Mary Neiva Surdi da Luz (Doutoranda) Amanda Eloina Scherer (Orientadora)
Este trabalho objetiva analisar o discurso de professores de língua portuguesa, egressos de uma universidade periférica, com a finalidade de desvelar como se dá a constituição identitária desses sujeitos e como, no dizer, revelam-se os discursos oriundos de diferentes espaços de formação. Partimos da idéia de que o ser humano distingue-se dos outros seres pela capacidade de usar a linguagem para fins de comunicação e interação. Também é ele quem tem capacidade de ensinar e aprender as línguas, de pensar e de repensar nas formas de escolarização do trabalho lingüístico, nas diversas facetas envolvidas no processo de ensino/aprendizagem. Nesse contexto, o ensino de língua portuguesa, a formação do professor e a análise do cotidiano escolar são temas que cada vez mais chamam a atenção e ganham espaço no campo de pesquisa acadêmica, pois são pontos de referência para as reflexões sobre o processo de ensino/aprendizagem de língua portuguesa como língua materna e sobre como se dá a constituição identitária do sujeito professor. Em relação ao ensino de língua portuguesa, os trabalhos de Benites (2006), Albuquerque (2006) e Oliveira (1998, 2006), entre outros, são significativos e referência para a construção deste projeto, que parte da constatação de que o discurso do professor de língua portuguesa revela as faces de um sujeito heterogêneo. Os resultados desses trabalhos indicam um quadro antagônico, pois o professor de língua portuguesa assume um discurso inovador, conectado às atuais discussões provenientes das ciências lingüísticas, sobretudo da Sociolingüística, Lingüística Aplicada, Lingüística Textual e Análise do Discurso, e, por outro lado, ao se confrontar as falas dos professores às suas práticas, por meio de observações, da análise de cadernos ou de aplicação de
questionários aos alunos, o que se observa é a manutenção de uma prática conservadora. Os professores revelam um conhecimento teórico consistente sobre a concepção de língua como enunciação e discurso e afirmam partir do texto para trabalhar a língua. Tais conhecimentos foram estudados durante sua formação inicial, nos cursos de Licenciatura em Letras ou em cursos de capacitação oferecidos pelos municípios e Estados. No entanto, muitas de suas práticas retomam ou reforçam o ensino prescritivo de língua, priorizando a língua como sistema e tomando o texto como pretexto. Oliveira (2006) aponta que essa prática é decorrente da organização dos conteúdos e ementários em vigor nas grades curriculares dos Cursos de Letras. O que se depreende é que o professor ainda tem uma formação prescritiva e está inserido em um contexto que exige um ensino produtivo. Essas constatações são apresentadas em trabalhos de pesquisas desenvolvidos pelos autores citados acima e também são recorrentes nas pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa Estudos Lingüísticos e Literários da Unochapecó (Universidade Comunitária Regional de Chapecó-Chapecó/SC), que há seis anos investiga o estado da arte do ensino de língua portuguesa em diversas redes e níveis de ensino por meio de projetos financiados, pesquisas de conclusão de curso e monografias de especialização. Partindo-se da referência que a Unochapecó, por meio do Curso de Letras, tem formado professores que atuam no ensino de língua portuguesa há 16 anos; que esse curso passou por várias alterações curriculares e conceituais; e que parte desses egressos atuam no ensino, torna-se pertinente nessa conjuntura tornar esses egressos sujeitos de uma nova pesquisa. A partir desse quadro, tem-se como questão de pesquisa: qual o discurso do professor de língua portuguesa, egresso do Curso de Letras da Unochapecó, sobre as suas concepções teóricas e suas práticas? A partir dessa questão objetiva-se desvelar, por meio da análise de discurso, como o sujeito professor tem constituído sua identidade e como tem se apropriado das mudanças didáticas e pedagógicas que norteiam o ensino de língua portuguesa. Para constituir nosso objeto de análise, colocaremos em ação o exercício de escuta e entrevistaremos professores de língua portuguesa. Os professores sujeitos deste trabalho serão profissionais que atuam em escolas da rede estadual de ensino de Santa Catarina, em municípios que compõem a Gerência de Educação, Ciência e Tecnologia Chapecó/SC. A entrevista será composta por um conjunto de questões, enunciadas em forma de pergunta, tendo
como objetivo ouvir o que o professor tem a dizer sobre o seu fazer em sala de aula, sobre a sua formação e sobre o que é ser professor de língua portuguesa. Para proceder à leitura e interpretação desses discursos, tomaremos como aporte teórico a análise de discurso. Orlandi (1992) afirma que a Análise do Discurso de vertente francesa (AD) ajuda a compreender como se dá a produção de sentidos, como os sujeitos articulam discursos que se relacionam às formações discursivas (FD) que, por sua vez, inscrevem-se em formações ideológicas. Segundo a autora, “na Análise do Discurso, procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho geral, constitutivo do homem e da sua história” (2005, p. 15). Assim, a AD trabalha com a língua no mundo, com as maneiras de significar, e não com a língua enquanto sistema. Leva em conta o homem na sua história, considerando as condições de produção da linguagem, e que a linguagem não é transparente. Objetiva compreender como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para os sujeitos. Considerando essas poucas idéias apresentadas, já se pode perceber que a AD é uma excelente ferramenta para analisar o discurso do professor de língua portuguesa, procurando-se, nos fios do discurso, como se constituem os sentidos do dizer. O sentido do que é dito é determinado pelas posições ideológicas colocadas em cena no processo de produção. Daí a noção de formação discursiva como fundamental para a compreensão do processo de produção dos sentidos. A formação discursiva define-se como “aquilo que numa formação ideológica dada, ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada, determina o que pode e deve ser dito” (Orlandi, 2005, p.43). Para Orlandi, na Análise de Discurso não vigora a noção psicológica de sujeito empiricamente coincidente consigo mesmo, ainda que o sujeito discursivo seja pensado como posição entre outras: “não é uma forma de subjetividade mas um „lugar‟ que ocupa para ser sujeito do que diz” (ibid., p.49). Um bom exemplo para entender isso é perceber que os sujeitos são intercambiáveis, ou seja, um mesmo indivíduo assume- se como diferentes sujeitos em diferentes formações discursivas. Quando uma mulher fala da posição de mãe, ao questionar seu filho sobre o horário de chegada (Isso são horas?), o sentido do enunciado é construído a partir da posição de mãe assumida. “Podemos até dizer que não é a mãe falando, é a sua posição. Ela aí está sendo dita. E isso significa. Isso lhe dá a identidade, uma identidade relativa a outras, por exemplo, na posição de professora,
de atriz, etc” (ibid., p.49). Nesse sentido, pode-se dizer que os professores de língua portuguesa são sujeitos que assumem suas identidades em função das diferentes formações discursivas em que estão inscritos. Também se observa que o professor de língua portuguesa é um sujeito que vive um conflito: está entre o tradicional e o novo. Coracini (2003) aponta que a identidade se forma ao longo do tempo, por meio de processos inconscientes. Ela permanece sempre incompleta, sempre em processo, em „(trans)formação‟ [grifo nosso]. Toda a identificação só acontece porque encontra alguma resposta no interior do sujeito. “É preciso entendê-la não como resultado de uma plenitude ou da completude ilusória de um sujeito indiviso, mas de uma „falta‟: falta de inteireza que procuramos preencher sem jamais conseguir, a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros: sei quem sou em relação com o outro que eu não posso ser” (ibid., p.243). A autora chama atenção para a hipótese de que o professor seja atravessado por uma multiplicidade de vozes que tornam sua identidade complexa, heterogênea e em mudanças, sendo que só é possível capturar momentos de identificação.
Palavras-chave: análise de discurso; professores de língua portuguesa; constituição identitária.
PANAMERICANA: A EMERGÊNCIA DE PROCESSOS DE