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Dans le document Avis 51.811 du 27 octobre 2016 (Page 28-64)

O visual eclético que compõe atualmente a figura do pirrô é o mais colorido entre todos os personagens que se fixaram na cena odivelense: seu vestuário é composto por elementos procedentes de diversas matrizes estéticas, o capacete em formato mourisco, trançado em palhinha e enfeitado de flores e fitas coloridas; o macacão listrado de cetim de cores

alternadas; a romeira, espécie de gola que envolve os ombros e a máscara de papel machê que segue um modelo padrão. Todas essas peças são a base do figurino que varia em termos de cor, no entanto, mantém a condição de encobrir totalmente o corpo do brincante, permitindo que somente seus olhos fiquem em contato com o ambiente. Antônio José de Oliveira (o “Cação”) e sua esposa Linelma trabalham juntos na produção de máscaras e capacetes de pirrôs. Tudo começou com tentativas frustradas e tornou-se uma habilidade dividida pelo casal:

Ela faz as máscaras, eu faço só o acabamento. Aí dobro, faço a boca, faço a pintura, eu fazia e fazia tudo, aí ela pegou: „eu quero aprender‟. „Então tu pega uma fôrma, tem a goma, tem papel aí, fica só me olhando e tenta fazer, se tu não consegui fazer, tu já vai fazer mais pra frente. Foi isso que ela fez. Eu já fazia isso aí e eu dizia pra ela, „tu quer fazer, faz que eu faço o acabamento‟.

Como artefato, a máscara do pirrô é confeccionada com relativa simplicidade. A fôrma segue a mesma silhueta, variando apenas no tamanho, conforme a medida de adulto ou de criança. O formato oval busca assemelhar-se ao contorno do rosto, embora não se encaixe totalmente nele, pois para fixar-se a máscara é amarrada com fios ou elástico por cima da toalha. A prática do uso da toalha em volta do rosto nasceu da necessidade de encobrir os cabelos e atar com firmeza a máscara à cabeça, para que ela não caísse durante a brincadeira.

A fôrma é o primeiro objeto artesanal produzido para preparar a máscara de pirrô, ela pode ser moldada em argila ou feita de cimento, tudo depende do material disponível (Foto 36). Para criá-la é preciso a mão do artista. A modelagem buscará relevos e contornos da forma tridimensional do rosto e deverá ter a propriedade de permitir réplicas, como uma matriz serigráfica. Lúcio Chagas e sua família foram os pioneiros na criação dessa máscara. Hoje o artesanato da máscara de pirrô é o mais difundido na cidade e tornou-se meio de aumentar a renda de muitas famílias durante o mês de junho.

As etapas para confecção da máscara começam com a colagem de tiras de papel, processo no qual se utiliza jornais ou outros papéis disponíveis e goma de tapioca57. São necessárias algumas camadas dessa bandagem, dependendo da consistência que se quer obter. Não há uma receita para a medida porque: “a gente tem um toque, né, da mão da gente, a gente não coisa assim de dizer quantas são [as camadas]”, explica Linelma. Ela experimenta a

57 A goma é um produto retirado da mandioca durante o processo de preparação da farinha, no qual se obtém

ainda o tucupi, a farinha de tapioca e a farinha d‟água. A consistência da goma para colar é diferente da goma comestível usada em pratos típicos como o tacacá, mas, ambas são feitas no fogo e dosadas nas quantidades adequadas para a finalidade a que se destinam.

textura da máscara após cada secagem para certificar-se de que não passou do ponto, pois quando fica muito grossa dificulta o corte dos olhos, que deverão ser vazados para que a indumentária possa funcionar. Por outro lado, se ficar fina demais poderá rasgar-se com facilidade. Nesse processo entra a sensibilidade do toque do artesão. Depois dessa fase cola-se o nariz, feito de papelão.

FOTO 36 - Máscaras de pirrô na fase inicial de confecção. Em cima da mesa, encontra-se também uma armação de capacete e um capacete azul e branco apenas encapado. O molde da fôrma em argila (colocado sobre uma telha de barro) e o molde do nariz em papelão estão no centro da mesa. No canto direito, o capacete completo nas cores preto e branco. Fotografia: Silvia Silva, 2009.

Existe também, na máscara do pirrô, um acessório de cor variável, semelhante à aba de boné e que surgiu como um acabamento para substituir o chapéu de palha ou mesmo o próprio boné, usados por alguns brincantes para fixar a máscara, que depois tornou-se obsoleto em função do acréscimo da toalha. O chapéu também sustentava os panos da costa, usados para cobrir os cabelos e ombros, e presos ao redor da máscara para garantir sua fixação no rosto.

Depois de moldada e seca a máscara é pintada. Nisso começa o primeiro processo de mudança na sua aparência, pois a cor do rosto pode variar. Encontrei durante minha pesquisa três cores de máscaras de pirrô: a branca, mais comum, a preta e a rosa, da cor dos cabeçudos tradicionais. Cação explica que usa tinta a óleo para pintura e, depois da cor de fundo, pinta os

detalhes do rosto e da aba nas cores escolhidas por quem fez a encomenda: “o acabamento daqui da máscara faz igual o começo, coloca papel abeirando, em cima, nos lados, tudinho, o acabamento dela que tem que ser bem bonitinho, pra ela sair bem”. Para alisar a rugosidade do papel os artesãos utilizam massa corrida, aquela mesma massa a óleo usada na pintura de paredes. Esse processo deixa o rosto liso e pronto para a pintura.

A durabilidade da máscara de pirrô é curta, em geral serve apenas para brincar dois ou três anos, pois, à fragilidade do material se junta o fator de desgaste provocado pela poeira e o suor em contato com o papel. Conforme explica Cação, alguns artesãos trabalham com jornal, outros, como ele e Linelma, preferem trabalhar só com papel branco (Foto 37), geralmente sobras de documentos, para a máscara ficar mais forte, já que o jornal absorve o suor mais rapidamente por ser mais frágil, embora seja mais maleável.

FOTO 37 - No quintal de sua casa, o casal de artesãos Cação e Linelma demonstram as etapas para confecção da máscara de pirrô. Fotografia: Silvia Silva, 2009.

O acessório considerado o mais intrigante do vestuário do pirrô é o chapéu ou capacete em formato cilíndrico, que tem no centro uma vara fina, equilibrada com um arranjo de flores e fitas, como os chifres do boi-bumbá. O chapéu ou capacete é trançado em palhinha, confeccionado artesanalmente com técnica de cestaria. Sua estrutura é feita com talas de madeira nativa, que depois é encapada com técnica de papietagem e decorada com diversos

artefatos coloridos, comopassamanaria58 ou outros tipos de fitas coloridas. As talas utilizadas para confeccionar os chapéus, são retiradas de árvores nativas dos arredores da cidade, escolhidas por sua flexibilidade e resistência (como o guarumã).

O artesão que faz a máscara nem sempre faz o capacete (ou chapéu). Há menos artesãos que confeccionam o capacete do que máscaras, pois o material é mais caro e a habilidade exigida é maior. O capacete como um chapéu (nome pelo qual também é chamado) precisa ser ajustado ao tamanho da cabeça que vai usá-lo. Gilberto Santana Rodrigues conta que iniciou sua produção de capacete a partir da observação da produção de seu irmão, que já fazia a peça:

Eu comecei trabalhar foi vendo meu irmão fazer isso aqui. Tá entendendo? Capacete. Ficava vendo ele fazer, daí eu gostei daquilo, eu comecei a fazer também com ele. Eu comecei a fazer, só porque eu não acertava fazer, fazia um, daí saía torto, esbandalhava. Isso aqui era feito com cipó [a armação], só porque durava dois anos, aí a pessoa usava dois anos, aí quebrava isso aqui. Aí eu usei uma outra estratégia, tás entendendo? Coloquei um arame aqui de cobre. A pessoa coloca na cabeça, muitas das vezes não entra aqui. Daí eu coloquei o arame porque dá pra entortar assim, dá pra entortar, daí encaixa certinho na cabeça. Aprendi com meu outro irmão Pedrinho, ele aprendeu ele mesmo, ele pegou um capacete e ficou admirando, entendeu? Ficou olhando, foi, foi, depois ele aprendeu. Daí eu aprendi olhando pra ele, olhando assim, mas só porque eu aprendi muito rápido, mas eu passei dele, não sendo meu trabalho, mas eu faço capacete muito bem porque ele fazia, mas era tudo torto porque era feito de cipó também, né. Agora não.

O acabamento do capacete algumas vezes necessita de outras mãos, como as da mulher que faz as flores, a pessoa que enfeita, ou como no caso de Cação e Linelma, com a colaboração de dois. O modelo do capacete é como o conjunto da indumentária do pirrô um enigma colorido em movimento, que se organizou ao longo dos anos de brincadeira pelo trabalho criativo dos artesãos da cidade. A primeira inspiração pode ter vindo dos barcos enfeitados com bandeirinhas coloridas que navegam no Mojuim. Mas há formatos similares em outras festas, geralmente de caráter religioso em que figuram personagens mouros, como a festa dos rapazes e a festa de Santo Estevão em Portugal (PEREIRA, 1973). O estudo de suas matrizes ainda não é conclusivo.

Seguindo condições semelhantes à máscara de pirrô, a máscara de cabeçudo também evoluiu em sua forma de modelo improvisado para um modelo padronizado, desenvolvido, principalmente, pelos próprios brincantes que aprendem uns com os outros as técnicas de

58 Acessório aplicado como ornamento em barras de roupas. Nos capacetes de pirrô a passamanaria é colada

confecção, as quais vão aperfeiçoando e modificando nesse processo criativo constante. Nesse segundo tipo de máscara há a predominância do formato tridimensional da cabeça, ao invés de apenas do rosto como é o pirrô, por isso mesmo o cabeçudo carrega no próprio nome a referência a sua principal caracterização.

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