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Os estudantes do 1º ao 5º anos do ensino fundamental têm 01 professor polivalente. Dessa forma, nossa escolha recaiu sobre os estudantes de 6º a 9º anos, que possuem vários professores – em média 8 - e que puderam, diante de suas experiências com vários docentes ao mesmo tempo, no contexto da aula, sinalizar práticas incentivadoras da participação e nos levar ao trabalho com seus professores.

Para a construção dos grupos, consideramos o número de turmas de 6º a 9º anos da escola e concluímos por organizar o grupo com 08 a 11 estudantes. Nas escolas Platão e

Aristóteles, que possuem um menor número de turmas, combinamos com os gestores que

poderiam participar de 01 a 02 estudantes por turma. Na escola Sócrates, combinamos que poderia participar 01 estudante por turma. Pedimos aos gestores que, após sondagem com os docentes sobre o melhor dia e horário, pudessem conversar com as turmas de estudantes verificando quais deles gostariam de participar, discutindo a participação dos estudantes. Após, os gestores passaram os nomes dos estudantes para a pesquisadora que fez contato com cada um, no espaço da escola, se apresentando e à pesquisa, entregando e lendo com eles os Termos de Assentimento Livre e Esclarecido e o de Consentimento Livre e Esclarecido aos responsáveis legais.

Para Weller; Pffaf (2010, p. 58), uma vantagem do grupo de discussão é a de que nele os jovens expressam suas experiências em relação ao assunto de interesse da pesquisa, com suas inseguranças e indignações:

É principalmente no grupo que o jovem trabalhará, entre outras, as experiências vividas no meio social, a experiências de desintegração e exclusão social, assim como as inseguranças geradas a partir dessas situações. [...] Os grupos de discussão realizados com pessoas que partilham de experiências em comum reproduzem estruturas sociais ou processos comunicativos nos quais é possível identificar um determinado modelo de comunicação [...] ele documenta experiências coletivas assim como características sociais desse grupo [...] os grupos de discussão, como método de pesquisa, constituem uma ferramenta importante para a reconstrução dos contextos sociais e dos modelos que orientam as ações dos sujeitos.

Para os grupos de discussão, foi elaborado um roteiro com o objetivo de ajudar o grupo a não desviar o foco da discussão, a participação. Foram feitas filipetas26 com as questões norteadoras de cada bloco e deixadas sobre a mesa, caso os estudantes quisessem recorrer a elas. Foram também feitos crachás para que todos, estudantes e pesquisadora, se chamassem pelo nome.

Os locais de desenvolvimento, decididos pela escola, se alternaram: a sala de informática, biblioteca, sala de aula vazia. Na escola Sócrates, a direção pediu à pesquisadora que chamasse os estudantes nas suas classes, enquanto que nas outras duas escolas a pesquisadora recebeu os estudantes no local indicado pela direção para o desenvolvimento do grupo de discussão. No dia agendado para a discussão, a acolhida se deu com breve recuperação, pela pesquisadora, das informações sobre a investigação e a produção dos crachás que eram escritos e decorados pelos estudantes. O Quadro 5 apresenta o roteiro norteador das discussões.

Quadro 05. Roteiro para Grupo de discussão com estudantes Acolhida.

BLOCO 1

Como é a participação de vocês nas aulas, na escola... fora dela? Como vocês veem isso? Como vocês participam – ou não -?

Como aprendem a participar? BLOCO 2

Vocês podem dizer que têm aprendido a participar com seus professores? Como vocês veem isso? Como aprendem com eles? O que aprendem com eles sobre participação?

Vocês têm professores que incentivam... ensinam vocês a participarem? Falem um pouquinho mais sobre isso (sobre as aulas e os professores que promovem a participação.)

BLOCO 3

O que vocês acham importante colocar aqui nessa discussão sobre participação e que ainda não discutimos? Fonte: Elaborado pela pesquisadora.

Foi explicado ao grupo que, para que não fosse preciso ficar escrevendo durante a discussão, a mesma seria gravada em áudio e depois transcrita. Por segurança, realizamos a gravação em dois equipamentos.

A timidez e o estranhamento do início foram diminuindo com o passar dos minutos. Os estudantes foram se soltando, esquecendo o gravador e falando de suas impressões, atuação,

26 Cópia das filipetas encontra-se no Apêndice B. Imagens dos crachás não foram registradas e juntadas ao texto para preservar o anonimato dos estudantes.

afinidades e indignações. Os dados encontram-se analisados em posterior capítulo. Ouvidos os estudantes, foi possível identificar, por meio da percepção deles, o que entendem por participação, elementos de sua participação na aula e na escola e de práticas educativas docentes que (não) promovem a participação deles.

Na escola Sócrates, três pais optaram por não autorizar o filho a participar e, na escola

Aristóteles, não compareceram 02 estudantes de uma das turmas. Todos os 03 grupos contaram,

então, com 8 estudantes, de 11 a 15 anos, do 6º ao 9º anos.

O fato de o grupo da escola Sócrates ser composto por 01 estudante de cada turma promoveu uma diferença em relação aos demais. Nesse grupo, todos sentiam a necessidade de falar mais, como se o silêncio não dissesse de sua turma. Em relação às outras 02 escolas, como havia 2 estudantes de cada turma era observável que quando um deles falava, o outro da mesma turma não se posicionava e passava a fala para o colega de outra turma. Esse fato implicou na diferença na duração do primeiro grupo de discussão em relação aos outros 02 grupos. Outro dado interessante é que os estudantes que menos falaram foram os de menor idade, os quais compõem as turmas dos sextos anos. O Quadro 6 traz um apanhado no número de estudantes participantes, local de desenvolvimento da discussão e duração.

Quadro 06. Dados dos Grupos de Discussão.

GRUPOS DE DISCUSSÃO ESCOLA Nº DE ESTUDANTES LOCAL DE DESENVOLVIMENTO DURAÇÃO

Escola Sócrates 08 Sala de informática 01:14:21

Escola Platão 08 Sala de aula vazia 00:39:54

Escola Aristóteles 08 Sala da biblioteca 00:37:43

Total 24 ************* 02:31:58

Fonte: elaborado pela pesquisadora.

Os três grupos de discussão apontaram para a existência de participação discente na escola e desvelaram um quadro de docentes da instituição que favorece a participação dos estudantes, levantando, também, aquelas práticas que resistem à participação do estudante. Embora esses dados sejam tratados de forma detida em posteriores capítulos, adiantamos, para o momento, que nos grupos de discussão de cada escola foram apontados nos seus quadros docentes a existência de menos professores que pautavam sua prática em desfavorecimento da

participação dos estudantes e mais docentes que incentivavam a participação discente. A partir da percepção que os estudantes apresentaram sobre participação, o quadro de professores foi visto, pelos três grupos de discussão, como favorecedor da participação discente. Em cada uma das escolas foi possível identificar, na percepção dos estudantes, um conjunto de docentes que encontraram caminhos para provocar no estudante o desejo e o conhecimento de que podem e devem participar.

Os dados colhidos nos grupos de discussão constituíram rica fonte de se olhar para as percepções dos estudantes sobre sua participação e sobre a prática educativa do conjunto de seus professores e foi sinalizadora para se buscar, junto ao corpo docente, professores que acolheram a proposta de falar conosco sobre participação e permitir a observação de sua prática docente no contexto da aula.

Importante ressaltar que a pesquisa é viva, dependente das instituições e das pessoas. Há o planejamento, há a preparação, há o cronograma e há tudo o mais que ocorre no dia a dia que nos faz rever o planejado. A partir dos grupos de discussão, precisávamos nos preparar para nos aproximarmos dos professores e convidá-los à pesquisa, convite que poderia ser aceito ou não. Cruz Neto (2001, p. 62) lembra que: “[...] uma pesquisa não se restringe à utilização de instrumentos apurados de levantamento de informações para dar conta de seus objetivos. Para além dos dados acumulados, o processo de campo nos leva à reformulação dos caminhos da pesquisa, através das descobertas de novas pistas.”