CHAPITRE IV : Développement d’une plateforme de simulation en langage UML
IV. 3.1.1.2 Diagramme de classe du système
IV.5 Contributions par rapport au contexte développé en Mono-site
IV.5.2 Contribution pour l’approche Multicritère
Para analisar a presença do erotismo amoroso na poesia, é preciso questionar a relação entre erotismo, sexualidade e a idéia de amor. Segundo Georges Bataille: “O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Se nós não damos conta disso, é porque o erotismo busca incessantemente fora dele um objeto do desejo” (1980, p. 27). O que difere o erotismo da sexualidade animal é a vida interior do homem. Na visão de Bataille: “Somos seres descontínuos, indivíduos que isoladamente morrem numa aventura ininteligível, mas que têm a nostalgia da continuidade perdida” (1980, p.16). A afirmação de Bataille remonta ao mito de Eros como divindade primordial, ou seja, a preocupação com a continuidade e renovação da vida.
Octávio Paz, asssim como Bataille, diferencia o erotismo da mera sexualidade. A finalidade do ato sexual em si é a reprodução, sem desconsiderar o prazer em ambos: “O erotismo é sexo em ação, mas seja por desviá-la ou por negá-la, suspende a finalidade da função sexual. Na sexualidade, o prazer serve para a procriação; nos ritos eróticos, o prazer é um fim em si mesmo ou tem finalidades diferentes da reprodução” (2001, p.12-13). Paz vai além ao fazer a distinção entre erotismo, amor e sexualidade. O sexo é a fonte primordial da vida, já o erotismo e o amor são formas derivadas do instinto sexual. Tanto para Paz como para Bataille, o erotismo é uma atividade própria do ser humano:
...é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens. A primeira coisa que diferencia o erotismo da sexualidade é a infinita variedade de formas quer se manifesta, em todas as épocas e em todas as terras. O erotismo é invenção, variação incessante, o sexo é sempre o mesmo (2001, p.16).
O erotismo é humano e a sexualidade é instinto animal, portanto, erotismo é sexo, instinto, enquanto produto da natureza e é cultura enquanto criação humana, por isso exerce função social: “Uma das finalidades do erotismo é domar o sexo e inseri-lo na sociedade”(PAZ, 2001, p.170). Erotismo, como bem metaforiza Paz, é um pára-raios inventado pelos homens para regular e controlar o instinto sexual. Segundo ele, essas regras servem simultaneamente à sociedade (cultura) e à reprodução (natureza).
Herbert Marcuse, ao examinar a teoria freudiana, aproxima-se do pensamento de Paz. Ele afirma que “...segundo Freud, a história do homem é a história de sua repressão. A cultura coage tanto a sua existência social como a biológica” (1981). Afirma ainda que o homem animal, através de uma transformação fundamental de sua natureza, converte-se em ser humano. Isto afeta tanto seus anseios instintivos como seus valores instintivos. Na teoria freudiana, é o que Marcuse coloca como transformação do princípio de prazer em princípio de realidade: “Com o estabelecimento do princípio de realidade, o ser humano que, sob o princípio de prazer, dificilmente pouco mais seria do que um feixe de impulsos animais, converte-se num ego organizado” (1981, p. 35).
A atividade mental do homem é controlada e organizada pela racionalidade imposta de fora. Marcuse defende que esse domínio jamais é total, já que a fantasia, que é um processo mental vinculado ao princípio de prazer, está protegida das alterações culturais. Como Paz, ele destaca que a repressão e a proibição que subjugam os instintos são impostas pela sociedade. O inconsciente, porém, resgata os objetivos do princípio de prazer que acabam por afetar de diversas formas a realidade. Isto é o que ele chama de retorno do reprimido, na teoria freudiana. Esse retorno: “...compõe a história proibida e subterrânea da civilização. E a exploração dessa história revela não só o segredo do indivíduo, mas também o da civilização” (1981, p.36).
Como invenção da sociedade, o erotismo é ambíguo, na visão de Paz, pois ao mesmo tempo é repressão e permissão, sublimação e perversão. Daí a aproximação da colocação de Marcuse, já que o princípio de prazer não é totalmente apagado pela civilização. Paz coloca que as regras destinadas a domar a sexualidade são fornecidas de dois termos: “...a abstinência e a permissão” (2001, p.18). Vale lembrar o propósito de Bataille sobre a proibição e a transgressão, já que o ser humano pertence a dois mundos: do trabalho e da razão (proibição) e o da violência (transgressão). Afirma Bataille que o ser humano não é totalmente dominado pelo mundo do trabalho, pois sempre subsiste um fundo de violência natural. Não há, portanto, proibição que não possa ser transgredida: “Proibição e transgressão correspondem a dois movimentos contraditórios: a proibição rejeita, mas o fascínio introduz a transgressão” (1980, p.60). No erotismo, há uma irresistível atração pelo proibido, diferente da atração animal. O desejo pelo proibido não recai sobre o objeto. É justamente a proibição que pesa sobre o objeto que o torna desejável.
Para Marcuse, a repressão é uma forma de a civilização manter os instintos sexuais sob controle: “...a organização social do instinto sexual interdita como
perversões praticamente todas as manifestações que não servem ou preparam a função
procriadora” (1981, p.61). As perversões se constituem como transgressões à sexualidade considerada normal, já que se opõe à continuidade da função reprodutiva do ato sexual e, por conseqüência, à dominação paterna: “...as perversões parecem rejeitar a escravidão total do ego do prazer pelo ego da realidade” (1981, p.62). As perversões mantêm uma profunda afinidade com a fantasia que é designada pelo princípio de prazer.
Octávio Paz afirma que: “...o erotismo defende a sociedade dos assaltos da sexualidade, mas também nega a função reprodutiva. É o caprichoso servidor da vida e da morte” (2001, p.18). Negar a função reprodutiva é transgredir a ordem repressiva, o que, na visão de Marcuse, dá uma finalidade útil à sexualidade. Assim as perversões defendem a sexualidade como um fim em si mesma. Marcuse coloca que as perversões: “Estabelecem relações libidinais que a sociedade tem de votar ao ostracismo, porque elas ameaçam inverter o processo de civilização que faz do organismo um instrumento de trabalho” (1981, p.62).
Segundo Bataille, a proibição importa à liberdade sexual, sendo geral e universal. O que é variável são os aspectos particulares que variam no tempo e no espaço. O erotismo como atividade humana é infração às regras de proibição:
Na esfera humana, a atividade sexual desliga-se da simplicidade animal. É essencialmente uma transgressão. Não é, após a proibição, o regresso à liberdade inicial. A transgressão é conseqüência da humanidade que a atividade laboriosa organiza. A transgressão é em si mesma organizada: O erotismo é, no conjunto, uma atividade organizada e é na medida em que é organizada que muda através dos tempos (1980, p.96).
Como os seres humanos são descontínuos, na definição de Bataille, a morte se revela como continuidade. Ela culmina num caráter de transgressão que é própria do animal. Na transgressão, o homem se reaproxima do animal, porque o vê como aquele que foge às regras do proibido. Se o erotismo é atividade humana, que segundo Bataille, começa onde o animal acaba, é evidente o caráter ambíguo do erotismo, pois a animalidade é mantida no erotismo pela transgressão ao proibido.
Apesar de a questão da sexualidade ainda manter vestígios do proibido, exposto por Bataille, nas sociedades modernas, ela passa a ser tema de grande debate, como coloca Anthony Giddens: “As declarações sobre repressão sexual e o sermão da transcendência reforçam-se mutuamente; a luta pela libertação sexual faz parte do mesmo mecanismo de poder que ela denuncia” (1992, p. 28). Para Giddens, a
sexualidade é discutida e analisada intensamente a ponto de substituir a pregação teológica.
Em Repressão sexual (1984) Marilena Chauí afirma que a repressão sexual é tão antiga quanto a vida humana em sociedade. O conceito de repressão sexual é recente, pois foi no século XIX que a reflexão sobre a sexualidade começa a se alargar, passando assim a ser encarada como um fenômeno mais global envolvendo a existência humana. É de se notar que a repressão sexual se diferencia bastante no tempo e no espaço, ou seja, não é possível analisá-la sem considerar um contexto específico, já que cada cultura lida com o sexo articulando às formas complexas de simbolização própria.
A vinculação da idéia de sexo com pecado é uma das formas mais enraizadas de reforçar a repressão sexual nas sociedades ocidentais. Chauí examina o mito do pecado original em busca de uma explicação para a origem da repressão sexual. Perder o paraíso é tornar-se mortal. A queda, distanciar-se de Deus, significa possuir o corpo: “Ora, pelo sexo, os seres humanos não somente reafirmam sem cessar que são corpóreos e carentes, mas também não cessam de reproduzir seres finitos. O sexo é o mal porque é a perpetuação da finitude” (1984, p.86-87). Chauí coloca que a vinculação do sexo com a morte e com a procriação faz com que, nas religiões cristãs, a sexualidade se restrinja à função procriadora.
Chauí nota que o interessante na longa discussão sobre o controle da sexualidade é que a repressão se realizou através do controle do ato sexual e, sobretudo, do corpo feminino. O papel sexual da mulher sempre foi o passivo, o que de certa forma permanece em muitas culturas. Considerando a sexualidade feminina no ponto de vista do cristianismo, é relevante insistir na sua relação mais contundente com a proibição, a qual ainda resiste com grande força em muitas sociedades.
Como mostra Giddens, na criação dos discursos sobre sexo, a sexualidade feminina foi: “reconhecida e imediatamente reprimida – tratada como a origem patológica da histeria” (1992, p.30). A repressão sexual das mulheres se confunde com a própria história das mulheres, porém, como mostra Giddens, no século XIX: “A sexualidade emergiu como uma fonte de preocupação, necessitando de soluções; as mulheres que almejavam prazer sexual eram definitivamente anormais” (1992, p.32). Esse tabu histórico, ao longo do século XX, vem sendo paulatinamente quebrado, graças à luta das mulheres pela conquista do direito de expressar e viver sua sexualidade. Como afirma Otávio Paz, a grande novidade do final do século passado é o laxismo das sociedades liberais do Ocidente, fato ao qual o crítico atribui três fatores:
...o primeiro, social, tem sido a crescente independência da mulher; o segundo, de ordem técnica, a aparição de métodos anticoncepcionais mais eficazes e menos perigosos que os antigos; o terceiro, que pertence ao domínio das crenças e valores, é a mudança de posição do corpo, que deixou metade inferior, inteiramente animal e perecedora do ser humano. A revolução do corpo tem sido um fato decisivo na dupla história do amor e do erotismo (2001, p.122).
A revolução do corpo é sem dúvida uma conquista das mulheres que desafiam as crenças e valores que sustentaram ao longo dos séculos o silêncio das mulheres. Essa conquista se reflete no discurso poético que faz a fusão da sexualidade e erotismo, ou como quer Paz, transforma o erotismo em uma das chamas da sexualidade, mantendo e, principalmente, revelando sua natureza animal. Nas palavras de Bataille – aquele que foge à regra do proibido.