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construites depuis des siècles sur le même modèle, en chêne

Como em qualquer outra instituição educativa, a Casa da Cultura deve manter-se em contínua interação com os responsáveis pelos jovens que assiste. E o faz a partir de demandas desses ou daqueles e das percepções dos educadores. As iniciativas desses são muito freqüentes e mesmo regulares, uma vez que a compreensão do Axé é a de que, para resolver ou amenizar o problema da juventude em exposição, são necessárias a composição e a recomposição permanentes da malha protecionista. Nesse sentido, as alianças mais diretas e imediatas requeridas precisam ser tecidas junto aos mais próximos dos educandos. Além disso, considera fundamental ampliar a cidadania dos grupos domésticos, incitando-os a assumirem papéis “protagonistas da ação social” (Axé, Rodrigues, 199?: 2).

Embora cuidadosos, os profissionais da Casa, com freqüência, buscam estreitar os laços e interferir no âmbito familiar, multiplicando as oportunidades cooperativas e as revisões de conduta de pais e filhos – suas relações internas e externas aos lares. Para tal, estão preparados dois dos seus educadores, auxiliados por duas estagiárias, que se dedicam ao acolhimento dos meninos, acompanhando-os individualmente e promovendo o desdobramento das questões que trazem. Logicamente, essas se refletem imediatamente na família e na escola. Contudo, não há impedimen- tos quanto à participação de outros membros do quadro, ou mesmo de empreenderem gestões nesse sentido, quando considerarem oportunas, o que é coerente com os que sofrem, e cultivam a paranóia-pedagógica.

Um exemplo trazido pelo educador L. (07.04.99) ilustra a condução, a partir de uma tentativa de neutralizar a rejeição de um pai pelo filho, que declarou:

“— Não o quero mais aqui. Ele me desapontou”.

Mas, tem-se que mostrar, por a mais b, que a obrigação daquele pai é de cuidar desse menino.

De um modo geral, diálogos entre educadores e responsáveis são complexos ou de difícil desdo- bramento, face à diversidade de variáveis intervenientes no objetivo comum. Entre essas, há cobran- ças e disputas de papéis ou questionamentos sobre os métodos em pauta. E se, antes, na etapa histórico-cultural das condições sociais em que boa parte dos educadores se insere, o núcleo domés- tico é preponderante na formação e no repasse dos valores, não o é mais tanto, e principalmente para os estratos populacionais que fornecem a provisão dos educandos institucionalizados.

Há quem pense que tais encargos foram transferidos para a escola, para a mídia, para a rua. Mas as instâncias públicas sofreram as mesmas interferências desestruturantes de valores que outras – como a família. Considerando a profundidade anômica vigente no País, pode-se especular que a pobreza moral das novas gerações é tão acentuada quanto as materiais. Trata-se de legado complexo, plantado historicamente, como se constatou nos capítulos iniciais.

E se essa descostura é perigosa para qualquer imaturo, o é, ainda mais, para o adolescente, naturalmente vivendo outras ebulições e turbulências. Ainda no terreno da especulação, pode-se conjecturar que, se algum âmbito ainda repassa qualidades éticas, esse é a família, não obstante as precariedades múltiplas e graves que vivencia. É revelador o depoimento prestado nos canais televisivos, na última semana de outubro de 1999, por um interno da FEBEM de São Paulo. Quando questionado sobre seus sentimentos após ter degolado um companheiro, ele responde que “só sentiu pena da mãe” do colega. Nesse momento, o garoto denuncia toda a falência ética da sociedade que o transformou num selvagem. Nada, nada de bom parece lhe ter sido repassado pela escola, pela igreja, pelo sistema de assistência social, pelo sistema de controle societário, pelo

sistema de comunicação. A única referência positiva que ele expressa é a da figura materna – imagem do cordão umbilical, do caminho que resta para o resgate da sua condição de sujeito, do eu frente ao outro. Esse menino precisa ser ouvido, pois o que ele diz é que sua brutalidade só não é absoluta, porque sua mãe lhe fincou valores. Ela representaria a imagem sobrevivente daquilo que o Axé chama de espiritual.

Não é simples participar da formação de jovens; pelo contrário, a improvisação é danosa. Daí a necessidade de selecionar de pessoal portador de especial sensibilidade e a exigência de treinamentos específicos e continuados. Para a clientela do Axé, essas requisições são radicalizadas. Pois, se por um lado, o menino traz acentuadas as carências ou inversões de valores, por outro essas condições refletem um amplo campo minado que inclui sua família, a vizinhança e todos os demais setores da sociedade. Quem trabalha nessa área sabe que, dentre outras coisas, no vácuo das instituições, criou- se um poder paralelo, ainda mais forte e visível nos bairros populares que abrigam (?) os carentes. E esse poder, se não pode tudo, pode demasiadamente, a ponto de restringir as liberdades, de estabe- lecer regras e normas, a ponto de decidir quem pode ou não pode sobreviver. Ali não há Estado: nunca houve. E o seu vácuo foi preenchido por poderes outros, próprios das “zonas selvagens”, tal como diz Souza Santos (1999).

Se os agentes sociais o sabem, mais ainda os meninos que vivem nessas zonas. Esboçam, também, a solução e cantam-na:

Rap da Comunidade Turma III

Na minha rua não existe lei.

Só os homens mascarados querem botar lei. Eu vou embora

prá não chegar minha vez. É muito importante a gente amar. Na comunidade vamos ter que trabalhar com educação e sem violência se não o país não agüenta. Vamos embora, meu amigo. Vamos embora, meu irmão. Sem educação, o Brasil não sai do chão. Eu quero trabalhar, Eu quero estudar. Este Brasil

a gente tem que melhorar. Fazendo a nossa parte tudo vai mudar. Ê, ê... Ô, ô, ô! Ô, ô, ô!

A composição coletiva dos educandos da Turma 3 propicia uma amostra do que eles vivem em seus bairros. Neles, muitas vezes, os meninos são impedidos de saír, de ir à escola. Muitas vezes, também,

são-lhes cobradas atitudes e participações que os impelem para “os homens mascarados”. Para resistir aos atrativos, além dos riscos de toda a natureza, é essencial a base moral e sorte... Esses compositores querem trabalhar e estudar (onde e como?). Querem resgatar a fraternidade dos seus vizinhos. Querem fazer a sua parte, porque sabem que, se não houver uma mobilização ampla, o País implode, como uma grande FEBEM. Eles sabem. Mas setores lideranças da sociedade apenas desconfiam.

Dessa forma, o defrontar-se do educador com outros interessados no jovem não pode pres- cindir de um esteio, só obtido por uma boa fundamentação, alicerçada na sensibilidade trazida por cada um. O que não é simples nem anula as chances de freqüentes incômodos e ambigüidades. O profissional tem consciência de que os meninos que chegam às ruas e às instituições são apenas as parcelas mais visíveis da miséria construída que assola lares e gerações. Por sua vez, não contam (ainda) com a compreensão e o auxílio significantes dos companheiros que estão nas escolas nem com os de setores afins. O mais comum é a figura do professor que, “assumindo” seu compromisso docente, transfere à criança e à família o ônus da própria inoperância frente aos limites, às inquietudes ou aos conflitos revelados pelos alunos. Cabe ao educador social estar preparado para lidar com tais fragilidades, principalmente dos pais, evitando acrescer-lhes o volu- me das angústias que já os corroem, ao mesmo tempo em que devem reconhecer suas próprias restrições.

O educador X, que compõe uma instituição do gênero, ilustra essa atenção:

Tem dias que chegam aqui pais e mães altamente perdidos – desorientados. — “Meu filho está fazendo isso... Está fazendo aquilo...

— O que é que eu faço?”

E, quando você olha, não é uma pessoa de má fé; não é uma pessoa que resolveu não mais educar os filhos; ou uma pessoa – como dizem as campanhas de planejamento familiar – que não deveria ter tido aquele filho e que não sabe para que o botou no mundo. Não! São pessoas que não foram bem formadas e que, por isso, não sabem criar. Pessoas, como uma mãe que a gente conhece, que amarra o filho no pé da cama, para o menino não ir para a rua, porque os outros já prometeram matar – porque o menino é mesmo muito retado! E ela já se esgotou. Já fez de tudo, [...]; Parecendo um animal, amarra-o no pé da mesa. Quando a gente vai discutir [...], a gente olha nos olhos dela e vê todas as profundas razões dela fazer isso.

Diante da gravidade de circunstâncias desse porte, caberia a aplicação dos Arts. 5o. e do 15 ao 18

da lei no. 8.069/90, que asseguram “o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade da criança e do

adolescente”, acrescidos do Art. 13, que atribui cumplicidade àqueles que, conhecendo o quadro, omitem-se em denunciá-lo:

Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças ou adolescentes serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais (Grifo da autora).

Só que fatos como o descrito acima não são sanáveis por procedimentos meramente jurídicos. Esse exposto é um dos tipos que mais incomodam os educadores. Pois, conhecendo as restrições e seletividades sistêmicas, percebem que o mau-trato impresso por aquela mãe é a forma que lhe resta para salvar o filho. Sua violência é apenas a mais concreta. Outras – difusas –, sem dúvida mais graves e sem as boas intenções, geraram a reação prontamente visível e a definição de um agente opressor. E, aí, a solução seria denunciá-la? E os outros responsáveis, como seriam arrolados pelo Conselho para, numa investigação, confirmar-lhes ou não a culpabilidade? No caso de perda do pátrio-poder, quem ou o quê a substituiria? De fato, a segurança do jovem estaria garantida nas “FEBEMs”?

Essas são algumas inquietações vividas pelos profissionais da educação social, e são justificáveis. Se a vida doméstica dificilmente proporciona os pressupostos tidos como ideais para a formação das novas gerações, na maior parte dos casos está mais aparelhada a fazê-lo do que as instâncias públicas, mormente no que diz respeito aos aspectos não-materiais. Os educadores experientes sabem que, não obstante a Bahia vir se destacando entre os estados nacionais que mais têm evoluído no trato da juventude exposta, boa parte de suas instituições está longe do preconizado, e que jamais estarão à altura de um lar bem estruturado. Sabem que a existência rara de lares desse tipo tem a mesma origem nos fatos que proporci- onam a escassez de instituições para a formação. Sabem ainda, que a simples transferência de responsa- bilidades não proporciona a solução radical do fenômeno. Crêem que mais fácil e seguro é adiantar a transformação social, partindo do menino, atingindo a família, a comunidade, ao tempo em que, por outras vias, mexem com o público mais amplo. Decorre daí que, se, eventualmente, omitem-se do cumprimento legal, lançam mão do pedagógico-político junto às famílias e a outras esferas. Fazem-no discutindo, anali- sando conjuntamente, buscando saídas, proporcionando o crescimento grupal, esgotando suas possibilida- des, exceto quando a experiência dita a necessidade de ações externas imediatas.

Esse é o modelo que norteia a Casa da Cultura e que envolve o seu corpo educativo em ações que extrapolam o educando pessoalmente. Seus meninos são apenas algumas centenas dos que vivem o risco. Ao entender o processo que os gera, e vai de encontro a ele, desconstruindo práticas e discursos seculares e procurando novas adesões, no sentido de despertar não apenas as famílias, mas também outras instituições, para a necessária reversão. Acalenta o sonho de concretizar a utopia de proporci- onar aos jovens os fundamentos da dignidade e da segurança social.

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