• Aucun résultat trouvé

ET SA CONTRIBUTION À L’EFFET DE SERRE

Dans le document Mieux comprendre le rumen, (Page 21-25)

Poderíamos dizer que o ponto exemplar da deturpação da tradição para Arendt se encontra na subversão moderna deste antigo desprezo pela ‘condição animal’ da existência humana. O amor à ‘vida’ pela ‘vida’ mesma era a razão atribuída pelos senhores antigos para justificar

a escravidão: tal ou qual cidadão, em vez de ter lutado até a morte para defender sua cidade, por medo da morte, por amar demais sua vida, preferiu render armas e aceitar se subjugar ao exército inimigo. A covardia indica a falta de soberania sobre suas próprias paixões e necessidades, privando-o assim de qualquer dignidade que, como homem, possa ter. Esta conotação negativa, de fraqueza de caráter, do chamado ‘amor à vida’ (philopsychia) com o passar dos tempos praticamente desapareceu, e juntamente com ela também se enfraqueceu a força de muitas idéias correlatas (tais como a religiosa da superioridade da alma frente o corpo). Obviamente, a questão não é que tais mudanças de idéias tenham sido causa da queda da tradição, causa do Totalitarismo ou do que for, mas que indicam as mudanças de ânimo existentes, correlatas a diversas transformações ocorridas no seio da sociedade européia: em particular do monopólio da esfera dos negócios humanos que a ‘economia’ viria a adquirir na Modernidade.

A diferença importante aqui para com a Modernidade é que, como dito anteriormente, na estrutura social antiga existia uma forte contraposição entre as esferas privada e pública. Não que não se pudesse tratar de questões econômicas no âmbito político, mas que a ‘família’ então desempenhava um forte papel de agente de produção na sociedade greco-romana, tendo autonomia praticamente absoluta nestes tipos de decisões. O cidadão dividia sua existência em dois mundos muito distintos: na esfera privada era o governante de sua casa, que para sua administração não tem outro recurso fundamental senão o uso da força, e na esfera pública se encontra com iguais para discutir os diversos assuntos em pauta, podendo assim licitamente usar apenas persuasão e retórica. A tese de Arendt é de que tal instituição da política como baseada no discurso estava fundada eminentemente na tentativa de garantir que os acontecimentos dignos de vir a público tivessem um espaço garantido para aparecer, fornecendo deste modo uma alternativa para as suas narrativas pelos poetas e historiadores. Por isso a ‘política’ não diz respeito a algo natural ou necessário à existência humana, tampouco algo universalmente existente, mas a uma forma muito específica de coexistência inventada pelos gregos: até porque seu étimo foi e continua sendo nada mais nada menos que pólis, a cidade-estado grega.

A autora pensa que esta especificidade daquilo que os gregos chamavam de política foi pouco compreendida pelos filósofos, por desde Platão (talvez até de Parmênides) eles terem se posto em franca oposição à cidade, com suas relações e assuntos sempre cambiantes e incertos. Na procura pelo eterno, o reino das aparências, dos discursos e

das opiniões pouca luz oferece para poder ser contemplado: a caverna platônica é a imagem perfeita do significado dos negócios humanos para a filosofia política, nestes seus mais de dois milênios. Arendt se contrapõe a tal modo de ver a política tentando resgatar a tradição dos grandes políticos e oradores gregos, tais como Péricles, para os quais os ‘ditos e feitos’ humanos têm uma grandiosidade própria incomparável à eternidade celeste.

O exemplo paradigmático da ‘confusão’ dos âmbitos público e privado é o próprio Platão, que já não distinguia entre o trabalho (a atividade de produção, poiésis) e a atividade, propriamente política, da ação (práxis). Seu grande ímpeto contra a democracia estava nessa identificação da atividade política com o processo produtivo que, enquanto tal, tem uma meta e um meio bem delimitados: como diz seu argumento clássico contra a democracia, assim como é sensato que aquele que melhor conheça as embarcações e a arte de seu governo pilote a embarcação, também é sensato que aquele que melhor conheça a cidade e a arte de seu governo a conduza; o filósofo é, pois, este que melhor conhece a Justiça e que melhor pode administrá-la; ou ainda, assim como o médico é o terapeuta do corpo do indivíduo, o filósofo é o terapeuta da alma da cidade. Quando Platão disse isto de fato estava sendo muito polêmico e se contrapondo radicalmente ao que era a concepção ateniense corrente. (A palavra práxis, apesar de geralmente traduzida por ‘ação’, carrega uma riqueza semântica sem equivalentes nas línguas modernas, mas em especial a sua conotação de ‘passar por um acontecimento’, ‘participar num evento’, tem importância política fundamental. Quanto a isso é significativo o uso homérico de ‘herói’ na Odisséia: os heróis são heróis porque participaram da Guerra de Tróia, não tanto por terem feito isto ou aquilo em particular. Do mesmo modo, a ênfase na política está na participação na esfera pública e não no ‘fazer’ algo em especial, tampouco no ‘saber fazer’ ou no puro ‘saber’.)

O que a filosofia de um modo geral acabou negligenciando, e a Modernidade em grande medida destruiu, foi aquela estrutura complexa dentro da vida ativa – levando ao conseqüente estorvamento da ação, a mais frágil das atividades. Contudo, a negligência tradicional com relação às diferenças dentro da vida ativa devia-se ao interesse pela vida contemplativa e por todo o eterno. Na Modernidade, porém, em medida crescente com o desenrolar dos séculos, o próprio interesse pela contemplação e o que nela havia de transcendente se desvaneceu, fazendo com que a atenção se voltasse à esfera dos negócios humanos – contudo, agora completamente desestruturada e em grande medida dominada pelo labor.

Grosso modo, segundo Arendt este processo esteve intimamente ligado tanto à expropriação de boa parte da propriedade tradicional (que tinha a importante função de dar ao indivíduo um ‘lugar no mundo’ – ao contrário da nossa nova propriedade, que não passa de simples riqueza material), quanto à moderna visão de mundo sob um ponto de vista universal e extramundano, dentro do qual a antiga estrutura valorativa abriu espaço para a valorização da vida em si como o bem supremo. Com a perda de toda noção de transcendência e imortalidade resultante da secularização dos valores cristãos e do desdém pela contemplação, as atividades relativas à manutenção da vida tomaram o lugar que outrora fora dado à ação e à contemplação pelos antigos. Com isso, mesmo a distinção antiga entre a esfera privada e a pública se tornou problemática, já que a política passou a ser tomada como visando em última instância sempre a manutenção e desenvolvimento da sociedade e do bem-estar dos seus membros, levando a uma derrubada das fronteiras que distinguiam e protegiam o ‘mundo artificial humano’, da natureza bruta, do processo biológico de nossas vidas e espécie. Tal estado de coisas leva a uma completa desestruturação do mundo e de sua estabilidade, impossibilitando que seu quadro sirva de suporte estável e permanente imprescindível para a formação de uma comunidade humana.

Dans le document Mieux comprendre le rumen, (Page 21-25)

Documents relatifs