Pretende-se nesta parte do trabalho um alinhavo da discussão das informações analisadas, buscando avançar na compreensão das razões psico – afetivas para o fenômeno observado de não comunicabilidade da experiência traumática através da explicitação do pensamento paradoxal.
O paradoxo se enuncia quando um conjunto de premissas, aparentemente não controversas geram conclusões contraditórias e inaceitáveis. Para resolver um paradoxo é necessário demonstrar-se que há nas premissas uma falácia oculta, ou que o raciocínio esta equivocado, ou ainda que a conclusão aparentemente inaceitável pode ser tolerada. (Blackburn, 1996). No capítulo anterior, a análise dos depoimentos leva a enunciação de conclusões paradoxais, no sentido de estar presente em todos os depoimentos, em diversos níveis de elaboração, a descontinuidade da sintaxe lógica entre as razões para a escolha do local de moradia, a descrição da experiência traumática e o argumento que leva à decisão de voltar ou permanecer no mesmo local de moradia, podendo-se afirmar que há uma incomunicabilidade entre estes elementos que compõem a decisão. Quando da escolha do local de moradia verifica-
se a imposição de razões de ordem afetiva sobre qualquer outra razão de ordem econômica ou social. Mesmo que estas razões existam, e certamente existem, elas não foram explicitadas como variáveis no processo de decisão21. As pessoas relatam
que foram atraídas pela proximidade com a família, pelas qualidades locais de tranqüilidade, beleza, paz, onde o córrego São Quirino é um elemento importante na percepção destas qualidades, sendo considerado responsável por atrair os pássaros, amenizar o calor, integrar uma reserva ecológica, formar um cenário bucólico e outras características deste teor. Quando confrontadas com a experiência da inundação que representa uma ameaça real e concreta a um estilo de vida, que no limite chega a morte, parece que estas vítimas se esquivam de estabelecer uma clara e direta relação entre o fato ocorrido e uma necessária revisão, porém dolorosa, de seus valores mais profundos e cerne de sua identidade, que poderia levar a uma transformação do ambiente seja pela implantação de medidas preventivas, seja pela troca do local de moradia. Este processo de esquivamento parece apoiar-se em dois tipos de raciocínios, por um lado a redução da magnitude de suas perdas pela construção de justificativas religiosas, missionárias e mágicas e por outro a busca de um culpado que no caso parece recair sobre os “fazendeiros” rio acima que construíram açudes para seu “lazer e desfrute”. Essas racionalizações parecem afastar o foco da discussão de fatos reais e concretos que aconteceram, tais como: a intensidade da chuva no dia 17 de fevereiro de 2003 que foi atípica, representando o maior volume de chuva nos últimos 103 anos; a vazão do córrego sob a linha férrea que é estrangulada e pode ser bloqueada ou assoreada novamente; e as intervenções no córrego acima do bairro Parque Imperador onde todas têm autorização do DAEE22, como pode-se ver na Tabela 1. Deve-se ainda observar que atualmente o
córrego permanece assoreado e grande parte do entulho que desceu o córrego e entupiu os dutos de vazão e provocou a inundação, ainda se encontra no local como
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Os depoimentos foram colhidos de forma livre sem nenhuma sugestão por parte da pesquisadora. A única questão que podería-se colocar, seria que o fato da pesquisadora ser psicóloga e pudesse ter influído na vontade dos entrevistados em revelar suas razões subjetivas em preferência a qualquer outra.
22 No Estado de São Paulo cabe ao DAEE o poder outorgante, por intermédio do Decreto 41.258, de 31/10/96, de acordo com o artigo 7º das disposições transitórias da Lei 7.663/91. Se uma pessoa quiser fazer uso das águas de um rio, lago ou mesmo de águas subterrâneas, terá que solicitar uma autorização, concessão ou licença (Outorga) ao Poder Público. A outorga de direito de uso ou interferência de recursos hídricos é um ato administrativo, de autorização ou concessão, mediante o qual o Poder Público faculta ao orgado fazer uso da água por determinado tempo, finalidade e condição expressa no respectivo ato.
se a espera de outro temporal que poderá provocar nova catástrofe, como pode-se ver nas Figuras 21, 22 e 23 a seguir. Portanto, para avançar nesta questão da verdade consensual sobre o acontecido teríamos que estabelecer um critério de interpretação do enunciado aparentemente contraditório nos depoimentos. Talvez pudéssemos retomar a questão levantada anteriormente neste trabalho de que a avaliação da situação de risco é absolutamente subjetiva e dependente da leitura dos fatos e evidências circunstanciais levadas em conta pelo sujeito. Entretanto, para o sujeito que decide não está, de maneira nenhuma óbvio, que sua avaliação é principalmente subjetiva e que os fatos da natureza de fora colaboram nesta equação a partir de uma hierarquização criteriosa das condições de inclusão, a partir do sujeito. Fica-se com a impressão de que a complexidade do fenômeno perceptivo que envolve o sujeito, o mundo e suas inter-relações não é acessível por uma psicologia da consciência, mas pode ser melhor esclarecido pela concepção do eu dividido na psicologia do inconsciente apresentada pela psicanálise.
• Figura 21. Situação, em junho de 2004, de escoamento do córrego sob a linha férrea
• O processo de compreensão do mundo real passa pela sensibilização de nossos órgãos sensoriais, pelas qualidade da experiência, mas pela atribuição de sentido a cada uma das partes, que será interpretada na compreensão do todo. Nesse sistema o novo está sempre ligado ao velho, onde as idéias antigas que a percepção do novo se ancora na atribuição de sentido. A cada nova experiência toda a massa de informação anterior é atualizada e rearranjada e passa a adquirir um sentido lingüístico através da linguagem de nossas percepções e ligações. As impressões sensoriais primárias estabelecem relações entre si, que são reproduzidas intrapsiquicamente o que leva a compreensão do mundo externo e abre a possibilidade de avaliação e alteração de certas variáveis. Torna-se assim de fundamental importância a compreensão deste funcionamento psíquico que atribui realidade ao mundo externo. As pulsões23 primitivas (eros e destrutividade) operam no inconsciente a um nível primário de satisfação imediata, pela transformação somática combinada com alguma transformação no mundo externo. Este imediatismo pode freqüentemente levar a perigosos conflitos com o mundo externo e no limite, à extinção do eu. Os processos do inconsciente (processo primário) diferem dos processos da vida intelectual e emocional conscientes e não estão sujeitos às restrições críticas da lógica. A incompatibilidade entre o inconsciente e o mundo externo requer a permanente intermediação do eu, que funciona (processo secundário) como um radar com dois campos de observação o mundo interior inconsciente e mundo exterior – realidade. O eu faz a passagem da representação coisa para a representação palavra pela interpolação entre a exigência colocada pela pulsão e a ação que a satisfaz, o “pensamento que após orientar-se no presente e avaliar experiências anteriores, se esforça, mediante ações experimentais, por calcular as conseqüências do curso de ação proposto”. (Freud 1940) Esta capacidade de avaliação acompanhada do processo de tomada de decisão pelo eu é o que se chama de princípio de realidade. Dessa maneira o eu é governado pela busca da segurança e é ameaçado nesta tarefa, tanto pelas incríveis forças da natureza contra as quais é muitas vezes impotente como pelas poderosas forças do inconsciente, face as quais, também é muitas vezes impotente. O eu para manter-
23 Pulsão, é um conceito desenvolvido por Freud ao esboçar a psicanálise, como um impulso limítrofe entre o somático e o psíquico. A pulsão é responsável pelo eterno movimento do eu no sentido da
se íntegro precisa defender-se destas demandas em conflito, a que vem do inconsciente e a que vem do mundo externo e defende-se agindo sobre o único sistema sobre o qual tem algum controle, a percepção e a atribuição de sentido ao percebido. A experiência primordial de desamparo do eu refere-se a diferenciação entre eu e não eu inicialmente o não eu representado pelas figuras parentais e posteriormente equacionada pela introjeção das figuras paternas no superego, embora esta instância nem sempre seja capaz de proteger o eu destes dois perigos a sua integridade. A sensação de desamparo tem fator decisivo na resolução do conflito e cria as condições necessárias a clivagem do eu. O eu entretanto precisaria rapidamente aumentar seu repertório de intelectual para poder atribuir significados às pulsões emanantes do id e as tensões da realidade. Este processo manteria as pulsões reprimidas retardando sua satisfação até que uma correta avaliação da realidade fosse feita e pudesse ser tomada a melhor decisão no sentido da ação mais adequada tanto a satisfação da pulsão como da manutenção da integridade do eu. Ora, esta não é uma tarefa banal principalmente quando a realidade torna-se excepcionalmente penosa ou que as pulsões se intensificam extraordinariamente e nestas circunstâncias em que o ego é submetido a reivindicações rivais vê-se impossibilidade a permanecer em uma posição conciliatória e ocorre uma clivagem do eu. Esta clivagem se manifesta como abandono da realidade e a criação de construções delirantes com afinidade com as pulsões do id e um desligamento da realidade. Para que esta posição seja bem sucedida o ego nega a percepção sensorial e apega-se a uma idealização e toda a função de avaliação intelectual da realidade e de tomada de decisão se vê comprometida. (Freud, 1940)
ligação com o mundo externo ao eu, para alcançar sua satisfação.