Observer le recrutement dans le prêt-à-porter féminin à Rennes
I- Éléments définitoires de l'observation participante
1- Construction d'un état des lieux d'une situation sociale
378Essa questão fora alvo da disputa intelectual entre F. Frazier e M. Herskovits no princípio da década de
1940, conforme mostra SANSONE (2012).
379 O trecho completo diz o seguinte: “Herdaria o século XX, entre nós, apesar dos progressos do
sociologismo [refere-se à incipiente influência de Durkheim], a convicção de que inconvenientes do clima quente, a ‘inferioridade’ das raças que compunham nosso povo e os ‘deletérios efeitos’ da mestiçagem somavam-se em um determinismo deprimente ao regimen escravocrata, às emoções da religião africana e a outros efeitos da nossa organização social a explicar a delinquência individual, o fanatismo religioso dos sertanejos, o banditismo, a alienação mental, as formas climáticas de certas moléstias e a psicologia da nossa gente. (AZEVEDO, 1964, p. 55)
142 Não seria por acaso, portanto, que “Povoamento...” seria tão celebrado pelas elites intelectuais e políticas baianas. Encomendado, como vimos, pelo Governo do Estado, o livro recebeu três prêmios: Companhia Aliança de Seguros da Bahia e Caminhoá, do Governo do Estado da Bahia, em 1950; e Larringoti Junior, da Academia Brasileira de Letras, em 1951. A história em torno da primeira dessas três premiações permite observar a posição que Thales ocupava no campo naquele momento. Segundo parecer do prêmio Companhia Aliança da Bahia, “Povoamento...” concorreu com outros 15 originais, “obras desiguais tanto em gênero como em valor”. “Lidas todas com a maior atenção e simpatia”, destacaram-se quatro: História da Literatura Baiana e História da
Fundação da Bahia, de Pedro Calmon, A Idade de Ouro da Bahia, de João Fernando de
Almeida Prado, e o livro de Thales – “todos ensaios históricos de algum modo”. Segundo a comissão julgadora, “considerando a importância das pesquisas originais realizadas pelo concorrente Thales de Azevedo para a elaboração do seu trabalho, como também o alcance do tema deste, pareceu de justiça à Comissão classifica-lo em primeiro lugar”, pois, embora “não supera[sse] os outros em méritos literários”, era “um estudo mais profundo e minucioso de assunto da maior relevância para o conhecimento da formação baiana”381.
Assim dizia o parecer do prêmio, datado de 5 de dezembro de 1950 e assinado pela comissão julgadora, formada pelo governador Octávio Mangabeira (que, recordemos, contava com o livro para as comemorações do quarto centenário da fundação de Salvador), por Anísio Teixeira (secretário de Educação e Saúde de Mangabeira, amigo pessoal de Thales dos tempos de Círculo Católico da Estudos da Mocidade Acadêmica no Colégio dos Jesuítas, e então seu chefe imediato na secretaria382), pelo poeta Alceu Amoroso Lima (intelectual católico que participara da fundação e fora o primeiro presidente da Ação Católica Brasileira, cuja sucursal baiana Thales presidira), pelo poeta Augusto Frederico Schmidt (intelectual católico que fundara a Livraria Católica, posteriormente Livraria Schmidt Editora) e pela crítica literária Lucia Miguel Pereira. Ademais, convém observar que o presidente da Companhia Aliança de Seguros da Bahia, que pagaria uma gorda soma pelo prêmio, era Pamphilo de Carvalho, que, como como vimos, fora um dos principais patrocinadores da criação da Faculdade de Filosofia, onde Thales era professor e homem forte desde sua fundação. Portanto, sem demérito à qualidade do trabalho apresentado por Thales, é preciso destacar que a composição da
381 AZEVEDO, 1969, p. 1-2.
143 comissão lhe era inquestionavelmente favorável, sob diversos pontos de vista: afetivo, institucional, político, ideológico e religioso – circunstância que, se não podemos afirmar ter ou não sido determinante para a aclamação de seu trabalho, certamente não oporia veto ou reserva a que lhe fosse atribuído o prêmio que projetaria nacionalmente seu nome. Talvez sinal da maior proximidade que tinha com os organizadores da premiação seja o fato de que Thales ficou sabendo que havia sido o vencedor do prêmio antes dos demais concorrentes: “o Odorico me telefonou dizendo-me que a ata já está assinada e que o Anísio a levaria hoje para o Rio afim de dar a notícia ao vencido...”383, escreveu ao amigo Charles Wagley, quase um ano antes do anúncio oficial do resultado.
A correspondência com Wagley, que trataremos com mais vagar ao longo do próximo capítulo, permite observar que, para Thales, a premiação trazia dois grandes benefícios e um pequeno inconveniente. O inconveniente seria a participação na solenidade de entrega, no auditório da Secretaria de Educação e Saúde: “Vai ser um grande constrangimento para mim essa entrega tão solene”384, confessava ao amigo norte- americano, denotando timidez e alguma modéstia. Os benefícios eram, primeiro, a repercussão na imprensa: “A divulgação deverá ser feita dentro desses dias pela imprensa do Rio!”, exclamava Thales a Wagley, a quem mandaria em seguida “os recortes d'A Tarde e do Estado da Bahia de hoje, com a notícia do prêmio. Um espalhafato horrível”385. Segundo, e não menos importante, a significativa quantia em dinheiro que receberia da Companhia Aliança. Em suma, Thales estava feliz pela fama e pelo dinheiro que o prêmio lhe trariam, ainda que para isso tivesse que fazer boa figura ante ricos e poderosos membros da elite econômica baiana, plateia de cujos dotes intelectuais ele, secretamente, desconfiava, conforme revela a correspondência com Wagley:
Ontem à tarde estive com o Pânfilo mas nada ficou propriamente acertado sobre a entrega. Apenas disse-me que possivelmente será em março por ocasião de uma assembléia geral da Cia [Aliança de Seguros]. Estarei entre velhos e gordos comerciantes, capitalistas luso-bahianos conhecedores de letras... de câmbio, afim de receber de suas mãos o cheque famoso.”386
O valor exato do “cheque famoso” aparece na correspondência de Pierre Verger a Alfred Métraux: “Nosso amigo Thales de Azevedo acaba de receber um prêmio literário de cem contos de réis, que no câmbio oficial dá dois milhões de francos”387.
383 AZEVEDO, Carta a Wagley em 03.jan.1950. 384 Ibidem.
385 AZEVEDO, Carta a Wagley, em 08.fev.1951. 386 AZEVEDO, Carta a Wagley, em 08.fev.1951. 387 MÉTRAUX e VERGER (1994, p. 120-121).
144 Rememorando o assunto em uma edição comemorativa da obra de Thales, publicada em 2013, seu filho Paulo Ormindo de Azevedo confirma o valor: Cr$ 100.000,00388, justamente o equivalente aos cem contos de réis mencionados por Verger. A soma equivalia a aproximadamente 75 vezes o valor do salário mensal que Thales recebia como professor na Universidade da Bahia389 e seria empregada na ampliação da casa onde morava, com a família, na av. Princesa Izabel, na Barra, bairro nobre da capital baiana. A Wagley, Thales jocosamente prometia enviar em breve “os recortes de jornais sobre o grande acontecimento lítero... financeiro!”, ato contínuo informando que “os nossos apartamentos estão muito adiantados. Já estão inteiramente erguidos. Vão colocar o telhado e começar o rebôco interno das paredes.”390 Das memórias de menino, Paulo Ormindo, que à altura tinha entre 13 e 14 anos, puxa a recordação de como a publicação de “O Povoamento...”, complementada posteriormente pela de Les élites... – que lhe renderia mais aproximadamente 66 mil cruzeiros391 – , transformaria a vida de Thales que, a partir de então conseguiria, de certo modo, traduzir em certa riqueza material o prestígio intelectual de que já dispunha:
Povoamento da Cidade do Salvador mudaria, de uma hora para outra, a vida da família,
com tantos prêmios, viagens e estadias fora acompanhado de grande parte da prole. De família modesta, com uma vida semirrural, com casa de fogão a lenha, sem carro nem geladeira e roça no quintal onde o inesquecível Antonio Bispo caçava sariguês e juritis e produzia grande parte da alimentação doméstica, lavrando a horta, cuidando das plantações e fruteiras, limpando a cocheira, o chiqueiro e o galinheiro, passamos à condição de uma família bem viajada, com uma das casas mais apetrechadas da cidade. Os direitos autorais de Les élites de couleur dans une ville brésilienne se converteram em uma reluzente station wagon Chevrolet 1953, batizada por Wagley de Good Luck, que Thales nunca quis dirigir e Mariá [sua esposa] sempre se maldisse por não ter aprendido, para não depender dos filhos. Antes do desembarque da caminhonete, que ficara com Wagley e Cecilia, em Nova York, cumprindo a quarentena de uso, chegou à Barra Avenida [bairro onde Thales morava com a família] um enorme contêiner de madeira com o recheio de uma casa inteira, que minha mãe havia comprado naquela cidade. Fogão elétrico GE, geladeira Westinghouse, lavadora de roupa Thor, toca-disco Hi-fi, rádio Halicraft para ouvir a BBC, cadeiras e mesas de jardim, presentes e uma espreguiçadeira basculante de alumínio e lona em que meu pai adorava dormir a sesta no seu gabinete, com os pés para o ar.”392
388 AZEVEDO, Paulo O. in: BRANDÃO (org.) 2013, p. 217.
389 Cheguei a esse valor examinando a documentação funcional de Thales na FFCH/UFBA. Em 16 de abril
de 1952, Thales devolveu “Cr$ 15.600,00 correspondente[s] ao adiantamento que recebeu de seus vencimentos de professor catedrático, padrão O, durante o ano de 1951”. Em 21 de fevereiro de 1952, Thales devolveu 953,40, referentes a “22 dias do mês de dezembro de 1950”. Chega-se, a partir desses dados, a um valor mensal de Cr$ 1.300,00.
390 AZEVEDO, Carta a Wagley, em 03.fev.1951.
391 Resultado da conversão da remuneração de 2 mil dólares ao câmbio de 1 para 33 cruzeiros. Vide item
1.3, p. 32.
145 Convém problematizar a descrição da “vida semirrural” feita por Paulo Ormindo, matizando quão semirrural poderia ser, de fato, a vida na Barra, bairro que Pierson, em 1936, já descrevia como de alta classe – talvez essa sensação de ruralidade seja a imagem que ficou na memória do menino Paulo Ormindo, quem sabe proporcionada pela parte interna do terreno onde ficava a bela casa assobradada da família, “morada na vizinhança próxima de gente nossa semelhante, perto de mansões solarengas, numa rua próxima ao Hospital Português e ao Clube Bahiano de Tênis, no ‘sereno’ de cujas festas de Carnaval, de réveillons, de bailes outros, tomávamos parte como outros curiosos”, conforme conta Thales, talvez com excesso de modéstia, em depoimento publicado num livro de memórias organizado pelo filho, lançado em 2015 pela Editora da Universidade Federal da Bahia393. De todo modo, pode-se enxergar o dinheiro auferido em consequência da publicação dos dois livros como marco inicial de um ciclo de ascensão material mais acentuada na trajetória Thales, que lhe permitiria finalmente afastar de si e de sua numerosa família a ameaça de perda de status social que lhe rondara a partir da adolescência, em decorrência do relativo empobrecimento de seu núcleo familiar de origem após o falecimento prematuro de seu pai, quando Thales “não tinha feito 12 anos de idade”. Alavancava-se, assim, a recolocação social de Thales, que acaba reavendo o capital social familiar do “ramo paterno de doutores, médicos, farmacêuticos, bacharéis” com os quais afirmava ter “pouca aproximação pessoal” 394 – o pai de Thales era farmacêutico, e seu avô havia sido professor e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia.
Sem demérito ao trabalho minucioso de pesquisa e redação que “Povoamento...” demandou a Thales de Azevedo, publicar um livro envolto em pompa e circunstância no final dos anos 1940 não era algo ao alcance de todos os intelectuais locais que desejassem fazê-lo. Em 1949, o antropólogo Edison Carneiro não conseguiu viabilizar mais do que a publicação de “pouco mais de cem exemplares” de seu livro “A Cidade do Salvador (1549): uma reconstituição histórica”, cuja temática, como o título indica, era semelhante à do livro de Thales. A correspondência de Carneiro com Anísio Teixeira, nos arquivos do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, mostra que a Secretaria de Educação e Saúde não chegou a concretizar a proposta de arcar com a publicação do livro que, segundo Carneiro, o secretário lhe fizera. Uma nota introdutória do autor na segunda edição do livro informa que ele recebeu de Teixeira, em 1947, “a ajuda financeira de 10.000
393 AZEVEDO, “Nossas moradas”, in:AZEVEDO, Paulo O. (org.) 2015. 394 AZEVEDO, 1996, p. 138.
146 cruzeiros (...) para a realização das pesquisas históricas”395 que deram origem ao livro. É possível que esse pagamento seja o mesmo que Carneiro utilizaria para custear a diminuta primeira edição de cento e poucos exemplares do livro, cujo orçamento completo inicial, para 2.000 exemplares, ficara em 25 mil cruzeiros – mas, talvez, a crer na data a que ele se refere (1947), se trate de uma verba inicial disponibilizada por Teixeira somente para a pesquisa. Fato é que Carneiro protestou ao amigo Anísio ante a possibilidade de que a Secretaria não custeasse a edição do livro396, conforme se pode observar em uma carta de fevereiro de 1949:
Não sou nenhum soberbo, nem mal-agradecido. Estou sendo vítima de uma conspiração da História Oficial, que primeiro rejeitou uma tese minha ao Congresso de História, em seguida levou o Valadares397 a ficar “cheio de dedos” para publicar o meu livro e, afinal,
conseguiu reduzir a nada a sua generosa oferta de financiar a edição. Sei bem que esta luta é muito difícil, porque os gênios da Bahia têm o hábito de atacar na sombra, valendo- se dos seus contatos oficiais, e não são capazes do jogo franco que eu, um pobre escritor às voltas com terríveis dificuldades financeiras, me acostumei desde cêdo. Eles têm maneiras muito sutis de suprimir as vozes discordantes. (...) Perco o primeiro round. Não tenho dinheiro para publicar o livro e estamos em crise editorial. Os originais aguardarão bom tempo numa gaveta e eu, sem mágoa nem rancor, me esquecerei do episódio. O futuro dirá quem está com a razão (...) Até lá, os gênios da Bahia terão engordado, alimentado uma careca ilustra e feito jus a uma estátua em praça pública. (...) Sou-lhe imensamente grato pelo interesse que você tomou pelo livro, contra os desejos dos colarinhos duros, das cartolas e das sapiências locais, e lhe peço que continue contando, como sempre, com a amizade, a gratidão e a bora camaradagem do seu / amigo velho / Edison Carneiro398
Correria o risco de faltar com a precisão se afirmasse que Carneiro incluía Thales entre os “gênios da Bahia” que ironizava – até onde se sabe, apesar da óbvia diferença político-ideológica que os separava, havia entre eles uma relação de cordialidade, tendo Carneiro sido um dos convidados dos seminários de antropologia que Thales organizou por anos na Faculdade de Filosofia. Mas não é meu objetivo aqui sugerir nenhum conflito pessoal oculto, senão evidenciar, por meio da comparação, as posições diametralmente opostas de dois intelectuais baianos que tratavam de temáticas por vezes coincidentes. Ao referir-se aos mecanismos de “suprimir as vozes discordantes”, Carneiro possivelmente
395 CARNEIRO, 1980, p. 23.
396 Na carta, Carneiro explica que, após Anísio Teixeira ter-lhe prometido inicialmente que providenciaria
o custeio da edição do livro, a Secretaria lhe procurara oferecendo apenas a compra de 300 exemplares do livro já pronto: “Escrevi no sábado ao Valadares, desistindo da ajuda financeira da Secretaria da Educação para publicar o meu livro. Você me havia falado, por telefone, em financiar a edição, mas a carta dêle reduzia a ajuda oficial à simples aquisição, pelo Estado, de trezentos exemplares do trabalho, já editado. Editado por quem? Estamos há vários anos em crise editorial, você não desconhece.” (CANEIRO. Carta a Anísio Teixeira, em 21.fev.1949)
397 Edison Carneiro provavelmente se refere a José Valadares, professor da Faculdade de Filosofia da Bahia
e diretor do Museu do Estado da Bahia.
147 fazia alusão ao fato de ele ser comunista, potencialmente agravado pelo fato de ele ser “pobre”399, portanto, indesejável aos “colarinhos duros, das cartolas e das sapiências locais”400, ou seja, às oligarquias que enfrentara na década anterior, quando assumira seu viés comunista, e que lhe vedariam a entrada na Universidade da Bahia. Em suma: na contramão do benquisto e celebrado anticomunista-católico Thales de Azevedo, o comunista Edison Carneiro colecionava antipatias ao menos desde 1935, quando publicara “A situação do Negro no Brasil”, que Luiz Gustavo Freitas Rossi, ao estudar sua trajetória intelectual, definiu como “um esforço de análise marxista do negro no contexto das lutas e da sociedade de classes”401.
399 Na verdade, Carneiro era filho de uma família “remediada” baiana: seu pai era catedrático da Escola
Politécnica da Bahia.
400 CANEIRO. Carta a Anísio Teixeira, em 21.fev.1949.
401 “Em termos gerais, o ensaio de Édison Carneiro pretendia esboçar um panorama amplo da história do
Brasil com o intuito de evidenciar como, desde a escravatura até aquele momento, “veio mudar somente a forma de exploração e domínio” sobre o negro brasileiro, uma vez que, legalmente liberto, ele se “viu forçado a sofrer [com] as flutuações do mercado, onde ia buscar comprador para a única mercadoria de que podia dispor – a sua força de trabalho”. Em síntese, diz o autor, “o negro se proletarizou [e] foi forçado a descer ainda mais do que com a escravidão, sob essa outra escravidão que era o capitalismo”.401 (ROSSI,
148