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O resgate pós- crítico da metafísica operado por Hegel pode ser resumido em duas operações, uma contra Kant e outra que resgata, em parte, o projeto crítico.

A primeira operação consistiria na introdução dos objetos clássicos da metafísica no campo do conhecimento possível. Poderíamos expressar essa pretensão da seguinte forma: o que pode ser pensado pode ser conhecido. A segunda operação constaria num resgate do projeto crítico, ainda que parcial. Hegel coloca-se, nesse sentido, no mesmo campo antidogmático, iniciado por Kant e seguido por todo idealismo alemão. Poderíamos precisar o sentido no qual o idealismo alemão compreendia um projeto antidogmático, dizendo que é a posição filosófica que se opõe à visão de que a verdade está nas coisas do mundo e que ao Eu caberia apenas captá-la.^^

Podemos ver essa posição antidogmática nos predecessores imediatos de

Hegel do idealismo alemão. Em Fichte, na Doutrina da ciência de 1794,

sobre a diferença entre a filosofia crítica e a dogmática: "E a essência da filosofia crítica consiste nisso: que é estabelecido um eu absoluto como pura e simplesmente incondicionado e não determinável por nada superior (...) Ao contrário, é dogmática a filosofia que iguala ou opõe algo ao eu em si; e isso ocorre no pretenso conceito superior de coisa (Ens), que, ao mesmo tempo, é estabelecido, de maneira totalmente arbitrária, como pura e simplesmente supremo." ( trad. R.R.Torres Filho, p. 60) . Ver também

Em Kant, mais especificamente, a posição antidogmática é ligada ao que ficou conhecido como o giro copernicano, bem expresso no prefácio à 2° edição da KrV, B XVI: "Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos (...) Tentemos pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento."

Para que se encontre um caminho seguro para a metafísica e para que se deixe para trás a posição ingênua de pensar a verdade como estando nas coisas, deve-se pensar a experiência como o que se deve regular por nossos conceitos a priori. Porém, ao perfazer a dedução destes conceitos a priori, Kant extrai um resultado aparente insólito quanto à sua finaUdade, qual seja, levar a metafísica ao bom caminho da ciência; os objetos aos quais se refeririam estes conceitos não podem ultrapassar o campo da experiência possível; o nosso conhecimento racional pode-se referir apenas a fenômenos e não a coisas em si.

O problema consiste em saber como Hegel mantém uma posição de crítica ã visão de que nossas representações devem-se regular pelos objetos, sem chegar à conclusão kantiana da referência necessária do nosso conhecimento ao mundo dos fenômenos.

Obviamente, se pensarmos no saber apenas como saber relativo ao mundo sensível, é evidente que não podemos ter do infinito

uma percepção sensível imediata. Hegel mesmo o reconhece, no exame crítico da filosofia kantiana que esse leva à cabo nas Lições sobre a

História da filosofia:

"Não há dúvida"- reconhece o füósofo-" que o infinito não se dá no mundo da percepção sensível, e, admitindo que, o que sabemos, seja experiência, enquanto um sintetizar dos pensamentos e matéria da sensibilidade, é evidente que não podemos chegar a conhecer o infinito no sentido de chegar a ter uma percepção sensível dele. Tampouco deve-se exigir, para a verificação do infinito, uma percepção sensível dele; o espírito existe apenas para o espírito"^4

Vemos aí uma constatação hegeliana das óbvias

conseqüências da posição kantiana: se definirmos o conhecimento como o múltiplo da intuição sensível subsumido à conceitos, daí decorre necessariamente que, visto não podermos ter uma intuição sensível de Deus, não há conhecimento do Absoluto.

Da mesma forma, Hegel compreende a posição kantiana de que a tentativa de fazer um uso transcendente das categorias nos leva a contradições. Ao expor a filosofia kantiana, Hegel explica:

"O segundo aspecto do porquê não é possível chegar a conhecer o infinito reside em que a razão apenas dispõe para isso das formas de pensamento a que chamamos de categorias (...) por conseguinte, quando empregamos para a determinação do infinito estas categorias que só podem aplicar-se a fenômenos, nos enredamos em falsas conclusões e em contradições

(antinomias); uma das mais importantes determinações da filosofia kantiana consiste em ver que o infinito, enquanto determina-se por categorias, se perde em

contradições. "25

Hegel não questiona o fato de que a tentativa de conhecer o infinito atiavés de predicados finitos nos levaria a contiadições; apenas isto não implicaria a impossibilidade de conhecer o infinito, mas apenas a impossibilidade de conhecer o infinito atiavés de predicados típicos de entes finitos. O fato, todavia, de que as categorias não se constituam em instiimientos adequados ao objeto em questão, não implica, aos olhos hegelianos, que não haja instiumentos epistêmicos apropriados. Ora, da mesma forma como se segue que é impossível conhecer o infinito, se faz-se necessário, para qualquer conhecimento, uma intuição sensível, é também impossível, visto gerar contiadições inevitáveis, a pretensão de compreensão do Absoluto atiavés de predicados típicos dos entes finitos. Segundo Hegel, não devemo-nos espantar com esse interdito, visto que as conclusões kantianas seguem de suas próprias premissas. Se admitirmos, portanto, (1) que o saber é o produto da atividade informadora das categorias do entendimento sobre intuições sensíveis e (II) que o saber do infinito deve-se dar aos moldes do entendimento, a partir da atiibuição de predicados dos entes finitos, segue-se inevitavelmente (de I ou II) que (III) é impossível conhecer o infinito. A pretensão hegeliana, todavia, continua sendo uma reapropriação do Absoluto como objeto do saber.

Quando Kant nos fala sobre a impossibilidade de conhecermos as coisas-em-si, ele ressalta que, para tal empresa, deveríamos possuir um outro tipo de intuição diversa da intuição sensível, ou seja, uma intuição intelectual. Visto que esse não é o caso, o acesso à coisa em si torna-se impossível para a nossa intuição sensível ( KrV B 309).

Poderíamos suspeitar que essa seja a chave de

compreensão do conhecimento do Absoluto, aquele que se faz a partir de uma intuição intelectual. Heidegger, no seu livro sobre Schelling, considera que essa é a diferença essencial entre a filosofia kantiana e o idealismo alemão: a possibilidade aberta por esse de pensarmos uma intuição intelectual. "Como o idealismo alemão concebe a filosofia?"- pergunta-se Heidegger. "A concepção fundamental destes pensadores pode-se formular, em resposta a Kant, nessa determinação: a filosofia é a intuição intelectual do Absoluto.

Engana-se, todavia, Heidegger ao atribuir a defesa de uma intuição do Absoluto à todo idealismo alemão, pois ela se aplica

Heidegger, Schelling, le traité de 1809 sur l'essence de la liberté humaine,

Gallimard, 1977, p.82. Para esclarecer melhor sua posição, tomemos o seguinte texto: "O saber que apreende a totalidade deve necessariamente, se ele quer ser um saber, ser intuição. Todavia, essa intuição do absoluto concerne o que nós não percebemos com nossos sentidos. Essa intuição não pode ser uma intuição sensível. Ora, um conhecimento não sensível se

denomina, nessa época, um conhecimento pelo intellectus, um

conhecimento intelectual. A intuição não sensível é uma intuição intelectual. O saber verdadeiro do ser na totalidade- a filosofia- é intuição intelectual do absoluto" (p. 83).

sobretudo ao irracionalismo romântico que postula esse abandono

místico do homem no Absoluto. E bem verdade que essa concepção de um acesso direto ao ser supremo influencia os amigos de Tübingen (Schelling, Hölderlin, Hegel) na sua juventude. Poder-se-ia mesmo dizer que Schelling continua sendo fiel a essa possibilidade de uma intuição intelectual em algumas de suas obras ^7 ^ o que indicaria indiscutivelmente um viés místico, partilhado com os românticos e jamais abandonado, que se constituiria num ponto de crítica veemente de Hegel, entie outios. Contudo, o conhecimento do Absoluto via intuição intelectual não é uma posição permanente de Schelling e jamais se afirmaria na obra propriamente original de Hegel.

2.3.1. A intuição das coisas em si: um delírio místico

Schelling tentaria, no Tratado sobre a Liberdade

Humana, obra posterior à Fenomenologia, a mesma combinação entie espinosismo e idealismo, ou entie substância e sujeito, que Hegel procurara realizar. Se ambos os projetos assemelham-se, qual a razão da divergência entie Schelling e Hegel? Talvez esse tenha razão ao