6.6 Cercles, Tangentes ` a un cercle
6.6.5 Construire la tangente ` a un cercle en l’un de ses points 173
A noção de autoria sofreu muitas mudanças ao longo do tempo e a associação entre uma obra e um autor nem sempre foi automática ou sequer necessária. Da Antiguidade (que começa com o nascimento da escrita) até a Idade Média, a posição do autor era incerta e não havia direito de propriedade sobre sua obra (MARTINS, 1996 apud PINHEIRO, 2013). Entre as razões para isso está a tradição oral dominante no período e a inexistência da imprensa, o que tornava a publicação de livros quase nula. Assim, além das obras serem transmitidas somente pela oralidade por tradição, muitas vezes elas eram produzidas por meio de um trabalho coletivo, inclusive por razões técnicas – à época de Platão e Aristóteles, por exemplo, era comum que escribas registrassem o que lhes era ditado, uma vez que a escrita era feita em rolos enormes e era impossível ler e escrever ao mesmo tempo, segundo Chartier (1999). Por fim, soma-se a isso a visão teocêntrica da Idade Média, segundo a qual toda obra era inspirada por Deus e, portanto, não fazia sentido creditar sua autoria a uma pessoa em particular. Assim, como conclui Navarrete (2012), as obras não eram criações individuais e originais.
A autoria começa a ganhar importância no final da Idade Média, no período das inquisições religiosas, com a censura de obras. Assim, conforme Cavalheiro (2008), a partir da necessidade de se identificar os responsáveis pelos livros heréticos, foi necessário designá- los como autores. Podemos dizer então que, “historicamente, os textos passaram a ter autores na medida em que os discursos tornaram-se transgressores com origens passíveis de punição” (CAVALHEIRO, 2008, p. 68).
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Porém, é especialmente a partir da Modernidade que a figura do autor passa a ser enfatizada na relação com as obras graças à invenção da imprensa e a consequente reprodução e divulgação de livros em grande escala (séculos XVII e XVIII). Assim, o antropocentrismo da Renascença permitiu a valorização do indivíduo e, consequentemente, de sua assinatura sobre as obras, ao mesmo tempo que a publicação de livros em larga escala pela imprensa criou a necessidade da autoria a fim de controlar a propriedade dos manuscritos que eram vendidos.
Estando os textos, portanto, sujeitos à apropriação penal e à atribuição, o nome do autor traz individualidade aos discursos. Para Foucault (2001, p. 5), “essa noção do autor constitui o momento crucial da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, e também na história da filosofia e das ciências”. A autoria passa a ser, portanto, individual e original.
A partir dessa noção, Navarrete (2012) identifica em Barthes, Foucault e Chartier uma concepção de autoria que rompe com a ideia tradicional do autor criador (que dá origem a uma obra). Assim, quando Barthes publica “A morte do autor”, defende que “a escritura é destruição de toda voz, de toda origem” (BARTHES, 2004, p. 57) porque a partir do momento que um fato é contado “produz-se esse desligamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte” (Ibidem, p. 58), além de que um texto é construído sempre a partir de um repertório cultural do autor, o que faz com que a obra se constitua como um “tecido de citações”: “Assim se desvenda o ser total da escritura: um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor” (BARTHES, 2004, p. 64).
Nesse sentido, é rompida a visão moderna do autor como origem da obra para adotar um conceito no qual o autor “é visto como produto de uma construção histórica e portador de uma funcionalidade discursiva” (NAVARRETE, 2012, p. 110). A respeito do discurso, cada um a seu modo, Barthes, Foucault e Chartier definem uma separação entre o autor enquanto ser humano que escreve e enquanto “eu” discursivo - este, conforme Foucault (1999), constitui-se como um dos procedimentos de controle sobre os discursos.
Dialogando com o objeto de estudo desta dissertação, conforme apresentei nos tópicos anteriores, as conexões em rede do ciberespaço, em especial com as inovações da Web 2.0, foram transformadoras na relação entre leitor e produtor, criando, inclusive, a figura do
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produsuário. Nesse cenário, envolvido ainda pela multimodalidade e a hipermídia, o produsuário tem a seu dispor uma série de novas possibilidades a partir das quais ele assume também papel de produtor e, ao fazer isso, pode se tornar também revisor, programador, fotógrafo, cinegrafista, entre diversos outros papéis que podem ser assumidos na produção multimodal e hipertextual. É o que ocorre, justamente, com os wikipedistas: ao mesmo tempo em que todos podem ser usuários, uma vez que a plataforma é aberta para leitura de qualquer interessado, todos também podem ser produtores naquele espaço, porque têm a seu dispor possibilidades técnicas e éticas de contribuição. Tendo em vista essas peculiaridades, portanto, a primeira mudança que devemos reconhecer é a reconfiguração da figura do escritor, que agora se subdivide em diversos papéis para atender todas as atividades possíveis que envolvem a multimodalidade e a hipertextualidade da cibercultura.
Em conjunto e em colaboração, os usuários formam redes de expertise coletiva e distribuída e, nesse cenário, essa prática entra em disputa com a autoria e a propriedade intelectual. No período industrial, conhecimento e autoridade foram consolidados na relação com a academia – o conhecimento vem de lá e a partir dele se constrói expertise e, consequentemente, autoridades. Essa valorização das autoridades e, de certa forma, das autorias no industrialismo, é marcante nas enciclopédias do período, cuja função autor era garantia de qualidade. Nesse sentido, o papel da autoria em uma enciclopédia seria o mesmo que Foucault (2001) indicava para as áreas de biologia e medicina: conferir credibilidade.
Já no cenário contemporâneo, a produção do conhecimento é mais democratizada por meio da possibilidade da participação de todos e, com isso, a Wikipédia se torna exemplo de ruptura com esses conceitos tradicionais na medida em que a “expertise não está mais incorporada em uma pessoa, mas sim em um processo – as interações entre autores individuais e uma comunidade de pares amplamente difusa”21 (VAN HOECK; HOFFMANN, 2013, p. 220).
Como consequência dessa ruptura, os colaboradores compartilhariam uma noção mais coletiva de autoria, o que indicaria um retorno ao momento anterior da individualização das ideias. Para Hunter (2011), pesquisador de uma fanwiki, a autoria nesse espaço é marcada pelo apagamento de contribuições individuais e o abandono da noção de propriedade textual. Dessa forma, a produção escrita em wikis promove um colapso nas relações entre escritores e leitores, uma vez que os leitores são sempre potenciais coautores no processo, já que podem
21 Tradução minha de: “expertise is no longer embodied in a person but in a process - the interactions between individual authors and a widely diffuse peer community”.
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contribuir com uma edição a qualquer momento. A partir desse colapso, portanto, o escritor pode repensar sua relação com a propriedade textual.
Assim, da mesma forma que a novidade tecnológica da imprensa trouxe implicações culturais e legais para a autoria, a cibercultura também tem desestabilizado a noção, que Foucault (2001) e Chartier (2012) consideram como não sendo universal nem atemporal. Como procurei demonstrar, a autoria é repensada no cenário da cibercultura por meio das especificidades trazidas pela sociedade em rede, pelo meio digital e pela multimodalidade.
Por fim, práticas de produção coletiva e colaborativa de escrita, como projetos wiki, também têm sido marcantes em desestabilizar o que entendemos por autoria em razão do texto ser produzido em rede por duas ou mais pessoas, cuja contribuição muitas vezes permanece ainda anônima. Cabe dizer que, a partir das referências apresentadas nesta seção, compreendo a autoria como um conceito mais amplo e híbrido, no qual os colaboradores que contribuem na construção de um produto final participam desse processo de autoria, embora não deem nome a esse produto. Associada à colaboração e à coletividade, a autoria ganha nova significação, compatível com os ideais da Web 2.0 e dos novos letramentos, segundo os quais o autor individual e a autoridade do seu nome dão lugar à inteligência coletiva. Diante disso, passo agora aos tópicos envolvendo escrita colaborativa para apresentar o conceito de PCE e detalhar suas características.