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Partie II Détection dynamique de communautés orientée sommet 109

Chapitre 6 DynLOCNeSs : détection de communautés dynamiques 121

7.1 Contexte

Como referi anteriormente, na tradição gramatical, aparecem a par, frequentemente, as designações de perífrase verbal e de locução verbal, várias vezes tratadas como sinónimas.

Pontes (1971), por exemplo, faz um levantamento do que se entende por estas denominações na tradição gramatical e verifica que a designação de locução verbal é usada por diferentes autores com um sentido que varia desde uma aceção mais abrangente até uma aceção mais restrita:

«Alguns autores designam como Locução Verbal qualquer seqüência verbal com uma certa coesão interna, de tal modo que funcione como um verbo simples; outros separam certas sequências verbais que denominam Tempos

Compostos (TC) e consideram as restantes como locuções. Tanto na acepção

mais ampla como na mais restrita, LV costuma ser sinónimo de Conjugações

Perifrásticas (CP)» (Pontes 1971: 15).

No entanto, como já foi referido, em alguns estudos encontramos, não só uma definição mais precisa do que é uma perífrase verbal, como também uma distinção entre locução verbal, perífrase verbal e tempos compostos.

De acordo com Pontes (1971), o primeiro gramático que distingue tempos compostos de locução verbal é Chaves de Melo que defende que os tempos compostos fazem parte da conjugação do verbo, como os tempos simples, enquanto as locuções verbais «nascem das necessidades de expressão mais complexa, em que se busca traduzir o “aspecto verbal”» (Chaves de Melo 1968: 166-167)87

.

Said Ali ([1931] 19643: 161) e Pontes (1971: 20) contestam esta explicação, considerando que a marcação de aspeto não pode servir para distinguir tempos

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compostos de perífrases, porque, como mais de um gramático assinalou, ter Vpp também marca, em português, o aspeto verbal. Estes dois autores assumem, então, a mesma posição, defendendo que não encontram nenhuma razão para distinguir os tempos compostos das perífrases verbais, passando a usar apenas a designação geral de locução verbal como sinónimo de construção verbal complexa.

Na sequência da leitura da obra de Pontes (1971), a posição da autora relativa às designações das estruturas verbais complexas torna-se incompreensível, uma vez que todo o seu trabalho tem como fundamento definir as características dos verbos que poderão ser classificados como auxiliares e que a autora concluiu que há uma clara diferença entre os verbos que ocorrem na posição de auxiliar nos tempos compostos e outros verbos que ocupam a mesma posição, mas nos complexos verbais que podem ser designados por perífrases verbais.

Ainda assim, partindo das propostas de análise das construções verbais complexas em várias gramáticas do português, a autora conclui que, de um modo geral, a definição de locução verbal como a junção das diversas formas de um verbo auxiliar com o infinitivo, gerúndio ou particípio de outro verbo, a que se chama principal, é partilhada pela maioria dos gramáticos.

Esta perspetiva não é, contudo, pacífica. Torrego (1999), por exemplo, distingue claramente perífrase verbal de locução verbal. Para este autor, numa perífrase a união de dois ou mais verbos constitui apenas um núcleo do predicado, porque nenhum dos verbos desempenha uma função complementar em relação ao outro e a única segmentação possível numa perífrase é entre auxiliar e auxiliado, como a que se tem num tempo composto. Assim, a perífrase, ainda que comporte dois verbos, é entendida como um predicado verbal, não sendo, por isso, segmentável em constituintes que estabeleçam entre si funções sintáticas de coordenação ou subordinação.

No entanto, o facto de os dois verbos da perífrase constituírem um núcleo único do predicado, não significa que entre eles não se possam intercalar outros elementos e o que se verifica é que, na maioria das perífrases, o grau de conexão entre ‘auxiliar’ e ‘auxiliado’ não é tão forte como o que existe nos tempos compostos. Por essa razão, segundo o autor, nas perífrases em que o ‘auxiliar’ está fortemente

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gramaticalizado, torna-se mais difícil encontrar intercalação de outros elementos (cf. Torrego 1999: 3325-3326).

O autor defende que, para se considerar uma construção verbal como perífrase, é fundamental verificar a natureza sintática da forma impessoal. Se esta forma tiver exclusivamente 'carga verbal’ formará, com o outro verbo, uma perífrase. «Si a dicha carga verbal se le añade carga ‘nominal’ (en los infinitivos), ‘adjetival’ en los particípios y gerúndios, y ‘adverbial’ en los gerúndios, no debemos hablar de perífrasis verbal, pues esas formas no personales se subordinan al verbo anterior como lo hacen los substantivos y pronombres en el caso del infinitivo, y los adjetivos y advérbios en el caso de particípios y gerúndios» (Torrego 1999: 3326).

Assim, para establecer a distinção entre perífrases e locuções verbais, Torrego (1999) propõe uma série de testes, como se apresenta seguidamente88, que permitem verificar esta propriedade das perífrases verbais do espanhol, ou seja, se a forma impessoal destas construções tem exclusivamente carga verbal. Seguidamente mostra- se como alguns desses testes são pertinentes para a análise dos dados do português.

Um dos testes propostos por Torrego (1999: 3326), a que já se fez referência anteriormente, consiste em aplicar o procedimento formal da comutação. Segundo o autor, se o infinitivo admite a sua substituição por uma categoria nominal (nome; pronome; oração completiva), não podemos falar de perífrase verbal. Com base neste teste da comutação, pode explicitar-se a diferença entre as sequências que se apresentam abaixo:

(69) Juan {tiene que / puede / debe (de) / suele / há de…} presentar el carné.

[Torrego 1999: 3326]

(69') * Juan {lo tiene / lo puede / lo debe / lo suele / lo há}.

[Torrego 1999: 3326]

88 Dado o objetivo desta tese, apenas se recorre a alguns dos testes propostos por Torrego (1999), por

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(69'') *Juan {tiene que / puede / debe (de) / suele / há de…} que se presente el carné.

[Torrego 1999: 3326]

(70) Juan {desea / necessita / teme / prefiere…} presentar el carné.

[Torrego 1999: 3326]

(70') Juan {lo desea / lo necessita / lo teme / lo prefiere}.

[Torrego 1999: 3326]

(70'') Juan {desea / necessita / teme / prefiere…} que se presente el carné.

[Torrego 1999: 3326]

Aplicado à análise do português, verifica-se que o teste da comutação é igualmente pertinente para a distinção de diferentes tipos de construções verbais complexas:

(71) O João {está a / começou a / acabou de} fazer o trabalho com a Rita. (71') * O João {está-o / começou-o / acabou-o}.

(72) O João deseja fazer o trabalho com a Rita. (72') O João deseja-o / deseja isso.

Nos exemplos em que ocorrem perífrases verbais (em (69) e (71)), o verbo no infinitivo só tem carga verbal, não podendo haver, por isso, substituição por elementos nominais. Nos exemplos (70) e (72) há locuções verbais, porque o verbo no infinitivo possui, não só carga verbal, mas também nominal, pois faz parte de uma subordinada substantiva.

Outro teste apresentado por Torrego (1999: 3327) que permite verificar se o infinitivo tem carga nominal é a construção de interrogativas com que. Segundo o autor, as perífrases verbais não possibilitam estas construções, enquanto com locuções verbais as mesmas são perfeitamente gramaticais, como se pode verificar,

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quer em espanhol, quer em português, pela manipulação dos exemplos acima apresentados:

(69''') * Qué {tiene / puede / debe / suele / há} Juan?

[Torrego 1999: 3327]

(70''') Qué {desea / necessita / teme / prefiere} Juan?

[Torrego 1999: 3327]

(71'') * Que {está a / começou a / acabou de} o João? (72'') Que deseja o João?

Ainda no domínio da validação do conceito de perífrase verbal, pode dar-se atenção à capacidade seletiva do infinitivo. Assim, pode observar-se que, em sequências em que ocorrem perífrases verbais, só o infinitivo pode selecionar argumentos (sujeito sintático e complementos). O primeiro verbo da construção (auxiliar) não seleciona os argumentos e atua como um mero instrumento gramatical do infinitivo, como se pode verificar nos exemplos apresentados por Torrego [1999: 3328] e em português:

(73) El director nos mandó entregar el dinero.

[Torrego 1999: 3328]

(73') El director mandó que entregáramos el dinero.

[Torrego 1999: 3328]

(74) O diretor mandou-nos entregar o dinheiro.

(74') O diretor mandou que entregássemos o dinheiro. (75) O diretor acabou de nos entregar o dinheiro. (75') * O diretor acabou que nos entregasse o dinheiro.

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Nos exemplos apresentados em (73) e (74) não temos perífrases verbais, ao contrário do que acontece em (75), não só porque há possibilidade de comutação nominal ((73’), (74’)), como também porque é o primeiro verbo (mandó / mandou) que seleciona o sujeito (el director / o diretor), que é distinto do sujeito nulo subentendido associado ao infinitivo (nosotros / nós), e é também o primeiro verbo que seleciona o complemento direto (entregar el dinero / entregar o dinheiro) e o complemento indireto (nos).

Assim, segundo Torrego [1999], as propriedades formais essenciais das perífrases são a carga exclusivamente verbal do infinitivo e a seleção argumental. Mas, além destas, o autor indica ainda outras propriedades que, juntamente com estas, ajudam a configurar a construção perifrástica.

Segundo o autor, uma das particularidades das perífrases verbais é nunca ser possível apassivar o primeiro verbo da construção, uma vez que só o infinitivo pode ser sujeito a transposição para frases passivas. Os exemplos que se apresentam seguidamente mostram que esta particularidade do espanhol se verifica igualmente em português:

(76) Juan {tiene que / puede / debe …} leer la carta.

[Torrego 1999: 3330]

(76') La carta {tiene que / puede / debe…} ser leída por Juan.

[Torrego 1999: 3330]

(76'') * Leer la carta es {tenido / podido / debido} por Juan.

[Torrego 1999: 3330]

(77) O João {está a / começou a / acabou de} ler a carta.

(77') A carta {está a / começou a / acabou de} ser lida pelo João. (77'') * Ler a carta {está a / começou a / acabou de} ser pelo João.

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Aliás, e segundo esta constatação, este é o motivo que justifica que, com as construções perifrásticas, a passiva reflexa afete todo o núcleo perifrástico (auxiliar + auxiliado), pelo que, se o sujeito sintático é plural, o verbo auxiliar deve aparecer também no plural, como se pode comprovar pelos exemplos das duas línguas:

(78) Se {tienen que / se pueden / se deben (de) / se van a / se han de / se empiezan a / se dejaron de …} celebrar las elecciones.

[Torrego 1999: 3330]

(79) Se desea {se piensa / se prefiere / se procura / se necessita…} celebrar pronto las elecciones.

[Torrego 1999: 3330]

(79') * Se {desean / se piensan / se prefieren / se procuran / se necessitan…} celebrar las elecciones.

[Torrego 1999: 3330]

(80) Acabaram de se realizar as eleições. (80') As eleições acabaram de ser realizadas. (81) Pensa-se realizar as eleições no próximo mês. (81') * Pensam-se realizar as eleições no próximo mês. (81'') * As eleições pensam ser realizadas no próximo mês.

Nos exemplos apresentados em (78) e (80), o sujeito das perífrases é las

elecciones / as eleições. O mesmo não acontece em (79) e (81), em que não há

perífrases verbais. Assim, (79’), (81’) e (81’’) são agramaticais, uma vez que o argumento las elecciones / as eleições não é o sujeito de desea celebrar / pensa

celebrar, mas o complemento direto do verbo no infinitivo.

(82) Juan {desea / prefiere / quiere / intenta / procura…} leer mi libro.

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(82') Lo que Juan {desea / prefiere / / quiere / intenta / procura…} es leer mi libro.

[Torrego 1999: 3331]

(83) Juan {tiene que / va a / dejó de / acaba de / puede / debe (de) / há de / empieza a …} leer mi libro.

[Torrego 1999: 3331]

(83') * Lo que Juan {tiene (que) / puede / debe (de) / acaba de / / há de / empieza a …} es leer mi libro.

[Torrego 1999: 3331]

(84) O João deseja ler o livro.

(84') O que o João deseja é ler o livro. (85) O João acaba de ler o livro.

(85') * O que o João acaba de é ler o livro.

De forma sucinta, pode resumir-se a proposta de Torrego (1999) a partir do princípio de que uma perífrase verbal deve ser vista como uma unidade sintática. Note-se que, a esta unidade sintática está associada, inerentemente, uma unidade semântica, porque estas construções apresentam um verbo com significado pleno e outro com um significado «modificador» ou «matizador» (cf. Torrego 1999: 3346).

No entanto, esta não pode ser considerada como propriedade distintiva para a delimitação do conceito de perífrase verbal, visto existirem construções que apresentam unidade semântica, mas não são consideradas perífrases. Por exemplo, todas as construções em que ocorrem verbos modais (ou modalizadores), como

necessitar, desejar, querer, entre outros. Por outro lado, nas perífrases, a marcação de

valores temporais, aspetuais e modais resulta de todo o conjunto perifrástico, isto é, da construção no seu todo e não apenas do verbo auxiliar, nem apenas do predicador.

Os testes apresentados acima permitem estabelecer as propriedades sintáticas das perífrases, distinguindo-as, segundo o autor, das locuções verbais, que se caracterizam por ser constituídas por várias palavras «cuyo centro sempre es um

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verbo, y que actúan como una sola ‘unidad sintáctica’, insegmentable (un solo núcleo del predicado), y por ser una sola ‘unidad léxica’ fija» (Torrego 1999: 3342).