempo, bem como pelas suas variações.
Basta reconhecer que, primeiramente, cada enunciação, até mesmo a mais completa de todas, representa apenas uma fração de uma vasta corrente que, desde que recebeu seu primeiro elo, nunca mais se rompeu e segue ganhando novos elementos. Eis a sua estabilidade, a capacidade de repetir e antecipar enunciados anteriores e posteriores.
É como se estivéssemos imersos em um ciclo que não é inerte, pois não somos meros repetidores, pois também criamos novas experiências por meio da nossa vontade enquanto falante (autor), bem como inserimos nossa ação à coletividade (BAKHTIN, 2011, p.294-295). Portanto:
Nosso discurso, isto é, todos os nossos enunciados (inclusive as obras criadas), é pleno de palavras dos outros, de um grau vário de alteridade ou de assimilabilidade, de um grau vário de aperceptibilidade e de relevância. Essas palavras dos outros trazem consigo a sua expressão, o seu tom valorativo que assimilamos, reelaboramos, e reacentuamos. (BAKHTIN, 2011, p.294-295)
Nesse sentido, Salles (2006, p.22) apresenta o conceito de “redes de criação”. Para a autora, as conexões simbólicas podem ser responsáveis pela inventividade, processo em que “[...] essas interações da rede se dão por contato, contágio mútuo ou aliança, crescendo por todos os lados e em todas as direções [...] ativada por elementos exteriores e interiores ao sistema em construção [...]”, (SALLES, 2006, p.25). Aqui, observamos esse elo enquanto produto do dialogismo, que demonstra o potencial criador humano e que está ligado à relação entre pensamento (ideologia, simbolismo) e linguagem.
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A relação entre dialogismo e interação estabelece um diálogo entre as percepções apresentadas por Mikhail Bakhtin e Cecilia Almeida Salles, mostrando que a teoria da análise dialógica do discurso pode ser aplicada, justamente, para reconhecer a dinâmica relacional e o movimento criador que, a partir da experiência social, transforma e modifica realidades – bem como espaços físicos, por meio da forte carga de conexões simbólicas.
Assim, a interatividade atua no desenvolvimento humano e social, uma vez que é “[...] uma das propriedades da rede indispensável para falarmos dos modos de desenvolvimento de um pensamento em criação”, (SALLES, 2006, p.26). Neste estudo, portanto, encaramos a criação (e a recriação) como o movimento norteador que desencadeia mudanças. Afinal, conforme orienta Salles (2006):
Devemos aprender a lidar com a criação na perspectiva temporal onde tudo se dá na continuidade, ao longo do tempo – no universo do inacabamento. Para tal, precisamos estar alerta à sua inserção na história e na cultura, compreender sua relação com o futuro e lidar com a impossibilidade de se definir início e fim, entre tantas outras questões. A continuidade não é cega, mas tem tendências, que enfrentam a intervenção de acasos. (SALLES, 2006, p.37)
Portanto, neste estudo, mostramos o espaço público enquanto espaço social que mantém a continuidade do processo de reformulação, devido ao caráter inacabado que caracteriza os objetos que são construídos pela interação. Enquanto fruto do ato criador, em constante movimento, a Praça permanecerá recebendo novas formulações, pois está envolvida em uma natureza de buscas e de descobertas (SALLES, 2006, p.37).
5.2.1A NATUREZA DA CRIAÇÃO E A TECNOLOGIA DOS SÍMBOLOS
A otimização dos processos de produção, oportunizada pela transformação da técnica, culminou em uma nova dinâmica relacional, uma vez que a tecnologia também acompanha necessidades da sociedade, por resultar de um processo de criação e recriação, ou seja, de configuração e reconfiguração.
O homem é um ser criador, por isso também pode ser encarado como um “ser tecnológico”. Afinal, conforme afirma Álvaro Vieira Pinto (2005, p.69), “a criação
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tecnológica de qualquer fase histórica influiu sobre o comportamento dos homens [...]”, acompanhando as “[...] profundas modificações nos hábitos sociais, nas formas de convivência e comunicação e nas respectivas maneiras de pensar”, (PINTO, 2005, p.70).
Dessa forma, cria-se uma “nova natureza”, a partir da produção gerada pelo homem, que modifica o ambiente a partir das suas práticas e demandas, fazendo desse processo, de contínuo movimento, uma condição natural (PINTO, 2005, p.37). Tal dinâmica também é observada na configuração do espaço público urbano, uma vez que “o homem é um ser destinado a viver necessariamente na natureza. Apenas, o que se entende por “natureza” em cada fase histórica corresponde a uma realidade diferente”, (PINTO, 2005, p.37). Nesse sentido, a realidade dessa “nova natureza”, transita pela ciência e pela arte, pois :
[...] o mundo deixa de ser simplesmente o ambiente rústico espontâneo e se converte no ambiente urbano, na casa povoada de produtos de arte, e na época atual, de aparelhos que põem as forças naturais a serviço do homem. O homem é um ser destinado a viver necessariamente da natureza. [...] agora que o civilizado consegue cercear-se de produtos fabricados pela arte e pela ciência, serão estes que formarão para ele a nova natureza. (PINTO, 2005, p. 37, grifos nossos)
Sendo assim, o ato de criar e (re)produzir está ligado ao desenvolvimento tecnológico, pois “os homens nada criam, nada inventam nem fabricam que não seja expressão de suas necessidades, tendo de resolver as contradições com a realidade”, (PINTO, 2005, p. 49). Portanto, é necessário reconhecer que, da mesma forma que as demandas são alteradas de acordo com o contexto, “o novo de hoje” será diferente nos mais variados momentos históricos (PINTO, 2005, p. 51).
O caráter transformador inerente à ação humana, conforme aponta Pinto (2005, p.54-55), ocorre pelo fato de que o homem projeta o seu ser na busca por modificar a realidade material, gerando novas condições de vida e estabelecendo variações produtivas com substâncias da natureza. Essa reação modificadora dos atores sociais em relação à realidade que os cerca é permanente e, sobretudo, reveladora de formas de apropriação e forças de poder, justamente porque há um embate contínuo entre o mundo físico e o mundo social (PINTO, 2005, p.54-55). Alterar essas realidades significa criar novos mundos e se distanciar dos contextos anteriores.
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