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Les contrôles inopinés des rejets dans l’air

Rosana é mulher sozinha na prisão. A solidão da tranca fez com que ela procurasse um namorado na prisão destinada aos homens. Uma amiga que visitava o marido no presídio

45 Os vasos comunicantes (pessoas, objetos, artefatos tecnológicos), segundo Godoi (2010), “operam a conexão da

prisão com outros territórios, e de algumas estruturas societárias que são produzidas em função dessas conexões” (p. 60). A partir desses, opera-se um fluxo de informações com a vida de fora, que propiciam articulações diversas que vão desde a manutenção de vínculos afetivo-sexuais, familiares e até mesmo conexão com atividades ilícitas, como o tráfico de drogas, armas, sequestros e outros tipos de práticas.

46 Segundo Gagnon (2006), “o roteiro é a organização de convenções mutuamente compartilhadas que permite que

dois ou mais atores participem de um ato complexo, que envolva a dependência múltua (p. 220)”. Os autores definem, portanto, os sujeitos enquanto personagens que encenam papéis diversos ao longo das suas histórias de vida.

masculino trouxe-lhe uma carta de lá. Conheceu seu possível pretendente através das cartas trocadas e de uma foto que lhe foi enviada por ele. Ela fez o cadastro, inventou uma história para dizer que se tratava de um ex-namorado, esperou a assinatura do juiz e foi visitá-lo:

Saí daqui ‘pra’ encontrar o cara na penitenciária, pense ‘num’ cara feio da peste! Não tinha visto ainda não, só na foto. Chegou lá, ele me deu cachaça, só me comeu porque eu ‘tava’ bêbada, porque eu que não tinha coragem de dar pra aquele homem não (Rosana).

Presa há mais de dois anos e cumprindo uma sentença de oito. Rosana foi detida com 100 gramas de maconha na vida do fora. Preta e pobre, mais uma traficante para olhos seletivos da justiça. Nunca recebeu visita de ninguém. Foi abandonada pelo companheiro e hoje vive apenas com o dinheiro do pagode e das faxinas que faz na cela para as demais internas. Dez reais é o pagamento por cada uma delas. Não tem filhos, nem contato com a família, tem apenas a tranca e a companhia das internas que por ali sobrevivem. A solidão do cárcere produz distintos arranjos de vida. A cadeia é uma máquina de vidas sobreviventes.

Conceição entrou na vida do crime com quando o seu ex-companheiro começou a traficar e não parou mais. “Pegou gosto pelo dinheiro”. Hoje, vive longe dos filhos, da mãe, do ex-marido, da namorada presa em outra unidade, da vida de lá. Sem visita, tem a vida da tranca por companheira:

Tem mulheres aqui dentro que são casadas, mas os companheiros não vêm, a gente vai. Se você for na frente da penitenciária masculina você não consegue contar o número de pessoas na fila, mas aqui você conta nos dedos e quando vai ver é uma mãe, uma irmã, são contados os companheiros que vem (Conceição).

A carência afetiva e sexual que se corporifica sobre a vida das mulheres que aqui habitam evidencia a concretude dos processos de solidão que se inscrevem sobre a vida das pessoas encarceradas, sobretudo, nos corpos de quem sempre esteve às margens do que se é socialmente legitimado em termos de gênero, raça/etnia, território e classe social (PELÚCIO, 2010; BUCKERIDGE, 2011; PADOVANI, 2015; D’ ANGELO, 2017).

Mulheres subalternas, muitas vezes abandonadas pelos seus companheiros (BUCKERIDGE, 2011; PADOVANI, 2015; D’ANGELO, 2017), capturadas pelos efeitos dos processos de feminização da pobreza, que deixam seus corpos à mercê da própria sorte, do apoio das próprias internas ou dos cuidados de algum familiar que lhes possa prestar algum de tipo de suporte.

Entender a dinâmica de constituição dos processos de solidão das mulheres encarceradas é, portanto, se deslocar de uma compreensão essencialista que reitera o binômio do sexo/afeto, que naturaliza a inscrição das assimetrias de gênero sobre os corpos das mulheres e desconsideram à articulação de distintas formas de abandono (afetivo sexual, afetivo-familiar, sexual, econômico-material) que tomam conta das vidas que se postam nas fronteiras da prisão. A demanda por afeto tem sido legitimada como um atributo essencialmente feminino, assim como a busca pelo sexo tem sido atualizada como uma característica natural dos homens. Deslocar-se dessa perspectiva essencialista é exercício teórico-político, pois estamos tratando aqui de uma carência produzida social e culturalmente através das desigualdades que agenciam subjetividades e que se inscrevem reiteradamente sobre a vida das mulheres presas.

Uma carência que é acionada, sobretudo, pelas desigualdades de gênero que constituem modos de vida e pelas rupturas que o cárcere intenta colocar sobre a vida de dentro e de fora. Divisões que se materializam a partir das inúmeras burocracias que atravessam a operacionalização das visitas, dos constrangimentos impostos pelas visitas vexatórias e da falta de informações sobre o extramuros das prisões que se impõem como realidade de vida das mulheres aprisionadas (BUCKERIDGE, 2011; DIUANA et al., 2016).

Nos jogos das vivências afetivo-sexuais, percebe-se como esses corpos-presos negociam as suas possibilidades eróticas a partir de redes de trocas afetivas, simbólicas e materiais (RUBIN, 1993, 1999). Nas transações do sexo (SANTOS, 2007), os prazeres sexuais também têm se configurado como possibilidade de apoio e suporte entre os que vem de dentro e os que vem de fora. Na dura realidade da vida tranca, os corpos podem negociar o sexo e produzir significados diversos às relações de poder-prazer:

Pica pura dá gastura. Negócio de vim ‘pra’ cá de mão vazia não é comigo não, minha buceta tá valendo muito por aí pra ele querer de graça” (Jamile).

Jamile tem no seu companheiro um ponto importante de apoio afetivo e material para sobreviver aos anos que tem ainda na tranca. Jamile tem sentença de oito anos, por tráfico e associação. Foi posta em liberdade, transitou durante dois anos pela vida do fora até que um alvará chegou para recolhê-la ao cárcere novamente.

Terezinha é mulher valente. Grita para quem quiser ouvir sobre o motivo que lhe levou ao cárcere. Por ter matado um desafeto foi condenada a 15 anos de prisão. Para ela, visitar o companheiro no presídio é mais do que apenas ir transar:

E comigo não tem essa história de me comer e voltar de mão abanando não, eu não sou rapariga. Se eu sou a mulher dele quem tem que me bancar é ele, comigo não tem essa de ficar pedindo dinheiro a minha mãe não, que já ‘tá’ velha, quem tem que me dá é ele. Eu não sou igual a umas que ‘recebe’ o pagode, tira o bolsa-família, ‘pra’ levar ‘pra’ o macho no presídio não, eu tenho que voltar pra ‘casa’ com comida, trago carne, salada de maionese, macarrão pra jantar, porque lá no presídio tem de tudo (Terezinha).

O sexo faz parte do momento de visita ao território da prisão masculina, mas voltar para a cadeia de mãos vazias lhe obrigaria a acionar outra rede de suporte financeiro, a ajuda da mãe, uma senhora que vive apenas com o que recebe da aposentadoria. No presídio, ela se abastece com dinheiro e alimentos para passar sobreviver na prisão de mulheres.

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