É preciso que haja algo comum à linguagem e ao mundo para que possamos pensar e falar sobre o mundo. Pois tanto o pensamento como a linguagem são imagens, e na imagem deve haver algo de idêntico ao que é representado, 157 para que possa, de fato, ser imagem. A forma lógica é justamente esse algo que determina a possibilidade da figuração, e que desde sempre participa da linguagem e do mundo.158 É nesse sentido que se fala na transcendentalidade da forma lógica: ela é condição de possibilidade da linguagem, e como o pensamento é também linguagem, ela é condição de possibilidade do mundo pensável, ou seja, do mundo possível (pois toda imagem já traz consigo sua possibilidade 159).
Se é fato que podemos falar significativamente sobre o mundo, a pergunta que resta é como podemos fazê-lo. Traduzindo essa pergunta em termos kantianos, a questão que interessa ao primeiro Wittgenstein é como é possível formular enunciados sobre o mundo. 160 Elucidando a sua própria filosofia, Wittgenstein, referindo-se às idéias do Tractatus, sintetiza:
Há uma auréola a volta do pensamento, - a sua essência, a Lógica, representa uma ordem, de facto a ordem a priori do mundo, isto é, a ordem das possibilidades que tem que ser comum ao Mundo e ao pensamento. Mas parece que esta ordem tem que ser supremamente simples. É a ordem que precede toda experiência, à qual não se deve pegar nada do que é turvo e incerto na experiência. – Tem que ser do mais puro cristal. Mas este cristal não parece ser uma abstração, de fato o mais concreto, como a coisa mais dura que há.
Mas, embora a forma lógica possa ser tomada como um a priori da filosofia do primeiro Wittgenstein, como ele próprio apresenta posteriormente, e suas preocupações
157
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado Lógico-filosófico. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 36. (TLP, 2.161).
158
Sobre a forma lógica, cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. Algunas observaciones sobre la forma lógica. In WITTGENSTEIN, Ludwig. Ocasiones filosóficas. Tradução Angel García Rodrigues. Madrid: Catedra, 1997, pp. 46-54.
159
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado Lógico-filosófico. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 39 (TLP, 3.02).
160
Cf. FANN, K.T. El concepto de filosofia en Wittgenstein. Tradução de Miguel Angel Beltran. Madrid: Tecnos, 1992, p. 27.
centrais convirjam de alguma forma com as preocupações de Kant, isso não o converte Wittgenstein em um neokantiano, pura e simplesmente. Há, de fato, um sem-número de interpretações que procuram aproximar as idéias dos dois filósofos; mas isso nos parece estar ligado a uma espécie de necessidade de fazer passar do novo ao familiar, arrumando sempre novas informações dentro dos velhos esquemas, sem que isso seja exatamente uma crítica aqueles que analisam a obra de Wittgenstein através de Kant, pois essa necessidade de que falávamos parece não livrar ninguém.
Sem procurar identidades – pois discordamos das tentativas de encontrar o verdadeiro Wittgenstein – mas apenas convergências, é possível, de fato, especular sobre algumas bastante interessantes. Stegmüller, por exemplo, diz que apesar das divergências,
as últimas conseqüências e perspectivas desenvolvidas no ‘Tractatus’ são análogas às idéias advogadas por Kant. As divergências desenvolveram-se, inclusive, de forma que Wittgenstein chegou a uma radicalização da posição kantiana. Usando um lugar comum, poder-se-ia dizer que ele transportou o idealismo transcendental de Kant do plano da razão (Ebene der Vernunft) para o plano da linguagem (Ebene der Sprache).161
Quando fala das últimas conseqüências e perspectivas desenvolvidas no Tractatus, Stegmüller quer se referir à diferença entre o que é possível ser dito e o que possível apenas ser mostrado, ou seja, sobre o que podemos falar e sobre o que devemos calar. Wittgenstein abre o Tractatus tratando dessa questão (prefácio), e volta a ela no final do livro. Os últimos aforismos são, sem dúvida, fonte de maiores dificuldades na compreensão da obra e, como conseqüência, fonte de maiores divergências entre os estudiosos.
Wittgenstein afirma que há coisas sobre as quais a linguagem nada pode dizer; coisas que não podem ser descritas pelas proposições, e proposições sem qualquer conteúdo descritivo são proposições sem-sentido. Dito de outro modo, há coisas que não podem ser figuradas pela linguagem, e o maior exemplo delas é a sua própria forma lógica. Ela não pode
161
STEGMÜLLER, Wolfgang. A filosofia contemporânea: introdução crítica. Vários Tradutores. São Paulo: EPU, 1977, p. 424.
ser figurada na medida em que é condição de possibilidade da figuração. Mas ela se mostra na linguagem, ela é exibida pela proposição significativa.
Como a forma lógica, há diversas outras coisas que não podem ser ditas. É por isso que os filósofos estão sempre a tentar o absurdo, pois não enxergam a fronteira entre o que se pode dizer e o que não se pode dizer (significativamente). É por isso, também, que só o que pode ser dito são as proposições das ciências da natureza, pois elas, sendo proposições que descrevem o mundo, figuram apenas o que pode ser figurado e não outra coisa da qual não podemos fazer uma imagem. As ciências naturais representam a própria antítese da metafísica, pois o característico das proposições metafísicas é que contenham “sinais aos quais não foram dados uma denotação”, 162 ou seja, sinais que não são mandatários de nada que exista no mundo, sinais que simplesmente não possuem referência.
Não é possível fazer proposições sobre o que não está no mundo; sem esquecer que aquilo que está no mundo determina também o que não está. O valor não está no mundo; nada daquilo que atue de modo a ordenar o que só existe por acaso - e tudo o que acontece e o que é o é por acaso - está no mundo. O sentido do mundo, portanto, está fora do mundo, e é por isso que não podem existir proposições da Ética ou da Estética (que são o mesmo). Elas são transcendentais. 163
Como transcendentais, todas as coisas que pertencem ao domínio da ética podem apenas ser mostradas. A advertência de Wittgenstein é que sobre elas nada falemos, pois o que só se pode mostrar está além dos limites da linguagem e subverte as possibilidades do sentido. Se tivermos em mente que os limites da linguagem são também os limites do mundo - e que tudo o que pode ser dito pode, antes, ser pensado - parece-nos legítima a desconfiança de que Wittgenstein traça, com isso, os limites da própria razão, situando fora de seus
162
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado Lógico-filosófico. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 142. (TLP, 6.53).
163
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tratado Lógico-filosófico. Tradução de M. S. Lourenço. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 138. (TLP, 6.41 e 6.42).
domínios questões metafísicas, éticas ou estéticas.164 Ao fazê-lo, mitiga pretensões racionalistas e o poder da própria linguagem, ao tempo que enaltece a importância de tais questões, apontado-as como o que verdadeiramente interessa ao homem. Mas é preciso estar ciente de que essa é apenas uma leitura possível. Wittgenstein não nos permite ultrapassar o plano das suposições. Ao silenciar, nos obriga a lidar seu silêncio e assim, também, com a incerteza.
164
Cf. WITTGENSTEIN, Ludwig. Conferencia de ética. In WITTGENSTEIN, Ludwig. Ocasiones filosóficas. Tradução de Angel García Rodrigues. Madrid: Catedra, 1997, p. 65.
Terceiro Capítulo
Wittgenstein como ponto de inflexão: a pragmática da linguagem e a ruptura com a tradição representacionista.
De onde nossas considerações tomam sua importância, desde que parecem destruir tudo o que é interessante, isto é, tudo o que é grande e importante? (Como em todas as construções, na medida em que deixam sobrando montes de pedras e escombros.) Mas são apenas castelos no ar que destruímos, e liberamos o fundamento da linguagem sobre qual repousavam.
Wittgenstein, Investigações Filosóficas.
Sumário: 3.1. A refutação da imagem agostiniana da linguagem ou a quebra do espelho-
palavra; 3.2. Os jogos de linguagem; 3.3. A crítica anti-essencialista e a noção de semelhanças de família; 3.4. A gramática: autonomia e normatividade da linguagem; 3.5. As formas de vida como contextos praxeológicos.