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A Igreja Batista procurou manter-se à perspectiva do conservadorismo político, inclusive essa postura inúmeras vezes foi confundida com a “garantia de liberdade religiosa”. Dessa maneira, “se apenas o direito de culto fosse preservado estavam democraticamente contemplados” (SILVA, 2008). Na cosmovisão batista a democracia equivalia ao seu modelo eclesiológico.

Como as demais denominações cristãs tradicionais presentes no Brasil, algo que validou o golpe militar de 1964, na perspectiva da Igreja Batista, “foi a oposição ao comunismo”, inimigo do cristianismo, sinônimo do ateísmo e da própria encarnação do maligno. Aliás, ideia advinda dos irmãos batistas americanos, para os quais o comunismo fomentou não só a revolução russa, mas, tornou-se inimigo da fé cristã.

O protestantismo brasileiro também foi marcado pela presença dos imigrantes que aqui chegavam com suas religiões o que levou à designação do mesmo como protestantismo de imigração com suas características próprias de crenças e concepções do mundo e da sociedade (PAIXÃO JUNIOR, 2008, p. 68).

A democracia americana pautada pela fé cristã, expressa pelo envio de missionários para terra brasileira, além de benesses assistencialistas enviadas ao povo brasileiro, logo, o que não acrescentava a nação americana paralelamente não adicionava nada agradável a nação brasileira, essa era a visão da Igreja Batista no Brasil.

O governo do presidente John Fitzgerald Kennedy (1961-1963), e o seu programa de assistencialismo para a América Latina, seja por meio de alimentos, roupas e outros donativos, ao mesmo tempo em que visava manter o domínio dos

Estados Unidos no continente, reforçava a visão do protestantismo que desembarcou aqui no Brasil, ou seja, norteado e orientando pela perspectiva americana.

Convém salientar que os batistas brasileiros não participavam da Confederação Evangélica do Brasil, mas se beneficiavam dos programas assistencialistas mantidos pela mesma em convênio com instituições norte- americanas (SILVA, 2008).

Diante da crise do golpe militar emergiu o espírito proselitista da Igreja Batista, através de um movimento nacional de evangelização. O que revelou uma omissão política dos batistas, pois ao mesmo tempo em que validaram o regime militar, tornaram-se colaboradores do governo, por meio de barganhas e cargos políticos, na maioria das vezes em benefício da própria instituição e de seus interesses próprios.

Nesse quesito a Igreja Batista seguiu as demais denominações históricas, tais como presbiteriana, metodista, atuando com ensejo e a favor do regime instaurado na nação. A cooperação da Igreja Batista com o regime militar foi visível por todo o Brasil. Segundo Silva (2008), merece destaque o ocorrido no estado da Bahia, visto ser uma referência no surgimento de lideranças, além da expressividade numérica dentro da denominação.

No estado da Bahia, um dos templos Batista ganhou notabilidade, a Igreja Batista Sião. Essa igreja tinha em sua formação um grupo de pessoas de classe média, inclusive militares. Pastoreada pelo Rev. Valdívio de Oliveira Coelho, pastor e capitão militar do exército, irmão da Dra. Alzira Coelho Brito, “irmã sanguínea do Pastor Valdívio Coelho e casada com o deputado federal pela Arena Raimundo Brito, descendente de tradicional família baiana”. Raimundo Brito já havia sido eleito em várias legislaturas, ligado ao Partido Republicano, mas, com o advento do regime militar ao poder, Brito aderiu ao partido ARENA (SILVA, 2008).

Ele foi elencado a mediador entre os militares e a Igreja Batista e seu alcance logo ganhou visibilidade. “Em 1967 foi considerado pelo jornal O Estado de São Paulo o melhor deputado da Câmara Federal” (apud SILVA, 2008). Outro líder Batista no estado da Bahia, o Pastor Ebenézer Cavalcanti, definiu a atuação do deputado Raimundo Brito em 1967.

Aquela época era ele uma espécie de porta-voz dos evangélicos nas relações públicas. Desde então não mudou, antes se intensificou e ampliou essa espécie sui generis de mandato implícito. Sempre advogou gratuitamente, interesses das igrejas e entidades evangélicas. Sua eleição se tem devido, em larga medida, ao eleitorado evangélico, a que serve (apud SILVA, 2008).

No ano de 1971, o deputado federal Antonio Carlos Magalhães (ACM) foi o nome proposto pelos militares para o Governo da Bahia. A expansão de forças do governador ACM, incluiu os batistas, pois o mesmo convidou para ser secretário da justiça do seu governo, o deputado federal Raimundo Brito.

Fruto dessa estreita relação entre os militares e a Igreja Batista no Estado da Bahia, emergiu a figura do Dr. Clériston Andrade, diácono da Igreja Batista Sião “advogado bem sucedido, alto funcionário do Banco do Estado da Bahia e diácono batista conceituado, ao cargo de Prefeito da Cidade de Salvador, para o período de 1971 a 1975” (SILVA, 2008).

A chegada de um cristão batista ao centro do poder municipal foi algo mencionado e alardeado em todo o seio da denominação, o secretário executivo da convenção baiana na época resumiu a expressão de semelhante fato nos seguintes termos:

Pela primeira vez na história da Bahia, onde o país e o trabalho Batistas nasceram temos um crente como prefeito. Isto é uma grande vitória. Dr. Clériston de (sic) Andrade tem testemunhado do poder do Evangelho pelo seu caráter cristão, pela sua maneira de viver corretamente, e imparcialidade nas suas decisões. Cada crente Baiano deve orar por este servo de Deus (apud SILVA, 2008).

A Igreja Batista apresentava entre seus membros um grupo tipicamente de postura conservadora em relação à política, no entanto, isso não significava unanimidade entre todos os cristãos batistas. “Um segmento minoritário fez severas críticas a ditadura militar, tendo alguns jovens sofrido represálias e prisões” (SILVA, 2008).

Semelhantemente, conforme ocorreu em outras igrejas protestantes, a Igreja Batista observava com receio a conscientização da juventude batista baiana frente ao regime militar brasileiro. “O alinhamento da Denominação Batista à ditadura militar também se configurou no ignominioso papel da delação dos próprios irmãos,

ditos “cor-de-rosa”, aos órgãos da repressão” (SILVA, 2008). A cor rosa era uma referência aos comunistas ou vermelhos, no caso, disfarçados no seio eclesiástico e que tentavam espalhar motim e animosidade entre os cristãos. Em outras palavras, os batistas buscavam ser complacentes ao sistema militar.

Em resumo, a Igreja Batista alinhou-se ao regime militar brasileiro, em troca de clientelismo político, donativos e interesses humanos, em detrimento da liberdade e dos direitos humanos do povo brasileiro.

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