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Encontramos em Henri Lefebvre (1991) um suporte para pensarmos as narrativas, as linguagens que vão se processando nos diferentes contextos, pois ele trata do cotidiano a partir não só da filosofia, mas também da literatura. Instiga o leitor a pensar sobre a consciência do cotidiano a partir da linguagem, e principalmente pela escrita. Cita Ulisses, onde:

O cotidiano entra em cena revestido pelo épico, por máscaras, por vestimentas e por cenários. É exatamente a vida universal e o espírito do tempo que se apoderam dele porque se investem nele, conferindo-lhe uma amplitude teatral. Todos os recursos da linguagem vão ser empregados para que se exprima a cotidianidade, com sua miséria e sua riqueza. E também todos os recursos de uma musicalidade escondida que não se separa da linguagem e das escritas literárias. Enigmáticos poderes predominam. (LEFEBVRE, 1991, p. 07)

Do cotidiano de Ulisses aos nossos dias, vivenciamos vários cotidianos, vários cenários, máscaras, dramas, vitórias, onde não somente a literatura, mas as diferentes formas de linguagens vão constituindo esse cotidiano, determinando e sendo determinado/modificado por seus praticantes.

Para Michel de Certeau (2008a), a sabedoria, presente na linguagem, é caracterizada como a arte da 'trampolinagem'; esta, comparada às acrobacias do saltimbanco, se desvencilha dos contratos sociais e das forças desiguais. Nesta trampolinagem linguística os praticantes são levados aos conflitos instalados e podem, através das astúcias e da esperteza, desfazer o jogo do outro. Relatos de milagres, cantos, aparecem como contraponto ao poder, aos contratos estabelecidos verticalmente. Criam um espaço diferente, de resistência.

Como os utensílios, os provérbios ou outros discursos, são marcados

por usos; apresentam à análise as marcas de atos ou processos de

enunciação; significam as operações de que forma objetos […] indicam, portanto, uma historicidade social na qual os sistemas de representações ou os procedimentos de fabricação não aparecem só mais como quadros normativos mas como instrumentos manipuláveis

por usuários. (CERTEAU, 2008a, p. 82 – grifo do autor)

É, através dos diversos tipos de linguagens, que o jogo da astúcia inverte as relações de força, com personagens míticos, super-heróis, e os milagres garantem a vitória do fraco sobre o forte. Saber detectar uma maneira de dizer do outro, perceber os sentidos e significados de um dizer/fazendo (gestos, entonações), levar em conta o contexto de onde é dito e a forma como é dito e tratar essa linguagem recebida, são táticas internas utilizadas pelos praticantes para dominar o sistema, nem que esse domínio, como diz o autor, seja dentro de um espaço maravilhoso e utópico.

Ao tratarmos de cotidiano e linguagem, consideramos as narrativas como um elemento importante, presentes no dia a dia do homem ordinário, estando relacionadas fortemente à oralidade, mas também à escrita. A narrativa oral é uma das formas mais antigas e, provavelmente, a mais utilizada para comunicar, transmitir e produzir cultura. É, a partir da oralidade de comunidades e de sujeitos, que as narrativas ganham vida no imaginário dos viventes. Tem a potencialidade de se transformarem em escrita e trazer a público os sentimentos, pensamentos e reflexões até então silenciados.

Lembramos de muitos professores, com experiências belíssimas de trabalho, mas que pela organização espaçotemporal da escola e de suas atividades, são impedidos de registrar suas histórias e de seus alunos, sua prática no/do/com o cotidiano educativo. Assim, os estudos envolvendo o cotidiano têm dado aos pesquisadores a função de “griôs”, criando espaços de conversas, de relatos e transformando em escrita as vozes sufocadas.

Outras formas de narrativas vão surgindo com as tecnologias que são colocadas à disposição desses professores e alunos, que vão tecendo-as à medida que publicam vários conteúdos, não apenas orais ou escritos, nos seus blogs ou redes sociais. Suas narrativas ganham visibilidade ao serem disponibilizadas na rede internet. Essas outras linguagens estimulam a imaginação e a produção de diversos conteúdos em pequenos vídeos, animações, imagens, quadrinhos, minitextos, textos, etc.

Encontramos em Gilka Girardello (2011; 2012) que essas narrativas podem ser estimuladas nas crianças, através do brincar, da contação entusiasmada de histórias, onde o professor, através de gestos e de onomatopeias, cria um mundo de figuras, de imagens que estimulam a imaginação sem necessariamente utilizar palavras. Outra maneira é criar narrativas a partir da construção de performances que unem um misto de teatro, linguagem fílmica e história de vida das crianças, em que cada uma é estimulada a contar passagens marcantes de suas trajetórias de forma coletiva, sendo que, no final, não se sabe que história é de quem, mas que os participantes se sentem representados nas suas dores, alegrias, medos e angústias.

Nesse jogo performático, vai se criando uma nova linguagem, ou linguagens e uma poiésis. “Ao lado dessa dimensão crítica e reflexiva da autoria narrativa, considero também o valor de sua dimensão poética – no sentido mesmo de criação inventiva presente no termo poiesis” (GIRARDELLO, 2012, p. 2). Se essa dinâmica performática envolvendo narrativas é possível com crianças, seria também com professores. Estes, muitas vezes encontram no pesquisador, naquela simples entrevista, um momento para desabafar, para falar de sua vida, de suas andanças, de suas memórias, e querem falar de tudo, de uma só vez.

Regina Leite Garcia nos conta, em “O sentido da escola” (2008), que possui um baú da memória de história de professoras/res, enfatizando a importância das narrativas colhidas e acolhidas em diferentes espaços/tempos de formação/formativos. Para ela, a publicização dessas narrativas é uma forma de denúncia da situação que se encontra a educação pública atualmente e também uma forma de exaltar o trabalho de tantos e tantas que acreditam e trabalham por uma educação melhor. Ao registrar essas narrativas, possibilitamos o encontro da teoria e da prática e sua possível reflexão a partir de novas narrativas que podem ser estabelecidas.

Outra autora que gosta de trabalhar com narrativas é Nilda Alves (2010), que ressalta isso ao introduzir várias histórias em seus textos, tanto de professores como de outros autores. Na tessitura das narrativas vão se estabelecendo redes. Fios que vão sendo puxados, não se sabe, inicialmente, de onde, se dos referenciais teóricos ou do/no/com os cotidianos onde pululam as narrativas, os aromas, os sabores e as sensações. Podem iniciar com a oralidade, tornam-se registro escrito, imagético, fílmico, digital e, na rede, se interconectam a muitas outras vozes e escritas. A formação

vai constituindo-se de maneira rizomática, por vezes caótica, sugerindo outra organização dos espaços e tempos.

Entendemos que a narrativa produz o cotidiano enquanto linguagem desviante (produz outros conteúdos e sentidos dentro da realidade imediata, opressiva). Quando os lavradores oprimidos pelos mais fortes criam cantigas religiosas ou profanas, ditados populares, ou causos que são contados nas rodas; quando há coisas que são ditas no não dito, ou nas falas recheadas de trampolinagens estão criando um espaço narrativo de resistência. No recontar as histórias de vida, as crianças estrangeiras, das escolas investigadas por Gilka Girardello, mesclam suas histórias com as das outras crianças, produzem outras histórias, desconstroem preconceitos, criam novos conteúdos e mecanismos de enfrentamento com/no cotidiano. No papel de Griôs, que tiram do silêncio as vozes dos professores oprimidos pelas condições de trabalho e valorização de sua profissão, os pesquisadores trazem esses quase anônimos para fazer história, para serem ouvidos e fazerem parte de um contexto de partilha e reflexão.

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