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Constructive Solid Geometry representations

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Chapter 1 Issues and challenges of in vivo measurements

IV. Anthropomorphic human models

IV.1. Constructive Solid Geometry representations

O romance Tess of the D’Urbervilles, a pure woman faithfully presented by Thomas

Hardy teve sua primeira publicação no Brasil em 1961, pela Editora Itatiaia, traduzida por

Neil R. da Silva e apresentando o título de A indigna – uma escolha um tanto problemática para quem conhece justamente a ironia e o paradoxo aparente do subtítulo em inglês. Linda M. Shires (1999, p. 149) aponta para a multiplicidade de sentidos no adjetivo “pure” – a essência de, boa, casta, e sagrada – que qualifica a protagonista, ao mesmo tempo em que ela é apresentada como sendo “impura” dentro da estreita e rígida moral vitoriana por causa de

seus atos desvirtuosos.98 Hardy buscava, portanto, problematizar a visão contemporânea de pureza e pecado, algo que ganha ainda mais peso com o uso irônico da expressão “faithfully

presented”, na medida em que o relato não tem como ser absolutamente fiel à realidade e aos

fatos, pois é, em grande parte, uma construção subjetiva do autor, por mais que este compartilhe os preceitos de uma estética realista. Em suma, é um subtítulo repleto de implicações para a interpretação da obra ao propor aos leitores, de início, as seguintes perguntas: o que é “pura”? O que é “fielmente apresentada”?

O uso de A indigna não expressa com clareza a ironia e os questionamentos sugeridos por esse extenso subtítulo, podendo o leitor interpretar o título em português como opinião do autor sobre a “falta de decência” da personagem. Ademais, perdem-se as conotações entre as duas versões do nome próprio da personagem usadas no romance – Durbeyfield e D’Urbervilles –, um detalhe singelo, mas que é o motor inicial da ação da história e simbólico de toda a estrutura social que é criticada no romance.

A Editora Itatiaia reeditou essa versão em 1981 e 1984 com o título Tess e, como na edição de 1961, o subtítulo e o sobrenome da protagonista não são fornecidos. Tais edições foram impulsionadas pelo lançamento do filme homônimo,99 dirigido por Roman Polanksi e estrelado por Nastassja Kinski no papel principal. A atriz figura na capa da reedição brasileira e, na contracapa, consta a ficha técnica do filme, estratégias da editora para, obviamente, “pegar carona” no sucesso da versão cinematográfica. O nome do tradutor, Neil R. da Silva, aparece apenas na primeira orelha do livro.

Há poucos indícios sobre quem foi Neil Ribeiro da Silva. Sabe-se que traduziu diversas obras para a Editora Itatiaia nas décadas de 1960 e 1970, títulos tão diversos quanto

A democracia na América, de Alexis de Tocqueville; O desafio final, de Dale Van Every; e A cidade na história, de Lewis Mumford. Outra informação obtida é a de que Silva trabalhou

como colaborador do Suplemento Literário de Minas Gerais.100

No entanto, Silva não é um tradutor completamente “invisível” (cf. VENUTI, 1995). Na edição de 1981 de Tess, encontra-se uma nota do tradutor, ao final do prefácio de Hardy, que traz o seguinte:

98

De maneira sucinta, no romance, Tess tem um filho bastardo, casa com um homem que não era o pai de seu filho e que acreditava em sua virgindade e, por fim, assassina o primeiro homem que a enganou.

99

Ano de lançamento: 1979. Cf. Tess. Disponível em: <www.imdb.com/title/tt0080009/>. Acesso em: 07 mar. 2011.

100

Cf. Catálogo de Periódicos da UNESP – Suplemento literário de Minas Gerais. Disponível em: <http://www. assis.unesp.br/cedap/cat_periodicos/popup3/suplemento_literario_minas_gerais.html>. Acesso em: 07 mar. 2011.

O tradutor sente-se no dever de advertir os leitores de que os erros propositais de sintaxe, assim como a indicação figurada da pronúncia defeituosa de certas palavras, em algumas falas das personagens do romance, não traduzem – nem poderiam traduzir – o colorido dialeto empregado pelo Autor nessas passagens; foram preferidos à forma correta apenas para dar uma pálida ideia do que é essa linguagem e, ao mesmo tempo, manter as distinções de nível cultural por elas indicadas pelo Romancista. (trad. Silva, 1981, p. 13)

Silva mostra-se consciente dos desafios postos à tradução pela variação dialetal empregada por Hardy e, como o mais comum à época era traduzir toda a linguagem do texto de acordo com a norma padrão,101 o tradutor resolve justificar-se ao leitor. O que está por trás dessa justificativa é o receio de Silva de que sua tradução não seja considerada um bom texto, haja visto que, para o senso comum, “bons tradutores implementam estratégias fluentes”102 (VENUTI, 1995, p. 70); fluência que não é alcançada com o uso de “erros propositais” e de “pronúncia defeituosa”.

Essas expressões também apontam para a questão dos “preconceitos linguísticos”, pois, de acordo com o nosso entendimento atual de variação linguística, conceitos como “erros”, “pronúncia defeituosa” e “forma correta” são hoje revistos segundo a ótica de serem diferentes opções de uso da língua, conforme a norma utilizada – culta, popular ou comum.103 Além disso, o emprego no final da nota de “distinções de nível cultural” pode dar a entender que Hardy trata uma comunidade como tendo uma importância superior a outra, característica que o dialeto deixaria transparecer, quando, na verdade, o escritor questiona essa ideia de superioridade do inglês padrão e procura valorizar a cultura de Wessex.

A estratégia adotada por Silva para a tradução da variação linguística é, em geral, incongruente. O tradutor procura reproduzi-la, como foi dito na nota inicial, mas nota-se que não há uma preocupação sistemática com a continuidade ou com a congruência da representação da variante dialetal. Logo no início do primeiro capítulo do romance, Mr. Durbeyfield, pai de Tess, cumprimenta o pároco do vilarejo:

“Good-night t’ee,” said the man with the basket” (HARDY, 2005, p. 13)

Ao que a tradução brasileira apresenta uma tradução fonológica,104 procedimento pouco usado no Brasil:

101

Sobre a problemática da tradução da variante dialetal, cf. seção 4.3 desta tese.

102

“good translators implement fluent strategies”.

103

Sobre essas distinções na linguagem, conforme as normas sociais, cf. PRETI, 2003, p. 30-37.

104

Segundo definição de J. C. Catford, citado em Barbosa (2004, p. 36), “A tradução fonológica consiste na substituição da fonologia da LO pela equivalente na LT”.

— Boa noit-ii — disse o homem da cesta. (trad. Silva, 1981, p. 15)

Provavelmente, esse seria um exemplo de “pronúncia defeituosa”, que Silva menciona na nota do tradutor. Entretanto, afora essa primeira marca e, em outro momento, do uso de

p’ra, que indicam um desvio da língua padrão, o tradutor não usa outros recursos para marcar

a fala de John Durbeyfield, apesar de Hardy continuar a fazê-lo. Na realidade, o tradutor chega a empregar uma linguagem culta e nada informal na fala de Mr. Durbeyfield, assim como na da Mrs. Durbeyfield, usando, por exemplo, a segunda pessoa do singular e o pronome oblíquo, como em “dize-lhes que me mandem imediatamente um cavalo e carruagem, p’ra me levar p’ra casa” (1981, p. 19), e a conjunção concessiva “embora” (1981, p. 18). No caso de Mrs. Durbeyfield, sua fala em português não apresenta nenhum desvio da língua padrão, com exceção de duas marcas lexicais evidenciadas pelo uso de “bichinha”, com referência marcadamente nordestina, e de “estatelada” (1981, p. 30), empregado em uma acepção incomum (Segundo o dicionário Aurélio, “estatelado: 3. Espantado, admirado, atônito), como é possível ver no breve exemplo a seguir:

— Ah, foi bom teres chegado — disse a mãe, logo que silenciou a última nota. — Quero ir buscar teu pai. Mas o que quero mais é te contar o que aconteceu. Vais ficar estatelada, minha bichinha, quando souberes! (trad. Silva, 1981, p. 30, grifo meu)

“Well, I’m glad you’ve come,” her mother said, as soon as the last note had passed out of her, “I want to go and fetch your father; but what’s more’n that, I want to tell ‘ee what have happened. Y’ll be fess enough, my poppet, when th’st know!” (HARDY, 2005, p. 27, grifo meu)

Já a personagem Dairyman Crick, dono do curral em Talbothays e empregador de Tess, cuja fala é a mais constantemente representada com traços dialetais no texto em inglês, na tradução brasileira recebe apenas as abreviações p’ra, ’stão, ’stava e ’quelas e o uso da 3ª pessoa do singular para indicar a segunda como marcas de desvio da língua padrão, e segue todas as outras regras de concordância verbal e nominal e o uso do vocabulário padrão. O uso da 3ª pessoa chega a criar um contraste com a fala de Mrs. Durbeyfield na segunda pessoa, visto que os dois compartilham a mesma origem social e geográfica.

Os exemplos ilustram que o tradutor atentou para a reprodução da variedade linguística presente no romance, ainda que não a tenha sustentado durante todo o texto. Suas escolhas tradutórias podem ser consideradas, para a visão atual, algo tímidas e antiquadas, visto que o uso de pr’a, ‘stava e ‘stão – os recursos mais frequentemente usados na tradução –

são, hoje em dia, plenamente aceitos na língua falada, independente da classe social ou do nível escolar do falante. Por outro lado, suas ousadias – a tradução fonológica e o uso de “bichinha”,105 por exemplo –, por serem eventos isolados, pouco contribuem para a dinâmica funcional do dialeto no romance. Mas, a favor de Silva, é preciso lembrar que a prática tradutória no Brasil, até recentemente, era conhecida por não transpor as variantes linguísticas (Cf. ESTEVES, 2005 e MILTON, 1999), um fato que talvez adviesse dos poucos estudos sobre as variantes brasileiras e da crença na língua padrão como sinônimo de bom estilo. Em vista disso, e considerando-se o contexto em que foi produzida, a tentativa de Neil R. da Silva de traduzir a variação linguística é merecedora de atenção.

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