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Systèmes d’acquisitions de données 3D

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 17-21)

C.2 Résultat supplémentaire sur un jeu de données réelles

2.1 Systèmes d’acquisitions de données 3D

O pensamento das feministas negras enxertou novas perspectivas temáticas bem como estreou um tipo de epistemologia emergida de uma identidade feminina construída em um locus específico: a mulher negra (CURIEL, 2007); a partir da opressão sentida no corpo das mulheres negras, tem-se a possibilidade de posicioná-las como formuladoras de um conhecimento legítimo e situado (CURIEL, 2007; MARTÍN, 2013). Em sociedades pós-coloniais, o feminismo negro combateu a égide sexista dos movimentos abolicionistas e segue em processo de luta contra o racismo presente na prática discursiva e ativismo de feminismos ocidentais hegemônicos realizados por mulheres brancas (CURIEL, 2007).

O feminismo negro exacerba o tripé de dominação que perpassa a experiência de vida das mulheres negras (hooks, 1984; COLLINS, 1998) e dentro de tal estrutura se encontra o fenômeno contemporâneo da feminização da pobreza, pois a mulher negra se vê oprimida para além das questões de sexo e gênero, sofre também por um sistema que desumaniza sua raça e, igualmente, lhe confere uma extrema marginalização na produção de riquezas (SAFFIOTI, 2004). Ao tocar nessas questões de racismo e classismo, nota-se que às mulheres negras lhes É ofertado um contexto de opressões múltiplas, e ao invés de se acumularem individualmente, constituindo um produto, dão um novo significado às vicissitudes vivenciadas por uma mulher. 3.2.2.9 O feminismo chicano

Intervindo semelhantemente conforme a prática discursiva do feminismo negro, as feministas chicanas reclamam para si um contexto de diversas experiências de opressão em

causa de proporem para um grupo específico de mulheres uma identidade política miscigenada (CURIEL, 2007; MARTÍN, 2013). Discursando em marco bilíngue, na maioria das vezes pode- se afirmar que seja um tipo de spanglish77 (CURIEL, 2007), o feminismo chicano confrontou um ideal de nacionalismo de mulheres mestiças com o racismo estadunidense, uma instituição do sistema capitalista global, a qual ressona nas ideologias racistas e etnocêntricas dos feminismos hegemônicos ocidentais anglo-saxões (ANZALDÚA, 1987; SANDOVAL, 2004). Quando o feminismo chicano reivindica para as mulheres a característica da mestiçagem, sugere-se um tipo de resistência vinculada ao combate de práticas racistas construídas historicamente ao largo do desenvolvimento de Estado-nação – isto é, a idealização de uma identidade nacional homogênea e dominante (CURIEL, 2007). Dentro desse marco político, constrói-se uma antologia de resgate das historiografias dos povos tradicionais indígenas e populações transladadas do continente africano, os quais foram representados (SPIVAK, 1988) equivocadamente ou inclusive apagados de qualquer registro histórico (CURIEL, 2007) e consciência coletiva cultural.

Faz-se importante realçar que tais construções de discursos inseridas na perspectiva do feminismo chicano também podem ser observados no cenário pós-colonial de países asiáticos. Cita-se como exemplo, as feministas chicanas que trabalham no eixo de exposição das contradições raciais e de casta na Índia, correlacionando-a com sua colonizadora, a Inglaterra; aqui também há uma construção de mescla linguística entre o हिन्दी (híndi) e o inglês britânico. 3.2.2.10 O feminismo indígena

Ao se abordar o feminismo indígena, fala-se então de um processo político muito contemporâneo; na verdade, todavia é impensável aos feminismos hegemônicos ocidentais uma prática discursiva feminista vinculada a elementos como tradição, religião e cultura (CURIEL, 2007; MARTÍN, 2013) – nesse caso, para além do argumento controverso de relativismo cultural (ABU-LUGHOD, 2002). A resistência das mulheres indígenas fomenta questionamentos sobre as interações no âmbito do patriarcado, racismo e sexismo em sociedades pós-coloniais, bem como daí nasce uma frente unida internamente contra os costumes e usos misóginos de suas comunidades e seus povos natais (CURIEL, 2007).

As feministas indígenas ajudam a solidificar um empreendimento de relevância ao se observar a inter-relação entre os feminismos, o qual tem a ver como a legitimidade dessas

77 No caso do feminismo chicano, me refiro a um tipo de variante linguística em qual o veículo comunicador

mescla componentes léxicos, morfológicos e sintáticos do espanhol latino-americano e inglês; tal contexto de resistência se observa especialmente em espaços onde o inglês se institui como língua franca.

mulheres enxertarem críticas sobre seus contextos sociais-econômicos, políticos e culturais, desde suas posições e perspectivas assim como de seu lugar e visão de mundo (CURIEL, 2007) – isto é, serem as únicas a fazê-lo. Dessa maneira, o feminismo indígena pleiteia uma autodeterminação dos povos para o contexto das mulheres indígenas, quebrando os paradigmas racistas e etnocêntricos dos feminismos hegemônicos ocidentais, todavia, coloniais em algumas localidades (ABU-LUGHOD, 2002; CURIEL, 2007; MARTÍN, 2013).

3.2.2.11 O feminismo islâmico

Referindo-se também a atuações políticas muito atuais, o feminismo islâmico fomenta práticas discursivas consideradas como contraditórias pelas feministas ocidentais hegemônicas, por se tratar de uma libertação da mulher sem deixar de lado os valores culturais tradicionais de uma sociedade, porém revisando-os, principalmente se estiverem vinculados a uma religião (MARTÍN, 2013). Quando enfrentam e resistem às críticas em torno a que tipo de valorização feminina se propõe por parte de mulheres do Ocidente e Norte Global, as feministas islâmicas denunciam a faceta colonial, racista e islamofóbica de tais movimentos, os quais inclusive possuem uma pretensão quase missionária de salvá-las de seu suposto contexto de opressão (AHMED, 1992; ABU-LUGHOD, 2002).

Pela campanha estadunidense de guerra ao terror internalizada na consciência coletiva do sistema internacional na contemporaneidade, atualmente, a mulher islâmica representa a

mulher de Terceiro Mundo (MOHANTY, 2008; MARTÍN, 2013), oprimida pela sua conjuntura

cultural, que é representada (SPIVAK, 1988) e, evidentemente, precisa ser salva, através de um processo de transformação na típica mulher empresária, educada e empoderada de Primeiro Mundo (AHMED, 1992; ABU-LUGHOD, 2002). Quando em realidade, essas mulheres, pelos seus próprios esforços, têm logrado êxito em mudar e conceder novos significados às suas práticas culturais e religiosas, deparando-se inclusive com a posterior retaliação de movimentos conservadores extremistas (AHMED, 1992; ABU-LUGHOD, 2002).

Tem-se como exemplo, os debates em torno da possível experiência de opressão causada pelo uso do véu (ABU-LUGHOD, 2002). Aliás, dito véu islâmico cuja visão externada pelo

senso comum do Ocidente se vê, com frequência, como um sinônimo da burga (عقرب), sendo que

há outros para além da vestimenta supracitada como o niqāb (باقن), chādar (رداچ), al-amira (ةريملاا), hijab (باجح) e shayla (لاياش) (MEDINA, 2017). As narrativas de algumas mulheres islâmicas expressam o véu como um sinônimo de uma sofisticação e uma modernidade situada em seu próprio contexto, e, ademais também como uma maneira de cultivar virtudes para se

aproximarem de seu Al-lāh (الله), isto é, sua relação e, igualmente, parecer-se mais com ele (ABU-LUGHOD, 2002).

3.2.2.12 O feminismo lésbico

Na insurgência das discordâncias aos discursos feministas hegemônicos do Norte Global e Ocidente em momento de Terceira Onda, as facetas racista, elitista, colonial, imperialista, essencialista e, sobretudo, discriminatória de tais práticas foram expostas. Não obstante, há uma controvérsia – a qual em certa medida se encontra marginalizada – em torno da sexualidade orientada pela heteronormatividade das mulheres que constroem as ideologias feministas; perceba-se que muitas formulações em torno da opressão feminina se ampara na oposição dialética da mulher ao homem. Como já explanado anteriormente, o essencialismo analítico acima citado segue em vias de contestação pelos feminismos-outros (MOHANTY, 2008; MARTÍN, 2013), porém se tratando da sexualidade, o feminismo lésbico preconizou novos olhares sobre a subordinação de mulheres lésbicas dentro do movimento de mulheres e do ativismo LGBTIs78, as quais possuem suas pautas específicas segregadas na construção de agendas de gênero para o direito, o desenvolvimento e o empoderamento (LOVE, 2007). 3.2.2.13 O feminismo queer

Seguindo em uma esfera de exercício similar ao das feministas lésbicas, principalmente por abordar a diversidade de práticas sexuais, o feminismo queer amplia a concepção de mulher como sujeito central do feminismo, uma vez que em tal ativismo político se faz relevante também a participação dos chamados coletivos transgêneros (LOVE, 2007). Conjugando o conceito de gênero – medular para análises feministas – com a performance (BUTTLER, 1990; LOVE, 2007), quebra-se paradigmas das interações humanas no âmbito da dicotomia homem- mulher, pois pode ser que um homem ou uma mulher tenha identidade de gênero desconforme de seu sexo biológico masculino-feminino (macho-fêmea).

A partir do entendimento supracitado, infere-se um alastramento quanto à expressão social dos seres humanos, ao se analisar sob a perspectiva de gênero, identidade e sexualidade (LOVE, 2007). Dando visibilidade às experiências de vida de homens e mulheres trans79,

78 Sigla comumente empregada para referenciar indivíduos em uma sociedade que sejam lésbicas, gays, bissexuais,

travestis, transexuais, transgêneros e intergêneros.

79 Falando-se em terminologias gerais, atribui-se o sufixo trans a um homem ou uma mulher quando ele/ela tenha

uma identidade de gênero bem como práticas sexuais diferentes do que se espera socialmente em reconhecimento de seu sexo biológico de nascimento. Ademais, homens e mulheres trans podem passar por uma série de procedimentos médicos definitivos (controle hormonal, cirurgia de mudança de sexo, remoção das glândulas

travestis80, tomboys81, crossdressers82, andróginos83, genderfluids84, agêneros85, intergênero86, trigêneros87, two-spirit88, hijra89, khanīth90 (ثينخ), fa'afafine91, entre outras identidades92, o feminismo queer arquiteta um espaço de encontro e solidariedade de opressões periféricas e sobretudo, destoantes à orientação cisgênero da maioria das mulheres feministas.

3.2.2.14 O feminismo pós-moderno

Como herança da genealogia oficial do feminismo (ALVAREZ, 2014), todavia entende- se como o sujeito político em primeira instância a mulher. Claro que, tratando-se dos acontecimentos da Primeira e Segunda Onda, participaram as mulheres brancas, de classe média-alta, do Ocidente e Norte Global e heterossexuais, sendo que, a partir das contestações

mamárias, etc.) a fim de se adequarem ao seu eu indenitário. Faz-se relevante informar que homens e mulheres trans têm se mobilizado em um âmbito específico de um feminismo trans ou transfeminismo.

80 Ainda que a travesti invista em hormônios femininos, tratamentos capilares e roupas femininas por exemplo,

nela habitam ambas identidades masculina e feminina, as quais variam conforme sua subjetividade. Exclui-se aqui a possibilidade cirurgia de mudança de sexo, pois as travestis mantem seu pênis.

81 Geralmente refere-se a uma menina – ainda que tal identidade chegue à fase adulta – associada a características

e comportamentos tipicamente de um menino, inclusive na maneira de se vestir e no engajamento com atividades

instituídas socialmente a um garoto. Desprovendo-me de uma tradução adequada, como exemplo lembro-me em

minha adolescência de escutar o termo mulher-macho de minha avó paterna ao mencionar uma colega minha, a qual acredito que se aplicaria a essa identidade.

82 Uma pessoa adepta a usar roupas, calçados e acessórios socialmente opostos ao seu sexo biológico, tal

comportamento compõe seu processo de subjetivação individual e nada tem a ver com uma conotação sexual, ou seja, o fazem para estar bem consigo e somente.

83 Alguém possuidor de traços físicos e características socioculturais de ambos os sexos, porém se considera nem

feminino e nem masculino.

84 Um indivíduo que subjetivamente se sente como masculino ou feminina dependendo do dia – referindo-se a

uma identidade com bastante fluidez, por isso pode ser traduzido como gênero fluído.

85 Alguém que se sinta desenquadrado em qualquer gênero, pode também ser chamado de gênero nulo. 86 Na subjetividade desta pessoa há uma hibridização entre as identidades masculina e feminina.

87 Uma identidade que transcende o binarismo do sistema sexo-gênero (dicotomia homem-mulher), se

relacionando a uma terceira expressão social.

88 Tendo mais visibilidade na América do Norte, diz respeito a uma crença indígena de haver dois espíritos –

masculino e feminino – habitando um mesmo corpo, fazendo seu/sua usuário/a vestir-se e desempenhar atividades reversadas a ambas as representações identitárias dentro da aldeia.

89 Um termo em hindi para homens e mulheres trans em países como Índia, Paquistão e Bangladesh. Muito pouco entendido pelo Ocidente; há um credo em torno da figura desses humanos, porquanto se acredita que detenham a

habilidade de bendizer e maldizer outros indivíduos. Minha amiga Shilpi Gupta – com seu brilhante conhecimento situado – me informou que comumente as pessoas de seu país são instruídas a deixarem os/as hijras em paz para fugirem da possibilidade de estar à deriva de uma bendição ou maldição rogada. No entanto, diferentemente da ideia de deusas, seres encantados e lendas vivas comercializada por alguns queers ocidentais, ao compartilhar seu posicionamento pessoal comigo, Shilpi me disse que a instrução supracitada era também uma forma de marginalizá-los/las socialmente. धन्यवाद! Thank you so much for your kindness and friendship my dear Shilpi, in several times, you always pick me up whenever I call you; I wish I could write this down to you in Hindi.

90 Terminologia utilizada em países da Arábia para se referir uma identidade de um homem que desempenha tarefas

sociais e sexuais atribuídas normalmente a uma mulher para outros homens.

91 Um terceiro gênero reconhecido oficialmente pelo Estado de Samoa, que representa um menino eleito pelos

seus membros familiares para desempenhar obrigações tipicamente femininas; encorajar-se-á a ele nesse caminho até mesmo em idade adulta.

92 Transcende o escopo desse trabalho uma explanação completa sobre todas as identidades de gênero explanadas

de Terceira Onda, procurou-se ampliar esta identidade feminina. Muito embora, ao invés de um mero alargamento, o feminismo pós-moderno argumenta por uma dissolvência total da mulher como agente primordial dos movimentos feministas.

Neste sentido, comtempla-se uma ontologia para além do sistema binário de sexo e gênero, ademais de um combate de experiências opressivas mais prudente com a inserção de homens cis e grupos transgêneros à medida que se descentraliza a mulher. Perde-se a representação por meio das diferenças estruturais – afinal, as feministas pós-modernas defendem que elas impedem a construção de alianças estratégicas – e idealiza-se uma essência humana-orgânica universal impulsionadora de uma solidariedade entre todos os organismos vivos (humanos e pós-humanos) habitantes do planeta terra.

A exemplo, atualmente, há notoriedade quanto ao feminismo ciborgue – isto é, centrado na concepção miscigenada e pós-humana de mulher ciborgue, ora, seres vivos ciborgues – presente nos trabalhos da acadêmica estadunidense Donna Haraway (1991; 1995).

3.2.2.15 O ecofeminismo

Mediante a convergência ideológica de algumas mulheres feministas com o ativismo ecológico se projetou o que se entende como ecofeminismo, cuja prática discursiva, apesar de apresentar formas plurais, percorre um caminho muito além de elencar a égide da mulher e do meio ambiente, tocando em específico nas temáticas de crises socioeconômicas contemporâneas e suas vicissitudes, relacionando-as diretamente com o desenvolvimento desenfreado à curto prazo de Estados, e logo, com a insustentabilidade ambiental inerente em tal processo (KHEEL, 2000; PULEO, 2010). Compõem a algumas das proposições formuladas pelas ecofeministas, o entendimento sobre a qualidade de vida afastada da necessidade pelo consumo, engendrada pelo sistema capitalista mundial e uma igualdade entre o eixo homem- mulher ampliada para estrutura homem-mulher-natureza (PULEO, 2010).

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