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A primeira questão norteadora para o desenvolvimento das práticas adotadas no curso de letramento que deram corpo a esta pesquisa foi: 1) Quais gêneros textuais atendem as necessidades laborais do grupo?

Entendo que a resposta a essa questão vem sendo apresentada ao longo de todo o trabalho. Na seção em que discuto a pertinência desta pesquisa às áreas de letramento laboral (PAZ, 2008) e em saúde (cf. p. 48), por exemplo, estabeleço associação entre algumas práticas sociais exigidas dos cuidadores de idosos e gêneros os quais devem ser acionados para sua execução. O mesmo ocorre na seção 3.2.2, do capítulo anterior, ao tratar dos gêneros em agrupamentos, mais especificamente dos conjuntos de gêneros ‘para usar no trabalho’. No presente capítulo, dou continuidade a essa discussão.

O capítulo está dividido em três seções. Na primeira, apresento o percurso traçado para buscar conhecer in loco as práticas letradas dos cuidadores. Para tanto, relato duas visitas feitas a hotéis geriátricos, onde pude conhecer as atividades realizadas pelos cuidadores de idosos. Em seguida, teço considerações provocadas por essa experiência acerca da pertença dos gêneros textuais nesses ambientes de trabalho. Embora esse momento não se configure como a análise propriamente dita, nele são apresentados aspectos relevantes para a contextualização da proposta de intervenção, que auxiliam a situar o leitor no trabalho. Para finalizar, reforço a importância das práticas de leitura e escrita dos cuidadores de idosos e apresento o organograma dos sistemas de gêneros que serão tratados nas oficinas de letramento. Na segunda seção, apresento a organização geral do curso e traço um panorama das cinco oficinas de letramento. Finalmente, na terceira, apresento a descrição e análise desses eventos de letramento.

A partir das informações geradas nas análises, pretendo responder à segunda e à terceira questões de pesquisa: Como se processam os eventos de letramento (oficinas de letramento) no âmbito do curso de letramento laboral? e De que forma o trabalho com esses gêneros se constituirá em práticas de escrita capazes de auxiliar as mulheres participantes na inserção e permanência no mercado de trabalho e na prática de uma vivência cidadã?

4.1 DUAS VISITAS E ALGUMAS PONDERAÇÕES

No intermezzo entre os primeiros arranjos e o início do curso, procedi a seu planejamento. Com base em minha própria experiência e na de meus irmãos e outros familiares

como cuidadores de meus pais, listei os gêneros textuais os quais utilizávamos nas funções diárias. Busquei ainda informações em sites de clínicas e hotéis geriátricos disponíveis na Internet, na intenção de coletar informações que pudessem subsidiar a seleção dos gêneros catalisadores para o trabalho das cuidadoras. No dizer de Signorini (2006, p.8), gêneros catalisadores são aqueles que favorecem o “desencadeamento e a potencialização de ações e atitudes consideradas mais produtivas para o processo de formação, tanto do professor quanto de seus aprendizes”. Julgo que o termo bem se aplica aos gêneros ‘para conquistar o trabalho’ e ‘para usar no trabalho’, selecionados para esta pesquisa, considerando o caráter de formação profissional do curso de letramento.

Também entrei em contato com três hotéis geriátricos, para solicitar um horário de visitação a fim de realizar uma breve entrevista. Por se tratar de uma pesquisa ação, deveria, mesmo antes do primeiro contato com as colaboradoras, tentar equacionar alguns problemas referentes a sua prática profissional, pois, conforme assevera Thiollent (2011, p. 21): “Na pesquisa-ação os pesquisadores desempenham um papel ativo no equacionamento dos problemas encontrados, no acompanhamento e na avaliação das ações desencadeadas em função dos problemas”. Dessa forma, apropriei-me da abordagem etnometodológica defendida por Miller (2012, p.27), que possibilita “que os pesquisadores de gêneros identifiquem e localizem os gêneros em seus ambientes de uso”, além de “descrever as ações que os gêneros ajudam os indivíduos a produzir nesses ambientes”.

As visitas teriam como objetivo, então, conhecer as práticas letradas dos cuidadores de idosos in loco. Foram efetuados contatos telefônicos e fui muito bem atendida pelos responsáveis por dois hotéis, que de pronto agendaram a visita. O responsável pelo terceiro, entretanto, mostrou-se resistente e, tendo-lhe eu explicado o motivo da visita, adiantou-se a explicar que as cuidadoras não tinham acesso aos ‘textos’ que eu mencionara (bulas de medicamentos e tabelas de medicamento, por exemplo) pois lidar com medicamentos era uma atribuição das técnicas. Insisti um pouco, mas, como a animosidade persistiu, decidi não mais visitar o local.

As visitas aconteceram no dia 21 de outubro de 2014. Identificarei os hotéis por HA e HB. O HA localiza-se no bairro Candelária e recebe idosos no sistema de diária ou internação periódica ou permanente, a critério das solicitações dos idosos e/ou de seus familiares. Lá fui atendida pela administradora, que se encarregou de mostrar o local, ao mesmo tempo em que ia respondendo os questionamentos. O ambiente é bastante arejado, limpo e silencioso. Há quartos individuais, de dois e três leitos, todos com televisão e algumas revistas à disposição dos hóspedes. No momento da visita, havia poucos idosos no hotel e nenhum cuidador.

Perguntei à administradora quais as funções desempenhadas pelos cuidadores e ela elencou atividades basicamente relacionadas à higiene do idoso: cortar unhas, dar banho, trocar as fraldas, trocar a roupa etc. Perguntei-lhe se cabia aos cuidadores administrar medicamentos e se eles tinham algum contato com os remédios, ainda que fosse para ler as bulas. A administradora apressou-se em dizer que não, pois o manuseio dos medicamentos ficava a cargo das técnicas de enfermagem. Perguntei-lhe, então, se havia alguma atividade relacionada a leitura ou contação de histórias que fosse desempenhada pelos cuidadores. Mais uma vez a resposta foi negativa. As atividades dessa natureza, afirmou, quando acontecem, são realizadas pelo (a) terapeuta ocupacional. Entretanto, segundo seu relato, os idosos que frequentam o hotel não têm o hábito de leitura e, portanto, não se interessam por tais atividades. Sobre as revistas no quarto, a administradora esclareceu que, na maioria das vezes, eles apenas olham as figuras. Ainda interessada na comunicação entre os cuidadores e os idosos, perguntei se no hotel havia o cuidado de orientar os cuidadores quanto à importância do toque e da entonação da voz para o estabelecimento do contato com o idoso. A resposta foi afirmativa.

Finda a primeira visita, dirige-me ao HB, situado no bairro de Lagoa Nova. Nele, o sistema de atendimento é o mesmo de HA. Na ocasião da visita, entretanto, só havia uma hóspeda permanente. Os demais passavam o dia ou pequenas temporadas. A funcionária que me atendeu, também administradora do Hotel, explicou-me que naquela instituição não há cuidadores contratados. Os profissionais que lá trabalham são da área da saúde: técnicos em enfermagem, nutricionista, terapeuta ocupacional, entre outros. Os cuidadores que há são contratados pelas famílias de alguns idosos que necessitam de cuidados especiais. Sua função, como em HA, está mais relacionada aos cuidados com a higiene – dar banho, verificar as unhas – e com a alimentação, caso precisem de ajuda para se alimentar. A administradora ressaltou que muitos dos cuidadores que frequentavam o hotel são contratados pela família por ‘gostarem de idosos’ ou por terem alguma relação afetiva com eles, mas não são tecnicamente capacitados. Em virtude disso, no Hotel, recebem orientação, principalmente quanto à postura no trato com os idosos bem como para estarem atentos a alguns sinais de que o idoso esteja em desconforto ou indisposto.

Durante a visita ao HB, verifiquei que havia, na sala de estar, além da televisão, uma estante com bastantes livros. Perguntei se havia idosos leitores e a administradora me apresentou a dois senhores, um deles professor universitário aposentado. Perguntei se os cuidadores eventualmente liam para os idosos que acompanhavam. A resposta foi negativa. A anfitriã argumentou que, além de a maioria dos idosos não gostar de ler, os cuidadores não demonstravam aptidão para o envolvimento com a leitura e apontou a televisão como o

passatempo preferido da maior parte dos hóspedes. Note-se que o uso do verbo ler como intransitivo aponta para uma recusa quase que absoluta ao ato da leitura. Tal atitude parece ser contraditória, visto que a presença de uma estante pressupõe certa valorização ao ato de ler. O tempo reservado à visita, entretanto, não possibilitou uma investigação mais acurada acerca dessa informação.

Chamou-me a atenção o fato de haver muitas queixas por parte da administradora com relação aos cuidadores. Em seu depoimento, ela atesta que a falta de formação deles acaba gerando também dificuldades de comunicação e adverte que muitos cuidadores não atentam para a entonação na hora de dirigirem-se aos idosos, tornando-se, assim, autoritários. A administradora informou, ainda, que muitos responsabilizam os idosos por seu fracasso nas tentativas de tentarem realizar algumas tarefas, como fazer o idoso se alimentar ou se deslocar para outro local, o que, para ela, mostra o despreparo na condução de sua tarefa. A administradora assegura que falta aos cuidadores, entre outras aptidões, a adoção de uma postura de convencimento na hora da fala.

4.1.1 A quem pertencem os gêneros?

Pelas limitações impostas pelo tempo, não foi possível visitar outras instituições. No entanto, essas visitas possibilitaram, mesmo que minimamente, vislumbrar um panorama acerca da utilização dos gêneros textuais pelos cuidadores de idosos, em ambientes de trabalho institucionais. Entendo, então, que há espaço para este apêndice, fruto de uma breve reflexão sobre os gêneros como instrumento de poder.

É importante frisar que, quando se trata de gêneros utilizados pelos cuidadores de idosos, quer sejam estes formais ou informais, não se está tratando sobre gêneros específicos utilizados apenas por esses profissionais. Diferentemente de determinadas profissões, a de cuidador agrega gêneros textuais escritos que estão relacionados a esferas de atividades variadas e que pertencem a grupos profissionais distintos, conforme se verifica no quando a seguir.

Quadro 3 – Gêneros textuais utilizados pelos cuidadores em sua relação com outras esferas e outros profissionais

ATIVIDADES GÊNEROS

TEXTUAIS

ESFERAS OUTROS GRUPOS

PROFISSIONAIS

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