O alemão Otto Groth, que realizou extensos estudos dedicados ao jornalismo, publicados em vários volumes durante o século XX, defendia que "jornais e revistas são obras culturais", entendendo por cultura "o conjunto das criações mentais humanas que cresce e muda continuamente". "A Ciência dos Jornais", que ele defendia, é portanto "a ciência de obras culturais, é uma 'ciência da cultura'" (GROTH, 2011, p. 33).
Groth observava que para fundamentar uma ciência, a história e a teoria são indissolúveis: não é possível estabelecer sistematizações sobre fatos que não ocorreram, de maneira que a teoria só é possível a partir do momento em que existe a história. Mas esta, por sua vez, só pode obter um melhor discernimento da realidade quando souber com o que está lidando, quando possuir uma base conceitual para analisar os acontecimentos. Assim, se podemos discutir o jornalismo, é porque ele existe, mas se o compreendemos, é porque o sistematizamos, de modo a poder diferenciar uma especificidade quanto nos referimos a ela. Ele
defendia que uma ciência é estruturada a partir de fatos que se repetem, regularidade necessária ao sentido humano:
O ser humano tem que pressupor algo geral, igual e regular. Sem este pressuposto não haveria uma uniformidade da experiência, não haveria uma ‗compreensão‘ do mundo, nenhum agir útil, nenhuma previsão, nenhuma precaução, também não para o futuro próximo. Se este mundo fosse um caos, se só houvessem coisas específicas e alternantes, se não houvessem coisas iguais e duradouras, o ser humano se encontraria
desnorteado e desesperado neste mundo.
(GROTH, 2011, p. 40)
Assim, a compreensão do mundo somente se torna possível a partir do momento que os fenômenos se repetem, e os observadores possam sistematizar o ocorrido, descrevendo-o e buscando explicações e previsões. É com essa consideração que Groth baseia aquilo que julga necessário para se estabelecer uma Ciência dos Jornais: – e aqui não convém entrar na polêmica se o jornalismo possui ou não uma ciência própria, mas entender o sentido proposto, de que são necessários eventos periódicos para se reconhecer o jornalismo – características regulares, que se apresentam permanentemente nos produtos que integram o campo. Ele aponta quatro, que chama de características centrais: periodicidade, universalidade, atualidade e publicidade.
A periodicidade consiste na recirculação dos jornais depois de um intervalo de tempo, que deve ser o menor possível. Assim, segundo Groth, não há de se falar em jornalismo, se as notícias não se apresentarem de maneira periódica. Para ele, essa característica seria, inclusive, a que cria o laço entre o jornal e seu público, que depois de se habituar ao produto, pode estabelecer até uma relação permanente, tornando-se "imprescindível, não só no aspecto comercial, político, de entretenimento e assim por diante, mas também no emocional, psíquico". Essa relação, acrescenta, teria "significado econômico decisivo para a empresa" (GROTH, 2011, p. 166).
O princípio da universalidade, por sua vez, afirma que o jornal deve abranger o todo, uma vez que diferentes assuntos interessam a diferentes grupos: "tudo o que há e acontece em alguma região, em alguma parte da terra e até mesmo do universo, 'em todo o mundo' seria um objeto ideal para a mediação do jornal" (GROTH, 2011, p. 181). Assim, na visão dele, a menos que um conteúdo seja "associal" e interesse a uma única pessoa, ele é passível de ser mediado – e ainda que algum conteúdo interesse a poucas pessoas, ele "tem da mesma
maneira um lugar plenamente legítimo" (GROTH, 2011, p. 190) entre os jornais.
O estudioso alemão também defendia que "informação sobre o presente é o que o ser humano precisa mais urgente e permanentemente" (GROTH, 2011, p. 231), e com isso justificava uma terceira característica central do jornalismo: a atualidade. Essa característica consiste em reportar o que acontece no presente, se faz presente, ou se apresenta como novo (Groth observa que, antigamente, embora um jornal pudesse demorar meses para chegar às regiões mais isoladas, continuava a ser considerado atual). Assim, os fatos que estão em curso são elementos para mediação do jornal, do mesmo modo que eventos históricos ou temas que, mesmo dissociados de um acontecimento cotidiano específico, estão em voga no momento.
Por fim Groth destacava a publicidade como um dos elementos essenciais do jornalismo. A expressão é utilizada sem qualquer relação com a propaganda, tendo o sentido de que é preciso tornar um conteúdo público, acessível: "a publicidade significa o estar aberto, a abertura, a
acessibilidade geral da coisa" (GROTH, 2011, p. 262, grifo do autor).
Essa publicidade, segundo ele, não pode ser entendida apenas como a propagação de um conteúdo, mas também pela sua notoriedade, que teria mais relevância. É importante salientar ainda que, conforme Everth (apud GROTH, 2011), a publicidade se estenderia também à participação, à colaboração do público, embora isso, conforme ressalvado por Groth, dificilmente fosse encontrado à época – as seções de carta, ele exemplifica, possuíam títulos específicos, as diferenciando das demais, além de estarem sujeitas às regras da redação, podendo ou não serem publicadas.
É importante ressaltar ainda uma distinção que Groth estabelece: essas características centrais devem ser entendidas como ―tipos ideais‖, diferentes das suas ―manifestações reais‖. Assim, a periodicidade e a atualidade, por exemplo, possuem o ideal da simultaneidade, que sendo impossível, deve se conformar com o real: o menor intervalo de tempo possível. Do mesmo modo, na universalidade, não há como um jornal dar conta de todos os assuntos do mundo, devendo buscar apenas a maior diversidade possível. E igualmente a publicidade, em seu ideal – uma notícia que atinja todos os habitantes do planeta – não é realizável: seria uma fantasia considerar que até mesmo a internet, que não existia à época de Groth, pode cumprir essa função.