Ao longo do experimento foram determinadas as características químicas da água residuária utilizada na irrigação das laranjeiras. Os resultados encontram-se na Tabela 7, na qual se apresentam os valores médios e o desvio padrão para cada atributo avaliado.
De acordo com Jenkins & Hermano Wics (1991) do N-total existente nos esgotos domésticos frescos, aproximadamente 40% está na forma de NH4+ e 60% na
forma de N orgânico. Entretanto as concentrações e as formas de N encontradas nas águas residuárias dependem do tipo de tratamento e do tipo de processo que são utilizados (DUARTE, 2006). Segundo Ayres & Westcot (1991), as águas residuárias possuem uma elevada concentração de N, entre 10 e 50 mg L-1. Diante dos resultados obtidos observa-se que a concentrações de N encontradas na água residuária em muitas épocas estão muito acima da faixa considerada elevada. Houve épocas em que a concentração de N chegou a 150 mg L-1.
A sensibilidade das culturas ao excesso de N varia de acordo com as fases do ciclo fenológico. Na fase de desenvolvimento vegetativo, altos níveis deste elemento pode ser benéfico, entretanto, nas fases finais o excesso de N atrasa o florescimento e a maturação dos frutos prejudicando a produtividade.
Ayres & Westcot (1991) afirmaram que, quando videiras foram irrigadas na Líbia com efluente contendo 50 mg L-1 de N não houve frutificação. Com excesso de N a videira tem seu período vegetativo prolongado e diminuição da produção de frutos.
As águas residuárias resultante do tratamento de esgotos também são fontes de P, proveniente principalmente de sabões e detergentes sintéticos. Essas águas quando utilizadas na irrigação, restabelecem as fontes desse nutriente no solo. Entretanto quantidades excessivas de P podem proporcionar deficiência induzida de Cu, Fe e Zn, sendo necessária a complementação mineral desses micronutrientes (FEIGIN et al., 1991).
A concentração média de P encontrada na água residuária no período avaliado foi de 5,1 mg L-1. Os valores críticos de P na água de irrigação, segundo Trani (2001) são de 30 mg L-1, portanto os teores de P na água residuária encontram-se dentro do limite estabelecido.
É importante ressaltar que é de interesse para o reúso agrícola uma fonte considerável de P na água residuária, mas segundo Von Spearling (1996) apenas 0,05 mg de P-PO4 podem causar problemas de eutrofização de mananciais, rios e lagos.
O K não é mencionado como fator limitante nas diretrizes de qualidade de água para irrigação, devido geralmente às baixas concentrações encontradas em relação aos outros elementos. No entanto, a presença de altas concentrações de K nas águas de irrigação pode ocasionar a indisponibilidade de Mg para as plantas (DUARTE, 2006).
Na Tabela 7 pode-se observar que os teores de K ficaram na faixa entre 12,77 e 21,63 mg L-1. Bahri (1998) e Emongor et al. (2004) quantificaram uma concentração de K igual a 52 mg L-1 e 25 mg L-1, respectivamente, no efluente domestico tratado, não relatando problemas com esse elemento.
A concentração média de B no período amostrado foi de 0,3 mg L-1, atingindo em algumas épocas 0,52 mg L-1. Segundo Kirkham (1986) a alta concentração de B pode ser encontrada em efluente doméstico, normalmente entre 0,5 e 1,0 mg L-1, sendo atribuído ao uso de componentes à base de B, em produtos de limpeza. Segundo Paganini (1997) algumas plantas são mais sensíveis à pequena concentração deste elemento, como por exemplo, citros.
Tabela 7.Valores médios e desvio padrão dos parâmetros químicos determinados para a água residuária utilizada na irrigação.
N P K Ca Mg S B
---mg L-1--- 96,9 ± 53,6 5,1 ± 2,2 17,2 ±4,43 15 ± 4,67 2,5 ± 0,78 11,1 ± 3,04 0,30 ± 0,22
Durante o período amostrado não foram detectadas na água residuária teores de Cu e Mn. Os teores de Zn detectados foram muito baixos e as concentrações de Fe encontradas estão abaixo do nível de risco (Tabela 8). De acordo com Trani e Carrijo (2004) os valores máximos de Fe na água de irrigação devem estar entre 0,2 e 1,5 mg L-1 visto que, acima do limite superior, pode ocorrer precipitação de F2Cl3 em águas com alto teores de Cl.
De acordo com a resolução do CONAMA nº 375/2006 (CONAMA, 2006) a faixa de pH para lançamento de efluentes em corpos d`água deve estar entre 5 e 9. Essa faixa de pH é favorável para a existência da maioria dos organismos biológicos e possibilita a realização do tratamento biológico de esgotos.
A importância do pH não se dá apenas nas reações químicas e biológicas existentes no tratamento de esgotos. No caso das águas utilizadas para irrigação, quando o pH é muito ácido ou muito básico, pode haver sérios problemas de nutrição e toxicidade para as plantas, bem como problemas de incrustações e corrosões no sistema de irrigação. Segundo Ayres & Westcot (1991) o intervalo de pH usual na água de irrigação é de 6 à 8,5. De acordo com os resultados obtidos (Tabela 8) observa-se que a faixa de pH encontrada (média de 7,3) durante o período avaliado está dentro da faixa permitida para lançamento de efluentes e pode ser utilizada na irrigação sem maiores riscos.
Tabela 8. Valores médios e desvio padrão dos parâmetros químicos determinados para a água residuária utilizada na irrigação.
Cu Fe Mn Zn pH CE
---mg L-1--- mS
0 0,4 ± 0,26 0 0,05 7,3 ± 0,38 0,6 ± 0,04
A determinação da condutividade elétrica (CE) na água de irrigação é extremamente importante, principalmente quando se utiliza águas residuárias que apresentam
altas concentrações de sais, que se não forem controlados, podem ocasionar queda na produtividade das culturas e degradação das áreas irrigadas, através do processo de salinização ou sodificação do solo.
A salinidade pode afetar bastante o desenvolvimento das culturas irrigadas, e a tolerância aos sais variam conforme o tipo de cultura e as plantas cítricas estão na categoria de plantas sensíveis à salinidade.
De acordo com os resultados da Tabela 8, verifica-se que a CE ficou em torno de 0,6 mS durante o período avaliado. Segundo dados da Environmental Protection Agency - EPA (1991) a água residuária avaliada se enquadra na classe 2, que apresenta salinidade média ( 0,3 – 0,8 mS).
Segundo Ayres & Westcot (1991) as águas que apresentam CE abaixo de 0,7 mS podem ser utilizadas para irrigação sem nenhuma restrição de uso.
As águas residuárias possuem uma CE relativamente elevada, entretanto este é um parâmetro que não deve ser analisado isoladamente, devem ser consideradas as condições intervenientes como um todo, pois são alteradas acentuadamente de local para local. É importante que sejam monitorados ainda as concentrações de Na, Cl, Ca, Mg, HCO3- e SO4-.