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Le contexte de la concertation et du partenariat au Québec

Chapitre 2 Cadre conceptuel : La concertation en développement des communautés

2.1 Concertation et partenariat en développement des communautés au Québec

2.1.2 Le contexte de la concertation et du partenariat au Québec

Faremos do Seminário, livro 5, uma leitura certamente pontual e exígua, centrada na análise de um único Witz, o familionário, exemplo analisado por Freud e retomado por Lacan nos primeiros capítulos, para tentar inseri-lo na cadeia discursiva. Trata-se do famoso chiste descrito por Heinrich Heine em seu Reisebilder, Imagens de viagem. Eis o Witz, conforme relatado por Freud:

Na parte de seu Reisebilder intitulada ‘Die Bäder von Lucca’ Heine introduz a deliciosa figura do agente de loteria e calista hamburguês, Hirsch-Hyacinth, que se jacta ao poeta de suas relações com o rico Barão de Rothschild, dizendo finalmente: “E tão certo como Deus há de me prover todas as coisas boas, Doutor, sentei-me ao lado de Salomon Rothschild e ele me tratou [totalmente] como um seu igual — bastante familionariamente (FREUD 1969/1905, p. 29)65.

Na análise desse Witz, Freud evoca em primeiro lugar a operação verbal que abrevia e condensa o pensamento que o Witz pretende exprimir: que o Barão teria tratado nosso personagem quase como um igual, muito familiarmente, isto é, na medida em que isso é possível a um milionário. De forma que o milionário restringe o alcance do que o termo

familiar almejava exprimir É essa restrição que se tenta suprimir na construção do calista e

que retorna, no discurso, como um Witz. A técnica verbal opera aqui a partir da condensação, de forma que temos, conforme o esquema de Freud, um jogo de substituições com emergência de um novo sentido. Para torná-lo mais claro, Freud propõe o seguinte esquema:

f a m i l i ä r

m i l i o n ä r

f a m i l i o n ä r

Para abordar esse esquema freudiano e incluir a produção do Witz familionário na cadeia do discurso, Lacan lançará mão de um outro esquema, ao qual diz ter chegado de forma laboriosa, e que comporá a célula elementar do seu “grafo do desejo”66. Observemos, de início, que para esse esquema converge o essencial do que se poderia chamar da versão lacaniana da comunicação. Ele é complexificado pela inclusão do deslizamento recíproco e relativo entre a cadeia significante e a cadeia significada, reconfigurando, a partir da retroação entre elas, o esquema das linhas amorfas que encontramos no Curso de lingüística

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Freud indica, para essa citação de Heine, o capítulo VIII, parte II, do Reisebilder III. Note-se que optamos por incluir aqui o advérbio “totalmente”, omitido na tradução do texto de Freud, mas presente na tradução feita por Lacan: O Seminário, livro 5, p. 30.

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geral67, razão pela qual Lacan qualificará esse esquema como sendo aquele do ponto de basta, mediante o qual uma significação se produz (LACAN 1957-58/1999, p. 16).

A primeira linha, da esquerda para a direita, “representa a cadeia significante na medida em que permanece permeável aos efeitos propriamente significantes da metáfora e da metonímia, o que implica a atualização possível dos efeitos significantes em todos os níveis, inclusive no nível fonemático, em particular” (ibid, p. 18). A cadeia significante deve ser aqui apreendida como “suporte criador do sentido”, aberta às possibilidades de decomposição, reinterpretação e assonância. A segunda linha, retroativa e disposta da direita para a esquerda, é a linha do discurso corrente, comum:

Esse é também o nível em que se produz o mínimo de criações de sentido, uma vez que, nele, o sentido já está como que dado. Na maioria das vezes, esse discurso consiste apenas numa mistura refinada dos ideais comumente aceitos [...] Como vocês podem ver, portanto, esta linha é o discurso concreto do sujeito individual, daquele que fala e se faz ouvir, é o discurso que se pode gravar num disco [...] (ibid, p. 19).

O discurso cruza a cadeia significante em dois pontos precisos. Primeiro, é preciso atravessar o lugar do significante (α), lugar denotado na álgebra lacaniana pelo Outro (Autre), onde encontramos o código, aqui definido pelo feixe de empregos que caracterizam o semantema e que, como sabemos, não são jamais definidos de forma fixa ou unívoca. O discurso sempre se endereça ao Outro; mesmo quando se fala a si mesmo, essa referência está estruturalmente presente e precede o segundo encontro com a cadeia significante, aquele que

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fecha o circuito, no qual se alcança o sentido. Pois esse sentido só é alcançado retroativamente, ao final da frase, como demonstra o retorno da segunda linha sobre a primeira. É desde esse ponto ( ), onde se fixa o sentido discursivo, que a mensagem pode retornar ao sujeito do enunciado.

Na mensagem vem à luz o sentido. A verdade que há por enunciar, se é que existe verdade, está ali. Na maior parte do tempo, nenhuma verdade é anunciada, pela simples razão de que, na maioria dos casos, o discurso absolutamente não atravessa a cadeia significante, que é o puro e simples ronronar da repetição, o moinho de palavras, que passa num curto-circuito entre e ’. O discurso não diz absolutamente nada, a não ser que sou um animal falante. Esse é o discurso comum, feito de palavras para não dizer nada, graças ao qual nos certificamos de não estar simplesmente lidando, frente a frente, com o que o homem é em estado natural, ou seja, um animal feroz (ibid, p. 20).

É porque “a fala presume, precisamente, a existência de uma cadeia significante” (ibid, p. 21) que podemos distinguir, a partir desse esquema, o enunciado e a enunciação. Ele pressupõe a defasagem entre o que se diz e o que se tinha a intenção de dizer, entre o Eu, “que não é outra coisa senão o lugar do falante na cadeia do discurso” (ibid), que Lacan situa no ponto do esquema, e a mensagem. De um modo geral, se estamos no “moinho das palavras”, o discurso funciona a contento entre e ’, entre o Eu do enunciado e o objeto

metonímico, aquele que o Eu busca atingir no enunciado, especularmente, embora saibamos

que, verdadeiramente, isto é, no real, esse objeto sempre escape à conjunção com o Eu. É nesse curto-circuito entre e ’ que podemos situar a consistência imaginária do discurso comum, garantida pela rede de empregos pressupostos no uso de uma língua. No entanto, uma vez que se entre no “moinho de palavras”, o discurso sempre diz mais do que aquilo que diz. Em outros termos, essa consistência imaginária do enunciado é atravessada pelas propriedades da cadeia significante, como demonstra a técnica verbal do Witz, que faz surgir uma enunciação como um furo nessa consistência imaginária do discurso comum. A mensagem está, assim, integralmente sujeita ao equívoco, uma vez que ela tem que atravessar a cadeia significante em α. Duas outras observações de Lacan completam a escrita gráfica dessa célula elementar:

Vocês têm aí, irradiando-se da mensagem, por um lado, e do [Eu], por outro, essa asinhas que indicam dois sentidos divergentes. Do [Eu], um deles vai em direção ao objeto metonímico, e o segundo, ao Outro. Simetricamente, pela via de retorno do discurso, a mensagem vai em direção ao objeto metonímico e ao Outro [...].

Verão também a que correspondem as outras duas linhas, extraordinariamente apaixonantes, que vão da mensagem ao código e do código à mensagem. Com efeito, a linha de retorno existe e, se não existisse, não haveria a mínima esperança de criação de sentido, como lhes indica o esquema. É precisamente no entre-jogo entre a mensagem e o código, e portanto, também no retorno do código para a mensagem, que funciona a dimensão essencial à qual a tirada espirituosa nos introduz diretamente (ibid, p. 21).

Podemos ver nessa citação traços da influência de Jakobson sobre Lacan no que tange às relações entre código e mensagem68. Sabemos da importância, para Lacan, do artigo de Jakobson Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia ao qual ele teve acesso no mesmo ano de seu Seminário, livro 3, “As psicoses”. Jakobson aproxima, neste artigo, os pólos metafórico e metonímico das noções freudianas de condensação e deslocamento. Busca-se ultrapassar uma concepção simples e estática da língua e da comunicação na qual o código produz a mensagem a partir de regras de criação compartilhadas pelos sujeitos. Nesta concepção, a lingüística da fala se reduziria ao uso individual da língua, de acordo com a célebre formulação saussuriana. O trabalho de Jakobson pressupõe, além disso, que a mensagem retorna sobre o código, transformando-o a partir das operações retóricas da metáfora e da metonímia. É por isso que, para Jakobson, a lingüística incluiria forçosamente a

poética em seu domínio. “Um lingüista surdo à função poética da linguagem e um especialista

de literatura indiferente aos problemas lingüísticos e ignorante dos métodos lingüísticos são, um e outro, flagrantes anacronismos” (JAKOBSON 1985, p. 162). Assim, para Lacan, seguindo Jakobson, o Outro não se reduz ao lugar do tesouro dos significantes de onde se deduz a mensagem, pois a língua inclui também a matriz viva de novas produções que a renovam, no retorno da mensagem sobre o código. É o que a produção de um Witz permite perceber. De fato, como vimos a partir do exemplo do familionário, o Witz se caracteriza por introduzir um elemento novo que a terceira pessoa, que na estrutura do Witz ocupa o lugar do Outro, reconhece e autentica.

68 JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. Trad.: Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo:

Vejamos, então, como esse Witz pode ser aplicado ao esquema de Lacan. É preciso distinguir aí três tempos. No primeiro tempo, podemos situar o esboço da mensagem. Ela é recoberta por algumas nuances que buscam antecipar e mesmo provocar um efeito no Outro, enaltecendo o que virá em seguida, “colocando-o sobre uma bandeja”, exaltando-o a partir da invocação feita a Deus como testemunha universal: “tão certo quanto Deus há de me dar tudo o que há de bom...” Podemos situar esse ponto de partida em (Eu). O segundo tempo — “eu estava sentado com Salomon Rothschild e ele me tratou totalmente como um igual” —, introduz a figura do objeto metonímico. Se seguirmos o trajeto do discurso nesse esquema, observaremos que, partindo de , o discurso diverge ao mesmo tempo para α (o Outro), lugar ao qual endereça o modo familiar como ele teria sido tratado — “bastante familiarmente”, sendo esse o termo que não advém no discurso efetivado —, e para ’, onde situamos o objeto que ele visa a refletir no Outro, o milionário, pelo que o sujeito se sente talvez fascinado. Lacan salienta que o tropeço da fala é como que antecipado na construção da frase por esse

totalmente, como uma espécie de desmentido. No terceiro tempo “se produz o fenômeno

inesperado, o escândalo da enunciação”, ou seja, essa mensagem inédita, o “muito

familionariamente”, que se forma no ponto para o qual convergem a cadeia do discurso, a

partir de α, e a cadeia do significante, na forma de uma conjunção ou condensação dos significantes milionário e familiar. Trata-se de um jogo de substituição que nada fica a dever à operação metafórica através da qual assistimos ao advento de criação de um novo sentido, que não estava previsto no cardápio do código. A mensagem retorna daí ao Eu, na inversão do enunciado em enunciação, e ao lugar do Outro, que o autentica, fechando assim o circuito.

Esse circuito realiza um processo social. De fato, não se trata de um circuito cujo caminho se daria entre as instâncias psíquicas de um sujeito psicológico, por mais que possamos aludir aos motivos pelos quais o Witz é produzido, como fazem Freud e Lacan, recorrendo as peripécias de Heine frente a seu tio milionário que, no passado, o teria tratado com desdém e soberba, recusando-lhe, dada sua condição social, a mão de sua filha. Como vimos, a estrutura do Witz pressupõe o Outro que autentica uma mensagem que não estava inscrita no código, franqueando assim o “passo-de-sentido” (pas-de-sens) (LACAN 1957- 58/1999, p. 103) que lhe é característico. Trata-se, no entanto, de um processo social onde a subjetividade salta ao primeiro plano na criação da mensagem, revertendo assim o sentido veiculado no primeiro plano ou em sua intenção de enunciado. O código é, evidentemente, um ponto de referência, mesmo que marginal, a partir do qual ocorre o franqueamento de sentido

do Witz. Mas esse sentido revela-se um excesso em relação ao que se quer dizer, destacando- se como uma pura enunciação. Desta forma, o Witz realiza paradoxalmente o que Pêcheux denominou de o primado prático do inconsciente, ou seja, a coragem de pensar por si mesmo, no ponto preciso onde o Eu do enunciado é ultrapassado e deslocado pelo sujeito da

enunciação. A enunciação é o que resulta do fato de que o discurso cruza a cadeia significante

e de que algo acontece no plano do significante para além da intenção que se processa no plano do discurso do sujeito. O Witz revela o elo estrutural primordial entre o sujeito da enunciação e a possibilidade do equívoco significante. É o que demonstra o uso desse recurso no campo da política para fazer passar uma mensagem censurada que não pode ser dita a não ser confundindo, de alguma maneira, o próprio código.

Podemos dizer que o Witz ilustra um possível ponto de articulação entre inconsciente e

ideologia, ponto onde o real da língua tocaria o real da história e se afirmaria o primado prático da luta de classes, de acordo com o qual, conforme preconiza Pêcheux, é preciso ousar se revoltar. De fato, o Witz exige que o Outro, a quem ele se dirige, seja o Outro da

paróquia, e não qualquer um (LACAN 1957-58/1999, p. 124).

A paróquia é um Outro limitado, não é a Igreja católica inteira [...]. A paróquia é o vizinho e, já o sabemos, para que haja tirada espirituosa, é preciso compartilhar referências comuns, uma língua comum que não é universal. É a diferença entre o Witz e o matema” (MILLER 1999, p. 20).

Como mostra Lacan (LACAN 1957-58/1999, p. 119), esse Outro não pode ser conceituado como uma espécie de máquina, mas como sendo essencialmente capaz de interpretação. Se o Outro fosse apenas uma máquina, o Witz seria catalogado como um erro: o neologismo expresso por familionário não seria reconhecido como um elemento do sistema. Mas, o Outro da paróquia reconhece o Witz como tal e inclui o que essa suposta máquina excluiria. O que caracteriza esse Outro paroquial? Ele se coloca entre dois pólos: por um lado, é necessário que o Witz se dirija a um sujeito real, concreto, com quem partilhamos, por assim dizer, um certo número de referências; por outro lado, esse sujeito é visado para além dessas referências comuns, de forma supra-individual, no plano simbólico abstrato em que o Witz é autenticado. É em torno desses dois pólos, “entre esse real e esse simbólico”, que podemos situar a função do Outro: “é ela, propriamente falando, que é posta em jogo” (ibid, p. 123).

É por isso também que Lacan, nesse Seminário, irá localizar o prazer peculiar do Witz não na relação direta entre o significante e o gozo que caracteriza o uso infantil da linguagem — e que recobre o essencial da noção de “lalangue” no Seminário, livro 20 — mas na efetivação do reconhecimento dado pelo Outro. De acordo com o comentário de Miller,

a satisfação peculiar do Witz produz-se exatamente quando a intenção do sujeito se realiza na mensagem ao mesmo tempo que a cadeia significante. O que se chama a satisfação do Witz é, de certa maneira, a simultaneidade entre a realização da intenção do sujeito na mensagem e o alcance do ponto A [α], acolhendo a formação significante (MILLER 1999, p. 27).

Ocorre no momento do próprio fracasso no dizer quando, na própria mensagem, sempre insuficiente, sempre de lado, o Outro chega a entender aquilo que está mais-além. Quer dizer, quando consegue entender justamente o fracasso em dizer. De certa maneira, a única felicidade está na interpretação, quando o Outro interpreta o fracasso no dizer, o lapso, o deslize, o limite e, no fundo, entende o que está mais-além, no horizonte (ibid, p. 28).

A dimensão do Outro é, portanto, ampliada para acolher o Witz; “ele já não é unicamente a sede do código, mas intervém como sujeito, ratificando uma mensagem no código e complicando-a” (LACAN 1957-58/1999, p. 156). “Isso pode ser entendido como ‘a lei não obedece à regra’, a lei não é um algoritmo que funciona cegamente. Se fosse o caso, não existiria a tirada espirituosa” (MILLER 1999, p. 39). Podemos concluir, de acordo com Pêcheux, que existe uma afinidade de estrutura, uma estranha familiaridade entre o Witz, o inconsciente e a revolta. É também o que Lacan designa, a partir de Freud, como sendo o “desejo de Outra coisa”.

Chegamos assim ao final de um percurso em que tentamos esclarecer e fundamentar as principais referências de Pêcheux aos conceitos da psicanálise, em especial o real do

inconsciente e a estrutura do Witz. Veremos, em seguida, as repercussões desse encontro entre

Pêcheux e o pensamento lacaniano em alguns textos fundamentais da chamada terceira época da Análise Automática do Discurso. Há aí uma forte inflexão do pensamento, um deslocamento teórico em que se pode testemunhar a tentativa de um recomeço e que repercute esse encontro atingindo as concepções de sujeito e de discurso. É esse trajeto que pretendemos acompanhar. Ele demonstra a fidelidade de Pêcheux ao acontecimento em

direção ao real da língua que se mostra afinado com a hiância descortinada pelo real do inconsciente.