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2. Le téléphone portable dans l’imaginaire social

2.2. L’augmentation de l’individu

2.2.5. Contrôler la situation

Sabemos que as cidades ditas naturais, tal como os organismos vivos, desenvolvem relações de interdependência muito fortes com o contexto natural. Dessa independência de relações emerge uma estrutura auto-organizada e homeostática com qualidades que muitas vezes a cidade planeada não tem. Estas respostas ao contexto natural não resultam dum raciocínio científico deliberado. Elas nasceram de inúmeros experiências de gerações de construtores, que continuaram a usar o que funcionava e a rejeitar o que não funcionava, produzindo um fenómeno de retroacção (feedback loop)1

que significa ciclo, onde o efeito é inseparável da causa: As acções, formas, retroagem sobre as formas, emergindo daí novas estruturas de organização, da mesma forma que os edifícios de uma cidade são os produtos e os produtores de morfologia urbana. A coerência e a consolidação que detectamos nas cidades tradicionais vêm pois dum processo de retroacção (que habitualmente designamos por tentativa e erro), que é um mecanismo comum aos seres vivos e que permite anular os desvios que incessantemente tendem a formar-se num sistema e o conduzem a um estado de equilíbrio dinâmico e de ordem. Quando o sistema de regulação já não consegue anular os desvios, estes tendem então a ampliar-se e a precipitar-se para a desordem, para o desequilíbrio e para a desintegração. No entanto, todos os grandes processos de transformação começam por desvios (Morin et al., 2009:46). O próprio crescimento das cidades é um processo de crescimento desviante, com as suas periferias em expansão, a desordem e o caos. Mas será que este processo de transformação é apenas um caminho para uma nova ordem, uma nova forma? E onde é que está o cérebro que conduz essa nova ordem, no próprio ambiente?

Para além das questões da gravidade e da curvatura do espaço que condicionam qualquer forma, nas cidades orgânicas os elementos da Natureza apresentam-se com tal força que a estrutura urbana apresenta-se quase que exclusivamente conduzida por eles. É o caso das cidades localizadas em topografias acentuadas, como as cidades de promontório ou de encosta, cujas condicionantes impostas à circulação determinaram desde muito cedo a sua matriz de formação. Também os climas mais hostis determinam

1 Conceito que teve origem na cibernética: Mecanismo que permite que o efeito se subtraia parcialmente

fortes condicionantes à arquitectura, cuja resposta ambiental traduz padrões urbanos particulares de cada contexto climático, como veremos no Capítulo 2.

Todo o mediterrâneo é muito rico neste tipo de cidade, e uma boa razão para isso acontecer são as próprias condicionantes naturais desta região. Berço das primeiras civilizações, topografias muito acentuadas, solos pobres e linhas de costa bastante recortadas, juntamente com condições climáticas muito contrastados ao longo do ano, criaram situações a que o homem teve de se adaptar estabelecendo assim uma forte relação com o ambiente natural.

Como resposta aos contextos naturais, estas cidades assumem formas arquitectónicas características, tal como as plantas ou os animais, no deserto, nas zonas húmidas ou nas zonas frias, bem como em zonas declivosas de montanha, planícies ou áreas lacustres, que se tornaram com o tempo símbolos de certas culturas e que alguns investigadores insistem em separar do seu contexto físico.

Assim o urbanismo orgânico não é só um produto de auto-organização mas sim uma forma de auto-eco-organização, de acordo com a ideia de que a forma de organização depende das relações que o organismo estabelece com o ecossistema (Morin et al., 2009:45).

Por outro lado e porque essas formas de organização estão expostas às leis da Natureza, e aos constrangimentos gerais impostos pelo espaço, como é o caso da gravidade, elas apresentam padrões semelhantes às restantes estruturas da Natureza, sobretudo no reino vegetal, que tem claramente uma preferência por certos padrões como as espirais, os meandros, as ramificações ou as estruturas hexagonais conforme se apresentam no Capítulo 3. Estes padrões que abundam na Natureza apresentam também certas propriedades geométricas características das estruturas espaciais com vida, passíveis de serem identificadas e que se sistematizam no Capítulo 4. Uma das características essenciais das formas da Natureza e que está presente nas cidades orgânicas, é pois, a sua geometria fractal, ou seja a auto-similaridade das estruturas a diferentes escalas o que nos possibilitará no futuro adoptar sistemas de planeamento completamente diferentes dos actuais, permitindo assim fazer a previsão do próprio crescimento não planeado.

Vimos como o padrão é um conceito essencial e emergente nos sistemas de auto- organização. O urbanismo orgânico torna-se assim um caso particular de aplicação deste

conceito, uma vez que no urbanismo a ênfase não é tanto nos objectos (a arquitectura) mas nas relações ou seja no espaço que se estabelece entre eles.

Do ponto de vista sistémico, o entendimento da vida começa com o entendimento do conceito de padrão. De igual modo e enquanto estrutura espacial com vida, o urbanismo orgânico depende desse conceito – uma certa forma de organização, uma configuração de relações características incluindo as que mantém com o ambiente físico natural.

A aplicação deste conceito ao urbanismo e à arquitectura tem sido divulgado por Christopher Alexander, através do seu livro A Pattern Language (1977), uma obra de grande relevância científica e de grande actualidade. Ao contrário da aplicação de modelos que podem estar mais ligados a estilos ou épocas, o autor propõe um conjunto de padrões identificados a várias escalas, do edifício ao território, que resultam dum processo de auto-organização intemporal e que nunca se repetem exactamente da mesma forma.

Segundo o autor, cada padrão é uma regra composta por três partes que expressa a relação entre um certo contexto, um problema e a solução. Cada padrão é pois a relação entre um certo contexto, um certo sistema de forças que ocorre repetidamente nesse contexto e uma certa configuração espacial, que permite que essas forças se resolvam a si próprias dentro desse mesmo contexto (Alexander, 1979:247).

Contexto Sistema de forças Configuração

“Cada padrão descreve um problema que ocorre muitas e muitas vezes no nosso ambiente, e que depois descreve o cerne da solução para esse problema, de tal forma que podemos usar esta solução um milhão de vezes sem nunca repetir a mesma forma duas vezes” (Alexander, 1977:x), produzindo assim a variedade e a complexidade típica

da auto-organização. Essa solução-padrão torna-se assim uma identidade, um arquétipo, que pode receber um nome podendo ser partilhada através duma linguagem. No entanto um padrão é uma imagem fluida, subtil e por vezes uma estrutura escondida que não identificamos no primeiro olhar, um sentimento morfológico, uma intuição sobre a forma, um diagrama.

Na cidade orgânica cada forma é ela própria um padrão de relações, “é a lei

morfológica que estabelece a configuração das relações no espaço” (Alexander,

1979:90). Um padrão é assim simultaneamente a forma e a descrição do processo que dá origem a essa forma.

Cada padrão espacial está pois associado a um padrão de acontecimentos que é o mesmo que dizer a uma certa funcionalidade e onde o padrão é precisamente a condição prévia, o requerimento que permite que esses eventos-funcionalidade se façam nesse espaço (Alexander, 1979:92).

Os padrões não são pois entidades isoladas nem elementos concretos como tijolos ou portas. Isso significa basicamente que quando construímos qualquer parte da cidade ela não pode ser feita independentemente das outras partes. Muitas vezes o que está a ser sistematicamente destruído no nosso território e nas nossas cidades tradicionais é o padrão. As componentes (partes) ainda lá estão, mas a configuração de relações entre elas – o padrão – é destruído, e assim a cidade tal como um organismo, morre, torna-se máquina.

Alexander explica assim que o padrão é um diagrama que identifica um problema de design e segundo o qual a forma deve ser construída, mas uma vez construída dá resposta ao problema (Alexander, 1979). Estes padrões são preferencialmente encontrados na cidade natural ou nas culturas sem consciência própria (arquitectura vernacular) uma vez que estas constroem as suas formas tendo sempre em vista a funcionalidade de cada detalhe, resolvendo assim os problemas que uma forma deve resolver – daí que a cidade tradicional seja por excelência uma cidade de padrões.