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A partir das leituras que acompanharam minhas reflexões sobre possíveis temas de pesquisa, decidi investigar como se estabeleciam as relações de ensino- aprendizagem de espanhol no meu contexto de trabalho, por entender a importância e o valor das práticas desenvolvidas na escola pública. Além do mais, considerei muito oportuna a possibilidade de vivenciar a minha autotransformação, como educadora, aprofundando minha percepção sobre o IFBA e sobre novas perspectivas para o ensino da língua espanhola, conforme os pressupostos da educação libertadora concebida por FREIRE e pelos teóricos da linguística aplicada, como RAJAGOPALAN, PENNYCOOK, MOITA LOPES e SIQUEIRA.

Acumulo a experiência de aproximadamente dez anos como professora da rede pública federal de ensino. Ingressei nesta carreira no ano de 2007, através de concurso público para a Escola Agrotécnica Federal de Santa Inês6 (EAFSI), Bahia.

Um universo novo em educação se revelou, e passei a pensar a formação básica

5 O Projeto Vertentes, do Departamento de Letras Vernáculas, da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

apresenta um histórico do bairro da Liberdade. Disponível em: http://www.vertentes.ufba.br/bairro-liberdade

6 A EAFSI estava localizada na zona rural da cidade de Santa Inês. A cidade tem aproximadamente 12.000

habitantes e se insere na região do Vale do Jiquiriçá, a estimada distância de 300 quilômetros da capital do estado, Salvador.

juntamente à formação técnica. Ao mesmo tempo, um novo desafio surgiu na tentativa de “aplicar” os conhecimentos advindos da licenciatura em Letras/Espanhol à prática da sala de aula.

Os cursos técnicos, naquele momento, eram apenas de Agropecuária e Zootecnia. Muitos estudantes viviam na zona rural de pequenos municípios do Vale do Jiquiriçá7. Os demais eram estudantes internos, ou seja, residiam no alojamento

estudantil na própria escola em Santa Inês.

Eu, professora recém-formada, natural da 3ª maior capital do Brasil, Salvador, em termos populacionais, tinha muitos questionamentos e dúvidas de como seria apresentar uma nova disciplina àquele currículo. Quando da minha chegada à EAFSI, passei a residir no alojamento dos professores dentro da escola, e isso me ajudou a compreender melhor a nova realidade na qual eu estava inserida. Estávamos, assim, meus estudantes e eu dispostos em universos muito diferentes para iniciar uma nova caminhada.

Avalio esse início de jornada de forma muito positiva. Foi possível realizar melhorias significativas na escola, ampliando o acervo da biblioteca, ofertando aulas nos cursos regulares, promovendo cursos de extensão para servidores e estudantes, criando uma sala temática de espanhol e ampliando, gradativamente, a oferta da disciplina. Assim, a língua espanhola se integrou ao currículo de forma mais efetiva e atendeu, dentro da minha expectativa, aos diversos estudantes que tiveram a oportunidade de conhecer, a grande maioria pela primeira vez, uma nova língua estrangeira além do inglês.

Outra mudança relevante se deu na minha condição como servidora, pois migrei para a carreira do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico – EBTT, deixando a carreira de professora de 1º e 2º Graus. Assim, me tornei professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano8 (IF Baiano) campus Santa Inês

e, no ano seguinte, em 2010, fui transferida para a cidade de Salvador, passando a integrar o quadro de professores do IFBA.

7 O circuito Vale do Jiquiriçá compreende os municípios de Amargosa, Cravolândia, Elísio Medrado, Jiquiriçá,

Laje, Milagres, Mutuípe, Santa Inês, São Miguel das Matas, Ubaíra e Itiruçu.

8 O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano agrega as antigas Escolas Agrotécnicas Federais

e as Escolas Médias de Agropecuária Regionais da Ceplac (EMARC) presentes na Bahia. Atualmente, possui campus nos municípios de Catu, Senhor do Bonfim, Santa Inês, Guanambi, Valença, Teixeira de Freitas, Itapetinga, Uruçuca, Bom Jesus da Lapa, Governador Mangabeira e Serrinha. Estão previstos mais três campi nas cidades de Alagoinhas, Itaberaba e Xique-Xique.

Tive experiências profissionais muito diversas como professora do campus Salvador, lecionando em turmas do ensino médio, em cursos subsequentes, cursos de extensão e também no ensino superior. O planejamento das disciplinas é de responsabilidade dos professores da área e, portanto, participei de duas atualizações de plano de cursos no ano de 2012, quando da chegada dos livros didáticos e em 2014. É importante pontuar que há uma autonomia para que o professor possa sugerir, discutir e construir novas ideias em educação dentro do IFBA, assim como para criar projetos de pesquisa e de extensão.

Desta forma, sempre busquei me atualizar e fazer aportes complementares ao material didático utilizado em sala de aula. Isso tem sido possível devido aos cursos de capacitação profissional, ofertados por instituições públicas e privadas para professores de espanhol brasileiros. Esses cursos podem ser apoiados, através de auxílios financeiros, pelo IFBA também. A título de exemplo, tive a oportunidade de realizar três cursos de atualização para professores de espanhol como língua estrangeira em países como Espanha, Argentina e Colômbia com o apoio institucional, além de participar de cursos locais, ofertados para servidores, como, por exemplo, o curso recente que realizei de Libras no ano 2015.

1.5.3 Os participantes

O perfil dos estudantes do IFBA é muito heterogêneo. O público é composto por jovens e adultos que estão buscando desde a formação básica à Pós- Graduação. Há estudantes advindos do processo seletivo interno e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A instituição adota o sistema de cotas raciais, recebe estudantes do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC) e possui um setor especializado para auxiliar os estudantes portadores de deficiências físicas e intelectuais.

Os participantes deste estudo são jovens do último ano do ensino técnico integrado ao ensino médio, com idade entre 17 e 19 anos. O período de duração dos cursos desta modalidade é de quatro anos. Por questão de ética em pesquisa, não serão divulgados o curso nem as identidades dos participantes. A maioria relatou que nunca havia estudado espanhol na escola e nem em centros de idiomas, e, de forma unânime, o grupo se mostrou bastante interessado e ávido para começar seus estudos, desde o primeiro contato comigo, como professora da turma,

no primeiro bimestre letivo. Considero esse fato muito positivo, pois reconheço as múltiplas dificuldades que o professor encontra para realizar seu ofício. Fatores como a desmotivação ou desinteresse com a disciplina de língua estrangeira podem ser frutos de problemas de aprendizagem e, talvez, pode ser reflexo da complexa realidade do ensino oferecido pela escola. Essa problemática é reconhecida nos PCN:

Todas as propostas apontam para as circunstâncias difíceis em que se dá o ensino e aprendizagem de Língua Estrangeira: falta de materiais adequados, classes excessivamente numerosas, número reduzido de aulas por semana, tempo insuficiente dedicado à matéria no currículo e ausência de ações formativas contínuas junto ao corpo docente. (BRASIL, 2000,p.24)

Infelizmente, essa realidade, que caracteriza o ensino das disciplinas de línguas estrangeiras no Brasil, ainda hoje, é marcada por um discurso escolar de uma disciplina de menor peso, de menor carga horária, que não reprova, por não dizer, menos importante. No campus Salvador, apesar de termos conquistado condições melhores de trabalho em relação às dezenas de escolas da rede pública no estado da Bahia, há dificuldades a serem superadas, principalmente, com relação à presença da disciplina de espanhol nos diversos níveis de ensino.

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