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Contrˆole d’un ´ecoulement d´ecoll´e (Separated-flow control)

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 17-22)

1.2 Contrˆole du d´ecollement en boucle ferm´ee

1.2.2 Contrˆole d’un ´ecoulement d´ecoll´e (Separated-flow control)

Neste item trataremos das maneiras pelas quais analisamos os discursos e as imagens presentes em algumas das reportagens que selecionamos. Trazemos a semiologia descrita por Gema Penn (2012), que utiliza autores como Sassure e Barthes, a fim de

28 Estes termos advêm das redes sociais e querem dizer se a pessoa que leu o comentário gostou ou não do mesmo, sem precisar responder através das respostas. O “curti” é representado por um sinal de positivo, um desenho de uma mão com o polegar virado para cima, já o “não curti” é o mesmo desenho com o polegar virado para baixo.

compreender de que maneira os sistemas de signos29 produzem sentidos, ou seja, produzem representações na cultura. Penn (2012, p. 321) cita Sassure (1915) para definir a semiologia como a “ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social”. Uma observação importante apontada pela autora para aqueles/as que utilizam a semiologia como referencial analítico é a de que:

Tanto na linguagem escrita como na falada, os signos aparecem sequencialmente. Nas imagens, contudo, os signos estão presentes simultaneamente. Suas relações sintagmáticas são espaciais e não temporais (IBIDEM, p. 322).

A autora nos fala que as imagens são ambíguas ou produzem vários sentidos. Dessa forma, está quase sempre acompanhada de uma legenda, pois, o texto tira a ambiguidade da imagem. Os sistemas semiológicos são compostos de uma mistura linguística de imagens e textos. “O ato de ler um texto ou uma imagem é, pois, um processo interpretativo. O sentido é gerado na interação do leitor com o material” (IBIDEM, p. 324).

Gemma Penn (2012) apresenta também os níveis de significação, os quais iremos utilizar com frequência para interpretar os textos, são eles: a denotação, a conotação, e o mito.

No nível da denotação, o/a leitor/a necessita apenas de conhecimentos linguísticos e antropológicos, ou seja, possui um vínculo direto com o significado da palavra no dicionário, sem sentidos derivados ou figurados. Já a conotação exige que o/a leitor/a possua outros conhecimentos culturais. Barthes (1964), citado por Penn (2012), define esses conhecimentos como léxicos, ou seja, eles são “uma porção do plano simbólico (da linguagem) que corresponde a um conjunto de práticas e técnicas”.

A conotação sugere uma série de fatores presentes em seu significado, para além do vínculo direto e imediato que mantém com as palavras e os objetos da realidade. Por este motivo que Penn (2012) chama atenção para a necessidade de um conhecimento cultural prévio no nível da conotação.

Na chamada segunda ordem de significação, a autora aponta o mito, que para ela “representa uma confusão imperdoável entre história e natureza” (GEMA PENN, 2012, p. 324). O mito é um processo pelo qual uma determinada cultura naturaliza suas normas e suas ideologias. Um exemplo das ideologias naturalizadas que poderíamos citar, seria o mito da beleza feminina, que constrói uma ideia de feminilidade cristalizada para as mulheres no

29 Signos são um sistema compostos de significante e significado que, em uma relação recíproca, atribuem sentidos às palavras, às ideias.

âmbito social, produzindo uma representação naturalizada de mulheres graciosas, delicadas e frágeis.

Corroborando com Gema Penn (2012), percebemos que os discursos das reportagens criam visões de mundo atreladas às relações de poder-saber:

Não se trata de fazer a divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de descrição é exigida a uns e a outros (MICHEL FOUCAULT, 2005b apud SHIRLEI REZENDE SALES, 2012, p. 124).

Michel Foucault na obra A Ordem do Discurso (1999a) nos fala que o discurso está longe de ser neutro. As sociedades se utilizam de mecanismos de controle e de exclusão dos diversos discursos nelas presentes e, mais do que isso, são controlados quem é autorizado a dizer e como dizer. Dessa forma, o discurso é conceituado pelo autor como uma rede de signos que se conectam entre si e estabelecem valores sociais a serem perpetuados. Nas palavras de Wagner Amodeo (2011, p. 3) “a crítica de Foucault está concentrada nos procedimentos que visam o controle do que é produzido, por quem é produzido, e de como se distribuem os discursos, como podem ser vistos no quadro sinótico”.

Nesse contexto, o discurso é objeto de desejo a ser buscado pelas instituições sociais, pois, uma vez detentores do discurso, é possível ter o poder de dominação da sociedade. Pensamos que ter em mente o discurso em uma perspectiva foucaultiana, nos permite compreender o dado com um olhar crítico, verificando os possíveis motivos pelos quais aquelas informações são veiculadas em detrimento de outras e por que aquela informação é reproduzida daquela maneira, em determinados contextos, ou seja, é preciso nos interrogar constantemente acerca das “condições de existência do discurso” (SHIRLEI

REZENDE SALES, 2012, p. 125)

Outra observação importante que fazemos sobre as reportagens selecionadas foi a presença de especialistas e gestores do esporte que concederam entrevistas e opiniões para o

site. Pierre Bourdieu (1997) em sua obra Sobre a Televisão pontua que a emissoras disputam

diariamente quem cobre o fato primeiro, em primeira-mão, visto que as informações são praticamente noticiadas em tempo real na atualidade. Dessa forma, os fast thinkers ou rápidos especialistas (tradução nossa) levam para o público ideias “prontas”, aceitas por todos.

O autor argumenta ainda que os fast thinkers não colocam um “porém”, nem desconstroem uma ideia para depois reconstruí-la, a fim de que o pensamento do senso-

comum se modifique, pois, isso leva tempo, e o tempo tem significado econômico imediato para a TV:

Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma: há falantes obrigatórios que deixam de procurar quem teria realmente alguma coisa a dizer (...) (PIERRE BOURDIEU 1997, p. 41 - grifos nossos).

Percebemos que, assim como a televisão, a mídia online também produz esses rápidos especialistas, devido sua característica emergencial, e nessa dinâmica reproduzem discursos já constituídos e autorizados socialmente. O que vimos são pessoas dispostas a conceder entrevistas como treinadores/as, dirigentes, atletas, assistentes de arbitragens, entre outros/as, ou repórteres especializados, mas, sempre nos moldes convencionados.

Com relação aos comentários feitos pelos/as usuários/as do site a respeito do futebol de mulheres, percebemos, de maneira geral, divergências entre si e também com relação aos discursos e às imagens das reportagens. Enquanto alguns/as reproduzem um determinado mito naturalizado socialmente para as mulheres, outros/as buscam resistir às ideias prontas que são constantemente reiteradas no site e as desestabilizam com seus comentários.

Danúbia Andrade (2010) considera que as análises feitas da recepção de um conteúdo midiático, representa uma troca de paradigma, em que o foco é mais específico, ou seja, passa a ser sobre os sujeitos que veem televisão, leem jornal, ou acessam um conteúdo

online.

A autora afirma ainda que as análises de recepção se voltam para o uso que os consumidores fazem de determinado conteúdo midiático, e consideram o receptor como uma parte importante no processo de construção de sentidos e significados. Assim, se faz importante a análise dos comentários feitos por aqueles/as que acessam o conteúdo do Globoesporte.com, evidenciando as maneiras pelas quais as notícias são subjetivadas pelo público leitor.

É importante destacar que as temáticas a serem apresentadas no capítulo a seguir emergiram a partir de algumas características das reportagens e comentários selecionados e tratados para a análise, tendo como referência seu caráter polêmico com relação às mulheres no futebol, bem como os comentários feitos pelos/as usuários/as do site. Ou seja, alguns discursos e imagens que nos chamaram especial atenção, foram importantes para a discussão dos dados, juntamente com a literatura.

4 WEBJORNALISMO ESPORTIVO: UM JOGO DE DISCURSOS E IMAGENS

A partir da exploração do material empírico, emergiram três temáticas para análise, a saber: Feminilidades em jogo: imagens e discursos midiáticos no futebol de mulheres; Impedimentos de gênero: quando será a vez delas?; e “Desenvolvimento do futebol feminino”: agendas para as mulheres. Esses temas foram importantes, pois, nos permitirão descrever as maneiras pelas quais o Globoesporte.com constrói a notícia sobre as mulheres no futebol, bem como possibilitará relacionar esses discursos e imagens com os comentários dos/as leitores/as.

É importante destacar também que, entre as trinta e quatro reportagens, o mesmo assunto se repetiu e, dessa forma, utilizamos todas para que o fenômeno fosse melhor compreendido. Contudo, apresentaremos nas análises aquelas que desencadearam maiores debates, tanto nos discursos e imagens quanto nos comentários: ora focando somente nos discursos, ora somente nos comentários, e outras vezes em ambos, pois, se complementam.

Optamos também por trabalhar com trechos das falas e dos discursos ao longo das análises, uma vez que seria inviável e desconfortável para a leitura reproduzirmos as reportagens na íntegra. No entanto, é possível encontrá-las devidamente referenciadas nos anexos desta dissertação.

Antes de partirmos para o primeiro tópico de análise, apresentaremos a Interpelação, que se materializa em alguns discursos das reportagens e nos comentários dos/as leitores/as. Não se caracteriza como uma temática, no entanto, atravessa todos os outros temas de análise que elencamos a partir do material empírico. Portanto, é um assunto que decidimos deixar à parte, pois, será necessária uma discussão mais específica, a priori, para posteriormente ser analisado juntamente com as temáticas em relação.

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