13 LES COMPOSANTS INTERNES
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O homem, enquanto processo histórico, se produz pelo ato de retomar seus vividos para poder transcendê-los (transcendência concreta). Como consciência-mergulhada-no- mundo-humanizado, a produção de si (singularidade irredutível) tem como pano de fundo e condição de possibilidade as “determinações” da realidade coletivizada e estruturada: eis a liberdade como uma questão de ordem ontológica e histórica. Com isso, a condição humana é a de ser praxis a partir das tensões do seu ser-no-mundo, da maneira que o existente se produza como “pessoa”, ao mesmo tempo em que “humaniza” o mundo. É no contexto desta “liberdade em situação” que será introduzido o tema do “homem revolucionário” para se pensar na possibilidade de se resgatar a “essencialidade” da singularidade concreta, mas sem que se desconsidere o “peso” do mundo como limite, resistência ou auxílio (sempre à luz de suas escolhas). Estas, por sua vez, configurar-se-ão como um esforço de superação das determinações que recaem sobre o sujeito, determinações estas que se encontram estruturadas mesmo antes de seu nascimento (predestinação, família, classe). Por fim, defender-se-á que é a partir dessa “constituição passiva de si” que se falará de uma “dialética da ação” sobre o “coeficiente de adversidade” do mundo, o que configurará uma livre produção de si sustentada pela “liberdade projetiva”: é o homem em sociedade assumindo o seu destino para manifestar-se como “transcendência temporal”.
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114 Cf. IF, III [1972], p. 31.
C
omo anuncia Sartre, “um dos sentidos do processo histórico [finito desde o início] é a morte”115e o Erlebnis de cada consciência será transmitido pelo outro, de modo que o ato de retomar o vivido (impregnado de hábitos, costumes e ideologias institucionalizadas) implicará no ato de transcendê-lo (a transcendência concreta parte de uma situação concreta): “o fato histórico é uma singularidade”116
, “um evento da subjetividade humana”117
e, enquanto tal, “a história é perpetuamente finita”.118 Logo, existir é, inevitavelmente e necessariamente, estabelecer uma relação (e produzir-se a partir dela) com uma “universalidade universalizante” (“generalidade generalizante”) e com a universalidade da matéria inerte (generalidade sem memória: “motor passivo da História”119) e humanizada (“Ela representa, portanto, a condição material da historicidade”120). Portanto, ser-no-mundo é estar inserido (e comprometido) na generalidade das relações e deparar-se com a universalidade da matéria (ou com a História inserida na matéria sob esquemas gerais). Eis a finalidade de considerar “o homem em sua totalidade, isto é, a partir da materialidade de sua condição”121, como
uma forma de realizar e viver o universal em sua materialidade; ainda aqui, essa particularidade tem a sua opacidade própria que impede de dissolvê-la nas determinações fundamentais [Instituições, Instrumentos, infinitos culturais, Ideia de Natureza, Imaginários, Fetiches, Temporalidade Social].122
A partir disso, pode-se dizer que a consciência não é independente do mundo objetivo e mais, é possível compreender que o mundo a condiciona e ela, por sua própria estrutura ontológica, transcende esse condicionamento: o indivíduo é a unidade (“produto”) de condições sociais e elemento ativo na construção de si e da realidade objetiva do movimento histórico. É pautando-se por estas questões que se poderá trabalhar a liberdade
115 CM, p. 43. A história se faz sob a base de circunstâncias anteriores e os sujeitos agentes que a engendra são
finitos, mortais: não se duvida de que “a morte nos atinja e faça saltar os limites estreitos e monótonos de nossa banalidade [...]. De maneira que o empreendimento de uma vida se defina contra a morte e por ela.” (IF, III [1972], p. 437). 116 CM, p. 44. 117 CM, p. 46. 118 IF, III [1972], p. 437.
119“Vamos ver que somente a totalidade inerte da matéria trabalhada [selada pela praxis] em determinado
campo social, ao registrar e conservar, como memória inerte de todos, as formas que o trabalho anterior lhe imprimiu, permite [...] o enriquecimento contínuo do evento histórico.” (CRD, p. 200).
120 CRD, p. 200. 121 QM, p. 107.
como um problema de ordem ontológica e histórica. Trata-se, como afirma Adam Shaff, de “compreender como o homem condicionado socialmente e subordinado aos processos objetivos da História [...] age de maneira consciente e sistemática, fazendo as respectivas escolhas entre diversas possibilidades.”123
O homem é “criação” (passividade) e “criador” (atividade) da História, é tensão (movimento dialético) entre a dimensão singular e universal de seu ser-no-mundo, permanentemente convidado a procurar produzir as condições pelas quais ele adquire mais conhecimento em relação as suas “determinações” e aos seus “condicionamentos”: o homem revelar-se-á como tensão entre o universal e o singular, condição esta reveladora da liberdade humana.
Assim, descobrimos uma nova tensão no coração de nossa autenticidade: aquela de ser um absoluto vivente que nada pode mudar no tempo em que vivemos e aquela de ser irremediavelmente e necessariamente um futuro passado em que a liberdade será, ao mesmo tempo, nova e eu mesmo decidirei. Assim, o passado, como futuro estado sem defesa frente a frente dos decretos de uma liberdade, se introduz no coração do absoluto presente.124
Com isso, o fenômeno humano não pode dar-se somente como o resultado passivo de forças exteriores, mas como praxis, de modo o homem possa agir cada vez mais “conscientemente” das escolhas que faz (escolhas sempre orientadas em direção a um fim): “o homem revolucionário é, a princípio, aquele que chega a tomar consciência [conhecimento], pouco a pouco, do sentido daquilo o que ele faz.”125
Pode-se também aqui compreender o termo “revolucionário” ao trazer como pano de fundo a concepção de uma liberdade que não se dá pelo isolamento do homem em si próprio (uma espécie de solipsismo) e nem pelo total desprendimento dos condicionamentos sociais que constituem o seu entorno (como se fosse possível falar algo do homem concebendo-o como a-histórico ou fora-do-mundo). Só pode haver um “homem revolucionário” a partir de sua inserção nas tensões de seu-ser-no-mundo, ou seja, no movimento pelo qual ele se produz e “humaniza” o mundo (um movimento eminentemente dialético), evitando-se, com isso, a compreensão do existente humano (praxis, ação, singularidade), do mundo ou da História (universalidade) 122 QM, p. 56.
123
SCHAFF, Adam. O Marxismo e o indivíduo. Tradução de Heidrum Mendes da Silva. RJ: Civilização Brasileira, 1967, p. 163.
124 CM, p. 493. 125
pela polarização da ideia de um “singular criado pela História” (desconsiderando-se a subjetividade) ou pela polarização da ideia de um “singular criador da História” (desconsiderando-se os “condicionamentos exteriores”).
O conceito de “homem revolucionário” que aqui se defende vai além da perspectiva de uma revolução que se daria somente a partir de uma ideologia ou de um partido político (embora funcionem como um modo de organização de grupos para a transformação da sociedade). Por exemplo, observando-se a crítica que Sartre faz no texto de 1946 intitulado Matérialisme et Révolution (sobre o “mito materialista” do revolucionário), é possível compreender como uma ideologia poderia dissolver a singularidade concreta em nome de um processo histórico que se realizaria por si mesmo (o concreto – singular – se dissolveria no abstrato – universal):
O que procuraram no comunismo não é a libertação, é um aumento de disciplina; nada temem tanto como a liberdade; e se renunciaram aos valores a priori da classe de que provém, é para encontrar os a priori do conhecimento e dos caminhos já traçados na história. Não há riscos, não há inquietação, tudo é seguro, os resultados estão garantidos.126
O problema é que, neste aspecto, o sujeito concreto (livre, gratuito, sem um fundamento absolutamente seguro) desaparece, cedendo lugar à História para surgir como uma Ideia que se desenvolve segura, estável e por condições necessárias: não pode haver espaço para a contingência no movimento histórico, pois ele se fundamenta segundo Leis rígidas, muito bem determinadas e estruturadas.
Como possibilidade de superação de tal perspectiva, é preciso que se resgate a premissa de que só há “escolhas” diante de “possibilidades” por um mundo que se lança ao homem como limite, resistência ou auxílio e que se faz presença ao existente enquanto situação. Escolher é exercer a liberdade a partir (e para além) de determinadas condições e condicionamentos – estes se apresentam perante uma pluralidade de consciências (“heterogeneidade”: “Não há, portanto, praxis ontologicamente comum”127
) como possibilidades de ação:
a relação humana existe realmente entre todos os homens e que ela não é
126 S, III, p. 215.
127
outra coisa que a relação da praxis consigo mesma. A complicação que faz nascer estas relações novas não tem outra origem além da pluralidade, isto é, a multiplicidade dos organismos ativos.128
Sendo assim, não é condição necessária que uma pluralidade de homens haja da mesma forma diante de condicionamentos iguais, isto porque – com a finalidade de preservar este cogito (ou o homem como o bem supremo) que insere sua ação nas “malhas do determinismo”129 – os condicionamentos se diferenciam (e adquirem sentido) em relação aos interesses do indivíduo (de seus Projetos).
Este “homem revolucionário”, que cada vez mais adquire conhecimento do sentido de suas ações e engajamentos, insere-se no mundo por uma liberdade que não é imaginária e abstrata, mas real e situada; ele é criador e produto da História, socialmente condicionado e escolhendo em situação (só há possibilidade de ação dentro de um sistema de valores, de normas, de “verdades”, sempre a partir e por meio de técnicas de apreensão e de produção do mundo, de si e do outro). As técnicas de apreensão e de produção da realidade objetiva (humanizada), as escalas e os sistemas de valores (Educação, Família, Classe Social, Religião, Trabalho, Sistema Econômico, Localização Geográfica, etc.) é que introduzem o indivíduo no mundo e é a partir desse contexto que as escolhas se tornam possíveis.
Toda forma de sistema de valores (Instituições, Infraestruturas, conjuntura Histórica) implica na “conservação” e na “superação” do dado, e isso sempre sob o pano de fundo do surgimento ou da produção de contradições internas do próprio sistema – “o sistema humano é uma organização prática que produz, por si mesmo, seus efeitos.”130
A totalidade é aberta, sustentada e produzida pelo homem enquanto totalidade (ele não é uma “somatória de partes”), mas absolutamente não-totalizável com o outro e com o Em-si que intenciona131 (a “totalidade fechada” é uma “pseudo-unidade”: é um “mito de unificação”). A família, por exemplo, pode ser compreendida como uma estrutura produzida à luz de condições econômicas, sociais e históricas de seu entorno (determinações abstratas e gerais) e constituindo-se como uma “coletividade condicionante” (determinações particularizáveis: relações intersubjetivas do pequeno núcleo familiar – pai, mãe, irmãos, etc.). Nessa concepção, a família é um modo pelo qual um grupo interioriza as determinações 128 CRD, p. 198. 129 EN, p. 527. 130 CRD, p. 512. 131 Cf. CM, p. 477.
institucionais, transcendendo-as e produzindo a história concreta de uma singularidade (micro-organismo) irredutível e, ao mesmo tempo, inseparável das estruturas de seu entorno (conjuntura histórica), suportando-a e totalizando-a a seu modo.
É preciso considerar que “a praxis individual nos mostrará que ela interioriza o exterior (desenhando pela própria ação um campo prático); [...] uma exteriorização intencional da interioridade”.132 Nascer, portanto, é estar inserido em um agrupamento e em um conjunto concreto, é vivenciar as determinações do entorno que, por sua vez, produzem singularidades a partir de uma espécie de “predestinação” que se inicia antes mesmo do nascimento: “o indivíduo encontra ao nascer sua existência pré-esboçada”.133
A criança, por exemplo, vivencia os condicionamentos da célula social em que se encontra e é, como afirma Sartre, uma vivência que, a princípio, se dá “na ignorância”, isto é, na “ignorância da constituição passiva” de si.134 Em outras palavras, é através de seus vividos que ela vai adquirindo a capacidade de ir além desses condicionamentos rumo aos seus próprios fins. O que há, a princípio, é a vontade do outro (objetivos estrangeiros) que, no caso, é imposta de fora, uma vontade interiorizada pela criança como sendo os seus objetivos: é a vivência (interiorização) dos condicionamentos no movimento de “constituí-los obscuramente como uma determinação subjetiva”.135 Como liberdade situada, o sujeito manifesta sua singularidade a partir dos únicos instrumentos de que dispõe para entender o seu entorno, para compreender-se e para manifestar-se como pessoa: os símbolos, os mitos, os “ídolos explicativos” de sua época, as ideologias, as técnicas de apreensão de si e do mundo e as massificações de seu contexto familiar. Donde se conclui que
a própria infância é social, os poderosos instintos naturais que eles procuram no fundo do coração são apenas o símbolo da legitimidade do seu nascimento. A ordem natural que percebem no exterior e em si mesmos é simplesmente a ordem social. A natureza é um mito social, o gozo solitário de si mesmo no seio na Natureza é um momento ritual da vida em sociedade.136
Ora, as escolhas subjetivas tornam-se objetivas por um indivíduo, um “Eu” (Ego, Personalidade, Caráter) que busca constituir-se como valor pela mediação de um projeto de
132 CRD, p. 157. O grifo é meu. 133 CRD, p. 289.
134 Cf. IF, III [1972], p. 10. 135 IF, III [1972], p. 11.
ser dotado de significações e enquanto desejo de ser (condições ontológicas) que se realiza somente em situação (condições históricas).
Assim, as significações vêm do homem e de seu projeto, mas inscrevem-se por toda parte nas coisas e na ordem das coisas. Tudo, em todo instante, é sempre significante e as significações revelam-nos homens e relações entre os homens, através das estruturas de nossa sociedade.137
Mas é preciso ressaltar que este “Eu” não é um puro Eu (abstrato, universal, substancializado, transcendental), ao contrário, ele é singular, concreto e real, exteriorizando-se no nível das necessidades materiais, das relações sócio-materiais e das relações concretas com o Outro, consigo e com o Grupo (condições sociais existentes). Ao fim e ao cabo,
O homem é livre na medida em que possa proceder, em sua ação, desta ou daquela forma, empreender uma determinada ação ou deixar de fazê-lo. Tiramos ou limitamos a sua liberdade quando lhe tiramos, de uma ou de outra forma, a possibilidade de escolha.138
Se toda ação humana, empreendida dentro da tensão universal-singular, é um engajamento de ordem histórica, a descrição de uma situação histórica vivenciada pelo sujeito agente (os fins – singularmente – elaborados pela mediação da História, ou melhor, dessa História – herdada, datada, coletivizada e correndo-se os riscos de uma substancialização do futuro) leva a uma interrogação acerca da natureza de suas ações, o que implicaria em uma investigação ontológica, já que “a História estuda a ação dos homens sobre o mundo, a ação do homem sobre os homens, a reação dos homens e do mundo sobre a ação primeira.”139
É neste sentido que Sartre ressalta, motivado pelo seu marxismo e fiel ao seu existencialismo, a existência de uma dialética da ação sobre o mundo: ser-nada, unidade-multiplicidade, interioridade-exterioridade, finito-infinito, conhecimento- ignorância, subjetividade-objetividade, particular-universal. Dito de outra forma, é a praxis em relação com o projeto constituindo-se como tensão (tendu140) entre a objetividade 136 SG, p. 257.
137 QM, p. 98.
138 SCHAFF, Adam. O Marxismo e o indivíduo. Tradução de Heidrum Mendes da Silva. RJ: Civilização Brasileira,
1967, p. 169.
139
CM, p. 56.
(condições objetivas do meio e as estruturas do campo dos possíveis) e a subjetividade (a consciência enquanto transcendência como momento necessário do processo objetivo).
É transcendendo o dado e realizando possibilidades que o indivíduo se objetiva e se insere no movimento histórico: é o futuro enquanto possibilidade (“o campo dos possíveis é o fim em direção a qual o agente transcende sua situação objetiva”).141
Só há sujeito agente pelo movimento de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade, afinal, lançar-se no mundo (estruturado, significado, valorado, institucionalizado) é agir pela passividade e, ao mesmo tempo, fazer-se ativo pelo próprio coeficiente de adversidade142 das coisas, dos objetos, do mundo – coeficiente este que existe à luz de um fim (de um projeto) que o significa e lhe dá sentido. Dito de outro modo, o coeficiente de adversidade se faz possível e compreensível por um para-si que é projeto de si e projeto rumo às suas possibilidades, visando “realizar um ser-no-meio-do-mundo como projeto último de ser ser- no-mundo”143
(“eu me projeto em direção aos meus fins”144
, pois o para-si é “um ser que é originalmente projeto, isto é, que se define por seu fim”145
) – ele se produz pelo movimento dialético interiorização-exteriorização.
Ora, na interiorização da exterioridade o sujeito depara-se com um objeto (seja ele concreto – matéria – ou abstrato – conceito, norma, valor, ideia) dotado de sentido (uma transcendência cristalizada) que compõe o seu entorno. Sendo ele previamente valorado e significado por uma pluralidade de consciências (matéria humanizada ou “ideia/conceito” institucionalizado), o objeto traz em seu sentido um uso também previamente determinado que orienta (condiciona, indica, padroniza) posturas, comportamentos, enfim, que orienta liberdades. Assim sendo, este objeto tem uma “universalidade universalizante” que, em outros termos, exterioriza uma pluralidade de interioridades. Imagine-se, por exemplo, placas de “Proibido Fumar”, “Silêncio”, “Menores de 18 não entram”, “Não pise na grama”, etc., que nada mais seriam do que matéria inerte (metal, madeira, plástico) trabalhada e significada pelo homem: eis o sujeito sob o plano da exterioridade refletindo sobre o objeto
141QM, p. 64. Ou ainda, “as possibilidades supõem um mundo real, a partir do qual as possibilidades são
pensadas.” (Ire
, p. 218).
142 O termo utilizado por Sartre foi inspirado por Bachelard (L’eau et les rêves: essai sur l’imagination de la
matière) – Cf. EN, p. 527 e p. 364; CM, p. 56 e S, III, p. 220. A Natureza e o Mundo como coeficiente de adversidade, como resistência ou como auxílio, são vivenciados como tais por uma subjetividade, isto é, pela
mediação de uma ação (trabalho, praxis) que a insere no mundo: “em nenhum caso, a natureza por si só nos dá a impressão de resistência vencida, de revolta e de submissão, de fadiga.” (S, III, p. 212)
143
EN, p. 433.
144
sua passividade.
Trata-se de uma consciência de significação e de uma intenção que acaba por aderir ao signo sob o pano de fundo de um “saber” exteriorizado em palavras, conscientizando o leitor das proibições objetivas que anunciam (é a existência de “uma esfera objetiva de significação”146, pois “um signo conserva sempre uma certa exterioridade”147
). Dito de outra forma, observar-se-ia aqui um sujeito passivo e exterior a si mesmo em nome de um “nós” que seria precisamente a exterioridade da interioridade traduzida em “norma”, “proibição” ou “lei”. “É no movimento de interiorização que atravessa todo o ser que o ser surge e organiza-se como mundo, sem que haja prioridade do movimento sobre o mundo ou do mundo sobre o movimento.”148 Entretanto, há sempre o risco eminente de, ao humanizar a Natureza, desumanizar o homem (que se perde a si mesmo na exterioridade) – embora mantenha-se aqui a premissa ontológica de que “O determinismo *...+ de maneira alguma poderia aplicar-se aos fatos da consciência”.149
Mas, para além de qualquer tipo de idealismo, entenda-se aqui que o indivíduo produz sua existência inserido, engajado e comprometido com o Mundo e a Natureza que o cerca (e não com os pés no mundo e a cabeça nos céus150
): tudo aquilo o que é dado no mundo como resistência ou auxílio se revela à luz de uma “Liberdade projetante”151
. Uma consciência fora-do-mundo (o que levaria a pensar em um sujeito fora-da-situação ou a- histórico) em relação com o objeto (antropomorfizado: a realidade sócio-material refletindo um estado do mundo) jamais poderia remeter à Totalidade (destotalizada) de um para-si, ao contrário – e Sartre é bem enfático nesta questão –, somente é possível apreender (ainda que apenas conceitualmente) um existente (ou o modo pelo qual ele se exterioriza no mundo) como “um homem em situação no universo, totalmente esmagado pelas forças da natureza e que as transcende totalmente por seu projeto de captá-las.”152
Inserido, portanto, em uma sociedade institucionalizada (padronizada e normatizada), a finalidade de todo empreendimento histórico, ideológico, político ou 145 EN, p. 497.
146
Ire, p. 87. Segundo o universo teórico da CRD, trata-se de uma “hemorragia da realidade objetiva, que se esvazia de seu sentido entre as mãos do agente, [que] assume certa significação quando é decifrada a partir da totalidade em andamento.” (CRD, p. 283).
147 Ire, p. 112. 148 EN, p. 52. 149 Ire, p. 68. 150
Uma bela frase de efeito utilizada por Sartre em S, III, p. 220.
151
revolucionário dar-se-ia não por uma verdade abstrata (Idealismo), mas por sujeitos concretos entre relações concretas: a sociedade deveria proporcionar as condições para que o homem assuma livremente seu destino, reconhecendo, ao mesmo tempo, a liberdade dos outros. Eis o humanismo de Sartre:
Quando eu considero os fatos sociais particulares, eu tendo a pensar que o homem está perdido. Mas se eu considero o conjunto de todas as condições necessárias para que o homem exista, eu acho que a única coisa a fazer é enfatizar, valorizar e sustentar com todas as suas forças o que, nas situações políticas e sociais particulares, pode conduzir a uma sociedade de homens livres. Se não fizermos, aceitamos que o homem seja uma merda.153
É em sociedade e a partir dela que o indivíduo, pela mediação de suas relações concretas, precisa assumir seu destino na medida em que ele se conhece e se define objetivamente (ele não é uma substância pensante) no mundo, isto é, tendo como referência as indicações que os objetos significados e valorados lhe oferecem (seu entorno é absolutamente referenciado): “cada um nasce com um destino pré-fabricado que a sociedade lhe exige cumprir”.154
Posto que “O homem está em situação em sua obra como em seu Destino”155, nascer