foi elaborado ao longo do processo de criação e montagem do espetáculo “Eles não usam tênis naique” de três diferentes formas principais. Na primeira delas, a experiência performativa não chegou a romper com o texto original. Nesse caso, o jogo com o “real” em cena pode ser atribuído principalmente à opção por trabalhar com atores que contrastam (em idade, gênero e cor) com os personagens do texto, além de se revezarem continuamente nos dois papeis. A descontinuidade entre corpo do ator e figura dramática, o não compromisso com uma representação realista e, ao mesmo tempo, a evidente relação dos atores com o contexto da
peça, conferem, mesmo aqueles momentos em que a encenação não chegou a prescindir do texto original, uma certa ambiguidade com relação à identidade de quem fala em cena: ator ou personagem?
Essa ambiguidade é acentuada, ou melhor, é desestabilizada nas cenas em que os atores debatem sobre temas polêmicos. Como vimos, ao contrário das primeiras, essas cenas rompem com o texto original, inserindo no espetáculo um material textual criado inteiramente a partir de improvisos com os atores. O texto final dessas cenas corresponde, portanto, à inscrição de uma certa memória daqueles improvisos que, obviamente, geraram um material muito mais extenso, que precisou ser sintetizado e reorganizado para encontrar sua forma definitiva.
A passagem entre as primeiras cenas em que os atores se alternam nos dois papeis do texto e as cenas criadas a partir dos improvisos sobre temas polêmicos não se dá, como mencionado anteriormente, de forma muito clara, já que ambas possuem uma mesma estrutura, baseada na polarização entre personagens, no primeiro caso, e entre atores, no segundo. A diferença cabe principalmente a uma mudança sutil na tonalidade da fala dos atores, que passa de um registro mais impostado/artificial para outro mais despojado/natural – ao polarizarem em cena com um texto que foi criado por eles mesmos e não mais com o texto original da peça, a presença dos atores ganha ali maior relevo em relação à figura dramática, que quase desaparece do plano de percepção do espectador.
Esse relevo (ou relevância) da presença do ator no espetáculo é elevado à máxima potencia na cena em que eles respondem de frente para o público porque desejam sair da Maré, promovendo uma experiência do “real” que contrasta consideravelmente com aquela detonada pelas cenas descritas anteriormente. Como vimos, nesse momento, a percepção do espectador se estabiliza por alguns instantes na presença do ator e em seu mundo particular, que irrompe de forma incontestável em meio à ficção. Ao longo do espetáculo, portanto, a ambiguidade entre ator - personagem que marca o trabalho como um todo não se mantem equilibrada, mas oscila de momentos em que o personagem destaca-se em primeiro plano, a momentos em que essa relação se inverte. De um extremo ao outro, varia também a experiência do “real” que o espetáculo promove, acentuando-se à medida que a presença do ator torna-se cada vez mais nítida. Penso que as diferentes maneiras de elaboração do “real” na composição do espetáculo “Eles não usam tênis naique” são também diferentes estratégias poético-políticas na abordagem da “comunidade”, que é indiscutivelmente um personagem subliminar da peça – a “comunidade”
que envolve e repele tanto personagens, como atores. Tal abordagem varia no espetáculo de uma perspectiva mais abrangente para uma mais particular. Por exemplo, no caso das cenas em que personagens/atores debatem entre si, o que parece estar em jogo é uma abordagem que sintetiza (e afirma) embates, confrontos, polarizações que vemos na “comunidade” como um todo, que abrange a coletividade. Já no caso da cena em os atores se dirigem frontalmente à plateia, o espectador é levado a se conectar diretamente com a pluralidade das experiências subjetivas que povoam os espaços de favela, aproximando-os particularmente desse contexto específico.
A hipótese de uma possível relação entre o atravessamento pelo “real” e a abordagem da “comunidade” no trabalho do grupo será, ainda, objeto de artigos futuros.
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Resumo
Abstract
Grupo de teatro formado há dez anos no Rio de Janeiro (Brasil), a Cia Marginal desenvolveu uma linguagem cênica que articula território, memória e política, baseando-se em imersões sensíveis e reflexivas em contextos periféricos determinados, e em diferentes maneiras de inscrever o “real” em cena. Com quatro espetáculos no repertório, o grupo manteve ao longo de sua trajetória um núcleo estável de atores, todos provenientes de áreas populares da cidade. Este artigo aborda seu espetáculo mais recente, o primeiro que é desenvolvido a partir de um texto teatral e não é fruto exclusivamente de um processo de criação coletiva. Com texto de Marcia Zanelatto, “Eles não usam tênis naique” conta, entretanto, com uma intervenção dramatúrgica do grupo, que acrescenta uma camada autobiográfica à trama fictícia. Essa camada não é facilmente identificável, uma vez que mesmo quando o ator está interpretando um personagem a sua perspectiva está ali implicada, criando assim uma espessura entre o real e a ficção. Pretende-se não apenas descrever e apresentar os percursos do processo de criação do espetáculo, como analisar as diferentes estratégias de inscrição do “real” nesse trabalho.
Palavras-Chave: Teatro, Dramaturgia, Comunidade, Ficção e realidade, Cia Marginal. Formed ten years ago in Rio de Janeiro (Brasil), the Cia Marginal drama group has developed a theatrical language that interconnects territory, memory and politics, basing its work on sensory and reflexive immersions in peripheral urban contexts and on different ways of inscribing the ‘real’ on stage. With four shows in its repertoire, the group has maintained a stable core of actors over this period, all of them coming from lower-income areas of the city. The present paper discusses its most recent show, the first not to result from a collective process of creation. Based on a text by Marcia Zanelatto, “They don’t use Nike trainers” nonetheless involves a dramaturgical intervention by the group, which added an autobiographical layer to the fictional storyline. This layer is not easily identifiable, since even when the actor is playing a character, his or her perspective is particularly implicated within it, thus creating a thickness between the real and the fictional. The aim is not only to present and describe the trajectories of the creative process behind the show, but also to analyze the different strategies used to inscribe the real in this work.
Biografia
Biography
Isabel Penoni é diretora e pesquisadora de teatro, cineasta e antropóloga, com mestrado e doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional – UFRJ, e pós-doutorado pelo Musée du quai-Branly (Paris, França) e pelo Programa de Pós-Graduação de Artes Cênicas da UNIRIO. É diretora fundadora do grupo teatral carioca Cia Marginal, respondendo pela direção dos espetáculos “Qual é a nossa cara?” (2007), “Ô,Lili” (2011), “In_Trânsito” (2013) e “Eles não usam tênis naique” (2015). No cinema, dirigiu “Porcos Raivosos?” (10’, 2012) e “Abigail” (17’, 2016), ambos exibidos na Quinzena dos Realizadores (Cannes 2012 e 2016) e premiados em diversos festivais nacionais e internacionais.
Isabel Penoni is director and researcher of theater, filmmaker and anthropologist, with a master’s and doctorate degree from the Graduate Program in Social Anthropology of the Museu Nacional – UFRJ, and postdoctoral degree from the Musée du quai-Branly (Paris, France) Postgraduate Program in Performing Arts from UNIRIO. She is the founding director of the Rio de Janeiro theater group Cia Marginal, answering the direction of the shows “Qual é a nossa cara?” (2007), “Ô,Lili” (2011), “In_Trânsito” (2013) e “Eles não usam tênis naique” (2015). In the movies, he directed “Porcos Raivosos?” (10’, 2012) e “Abigail” (17’, 2016), both screened in the Directors’ Fortnight (Cannes 2012 and 2016) and awarded at various national and international festivals.